
ASAS

Danielle Steel




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Copyright @ 1994 by Danielle Steel

Impresso e encadernado para Crculo de leitores por Printer Portuguesa, Casais de Mem Martins, Rio de Mouro em Outubro de 1999

Nmero de edio: 4683

Depsito legal nmero 141 570/99

ISBN 972-42-2095-8
       

Ao s do meu corao,
piloto dos meus sonhos...
a alegria da minha vida,
o lugar tranqilo para onde
vou na escurido da noite o brilhante
Sol da manh da minha alma ao amanhecer...
a estrela brilhante no cu,
para o meu amor,
para o meu corao,
para o meu bem-amado Popeye
com todo o meu corao e amor,
sempre,

Olvia.
       

CAPTULO 1
       A estrada para o Aeroporto O'Malley era um caminho estreito, longo e poeirento que parecia desviar-se para a esquerda e para a direita e fazer um looping 
preguioso  volta dos campos de milho. O aeroporto era um pequeno pedao de terra seca perto de Good Hope, no municpio de McDonough, trezentos quilmetros a sudoeste 
de Chicago. Quando Pat O'Malley o viu pela primeira vez no Outono de 1918, aqueles trinta e dois hectares de terreno rido eram a viso mais bela que j tinha tido. 
Nenhum agricultor de bom senso o teria comprado. De fato, ningum tinha. A terra era barata e Pat O'Malley pagou-a com a maior parte das suas poupanas. O restante 
foi utilizado para a compra de um pequeno e velho Curtiss Jenny, um excedente de guerra. Era um avio de dois lugares com controles duplos que ele usava para dar 
lies de vo aos raros visitantes que podiam pagar uma lio ou duas, para, de vez em quando, levar um passageiro a Chicago ou transportar pequenas cargas para 
os locais a que se destinavam.
       O Curtiss Jenny levou-o praticamente  falncia, mas Oona, a sua querida e ruiva esposa de h dez anos, era a nica pessoa que conhecia que no o achava completamente 
louco. Sabia quo desesperadamente ele desejava voar, desde que tinha visto o seu primeiro avio em exibio numa pequena pista de aterragem em New Jersey. Tivera 
dois empregos at conseguir dinheiro suficiente para pagar as lies e arrastara-a at So Francisco  Exposio Panama-Pacific de 1915, apenas para poder conhecer 
Lincoln Beachey. Beachey levara Pat no seu avio, o que tornara ainda mais dolorosa a sua morte dois meses mais tarde. Beachey tinha acabado de fazer trs loopings 
de cortar a respirao no seu avio experimental quando tudo aconteceu.
       Pat tambm conhecera o famoso aviador Art Smith na exposio e um batalho de outros fanticos por avies como ele. Eram uma irmandade de temerrios, a maioria 
dos quais preferia voar a qualquer outra coisa. S a voar parecia estarem vivos. Viviam-no, falavam sobre isso, respiravam-no e sonhavam-no. Sabiam tudo sobre as 
complicaes de cada mquina voadora alguma vez construda e qual a melhor maneira de a pilotar. Contavam histrias e trocavam conselhos, alm de as mais diminutas 
quantidades de informao sobre avies, novos e velhos, e detalhes mecnicos. No era surpreendente que poucos se interessassem por algo que no fosse voar, nem 
que no conseguissem manter um emprego que pouco ou nada tivesse a ver com a aviao. Pat estava sempre no meio deles, descrevendo algo de incrvel que tinha visto 
ou algum avio notvel que tivesse sido capaz de ultrapassar os efeitos do anterior.
       Sempre jurara que havia de ter o seu prprio avio e at mesmo uma frota. Os amigos riam-se e os parentes diziam que ele era parvo. Apenas a doce e querida 
Oona acreditava nele. Ela seguia tudo o que ele dizia e fazia-o com uma lealdade e adorao totais. Quando as filhas nasceram, Pat tentou que ela no se apercebesse, 
para no a magoar, da sua desiluso pelo fato de nenhum dos seus filhos ser homem.
       No entanto, por muito que amasse a mulher, Pat O'Malley no era homem para desperdiar o seu tempo com as filhas. Era um homem ntegro, de preciso e grande 
habilidade. O dinheiro que tinha gasto nas lies de vo fora rapidamente compensado. Era um daqueles pilotos que sabia instintivamente como dirigir quase todos 
os avies, e ningum se surpreendeu quando ele foi o primeiro americano a oferecer-se como voluntrio, mesmo antes de os Estados Unidos entrarem na Primeira Guerra 
Mundial. Lutou na Esquadrilha Lafayette e foi transferido para o recm-formado 94.0 Esquadro Areo, voando sob o comando de Eddie Rickenbacker.
       Tinha sido uma fase muito excitante da sua vida. Ento com trinta anos, era bem mais velho do que qualquer dos outros homens que se ofereceram como voluntrios, 
em 1916. Rickenbacker tambm era mais velho que a maior parte dos homens. Ele e Pat tinham em comum a idade e o amor pelos avies e, tal como Rickenbacker, Pat O'Malley 
tambm sabia o que estava a fazer. Era duro, esperto e seguro. Corria riscos sem conta e os homens diziam que ele tinha mais coragem do que qualquer outro no esquadro. 
Adoravam voar com ele e prprio Rickenbacker tinha afirmado que Pat era um dos maiores pilotos do mundo. Depois da guerra, tentou encorajar Pat a ficar com ele, 
pois havia fronteiras a explorar, desafios a enfrentar e novos mundos a descobrir.
       Pat sabia que, para ele, esse tipo de aviao tinha acabado. Fosse qual fosse a sua percia como piloto, os grandes anos eram coisa do passado. Era preciso 
cuidar de Oona e das raparigas. Em 1918, quando a guerra terminou, tinha trinta e dois anos e era altura de comear a pensar no futuro. O pai j tinha morrido, deixando-lhe 
uma pequena quantia de dinheiro. Oona conseguira poupar qualquer coisa para eles e foi esse dinheiro que usou quando foi ver as terras agrcolas a oeste de Chicago. 
Um dos homens com quem tinha voado dissera-lhe que ali a terra se comprava ao preo da uva se no fosse apropriada para a agricultura. E foi assim que tudo comeou.
       Tinha comprado trinta e dois hectares de terra agrcola miservel a um bom preo e pintado  mo a tabuleta que ainda estava de p, passados dezoito anos. 
Dizia simplesmente Aeroporto O'Malley, e nos ltimos dezoito anos um dos l e o y tinham desaparecido.
       Em 1918 comprara o Curtiss Jenny com o dinheiro que lhe restava e conseguira trazer Oona e as crianas pelo Natal. Havia uma pequena cabana na ponta mais 
distante, perto do ribeiro  sombra de velhas rvores. Era ai que viviam enquanto ele voava com algum que tivesse dinheiro para pagar o aluguer, e fazia vrios 
vos de entrega de correio no velho Jenny. Era um pequeno avio de muita confiana e ele poupava todo o dinheiro que podia. Na Primavera conseguiu comprar um De 
Havilland DH4 que utilizava para transportar correio e carga.
       Os contratos governamentais que obtivera para transportar correio eram lucrativos, mas levavam-no para bem longe de casa. Por vezes, Oona era obrigada a gerir 
o aeroporto e ainda a tomar conta das crianas. Aprendera a abastecer os avies e a responder a telefonemas que diziam respeito a contratos ou alugueres. O que sucedia 
com mais freqncia, enquanto Pat estava fora a transportar correio, passageiros ou carga, era ser a prpria Oona a sinalizar a entrada de um avio na pista estreita.
       Ficavam espantados quando viam que a pessoa que os estava a conduzir era uma bela jovem de cabelo ruivo, especialmente nessa primeira Primavera em que ela 
estava grvida. Engordara bastante nessa altura e chegara a pensar que poderiam ser gmeos, mas Pat sabia que no eram. Era o sonho da sua vida: o filho que voaria 
com ele e o ajudaria a gerir o aeroporto. Era o rapaz por quem tinha esperado durante dez anos.
       O prprio Pat ajudara ao parto, na pequena cabana que comeara lentamente a acrescentar. Nessa altura j tinham o seu prprio quarto e as trs raparigas partilhavam 
o outro. Havia uma cozinha quente e acolhedora, alm de uma sala grande e espaosa. A casa em que viviam nada tinha de especial e haviam trazido poucas coisas com 
eles. Todos os seus esforos e tudo o que possuam estava enterrado no aeroporto.
       O seu quarto filho tinha chegado numa noite quente de Primavera, num parto que durou pouco mais de uma hora, depois de um longo e tranqilo passeio ao lado 
do campo de milho do vizinho. Tinha estado a falar com ela sobre a compra de outro avio, e Oona contara-lhe que as raparigas estavam muito excitadas com o novo 
beb. Tinham cinco, seis e oito anos de idade e, para elas, era como se estivessem  espera de uma boneca e no de um verdadeiro irmo ou irm. Oona tambm se sentia 
um pouco assim, pois h cinco anos que no tinha um beb nos braos e estava desejosa que este chegasse. E chegou com um longo e gostoso grito pouco antes da meia-noite. 
Oona gritou quando olhou para ele e o viu pela primeira vez. Depois largou a chorar, sabendo que Pat ficaria muito desiludido. No era o rapaz que Pat h muito esperava, 
mas sim outra rapariga. Uma linda menina grande e rechonchuda, de quatro quilos e meio, com grandes olhos azuis, pele sedosa e o cabelo to brilhante como o cobre. 
Mas, apesar do seu aspecto, Oona apenas sabia, demasiado bem, quo desesperadamente ele queria um filho e como estava desiludido por no ter tido um.
       - No faz mal, pequenina - disse ele, vendo-a virar-lhe as costas enquanto ele embalava a sua nova filha. Era muito bonita, provavelmente a mais bonita de 
todas, mas no era o rapaz que tinham planejado. Tocou o rosto da esposa, puxou-lhe o queixo e forou-a a olhar para ele.
       - No faz mal, Oona.  uma menina saudvel. Um dia ainda te orgulhars dela.
       - E tu? - perguntou tristemente. - Tu no podes dirigir isto sozinho para sempre.
       Ele riu-se com a sua preocupao, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces. Era uma boa mulher e ele amava-a. Se no estavam destinados a ter um filho 
homem, pacincia, mas tinha ainda uma pequena dor no corao, onde antes estivera o sonho de um filho. Nem ousava pensar que pudesse haver outro filho. Tinham agora 
quatro e at esta nova boca para alimentar seria um problema para eles. No estava a enriquecer com o aeroporto.
       - Vais ter de continuar a ajudar-me a abastecer os avies, Oona. Ter de ser assim - disse ele para a arreliar quando a beijou e saiu do quarto, a fim de 
ir tomar um gole de usque. Merecera-o. Enquanto estava de p a olhar para a Lua, depois de me e filha terem adormecido, perguntou a si prprio por que razo o 
destino lhe tinha ironicamente mandado quatro filhas e nenhum filho. No lhe parecia justo, mas no era homem para perder tempo a preocupar-se com o que no tinha 
remdio. Havia um aeroporto para gerir e uma famlia para alimentar. E, nas seis semanas que se seguiram, esteve to ocupado que mal teve tempo para ver a famlia, 
quanto mais para se lastimar sobre o rapaz que acabara por ser uma linda e saudvel rapariga.
       Quando a viu de novo, parecia ter o dobro do tamanho e Oona j recuperara o seu corpo de menina. Ficava maravilhado com a capacidade de recuperao das mulheres. 
H seis semanas, ela estava pesada, vulnervel, enorme. Agora parecia novamente jovem e bonita, e o beb j era um pequeno diabinho ruivo de temperamento fogoso. 
Se a me e as irms no atendessem imediatamente s suas necessidades, todo o estado de Illinois e a maior parte do lowa a poderia ouvir.
       - Penso que ela  a que grita mais. No achas, querida? - disse Pat uma noite, exausto de um longo vo de ida e volta a Indiana. - Tem uns belos pulmes! 
- Sorriu para a mulher com um copo de usque irlands na mo.
       - Hoje tem estado muito calor e ela est com urticria. Oona tinha sempre uma explicao para o fato de as crianas estarem irrequietas, e Pat ficava maravilhado 
com a sua pacincia aparentemente infinita. Mas ela tambm era paciente com ele. Era uma daquelas pessoas calmas que falava pouco, via muito e raramente dizia algo 
de indelicado a algum ou sobre algum. Nos quase onze anos de casamento, raramente houvera desavenas. Tinham casado aos dezessete anos e ela tinha sido a companheira 
ideal para ele. Agentara todas as suas peculiaridades e planos especiais, alm da sua paixo infinita pela aviao.
       Mais tarde nessa semana, houve um daqueles dias de junho quentes e sem vento, em que o beb resmungara toda a noite e Pat tivera de se levantar de madrugada 
para uma rpida viagem a Chicago. Nessa tarde, ao voltar para casa, descobriu que tinha de sair novamente da a duas horas para uma entrega de correio que no estava 
planejada. Eram tempos difceis, mas ele no podia dar-se ao luxo de recusar trabalho. Foi um dia em que desejou, mais do que nunca, ter ali algum que o ajudasse, 
porm havia poucos homens a quem confiasse os seus preciosos avies, nenhum que tivesse visto recentemente e, certamente, nenhum dos que tinham solicitado emprego 
no aeroporto.
       - Tem avies para alugar, mister? - grunhiu uma voz junto dele, enquanto Pat estava debruado sobre o seu dirio de bordo, a verificar os papis que se encontravam 
sobre a secretria. Ia comear a explicar, como sempre fazia, que o podiam alugar a ele, mas no aos avies. E depois levantou os olhos da secretria e sorriu de 
espanto.
       - Meu grande filho da me. - Pat sorriu deliciado para um jovem em cujo rosto estava um largo sorriso e que tinha uma madeixa de cabelo escuro cada sobre 
os olhos azuis. Era um rosto que conhecia bem e do qual gostava muito, desde os tempos turbulentos que haviam passado juntos no 94. 0 Esquadro Areo. - O que se 
passa, mido? No tens dinheiro para cortar o cabelo?
       Nick Galvin tinha uma cabeleira lisa e negra, possuindo a beleza de um irlands de olhos azuis e cabelo negro. Nick fora quase um filho para Pat, quando voara 
com ele. Alistara-se aos dezessete anos, sendo agora apenas um ano mais velho. No entanto, tornara-se um dos pilotos mais notveis do esquadro e um dos homens de 
confiana de Pat. Tinha sido alvejado duas vezes pelos Alemes, mas em ambas conseguira voltar com o motor parado e aterrar, salvando-se a si e ao avio. Os homens 
do esquadro passaram a chamar-lhe Stick, mas Pat chamava-lhe filho a maior parte das vezes. No conseguia deixar de perguntar a si prprio, agora que o seu 
ltimo filho era uma rapariga se Nick no seria o filho que desejava desesperadamente.
       - Que ests a fazer aqui? - perguntou Pat, inclinando-se na cadeira e sorrindo para o rapaz que tinha desafiado a morte quase tantas vezes como ele.
       - A visitar velhos amigos. Queria ver se te tinhas tornado gordo e preguioso. Aquele De Havilland que est l fora  teu?
       - . Comprei-o o ano passado com o dinheiro dos sapatos das minhas filhas.
       - A tua mulher deve ter ficado muito contente. - Nick sorriu, e Pat lembrou-se de todas as raparigas em Frana que o tinham desejado. Nick Galvin era um rapaz 
muito bonito, com uns modos muito persuasivos em relao s senhoras. Fora bem sucedido na Europa. Dissera  maioria que tinha vinte e cinco ou vinte e seis anos 
e elas pareciam acreditarem nele.
       Oona conhecera-o em Nova Iorque, depois da guerra, e achara-o muito atraente. Dissera, corada, que o achava excepcionalmente bonito. A sua beleza ultrapassava 
sem dvida a de Pat, mas havia algo de sedutor e slido num homem mais velho que compensava a falta de uma beleza de estrela de Hollywood. Pat era um homem muito 
bem-parecido, com cabelo castanho-claro, olhos castanhos e um sorriso irlands que conquistara o corao de Oona. Mas Nick tinha aquele tipo de beleza que fazia 
derreter os coraes das jovens.
       - A Oona j abriu os olhos e j te deixou? Pensei que no demorasse muito tempo depois de a trazeres para aqui - disse Nick casualmente, deixando-se cair 
na cadeira que estava em frente  secretria de Pat enquanto acendia um cigarro. O seu velho amigo riu-se e abanou a cabea em resposta.
       - Para te dizer a verdade, eu tambm pensei o mesmo. Mas no deixou e no me perguntes porqu. Quando a trouxe para aqui vivamos numa barraca onde o meu 
av costumava guardar as vacas e eu no teria podido comprar-lhe um jornal, se ela o desejasse. Graas a Deus no aconteceu.  uma mulher espantosa.
       Durante a guerra, dissera sempre o mesmo da mulher, e Nick pensara o mesmo quando a conhecera. Os seus pais haviam falecido e ele no tinha famlia nenhuma. 
Andara por a desde o fim da guerra, arranjando empregos de curta durao em pequenos aeroportos. Aos dezoito anos no tinha para onde ir, onde estar, nem ningum 
 sua espera num lar. Pat sentira sempre uma certa pena de Nick quando os homens falavam sobre as famlias. Nick no tinha irms ou irmos e os pais haviam morrido 
quando ele tinha catorze anos. Permanecera num orfanato estatal at se alistar. A guerra mudara tudo para ele e Nick adorara. Mas agora no havia uma casa para onde 
ir.
       - Como esto as midas? - Nick fora muito carinhoso com elas quando as conhecera. Adorava crianas e tinha visto muitas no orfanato. Fora sempre ele a tomar 
conta das crianas ms novas, a ler-lhes histrias  noite, a contar-lhes aventuras loucas, ou a agarr-las a meio da noite quando acordavam a gritar pelas mes.
       - Esto timas! - Pat hesitou, mas apenas por um momento. - Tivemos outro h um ms. Outra rapariga. Desta vez, muito grande. Pensei que pudesse ser um rapaz, 
mas no era. - Tentou no parecer desiludido, mas Nick conseguia detectar este fato na sua voz e ele percebeu.
       - Parece que ters de ensinar as tuas filhas a voar. No , s? - disse-lhe ele a brincar, enquanto Pat rolava os olhos com um ar irritado. Pat nunca se deixara 
impressionar nem pelas mais extraordinrias mulheres-pilotos.
       - No  provvel,  filho. E tu? O que andas a pilotar agora?
       - Caixotes de ovos. Sucata de guerra. Tudo aquilo em que consigo pr as mos. H muita sucata de guerra por a e muita gente a querer us-la. Tenho andado 
pelos aeroportos. Tens algum a trabalhar contigo? - perguntou ele ansiosamente, esperando que no tivesse.
       Pat abanou a cabea, observando-o e perguntando a si prprio se aquilo era um sinal, uma mera coincidncia ou apenas uma breve visita. Nick era ainda muito 
novo e tinha feito muitas asneiras durante a guerra. Adorava correr riscos e fazer aterragens perigosas. Era muito duro com os avies, mas ainda mais duro consigo 
prprio. Nick Galvin no tinha nada a perder e ningum para quem viver. Tudo o que Pat possua eram aqueles avies e no podia dar-se ao luxo de os perder, por muita 
afeio que tivesse pelo rapaz -ou desejasse ajud-lo.
       - Ainda continuas a correr riscos?
       Uma vez, Pat quase o matara depois de o ver entrar demasiado rente ao cho sob um banco de nuvens durante uma trovoada. Desejou aban-lo at os dentes lhe 
saltarem, mas estava to aliviado por Nick ter sobrevivido que acabara por descomp-lo. Era desumano correr os riscos que ele corria. Porm, fora isso que o tornara 
grandioso durante a guerra. No entanto, em tempos de paz quem poderia suportar a sua fanfarronice? Os avies eram demasiado dispendiosos para se brincar com eles.
       - S corro riscos quando  necessrio,  As.
       Nick adorava Pat. Admirava-o mais do que qualquer homem que conhecera ou com quem tivesse voado.
       - E quando no  necessrio, Nick? Ainda gostas de brincar?
       Os seus olhos encontraram-se e mantiveram-se fixos. Nick sabia a que  que Pat se referia. Ele no queria mentir-lhe, ainda gostava de fazer das suas, ainda 
adorava o perigo, brincar e correr riscos, mas respeitava demasiado Pat e nunca faria nada que o prejudicasse. Tinha amadurecido. Agora que pilotava os avies de 
outros, era muito mais cuidadoso. Ainda gostava de aventuras, mas no o suficiente para querer lesar o futuro de Pat. Nick tinha vindo de Nova Iorque, com o seu 
ltimo dlar, para ver se havia possibilidade de Pat o contratar.
       - Eu sei portar-me bem se for preciso - disse ele calmamente, sem que os seus olhos azuis de gelo deixassem de fixar os ternos olhos castanhos de Pat.
       Havia algo de juvenil e terno em Nick, mas, no entanto, ele j era um homem. J existira uma altura em que tinham sido quase irmos. Nenhum deles conseguia 
esquecer essa altura. Era um lao que nunca mudaria e ambos o sabiam.
       -Se no te portares bem, atiro-te do Jenny a trs mil metros de altitude sem pensar duas vezes. Sabes que o fao, no sabes? - Pat estava com ar srio. - 
No vou deixar que ningum destrua o que estou a tentar fazer aqui. - Suspirou. - Tenho de ser honesto e admitir que h trabalho de mais para um homem s. E ir 
continuar a haver demasiado trabalho para um ou talvez para dois, se estes contratos de entrega de correio continuarem a chegar desta maneira. Parece que passo a 
minha vida a voar. No tenho mos a medir. Faz-me falta um homem que fizesse alguns desses vos, que so duros e longos. Especialmente no Inverno, deparamos com 
muito mau tempo e todos se esto nas tintas. Ningum se importa com a dificuldade. O correio tem de chegar. Depois, h ainda os carregamentos, os passageiros, as 
pequenas viagens para aqui e para ali, os que buscam alguma excitao, desejando apenas levantar vo e olhar para baixo, e as lies ocasionais.
       - Parece que ests realmente com muito trabalho. - Nick sorriu-lhe. Estava a adorar tudo o que ouvia. Era isto que ele procurara. Isso e as memrias do s. 
Nick precisava desesperadamente do emprego e Pat estava feliz por t-lo ali.
       - Isto no  um jogo.  um negcio srio que estou a tentar construir. Um dia quero pr o Aeroporto O'Malley no mapa. Mas - explicou Pat - isso nunca acontecer 
se destrures os meus avies ou at mesmo um s, Nick. Tudo depende daqueles dois que esto l fora e deste bocado de terra seca com a tabuleta que viste quando 
chegaste.
       Nick acenou com a cabea, compreendendo tudo o que ele dizia e amando-o mais do que nunca. Havia algo que apenas ligava os aviadores: laos muito estreitos. 
Era algo que eles compreendiam, um lao de honra mpar.
       - Queres que faa algumas dessas viagens mais longas por ti? Poderias passar mais tempo com a Oona e as midas. Eu poderia fazer os trabalhos noturnos. Comearia 
com esses para ver o que tu pensas - pediu-lhe Nick, nervoso.
       Desejava desesperadamente conseguir um emprego junto dele e receava talvez no o conseguir. Mas claro que Pat O'Malley o contrataria. S queria ter a certeza 
de que Nick entendia as regras bsicas. Pat teria feito tudo por Nick. Dar-lhe-ia um lar, um emprego e at o adotava se fosse preciso.
       - Os vos noturnos podem ser um bom comeo. - Olhou seriamente para o seu jovem amigo. Tinham catorze anos de diferena, mas a guerra fizera desaparecer, 
h muito, essa diferena entre eles. - Se bem que em certas noites seja o lugar mais sossegado. Se o novo beb no comear rapidamente a dormir toda a noite, vou 
comear a dar-lhe usque. Oona diz que  do calor, mas juro que  do cabelo ruivo e da sua prpria disposio. Oona  a nica ruiva que conheci que tem modos calmos 
e gentis. Esta  um verdadeiro diabinho.
       Mas, apesar das queixas, Pat parecia apaixonado por ela, tendo ultrapassado a sua desiluso de no ter tido um filho, especialmente agora que Nick estava 
ali. A sua chegada fora a oferta divina pela qual tanto havia rezado.
       - Como  que ela se chama? - Nick estava com um ar divertido. Adorava aquela famlia desde o momento em que olhara para ela.
       - Cassandra Maureen. Chamamos-lhe Cassie. - Olhou de novo para o relgio. - Vou levar-te at casa e podes jantar com a Oona e as midas. Tenho de voltar para 
aqui s cinco e meia. - Estava com ar de quem pede desculpa. -E tens de descobrir um stio para ficar, na cidade. H alguns quartos para alugar em casa da velha 
Mistress Wilsone, eu no tenho lugar para ti aqui, a no ser uma rede no hangar onde guardo o Jenny.
       - Isso chega. Pelo menos  quente. No me importo de dormir na pista de aterragem.
       - H um velho chuveiro nas traseiras e uma casa de banho aqui, mas.  um pouco primitiva - disse Pat hesitantemente, e Nick sorriu ao v-lo encolher os ombros.
       - Tal como o meu oramento, at comeares a pagar-me.
       - Podes dormir no sof se Oona no se importar. Ela gosta de ti, est sempre a dizer-me que s bonito e que as raparigas tm muita sorte com um rapaz como 
tu. Tenho a certeza que no se importar que durmas no sof, at teres possibilidades de alugar um quarto em casa de Mistress Wilson.
       Ele, porm, nunca fez nem uma coisa nem outra. Dirigiu-se imediatamente para o hangar, e um ms depois tinha construdo uma pequena cabana para si. Era pouco 
mais do que um alpendre, suficientemente grande, que mantinha arrumado e limpo, apesar de ter passado todos os momentos disponveis no ar, a voar para Pat e a ajud-lo 
a construir o negcio.
       Na Primavera seguinte, conseguiram comprar outro avio: um Handley Page. Tinha maior alcance do que o De Havilland ou o Jenny e mais capacidade para passageiros 
e carga. Nick passava a maior parte do tempo a voar nele, enquanto Pat ficava mais perto de casa, fazia os vos mais curtos e dirigia o aeroporto. O acordo estava 
a funcionar perfeitamente para ambos. Era como se tudo o que tocassem se transformasse como por magia. Os negcios estavam a correr lindamente. A sua reputao espalhou-se 
de imediato pelo Midwest. O rumor de que dois ases estavam a operar em Good Hope parecia chegar a todas as pessoas importantes. Eles lidavam com carga, passageiros, 
lies, correio e, pouco tempo depois, comearam a ter um lucro bastante razovel.
       Depois aconteceu o maior golpe de sorte. Treze meses aps o nascimento de Cassie, apareceu uma frgil e pequena criana de pele enrugada e muito chorona: 
Christopher Patrick O'Malley. Os pais nunca tinham visto nada mais bonito enquanto as suas quatro irms olhavam espantadas para a sua anatomia pouco familiar. Nada 
poderia ter provocado maior confuso no Aeroporto O'Malley do que a chegada de Christopher Patrick O'Malley.
       Foi iada uma grande bandeira azul e todos os pilotos que l passaram durante o ms seguinte recebiam um charuto do radiante pai. Tinha valido a pena esperar. 
Finalmente, depois de quase doze anos de casamento, o seu sonho concretizara-se: um filho para pilotar os seus avies e dirigir o aeroporto.
       - Acho que mais vale fazer as malas e ir-me embora -disse Nick a brincar no dia seguinte ao nascimento de Chris. Acabara de receber uma encomenda de um enorme 
carregamento a ser entregue na costa oeste at ao domingo seguinte. Era a maior encomenda que tinham recebido e uma grande vitria para eles.
       - O que queres dizer com ir-me embora? - perguntou Pat, com uma terrvel ressaca devido  celebrao do nascimento do filho e um olhar de pnico. - O que 
raio queres dizer com isso?
       - Bem, agora que o Chris chegou, acho que os meus dias esto contados.
       Nick sorria-lhe. Estava muito contente por ambos e excitadssimo por ser o padrinho de Chris. Mas quem lhe tinha roubado o seu corao, desde o primeiro momento 
em que a vira, fora Cassie. Ela era exatamente como Pat descrevera: um pequeno monstro e tudo aquilo que sempre se dissera sobre uma ruiva. Mas Nick adorava-a. s 
vezes quase sentia que ela era a sua irm mais nova. Se fosse sua filha no teria mais amor por ela.
       - Sim! Os teus dias esto contados - grunhiu Pat. - Durante os prximos cinqenta anos. Por isso levanta esse rabo preguioso da cadeira, Nick Galvin, e vai 
ver o correio que acabaram de deixar na nossa pista.
       - Sim, senhor... s. Senhor... Vossa Eminncia... Vossa Excelncia...
       - Pra com as adulaes! - Pat gritava j para as suas costas, enquanto se servia de uma chvena de caf; Nick correu para a pista para se encontrar com o 
piloto antes de ele voltar a descolar. Nick era o que Pat sempre esperara: uma ddiva de Deus. E no tinha havido brincadeiras no ano que passara. Correra muitos 
riscos nos vos, com mau tempo no Inverno anterior, e ambos haviam feito as aterragens foradas necessrias e reparaes de emergncia. Mas no havia nada de realmente 
perigoso de que Pat se pudesse queixar, que ele prprio no tivesse feito ou que realmente prejudicasse um dos seus preciosos avies. Nick amava aqueles avies tanto 
quanto Pat. A verdade era que a presena de Nick permitira a Pat aumentar o seu negcio.
       E foi exatamente o que continuaram a fazer nos dezessete anos seguintes. Os anos tinham passado por eles mais depressa do que os seus avies a descolar das 
quatro pistas meticulosamente tratadas do Aeroporto O'Malley. Tinham construdo trs pistas em forma de tringulo e a quarta, no sentido norte-sul, cortava-o ao 
meio, o que significava que podiam aterrar com quase todos os tipos de vento e nunca precisavam de fechar o aeroporto devido ao bloqueio das pistas. Possuam agora 
uma frota de dez avies. Nick comprara dois; os restantes eram de Pat. Nick apenas trabalhava para ele, mas Pat fora sempre generoso. Eram grandes amigos, depois 
de muitos anos a trabalhar juntos na construo do aeroporto e, mais de uma vez, perguntara a Nick se queria ser seu scio, mas este sempre dissera que no desejava 
ter as dores de cabea que vinham com o cargo. Afirmava que gostava de ser empregado, se bem que todos soubessem que ele e Pat O'Malley se movimentavam como se fossem 
a mesma pessoa. Se algum fizesse com que um se zangasse, correria risco de morte s mos do outro. Pat O'Malley era um homem especial, Nick adorava-o como pai, 
irmo e amigo e amava os seus filhos como se fossem dele. Gostava de tudo o que dizia respeito a Pat.
       No entanto, para alm de Pat, as famlias e relaes no eram o ponto forte de Nick. Tinha-se casado uma vez, em 1922, aos vinte e um anos. Durara seis meses, 
e a sua noiva de dezoito anos voltara a correr para casa dos pais no Nebrasca. Nick conhecera-a no nico restaurante da cidade, onde fora fazer uma entrega de correio, 
do qual eram proprietrios o pai e a me da rapariga.
       A nica coisa que ela odiara mais do que Illinois era tudo o que tivesse a ver com voar. Enjoava sempre que Nick a levava, gritava cada vez que via outro 
avio e chorava cada vez que ele saa para um vo. No era decididamente mulher para ele. Nick ficara mais aliviado do que a noiva quando os pais a vieram buscar. 
Nunca fora to infeliz e jurara que nunca mais tal aconteceria. Desde ento tivera outras mulheres, mas mantivera os seus casos em segredo. Haviam surgido boatos 
sobre ele e uma mulher casada noutra cidade, mas ningum tinha a certeza se eram verdadeiras ou no, e Nick nunca dissera nada a Pat. Transformara-se num homem muito 
bonito, contudo nunca ningum sabia da sua vida. As mulheres da sua intimidade no eram bvias. Ningum podia dizer fosse o que fosse sobre ele, a no ser que trabalhava 
muito e que passava muito tempo com os O'Malley. Na realidade, passava a maior parte do seu tempo livre com eles e as crianas. Era como um tio para elas. H muito 
que Oona desistira de o juntar com uma das suas amigas. Tentara at comear algo entre ele e a irm mais nova, quando esta viera visit-los h alguns anos. Ela era 
bonita, jovem e viva, mas h muito que era notrio que Nick Galvin no estava interessado em casar-se. Nick interessava-se por avies e pouco mais.  exceo,  
claro, dos O'Malley e de um ocasional romance discreto. Vivia sozinho, trabalhava muito e tratava da sua vida.
       - Ele merece muito mais do que isso: - H anos que Oona se queixava disso a Pat.
       - E o que te faz pensar que o casamento  melhor? -Pat estava a brincar, mas, por muito convencida que ela estivesse sobre o que era melhor para ele, j nem 
dizia nada a Nick. Desistira. Aos trinta e cinco anos, sentia-se feliz, alm de demasiado ocupado para devotar tempo e ateno a uma esposa e filhos. Na maioria 
dos dias, passava quinze a dezesseis horas no aeroporto de Pat, e a nica pessoa que l passava tanto tempo como ele era Cassie.
       Estava agora com dezessete anos e durante quase toda a sua vida Cassie tinha sido uma ajuda preciosa no aeroporto. Sabia abastecer quase todos os avies, 
assinalar a sua aterragem e prepar-los para descolar. Tratava das pistas, limpava os hangares, lavava os avies e passava todos os momentos livres na companhia 
de pilotos. Conhecia os motores e o funcionamento de todos os avies que possuam. Tinha uma intuio peculiar em relao aos problemas mecnicos. No havia pormenor, 
por muito pequeno e complexo que fosse, que escapasse  sua ateno. Reparava em tudo sobre cada avio e talvez tivesse sido capaz de descrever quase tudo de olhos 
fechados durante um vo. Era espantosa em muitos aspectos, o que levava Pat a brigar muitas vezes com ela para a obrigar a ir para casa ajudar a me. Ela retorquia 
sempre que as irms estavam l e que a me no precisava dela. Pat no a queria por ali, mas sim em casa. No entanto, se a conseguia afastar um dia, na manh seguinte, 
tal como o Sol, ela regressava s seis da manh para passar uma ou duas horas no aeroporto antes de ir para a escola. Chegou uma altura em que Pat desistiu e passou 
a ignor-la.
       Aos dezessete anos, ela era uma ruiva de olhos azuis, alta, vistosa e bonita. Contudo, a nica coisa que Cassie conhecia e gostava era de avies. Nick sabia, 
sem nunca a ter visto pilotar um avio, que ela era um piloto nato. Achava que Pat tambm o devia saber, mas continuava inflexvel em relao ao fato de deixar Cassie 
aprender a voar. Estava-se nas tintas para Amelia Earhart ou Jackie Cocliran ou Nancy Love, Louise Thaden ou quaisquer outras mulheres-pilotos, ou mesmo para o Wornen's 
Air Derby. Filha sua no voaria e isso era definitivo. Ele e Nick tinham ocasionalmente discutido o assunto, mas este tambm j comeara a perceber que era uma batalha 
perdida. Naqueles tempos j havia muitas mulheres na aviao, sendo a maior parte bastante boas, mas Pat O'Malley pensava que as coisas j tinham ido demasiado longe 
e, no que lhe dizia respeito, jamais uma mulher pilotaria to bem como um homem. Alm disso, mulher nenhuma pilotaria os seus avies; muito menos Cassie O'Malley.
       Nick falara com ele mais do que uma vez, salientando que, na sua opinio, algumas mulheres-pilotos atuais eram melhores que Lindberg. Pat ficara to furioso 
que quase dera um soco a Nick. Charles Lindberg era o deus de Pat, apenas superado por Rickenbacker na Primeira Guerra Mundial. De fato, Pat tirara uma fotografia 
com Lindy quando ele aterrara no O'Malley, em 1927, durante a sua viagem de trs meses ao pas. A fotografia ainda estava pendurada, nove anos depois, cheia de p 
e muito reverenciada sobre a secretria de Pat em lugar de destaque.
       No esprito de Pat no havia qualquer dvida de que a percia e valor de Charles Lindberg seria impossvel de suplantar ou de igualar por qualquer mulher-piloto. 
A prpria mulher de Lindberg era apenas navegadora e operadora de rdio. Para Pat, Lindy era uma espcie de deus, e comparar algum a Lindberg no passava de um 
sacrilgio que ele no tencionava ouvir da boca de Nick Galvin. Nick riu-se ao observar a excitao de Pat, pois adorava irrit-lo. Mas sabia que era uma discusso 
que nunca venceria. Segundo Pat, as mulheres no tinham aptido para isso. No interessava a quantidade de horas de vo, os recordes que batiam, as corridas que 
ganhavam ou como ficavam bonitas em uniforme de vo. Segundo Patrick O'Malley, as mulheres no deviam ser pilotos.
       - E tu - disse ele, olhando diretamente para Cassie no momento em que ela chegava da pista com o seu velho macaco, tendo acabado de abastecer o Ford trimotor 
antes de este partir para Roosevelt Field, em Long Island - devias estar a ajudar a tua me  a fazer o jantar.
       Era um refro familiar que ela quase sempre ignorava, e hoje no fora diferente. Passeou-se pela sala, quase to alta como os homens que trabalhavam para 
ele.. Tinha um cabelo ruivo at aos ombros, luminoso como chamas, e grandes e vivos olhos azuis que encontraram os de Nick que sorria maliciosamente por trs do 
pai.
       - J volto para casa, pai. S quero acabar de fazer algumas coisas.
       Aos dezessete anos, era uma verdadeira beldade, mas no estava consciente disso, o que fazia parte do seu encanto. O macaco que usava moldava-lhe a figura 
de uma maneira que apenas irritava mais o pai. Segundo Pat, aquele no era o lugar dela. No era uma opinio susceptvel de modificao; aquela discusso entre eles 
era algo que todos j tinham ouvido pelo menos mil vezes, se j tivessem estado no Aeroporto O'Malley, assim, naquela altura no seria diferente. Estava um quente 
dia de junho e ela encontrava-se de frias de Vero. A maioria dos amigos tinha empregos de frias no drugstore, na cafeteria ou em lojas, mas tudo o que ela desejava 
fazer era ajudar, sem remunerao, no aeroporto. Dedicava-se de corpo e alma, e s trabalhava noutros stios quando necessitava desesperadamente de algum dinheiro. 
Nenhum emprego, nenhum amigo, nenhum rapaz nem nenhum divertimento a afastariam do aeroporto durante muito tempo. No conseguia resistir.
       - Porque no fazes algo de til em vez de seres um empecilho aqui? - gritou o pai do outro extremo do escritrio.
       Ele nunca lhe tinha agradecido pelo trabalho que fazia. Pura e simplesmente no a queria ali.
       - S vim buscar um dos dirios de carregamentos, pai. Preciso de fazer algumas anotaes. - Disse-o calmamente, procurando o livro e depois a pgina que precisava. 
Estava familiarizada com todos os seus dirios e procedimentos.
       - Tira as mos dos meus dirios! No sei o que ests a fazer!
       Ele estava furioso como era habitual. Tornara-se irascvel com os anos, se bem que aos cinqenta ainda fosse um dos melhores pilotos que havia. Ningum o 
demovia das suas idias, mas tambm ningum, nem mesmo Cassie, lhes dava muita ateno. No aeroporto, a sua palavra era lei, mas a sua batalha contra as mulheres 
na aviao e as discusses com ela eram infrutferas. A jovem sabia que a melhor atitude era no discutir com ele. A maior parte das vezes parecia nem estar a ouvi-lo. 
Continuava calmamente a fazer o que tinha a fazer, pois para Cassie o nico negcio que interessava era o aeroporto do pai.
       Quando era mais pequena, fugira vrias vezes durante a noite, indo olhar para os avies que brilhavam ao luar. Eram to bonitos que tinha de os ver. Pat encontrara-a 
uma noite, depois de a procurar durante horas, mas Cassie reverenciava tanto os avies do pai, temendo tanto por eles como ele, que Pat no tivera coragem de lhe 
bater, apesar do susto que lhes pregara com o seu desaparecimento. Dissera-lhe para nunca mais fazer aquilo e levara-a para junto da me sem falar mais no assunto.
       Oona tambm sabia o quanto Cassie adorava avies, mas, tal como Pat, achava que no era prprio. O que pensariam as pessoas, vendo a sua aparncia e cheiro 
quando voltava para casa depois de abastecer os avies, de colocar os carregamentos e correio dentro do poro ou, ainda pior, trabalhar nos motores? Mas Cassie sabia 
mais sobre o funcionamento interno dos avies do que a maioria dos homens conhecia o dos seus carros. Adorava tudo neles. Era capaz de desmontar um motor e voltar 
a mont-lo ainda mais depressa e melhor do que a maior parte dos homens, e pedira emprestado e lera mais livros sobre avies do que Nick ou os pais suspeitavam. 
Os avies eram o seu grande amor e paixo.
       Apenas Nick parecia compreender o seu amor por eles, mas nem ele conseguira nunca convencer o pai de que era um passatempo apropriado para ela. Quando voltou 
para a secretria para terminar um trabalho, encolheu os ombros e Cassie regressou  pista. H muito que sabia que, se se mantivesse afastada de Pat, conseguia estar 
durante horas no aeroporto.
       - No sei o que se passa com ela... No  natural... -queixou-se Pat. - Acho que o faz apenas para irritar o irmo.
       Nick, porm, sabia melhor que ningum que Chris no dava importncia aos avies. Estava to interessado em voar como em chegar  Lua ou em tornar-se uma espiga 
de milho. Ia ocasionalmente ao aeroporto para agradar ao pai e, agora que j tinha dezesseis anos, estava a receber lies de vo apenas para o satisfazer. Mas a 
verdade era que Chris no sabia nada sobre avies e tambm no se importava com o fato. Tinha tanto interesse neles como no grande autocarro amarelo que o levava 
para a escola todos os dias. Porm, Pat convencera-se de que um dia Chris se tornaria um grande piloto.
       Chris no possua o instinto de Cassie, o seu amor apaixonado pela mquina ou o seu gnio em relao a motores, e estava esperanado que o interesse de Cassie 
pelos avies fizesse com que o pai o largasse. Mas, pelo contrrio, isto parecia torn-lo ainda mais ansioso para que Chris se tornasse piloto. Queria que Chris 
se transformasse naquilo que Cassie era. Ele queria ser arquiteto e construir edifcios, no tendo o menor desejo de pilotar avies, mas, at agora, ainda no ousara 
diz-lo ao pai. Cassie sabia. Adorava os desenhos e os modelos para a escola que o irmo fazia. Tinha construdo uma cidade inteira com caixinhas muito pequenas, 
latas e frascos e, para terminar, tinha at usado as tampas das garrafas e todos os tipos de dispositivos nfimos da cozinha da me. Ela andara semanas  procura 
das coisas. As caricas das garrafas, bem como vrios pequenos instrumentos e utenslios, tinham desaparecido. Mas finalmente tudo reaparecera na notvel criao 
de Chris. O nico comentrio do pai fora perguntar por que razo no fizera a maqueta de um aeroporto. Era uma idia intrigante, e Chris ainda respondeu que ia tentar. 
Mas a verdade era que absolutamente nada que dissesse respeito a aviao lhe interessava. Era inteligente, preciso e ponderado, todavia, as lies de pilotagem que 
estava a receber eram incrivelmente aborrecidas. Nick j o levara dzias de vezes, por isso ele j tinha algumas horas de vo. Mas nada disso despertava o seu interesse. 
Era como conduzir um automvel. E depois? No significava nada para ele. Para Cassie era a prpria vida. Mais do que isso: era magia.
       Nessa tarde, manteve-se afastada do escritrio do pai, e s seis horas Nick viu-a ao longe na pista a ajudar um avio a aterrar, desaparecendo depois num 
dos hangares com o piloto. Procurou-a pouco depois, encontrando-a com leo no rosto e o cabelo apanhado no alto da cabea, num carrapito. Tinha uma grande mancha 
de gordura no nariz e as mos estavam nojentas. No conseguiu evitar o riso quando olhou para ela. Estava numa linda figura!
       - Qual  a piada?
       Parecia cansada, mas feliz, quando lhe sorriu. Nick fora sempre como um irmo para ela. Cassie sabia que ele era muito bonito, mas isso no significava nada. 
Eram bons amigos e ela adorava-o.
       - A piada s tu. J te viste ao espelho hoje? Tens mais leo em cima do que o meu Bellanca. O teu pai vai adorar.
       - O meu pai quer-me com uma bata a limpar a casa e a cozer batatas.
       - Isso tambm  til.
       - Ah, sim? - Inclinou a cabea para o lado, numa intrigante combinao de absurdo e pura beleza. - Sabes cozer batatas, Stick? - Ela s vezes chamava-lhe 
Stick e isso fazia-o sempre sorrir e o mesmo aconteceu ao responder-lhe:
       - Se for preciso. Tambm sei cozinhar.
       - Mas no tens de o fazer. E quando  que limpaste a casa pela ltima vez?
       - No sei... - Ficou com um olhar pensativo. - H uns dez anos... por volta de mil novecentos e vinte seis. - Estava a sorrir, acabando ambos a rir.
       - Ests a perceber o que quero dizer?
       - Sim. Mas tambm percebo o que ele quer. No sou casado, no tenho filhos, e ele no quer que tu acabes como eu. A viver numa barraca ao p da pista e a 
entregar correio em Cleveland. - A sua barraca j estava, nessa altura, muito confortvel, se no mesmo luxuosa.
       - Por mim, tudo bem. - Ela sorriu-lhe. - Refiro-me s entregas de correio,  claro.
       -  precisamente esse o problema.
       - Ele  que  o problema - discordou ela. - Existem inmeras mulheres que voam e que tm vidas interessantes. A Noventa e Nove est cheia delas. - Referia-se 
a uma organizao fundada por noventa e nove mulheres-pilotos.
       - No tentes convencer-me. Diz-lhe.
       -  intil. - Ela parecia desiludida quando olhou para o seu velho amigo. - S espero que ele me deixe estar aqui todo o Vero.
       Era tudo o que desejava durante as frias at ao fim de Agosto. Seria um longo Vero a esconder-se dele e a tentar evitar confrontos.
       - No queres arranjar um emprego noutro stio para que ele no nos leve  loucura?
       Contudo, ambos sabiam que ela preferia no ter dinheiro a passar um nico momento fora do aeroporto.
       - No me apetece fazer mais nada.
       -Eu sei. No precisas de o dizer.
       Ele conhecia melhor do que qualquer outra pessoa toda a amplitude da sua paixo. Tinha sofrido da mesma doena, mas tivera sorte. A guerra, o seu sexo e Pat 
O'Malley tinham-lhe tornado possvel passar o resto da vida a voar. No entanto, no pensava que Cassie O'Malley fosse ter sorte. Estranhamente, teria adorado lev-la 
no avio apenas para verificar a qualidade da sua pilotagem, mas era uma dor de cabea que no necessitava e sabia que Pat o mataria. No queria meter-se na vida 
familiar de Pat. Nick tinha o seu prprio trabalho e isso era coisa que no faltava no aeroporto.
       Quando Nick voltou para a secretria para terminar o trabalho, viu chegar Chris. Era um rapaz bem-parecido, louro e de traos finos, com a poderosa constituio 
da me e do pai e quentes olhos castanhos. Era esperto, simptico, e toda a gente gostava dele. Tinha tudo no mundo a seu favor, exceto amor pelos avies. Arranjara 
um emprego de frias num jornal, fazendo layouts, e dava graas a Deus por no ter de trabalhar no aeroporto.
       - A minha irm est c? - perguntou ele a Nick hesitantemente.
       O seu rosto quase parecia desejar que Nick dissesse que no. Estava com um ar de quem j no podia esperar mais para deixar o aeroporto. Cassie estava  espera 
dele h uma hora e j perguntara impacientemente a Nick se o tinha visto.
       - Est. - Nick sorriu-lhe. Manteve a voz baixa para no irritar Pat no caso de estar a ouvi-lo. - Est ao fundo do hangar com um piloto que acabou de aterrar.
       - Eu descubro-a! - Chris acenou a Nick, que prometeu lev-lo consigo dentro de alguns dias quando voltasse de uma entrega em San Diego. - Estarei aqui. Vim 
praticar os meus solos - disse ele solenemente.
       - Estou muito impressionado! - Nick ergueu uma sobrancelha, espantado pela maneira bvia como o rapaz queria agradar ao pai. No era segredo para Nick que 
Chris no gostava das lies. No tinha medo. Apenas o aborreciam. Para ele, voar nada significava. - At logo!
       Chris encontrou Cassie facilmente e esta afastou-se de imediato do seu recente amigo assim que viu o irmo. Comeou logo a descomp-lo.
       - Ests atrasado! Assim chegaremos tarde para o jantar. O pai vai ter um ataque.
       - Ento no o faamos! - Encolheu os ombros. Ele at nem quisera abandonar o seu emprego to cedo, mas sabia que ela iria ficar furiosa se isso no acontecesse.
       - Vamos embora! - disse-lhe ela. - Tenho estado  espera todo o dia! - Deitou-lhe um olhar zangado e resmungou. Chris conhecia a irm muito bem. No havia 
escapatria possvel quando Cassie tomava uma deciso. - No vou para casa sem o fazermos.
       - Est bem! Est bem! Mas no podemos ficar l em cima muito tempo.
       - Meia hora!
       Ela estava a pedir, a suplicar e fixava os enormes olhos azuis implorantemente nos gentis olhos castanhos do irmo.
       - Est bem! Mas se fazes alguma coisa que nos meta em sarilhos, Cass,  juro que te mato. O pai dava cabo de mim.
       - Prometo! No fao nada.
       Olhou-a bem nos olhos quando ela prometeu e quis, acima de tudo, acreditar nela. Mas no acreditava.
       Juntos caminharam at um velho Jenny que o pai possua h muitos anos. Tinha sido construdo para treino de militares e Pat tinha dito a Chris que o podia 
usar sempre que quisesse praticar. Apenas tinha de avisar Nick, e ele acabara de o avisar. Chris possua uma cpia da chave e tirou-a do bolso. Cassie quase salivou 
quando a viu. Estava junto do irmo e conseguia sentir o corao aos pulos quando Chris abriu aporta da pequena carlinga do avio.
       - Importas-te de parar com isso? - Olhou aborrecido para ela. - Sinto a tua respirao no meu pescoo.
       Enquanto andavam  volta do avio a verificar os fios e os allerons, ele sentia-se a ajudar um viciado. Chris colocou o capacete, culos e luvas, subindo 
para o assento traseiro do avio; Cassie subiu rapidamente para a sua frente, tencionando parecer um passageiro, mas no parecia. At no lugar dianteiro tinha um 
ar demasiado sabedor e confortvel, especialmente depois de colocar o capacete e os culos.
       Ambos apertaram os cintos. Cassie sabia que o avio estava cheio de gasolina, pois parte do seu acordo com o irmo constava em fazer todo o trabalho pesado 
por ele. Tinha-o feito nessa tarde. Tudo estava pronto e ela inalou o familiar cheiro a leo caracterstico do Jenny. Cinco minutos depois j rolavam pela pista 
com Cassie a observar criticamente o estilo de Chris. Ele era sempre demasiado cauteloso, demasiado lento; ela virou-se, fazendo-lhe sinal para ir mais depressa 
e descolar. No se importava que algum a visse. Sabia que no havia ningum a ver, pois tudo o que sabia fora aprendido atravs das observaes e das conversas 
que escutara. Sempre observara o pai, Nick, alm dos pilotos em trnsito. Tinha conseguido adquirir verdadeiros conhecimentos, alguns truques, voando por instinto 
e mera intuio. Chris  que tivera lies, mas, no entanto, era Cassie que sabia exatamente o que fazer, e ambos sabiam que ela teria facilmente pilotado o avio 
sozinha e com muito mais suavidade.
       De vez em quando, ela gritava com ele devido ao rudo do motor e Chris acenava com a cabea, desejando que ela no fizesse nenhuma loucura. Mas ambos sabiam 
exatamente por que razo tinham subido. Chris estava a ter lies com Nick e, por sua vez, estava a dar lies a Cassie. De fato, o que estava realmente a acontecer 
era Chris lev-la no aeroplano, mas deix-la pilotar  vontade. Era ela que lhe dava lies ou gozava apenas a oportunidade de voar. Parecia saber fazer tudo muito 
melhor que Chris. Era uma aviadora nata, tendo prometido pagar-lhe vinte dlares por ms por oportunidades ilimitadas de voar com ele no avio do pai. O rapaz queria 
o dinheiro para gastar com a namorada e, como tal, concordara. Era um acordo perfeito. Cassie trabalhara bastante durante o Inverno, em vrios empregos, tais como 
baby-sitter, carregar mercearias ou a remover neve, para poupar dinheiro.
       Cassie lidava facilmente com os comandos. Fez algumas curvas em S e oitos suaves, depois passou para as curvas mais apertadas, que fazia com cuidado, com 
uma preciso incrvel. At Chris estava impressionado com o estilo fcil e cuidadoso; subitamente ficou-lhe grato pelo fato de ela causar to boa impresso a qualquer 
um que os estivesse a observar do solo. Era um piloto, espantoso. Passou para um looping e ele comeou a ficar nervoso. Tinham voado juntos vrias vezes, mas detestava 
que ela fizesse habilidades. A irm era demasiado boa e rpida, contudo tinha medo que Cassie pudesse perder completamente o controlo e fazer algo de realmente assustador. 
Por vinte dlares, no estava disposto a deixar-se aterrorizar. Mas ela nem reparava. Estava concentrada na sua pilotagem. Portanto, apenas conseguia ver a parte 
de trs do seu capacete e o cabelo vermelho da irm a voar com o vento. De quando em vez, se j estava completamente farto dela, batia-lhe no ombro. Era altura de 
voltar e ela sabia-o. Mas, durante alguns momentos, fingia ignor-lo.
       Queria fazer um parafuso, mas no havia tempo e sabia que Chris teria um ataque se ela o tentasse.
       Porm, nos seus momentos mais calmos, o jovem tinha de admitir que a irm era um piloto extraordinrio, apesar de lhe pregar grandes sustos. No entanto, no 
confiava nela. A qualquer momento, era perfeitamente capaz de fazer uma loucura. Havia algo nos avies que lhe subia  cabea e ela deixava de ser racional.
       Cassie perdeu altitude com cuidado e, antes de aterrarem, deixou Chris assumir novamente o controlo do avio. O resultado foi uma aterragem muito menos suave 
do que a dela teria sido. Aterraram com demasiada fora, fazendo com que o avio desse alguns saltos na pista. Ela tentou que Chris fizesse uma boa aterragem, mas 
o rapaz no possua o instinto da irm. Conseqentemente, fizera uma panqueca, atingindo o cho com muita fora, depois de ter nivelado o avio a uma altitude 
que no lhe permitia uma aterragem decente.
       Quando saram do avio, ficaram surpreendidos por ver Nick e o pai em p junto da pista. Tinham estado a observ-los, e Pat sorria largamente para Chris, 
enquanto Nick parecia estar a olhar para Cassie.
       - Bom trabalho, filho - disse Pat com um sorriso luminoso. - s um piloto nato. - Pat parecia imensamente satisfeito, no ligando  aterragem deficiente. 
Nick tinha estado a observar o rosto de Chris, mas parecia muito mais atento a Cassie do que tinha estado desde o momento em que ela sara do avio.
       - Como te sentiste l em cima com o teu irmo, Cass? perguntou-lhe o pai com um sorriso.
       - Muito bem, pai. Foi realmente divertido.
       Nick viu os olhos dela brilharem como uma rvore de Natal. Pat conduziu Chris para o escritrio, enquanto Nick e Cass os seguiam em silncio.
       - Gostas de voar com ele, Cass? - perguntou Nick com cuidado quando caminhavam para o escritrio.
       - Muito. - Ela sorriu para Nick e, por razes que s ele conhecia, apetecia-lhe aban-la. Sabia que a jovem estava a mentir e perguntava a si prprio como 
 que Pat conseguia ser to facilmente enganado. Talvez o quisesse ser. Mas aquele tipo de jogos eram perigosos e at fatais.
       - Aquele looping estava muito bem feito ~ disse Nick calmamente.
       - Tambm achei bem - retorquiu ela sem o olhar.
       - Aposto que sim - afirmou, observando-a por um momento. E abanando a cabea voltou para o escritrio.
       Alguns minutos mais tarde, Pat levou os filhos para casa.
       Quando Nick ouviu o carro partir, sentou-se  secretria pensando neles e no vo que acabara de ver. Abanou a cabea com um sorriso amargo. De uma coisa tinha 
a certeza: Chris O'Malley no tinha estado a pilotar aquele avio. No conseguiu deixar de sorrir para si prprio quando percebeu que Cassie havia descoberto uma 
maneira de estar aos comandos de um avio e talvez, apenas talvez, depois de todo o trabalho que tivera para l chegar, ela o merecesse. Talvez ele no a desafiasse 
durante uns tempos. Talvez apenas observasse e verificasse os seus progressos. Sorriu para si prprio, pensando no looping que a tinha visto fazer. Pouco faltava 
para a ver voar num espetculo de aeronutica. E porque no? Por que diabo? Tudo nela lhe dizia que era um piloto nato. Era mais do que isso. Sentia instintivamente 
que, mulher ou no, ela precisava de voar, tal como ele.

CAPTULO 2
       Quando Pat, Cassie e Chris entraram em casa nessa noite, todas as irms de Cassie estavam na cozinha a ajudar a me. Glynnis era parecida com Pat e, aos vinte 
e cinco anos, j tinha quatro filhas, sendo casada h seis anos. Megan era tmida como a me e possua os seus traos fisionmicos, apesar de o cabelo ser castanho. 
Com vinte e trs anos, j tinha trs filhos, tendo-se casado seis meses depois de Glynnis. Os maridos eram agricultores e possuam pequenas propriedades nas redondezas. 
Eram homens decentes, trabalhadores, e as raparigas estavam muito contentes com os seus casamentos. Colleen tinha vinte e dois anos, era loura, me de um rapaz e 
de uma menina que ainda mal sabiam andar, e casara-se havia trs anos com o professor de Ingls da escola local. Queria ir para a faculdade, mas estava novamente 
grvida. Com trs crianas em casa no havia possibilidade de ir fosse para onde fosse, exceto se os levasse com ela. No seria justo deixar trs crianas com a 
av todos os dias s para poder ir para a escola e, de qualquer modo, o pai nunca a teria deixado faz-lo. Talvez quando as crianas fossem mais velhas. De momento, 
a faculdade era apenas um sonho. A realidade da sua vida eram trs bebs e muito pouco dinheiro. Pat dava-lhes pequenos presentes de tempos a tempos, mas o marido 
de Colleen era muito orgulhoso e detestava aceit-los. Mas, com um ordenado to baixo e com outro filho dentro uuuude algumas semanas, precisavam de toda a ajuda 
que conseguissem, por isso a me de Colleen tinha-lhe dado algum dinheiro nessa tarde. Sabia que eles precisavam de comprar coisas para o beb. Os ordenados dessa 
poca de depresso tinham chegado s escolas, e eles mal conseguiam comer com o que David ganhava, at mesmo com as prendas regulares dos pais, ou os alimentos que 
as irms lhes ofereciam.
       As trs raparigas iam ficar para jantar com os pais, pois os maridos tinham outros planos nessa noite. Para alm disso, era vulgar as raparigas virem muitas 
vezes a casa dos pais. Oona adorava ver os netos, se bem que todos ao mesmo tempo em casa tornasse a hora de jantar bastante catica e barulhenta.
       Pat foi mudar de roupa e Chris foi para o quarto enquanto Cassie tentava entreter as crianas. Todas as outras mulheres da famlia cozinhavam e dois dos seus 
sobrinhos achavam que a sujidade que Cassie tinha no rosto era histericamente divertida. Uma das sobrinhas tambm o achava e Cassie comeou a persegui-los pela sala, 
fingindo ser um monstro. Chris s voltou a aparecer quando foi chamado para jantar, olhando para Cassie ao chegar. Estava ainda aborrecido com ela por causa do looping 
que esta fizera, mas, por outro lado, Cassie tinha conseguido que o pai o visse com outros olhos. Assim sendo, no ousava queixar-se muito. Ambos estavam a conseguir 
o que queriam com o acordo: ela queria voar e ele queria o dinheiro. O louvor do pai tinha sido um bnus.
       Meia hora mais tarde, sentaram-se perante uma enorme refeio de carne de porco com milho, broa e pur de batata. Glynnis tinha trazido a carne de porco, 
Megan. o milho e as batatas eram da colheita de Oona. Todos cultivavam os seus prprios alimentos, mas quando necessitavam de mais iam compr-los ao Strong. Era 
a nica mercearia num raio de quilmetros e a melhor da regio. Os Strong estavam bem na vida, at em pocas mais duras, e o seu negcio era slido. Oona disse o 
mesmo quando terminaram a refeio, enquanto Cassie ouviu o som familiar de um motor l fora. Era fcil adivinhar quem era. Ele aparecia quase todas as noites depois 
de jantar, especialmente agora que ambos estavam de frias.
       Cassie conhecia Bobby Strong, o filho nico do merceeiro local, desde criana. Era um bom rapaz e h anos que eram grandes amigos. Mas nos ltimos dois anos 
tinham sido mais do que isso, se bem que Cassie insistisse em dizer que no sabia exatamente o qu. A me e Megan estavam sempre a lembrar-lhe que tinham casado 
aos dezessete anos e que, portanto, era melhor que soubesse o que estava a fazer com Bobby. Ele era srio e responsvel, Pat e Oona gostavam dele, mas Cassie no 
estava pronta para admitir a si prpria, nem a ele, que o amava.
       Gostava de estar com Bobby. Gostava dele e dos seus amigos. Apreciava as suas boas maneiras, gentileza, considerao e pacincia. Tinha um corao de ouro, 
e ela adorava o modo como ele lidava com as sobrinhas e sobrinhos. Cassie gostava de muitas coisas nele, mas ainda no era to excitante como os avies. Nunca tinha 
conhecido um rapaz que o fosse. Talvez no existisse tal coisa. Talvez fosse algo que era preciso aceitar. Porm, no gostaria de conhecer um rapaz que fosse to 
excitante como um Gee Bee Super Sportster ou um Beech Staggerwing ou um avio de corrida Wedell-Williams. Bobby era um bom rapaz, mas no tinha comparao com um 
avio.
       - Ol, Mistress O'Malley... Glynn... Meg... Colleen... Ena! Parece estar para breve!
       Colleen parecia enorme enquanto tentava reunir, com a ajuda da me, os filhos para ir para casa.
       - Talvez seja esta noite se eu no parar de comer a torta de ma da minha me - sorriu Colleen.
       Ela s era cinco anos mais velha do que eles, mas Cassie sentia que tinham anos-luz de diferena. As irms estavam todas casadas, instaladas na vida e eram 
muito diferentes. Sabia instintivamente que, de um modo ou de outro, nunca poderia ser como elas. Por vezes, perguntava a si prpria se teria sido amaldioada, se 
o fato de o pai tanto querer um rapaz a havia prejudicado antes de nascer. Talvez fosse uma degenerada. Gostava de rapazes, especialmente de Bobby, mas adorava avies 
e ainda mais a sua independncia.
       Bobby apertou a mo a Pat, cumprimentou Chris, enquanto todas as crianas se agarraram a ele. Pouco depois, a me e as irms mais velhas foram limpar a cozinha, 
mas Oona disse a Cassie que no se preocupasse e que ficasse junto de Bobby. Nessa altura, ela j tinha lavado a cara, contudo ainda era possvel ver os vestgios 
da gordura que l tinha estado antes do jantar.
       - Como foi o teu dia? - perguntou ele com um sorriso. Era desajeitado, mas agradvel, tentando ser tolerante em relao s suas idias estranhas e ao seu 
fascnio pelos avies do pai. Fingia interessar-se ouvindo-a falar sobre o novo avio que tinha passado por ali ou sobre o arriado Vega do pai. Mas, na verdade, 
ela at podia estar calada. O rapaz apenas queria estar junto dela. Aparecia, fielmente, quase todas as noites, e Cassie ainda parecia surpreendida com isso, o que 
divertia bastante os pais.
       No estava pronta para enfrentar a seriedade do seu compromisso nem para aceitar o significado das suas visitas persistentes. Ela terminaria o curso dos liceus 
no ano seguinte e, se ele continuasse a visit-la com tanta freqncia, poderia esperar que casassem assim que terminassem o liceu. Ficava aterrorizada s de pensar 
nisso. Desejava muito mais do que aquilo. Tempo, espao, a faculdade, e a sensao que tinha quando fazia um looping ou um parafuso. Estar com Bobby era como ir 
de carro para Ohio: seguro, slido e montono. No era como voar para qualquer lado. No entanto, sabia que, se ele deixasse de a visitar, sentiria a sua falta.
       - Hoje subi no Jenny com o Chris. - Informou-o de tudo tentando parecer casual. Ser demasiado sria com Bobby assustava-a. - Foi divertido! Fizemos alguns 
oitos e um looping.
       - Parece que o Chris est a tornar-se um bom piloto! - disse Bobby educadamente, mas, tal como Chris, os avies no lhe diziam muito. - Que mais fizeste?
       Ele estava sempre interessado nela e secretamente achava-a linda. Ao contrrio, os outros rapazes achavam-na demasiado alta ou com o cabelo demasiado ruivo, 
ou ento apenas gostavam dela pela sua esplndida figura, ou pensavam que ela era estranha porque sabia muito sobre avies. Bobby gostava dela por ser quem era, 
mesmo que por vezes reconhecesse a possibilidade de no a compreender. Mas isso fazia parte do seu carter terno, para alm de muitas outras coisas, sendo por isso 
que a jovem se sentia confusa sobre os seus sentimentos por ele. A me dizia-lhe que tinha sentido o mesmo com Pat, no incio da sua relao. Os compromissos so 
sempre difceis, dizia Oona, o que tornava tudo ainda mais complicado para Cassie. Ela no sabia que pensar sobre o que sentia por Bobby.
       - No sei... - Cassie continuou a responder  sua pergunta, tentando lembrar-se de tudo o que fizera. Tudo tinha a ver com avies. - Meti gasolina numa srie 
de avies, afinei o motor do Jenny antes de o Chris o levar e acho que conseguia t-lo arranjado. - Tocou no rosto conscientemente e sorriu. - Fiquei com muita gordura 
na cara. O meu pai teve um ataque quando me viu. No consegui tir-la toda. Devias ter-me visto antes de jantar!
       - Pensei que estavas a ficar com sardas - retorquiu ele maliciosamente, fazendo-a sorrir. Era um bom companheiro e sabia como os sonhos de Cassie, tais como 
ir para a faculdade, eram importantes para ela. Ele prprio no tencionava faz-lo. Ia ficar em casa e ajudar o pai nos negcios, tal como fazia todos os dias depois 
da escola e durante todo o Vero. - No sbado  noite vai passar no cinema o novo filme do Fred Astaire, Siga a Marinha. Queres ir? Dizem que  um grande filme. 
- Bobby olhou-a esperanosamente, ela acenou lentamente com a cabea e sorriu-lhe.
       - Gostava muito.
       Alguns minutos mais tarde saiu a ltima das suas irms juntamente com os filhos, e Cassie e Bobby ficaram novamente sozinhos no alpendre. Os pais estavam 
na sala. Sabia que eles podiam v-los do stio onde estavam sentados, mas os pais eram sempre discretos quando Bobby a visitava. Gostavam dele e Pat no teria ficado 
infeliz se eles decidissem casar em junho, quando ela acabasse o liceu. Desde que no se metessem em sarilhos, podiam passar o tempo que quisessem a namorar no alpendre. 
Para ele estava tudo bem. Era melhor do que t-la no aeroporto.
       No interior, Pat estava a contar a Oona o looping que Chris fizera nessa tarde. Estava muito orgulhoso dele.
       - O rapaz tem um talento natural, Oona. - Sorriram um para o outro e ela deu graas por terem tido o filho que ele sempre desejara to desesperadamente.
       Sob o alpendre, Bobby estava a falar sobre o seu dia na mercearia e sobre o modo como a depresso estava a afetar os preos da comida em Illinois e em todo 
o pas. Sonhava em abrir uma cadeia de lojas em vrias cidades, talvez at em Chicago. Mas toda a gente tem sonhos. Os de Cassie eram bastante mais incomuns e mais 
difceis de expressar. Os dele eram apenas ambiciosos sonhos de juventude.
       - J alguma vez pensaste em fazer algo de totalmente diferente e no o que o teu pai faz? - perguntou ela, intrigada com a idia, se bem que, quanto a si, 
desejasse seguir as passadas do seu pai. Mas essas passadas eram-lhe completamente interditas, o que as tornava muito mais apelativas.
       - Na realidade, no - respondeu Bobby calmamente. - Eu at gosto do negcio dele. As pessoas precisam de alimentos. De bons alimentos. Ns fazemos algo de 
importante pelas pessoas, mesmo que no parea muito estimulante. Mas talvez pudesse ser.
       - Talvez! - Ela sorriu-lhe. Subitamente ouviu um zumbido por cima da cabea e olhou na direo do familiar som dos motores. -  o Nick! Est a caminho de 
San Diego com um carregamento. De regresso parar em So Francisco para trazer o correio de um dos nossos contratos. - Sabia que ele estava a pilotar o Handley Page, 
pois distinguia perfeitamente o som dos motores.
       - Provavelmente, ele tambm se cansa disso - disse Bobby sabiamente. - A ns parece excitante, mas para ele  apenas um emprego como o do meu pai.
       - Talvez! - Mas Cassie sabia que no. Voar no era assim. - Os pilotos so de uma raa diferente. Amam o que fazem.  quase como se no conseguissem suportar 
a idia de fazer outra coisa qualquer. Est-lhes no sangue! Vivem-no e respiram-no. Amam-no mais do que qualquer outra coisa no mundo, - Os seus olhos brilharam 
ao dizer isto.
       -  provvel! - Bobby estava espantado com o que ela acabara de dizer. - No posso dizer que o compreenda.
       - Eu acho que a maioria das pessoas no o compreende.  como um fascnio misterioso. Uma ddiva maravilhosa, Para as pessoas que adoram voar, o cu significa 
mais do que qualquer outra coisa.
       Ele riu-se suavemente no ar quente da noite:
       - Acho que tens uma maneira demasiado romntica de ver as coisas. No estou certo que todos vejam as coisas da mesma maneira. Podes crer, para eles,  apenas 
um emprego.
       - Talvez - disse ela, no querendo discutir com Bobby, mas sabendo muito mais do que dizia. A aviao era como uma irmandade secreta, a que ela desejava desesperadamente 
pertencer e at agora ningum a tinha deixado. Mas tudo o que importava eram os poucos momentos que estivera no ar nesse dia, quando Chris a deixara pilotar o avio.
       Ficou sentada durante muito tempo a pensar nisso e a olhar para a escurido para alm do alpendre, esquecendo-se da presena de Bobby. Subitamente, quando 
o ouviu mexer-se, lembrou-se.
       - Acho que me vou embora. Deves estar cansada de abastecer tantos avies - disse ele para a arreliar. Mas na realidade ela queria estar s para pensar no 
que tinha significado pilotar um avio. Aqueles poucos minutos tinham sido maravilhosos. - At amanh, Cass.
       - Boa noite.
       Ele agarrou-lhe na mo por breves instantes e passou os lbios pelo rosto dela antes de voltar para o velho caminho Modelo A de seu pai, onde estava escrito 
Mercearia Strong. Durante o dia, usavam-no para entregas.  noite, deixavam Bobby us-lo.
       - At amanh!
       Ela sorriu e acenou-lhe enquanto o rapaz se afastava. Depois caminhou lentamente para casa, pensando na sorte que Nick tinha em estar a voar pela noite fora, 
a caminho de San Diego.

CAPTULO 3
       Nick regressou da costa oeste no domingo  noite, depois de largar carga e correio em Detroit e Chicago. s seis da manh de segunda-feira, j estava sentado 
 secretria com um ar repousado e enrgico. Era um dia de muito trabalho, pois tinham entrado novos contratos e havia sempre mais correio e carga para transportar. 
Tinham muitos pilotos ao seu servio e avies suficientes, mas Nick ainda se oferecia para fazer as viagens de longo percurso, as mais difceis de pilotar. Dava-lhe 
uma enorme satisfao entrar num avio e voar pela noite fora, especialmente com mau tempo. Pat era o perfeito oposto. Era um gnio administrativo. Ainda gostava 
de voar, mas tinha menos tempo e, de certo modo, menos pacincia. Dava-lhe cabo do juzo quando algo corria mal com um avio, se atrasavam ou os horrios no eram 
cumpridos. No tinha pacincia para os pequenos truques dos pilotos, obrigando-os a andar na linha e a ser cem por cento fiveis. De outro modo, nunca mais voariam 
para o O'Malley.
       -  melhor teres cuidado, s - dizia-lhe Nick de vez em quando. - Ests a comear a ficar como o Rickenbacker. - Referia-se ao antigo comandante.
       - Podia ser muito pior, Stick, e tu tambm - retorquia Pat, usando a velha alcunha de guerra de Nick.
       A sua histria da guerra era to colorida como a de Pat. Uma vez, Nick tinha enfrentado o famoso piloto alemo Errist Udet, e conseguira corajosamente trazer 
o avio, apesar de estar ferido. Mas tudo isso pertencia ao passado. A nica altura em que Nick pensava na guerra era quando lutava contra as condies climatricas 
ou quando tinha de aterrar um avio sem uma roda. Tivera algumas dificuldades durante os dezessete anos em que trabalhara para Pat, mas nenhuma fora to dramtica 
como as aventuras de guerra.
       Nick recordara-se de uma delas ao fim da tarde, enquanto observava uma tempestade a comear a leste, e mencionou-a a Pat. Tinha sido apanhado numa tempestade 
terrvel, durante a guerra, que o obrigara a voar to baixo para atravessar as nuvens que quase raspara com a barriga do avio no solo. Pat riu-se ao record-lo. 
Zangara-se imenso com Nick por ter voado to baixo, mas Nick conseguira salvar-se a si e ao avio. Dois outros homens tinham-se perdido na mesma tempestade e nunca 
voltaram.
       - Apanhei o maior susto da minha vida - admitiu Nick duas dcadas mais tarde.
       - Se bem me lembro, estavas verde quando chegaste.
       Pat picou-o um pouco enquanto observavam as enormes nuvens negras a juntarem-se  distncia. Nick ainda estava cansado do longo vo at  costa oeste, no 
dia anterior, mas queria acabar de tratar dos papis antes de ir para casa dormir. Quando voltou para o escritrio com Pat, aps verificarem o estado de alguns avies, 
reparou em Chris e Cassie ao longe a conversar. Pareciam embrenhados na conversa e no deram por ele. No conseguia imaginar qual seria o tema da conversa, mas isso 
tambm no o preocupava. Sabia que o tempo estava demasiado ominoso para Chris ir com ele treinar ou fazer um solo.
       Cassie e Chris ainda estavam a conversar quando Nick entrou no escritrio, mas Cassie gritava com o irmo sobre o rudo de alguns motores prximos.
       - No sejas estpido! S temos de subir e descer durante alguns minutos. A tempestade ainda est muito distante. Esta manh ouvi todos os boletins meteorolgicos. 
No sejas to covarde, Chris.
       - No quero voar com este tempo, Cass. Podemos ir amanh.
       - Quero ir agora! - As negras nuvens que passavam sobre as suas cabeas s parecia excitarem-na ainda mais. - Vai ser divertido.
       - No, no vai ser divertido! E, se eu ponho o Jenny em risco, o pai vai ficar furioso comigo. - Tanto ele como Cassie conheciam bem o pai.
       - No sejas parvo! No estamos a arriscar nada. As nuvens ainda esto bem l no alto. Se formos agora, estaremos de regresso dentro de meia hora e  perfeitamente 
seguro.
       Ele olhou-a nos olhos com alguma infelicidade, detestando-a por ser to persuasiva. Sempre lhe fizera isso. De qualquer modo, era a irm mais velha. Ele sempre 
a ouvira e, freqentemente, as suas idias davam mau resultado, especialmente quando o impelia a confiar nela. Cassie era o diabo ousado da famlia, enquanto ele 
era sempre hesitante e cauteloso. Mas Cassie nunca ouvia a voz da razo. Por vezes, era mais fcil ceder do que continuar a discutir. Os seus olhos azuis suplicavam, 
sendo bvio que ela no ia aceitar um no como resposta.
       - S quinze minutos - concedeu ele finalmente com um ar infeliz -, e sou eu que decido quando voltamos. No me interessa se achas que  muito cedo ou se ainda 
no ests satisfeita. Quinze minutos e voltamos.  assim, Cass, ou ento esquece. De acordo?
       - De acordo. S quero ver como  com este tempo.
       Ela parecia uma rapariguinha com namoro novo. Os seus olhos luminosos bailavam.
       - Acho que s louca - disse ele, mal disposto. Mas parecia mais fcil acabar com tudo do que estarem ali a gritar um com o outro at a tempestade desabar.
       Foram at ao local onde o Jenny estava guardado, empurraram-no para fora do hangar e fizeram as verificaes necessrias, saltando depois para os respectivos 
lugares. Cassie sentou-se novamente  frente e Chris atrs, no lugar do instrutor. Em teoria, tal como anteriormente, ela era apenas um passageiro e, como ambos 
tinham comandos, ningum podia ver quem estava a pilotar.
       Alguns minutos mais tarde, Nick ouviu o rudo de um avio por cima dele, mas no prestou muita ateno. Pensou que era algum louco a tentar chegar a casa 
antes que a tempestade desabasse. Pela primeira vez, o problema no era seu. Todos os seus pilotos estavam pousados nos locais que Nick determinara, depois de ouvir 
o boletim noticioso meia hora antes. Mas ao ouvir o barulho podia ter jurado que estava a ouvir o Jenny. Parecia impossvel, contudo foi at  janela e ento viu-os. 
Descortinou o cabelo ruivo de Cassie no lugar da frente e Chris logo atrs. Este estava a pilotar o avio, ou pelo menos assim parecia, e o vento batia-lhes com 
tanta fora que quase parecia arrast-los depois da descolagem. Estavam a voar a uma velocidade surpreendente; depois, Nick viu-os subir drasticamente, devido provavelmente 
a uma sbita rajada. Observou-os, espantado, incapaz de acreditar que Chris tivesse sido to corajoso e to louco para descolar com uma tempestade de vento como 
aquela. Quase no momento em que desapareceram numa nuvem, Nick reparou na chuva que caa como se algum no cu tivesse aberto uma torneira.
       - Merda! - murmurou ele para si prprio, enquanto se apressava a sair para verificar o lugar onde estivera o Jenny, mas no conseguia distinguir nada. A tempestade 
estava a mover-se rapidamente, com ventos aterradores e relmpagos. Alguns minutos mais tarde, estava encharcado e no havia qualquer sinal de Chris ou Cassie.
       Chris lutava com os controles  medida que ganhavam altitude, e Cassie tinha-se virado para lhe gritar alguma coisa, mas, com a tempestade e o barulho do 
motor, no a conseguia ouvir.
       - Deixa-me lev-lo! - gritava ela. Finalmente, Chris compreendeu quando ela fez sinais gestuais. Abanou a cabea, mas ela continuou a acenar-lhe, sendo bvio 
que ele estava a ser rapidamente superado pelas foras da Natureza. A fora do vento e da tempestade eram demasiadas para si, enquanto o avio estava a ser atirado 
para um lado e para outro como um brinquedo nas mos de uma criana, devido  sua falta de percia. Ento, sem lhe dizer uma palavra, Cassie virou a ateno para 
os controles e com fora pura superou-o e assumiu-os. Comeou a pilotar o avio com as suas fortes mos sobre os controles e, dentro de alguns instantes, apesar 
dos ventos ferozes, o avio quase tinha estabilizado. Nessa altura, Chris parou de lutar com ela e, quase em lgrimas, deixou cair as mos dos controles, permitindo 
que a irm pilotasse. Talvez esta soubesse menos do que ele, mas parecia ter uma relao com o avio  qual ele nem perto chegava. Chris sabia que, nas suas mos, 
quase decerto seriam destrudos. Talvez nas mos de Cassie houvesse mais esperana. Por um instante, fechou os olhos e rezou, desejando no ter sido convencido a 
levantar vo durante uma tempestade.
       Estavam ambos encharcados na carlinga aberta. Quanto ao avio subia e descia devido s rajadas aterradoras. Caam cerca de trinta metros e subiam outra vez, 
se bem que mais devagar. Era como cair de um edifcio e depois gatinhar outra vez para cima para cair novamente como se fosse um boneco de papel. As nuvens estavam 
quase negras enquanto Cassie lutava com a alavanca de comando, mas parecia sentir a altitude instintivamente. Tinha um sentido  estranho sobre a maneira como o avio 
cooperava e parecia funcionar em conjunto com o avio para chegar aonde queria. Mas j no faziam idia de onde estavam, qual a distncia percorrida e qual altitude 
a que se encontravam. O altmetro  avariara. Cassie tinha alguma idia, mas ver o solo tornara-se completamente impossvel. A linha de nuvens que se movia a uma 
rapidez incrvel tinha-os desorientado completamente.
       - Estamos bem - gritou ela encorajadoramente para Chris mas este no conseguia ouvi-la. - Vai estar tudo bem - continuava ela a dizer consigo prpria,  comeando 
depois a falar com o prprio Jenny, como se o pequeno avio conseguisse seguir as suas instrues. Tinha ouvido falar sobre alguns truques do pai e de Nick, e sabia 
que havia um que os tiraria desta confuso se, antes disso, a tempestade no os matasse. Tinha de confiar nos seus instintos e estar muito, muito segura... Cassie 
falava consigo prpria enquanto comeava a descer dramaticamente. Andava  procura da parte mais baixa das nuvens, contando encontr-la antes de tocarem o solo. 
Mas tivesse demasiado baixa e ela descesse muito depressa ou se perdesse o controlo por um nico momento... Chamava-se corrida rpida... Morreriam. Era to simples 
como isso; ambos o sabiam  medida que o pequeno Jenny descia em direo ao solo, to depressa quanto Cassie o permitia. Enquanto voavam atravs daquela escurido 
molhada, a velocidade era aterrorizadora e o som do vento ensurdecedor. Parecia estarem a cair num buraco sem fundo pleno de sons horrveis e sentimentos assustadores. 
Subitamente antes de os poder ver, ela sentiu a linha das rvores, o solo e o aeroporto. Puxou a alavanca com fora e levantou o avio mesmo antes de ele atingir 
as rvores. Por alguns momentos, perderam-se novamente nas nuvens, mas sabia agora onde estavam e como chegar ao aeroporto. Fechou os olhos por um segundo para sentir 
onde estava e a que velocidade podia descer e viu de novo as rvores.
       Desta vez, o avio estava completamente sob controlo. Entrou a rasar as rvores, com o vento a soprar nas asas, as quais foram quase derrubadas. Subiu e circulou 
novamente o aeroporto, perguntando a si prpria se conseguiriam aterrar ou se seria impossvel devido  fora de ventos imprevisveis. Cassie no tinha medo. Estava 
apenas a pensar com calma. Depois viu-o. Era Nick a acenar freneticamente com os braos. Tinha visto a manobra: atravessar as nuvens e quase atingir o solo. Estava 
a menos de quinze metros do cho. Ele correu para o stio onde ela deveria estar e tentou sinaliz-la na pista mais longnqua. Naquele local, o ngulo do vento era 
menor, o que lhe permitiria fazer uma aterragem de cortar a respirao. O pequeno Jenny guinchou durante todo o percurso da pista, o vento batia-lhes com fora nas 
faces, e Cassie cerrou tanto os dentes que lhe doa o rosto. Tinha o cabelo colado  cabea e as mos dormentes de agarrar a alavanca. Chris estava sentado atrs 
dela com os olhos fechados. Balanaram bastante quando atingiram o solo, e Chris abriu os olhos. No conseguia acreditar que ela houvesse conseguido aterrar e tivera 
a certeza de que iam morrer. Ainda estava em choque quando Nick chegou perto deles e fisicamente o arrastou do avio, enquanto Cassie ficou sentada a tremer.
       - Que raio  que vocs estavam a tentar fazer? Suicidar-se ou bombardear o aeroporto?
       Tinham rasado o telhado na descida, mas Cassie havia decidido que esse era o menor dos seus problemas. Ainda estava espantada por os ter conseguido trazer 
e teve de lutar para reprimir um sorriso de alvio. Assustara-se bastante e, no entanto, parte dela permanecera tranqila. Tudo o que conseguia fazer era pensar 
numa maneira de sair dali e falar com o pequeno avio.
       - Esto loucos? - Nick estava a abanar o rapaz e a olhar para ela espantado, quando Pat chegou a correr ao aeroporto
       - O que se est a passar? - gritou ele a todos, enquanto o vento o fustigava. Cassie comeou a preocupar-se com o avio; no queria que ele se virasse e se 
danificasse enquanto eles estavam ao vento na pista.
       - Estes teus dois loucos foram dar uma voltinha no meio desta tempestade. Acho que esto a tentar matar-se ou destruir os teus avies. No tenho a certeza 
qual, mas penso que deviam levar um pontap no rabo. - Nick estava to furioso que mal conseguia falar, e Pat no podia acreditar no que estava a ver.
       Olhou para Chris com a mais inacreditvel expresso de espanto.
       - Vocs saram no meio disto? - referia-se ao tempo e no ao avio como Chris j entendera.
       - Eu... eu pensei que conseguamos subir e descer logo... e... - S lhe apetecia chorar e dizer: Mas, pai, a Cassie obrigou-me, tal como fizera em criana. 
No entanto, no disse uma palavra, pois o pai estava a tentar esconder o orgulho que sentia dele. O mido tinha coragem e era um piloto dos diabos.
       - E aterraram no meio disto? No sabes como  perigoso voar com este tempo? Podiam ter morrido. Pat no conseguia esconder o orgulho na voz, pois era algo 
que o ultrapassava.
       - Eu sei, pai. Desculpe.
       Chris estava a lutar para no chorar, mas Cassie observava o rosto do pai. Ela sabia muito bem o que vira ali. Era puro orgulho nas proezas do filho. Deveria 
ser para ela, mas foi para Chris porque ele era rapaz. Era assim que as coisas funcionavam e sempre tinham funcionado. Fosse o que fosse que ela fizesse na vida, 
sabia que tinha de o fazer sozinha e no para ele, porque o pai nunca o compreenderia ou lhe daria crdito. Para o pai, ela era apenas uma rapariga e sempre o 
seria.
       Pat virou-se ento para olhar para Cassie quase como se conseguisse ouvi-la pensar. Depois olhou novamente para o filho com um ar zangado.
       - Nunca devias t-la levado no meio desta tempestade.  demasiado perigoso para os passageiros estar no ar com ms condies climatricas. Tu prprio no 
devias ter subido. Mas nunca leves um passageiro com um tempo como este.
       Ela era algum a proteger, mas nunca admirada. Era o seu destino e sabia-o.
       - Sim senhor.
       Os olhos de Chris estavam rasos de lgrimas quando o pai olhou para o avio e para o filho com um ar espantado.
       - Vai guard-lo.
       E com isso, afastou-se, ficando Nick a observar Chris e Cassie a empurrar o avio. Chris parecia to abalado que mal conseguia falar; Cassie, porm, estava 
calma enquanto tirava a gua da chuva do avio e verificava o motor. O irmo apenas olhou para ela zangado, depois foi-se embora determinado a nunca lhe perdoar 
por quase o ter morto. Nunca esqueceria como tinham estado perto da morte e tudo devido a um dos seus caprichos. A irm era completamente louca e tinha-o provado.
       Ela arrumou as ltimas ferramentas, mas ficou surpreendida quando se virou e viu Nick em p mesmo atrs dela. Estava com um ar muito semelhante ao da tempestade 
que ela acabara de atravessar. O irmo tinha partido, e o pai estava  espera deles dentro do aeroporto.
       - Nunca mais faas isso! Es uma louca e podias ter morrido. Aquele pequeno truque s funciona de vez em quando para os grandes pilotos e normalmente nem para 
eles. Nunca mais funcionar para ti, Cass. No experimentes.
       Contudo, tinha resultado com ele mais do que uma vez h alguns anos atrs. Pat observara-o e tinha ficado to furioso como Nick estava agora. Os seus olhos 
pareciam ao a olhar para ela. Estava furioso, mas havia mais qualquer coisa. Quando reparou nisso, o corao de Cassie deu um pequeno salto. Era o que ela sempre 
desejara de Pat e sabia que nunca o teria: admirao e respeito. Era tudo o que queria.
       - No sei a que te referes!
       Desviou o olhar. Agora que estava com os ps em terra, sentia-se esgotada. A excitao j quase desaparecera e o que sentia agora era a ressaca do terror 
e a exausto.
       - Sabes muito bem a que me refiro - gritou-lhe ele, agarrando-lhe num brao. O cabelo negro caa-lhe sobre o rosto. Tinha estado a olhar para o avio, desejando 
que ela entrasse, que ela encontrasse o buraco nas nuvens para o conseguir. No conseguiria suportar perder os dois. V-los morrer por causa de uma brincadeira... 
Na guerra no tinham escolha. Mas agora era diferente. Era completamente irracional.
       - Larga-me! - Estava zangada com ele. Estava zangada com todos. O irmo ficara com os louros e no sabia nada sobre pilotagem. O pai estava obcecado com ele 
e no conseguia ver mais nada. Nick pensava saber tudo. Era o clube secreto. Tinham todos os brinquedos e nunca a deixavam brincar. S servia para abastecer os avies, 
trabalhar nos motores e ficar com leo e gordura no cabelo, mas nunca para pilotar os aeroplanos. - Deixa-me em paz! -. gritou-lhe ela. Nick agarrou-lhe o outro 
brao. Nunca a vira assim e no sabia se lhe devia bater ou abra-la.
       - Cassie! Eu vi o que fizeste l em cima! - Ainda estava a gritar com ela. - Eu no sou cego! Sei que o Chris no consegue pilotar assim. Sei que eras tu 
que estavas aos comandos, mas s louca. Podias ter morrido... No podes fazer isso...
       Ela olhou-o com um ar to infeliz que o seu corao se juntou ao dela. Tinha desejado dar-lhe uma surra por quase ter morrido e agora, em vez disso, sentia 
pena dela. Percebia agora o que a jovem desejava e at que ponto iria para o conseguir.
       - Cassie! Por favor... - Continuou agarrado aos seus braos e puxou-a para si. - Por favor... Nunca mais faas uma coisa destas. Eu prprio te ensinarei. 
Prometo. Deixa o Chris. No lhe faas isso. Eu ensino-te. Se o desejas to desesperadamente, f-lo-ei.
       Nick segurava-a perto de si, embalando-a como a um beb e grato por ela no ter morrido devido a uma brincadeira louca, mas ousada. Sabia que no conseguiria 
suportar esse desgosto. Olhou para ela com um ar infeliz e manteve-a perto de si. Estavam ambos muito abalados com o que acontecera. Ela apenas abanava a cabea. 
Sabia que era impossvel. Era a nica maneira de conseguir voar.
       - O meu pai nunca vai deixar que me ensines, Nick - disse num lamento, deixando de negar que fora ela a aterrar o avio. Nick sabia a verdade. j no havia 
razo para lhe mentir. Tinha sido ela.
       - Eu no disse que ia pedir-lhe, Cass. S afirmei que o faria, mas no aqui. - Ele sorriu-lhe e entregou-lhe uma toalha lavada para secar o cabelo. - Pareces 
uma ratazana afogada.
       - Pelo menos no tenho leo na cara, para variar - replicou ela timidamente. Sentia-se mais perto dele do que nunca... e diferente. Estava a secar o cabelo 
quando o olhou de novo. No conseguia acreditar no que estava a ouvir. - O que queres dizer com aqui no? Para onde iramos?
       Subitamente sentiu-se adulta e fazendo parte de uma conspirao. Algo mudara entre eles de uma maneira muito subtil.
       - Existem vrias pistas para onde podemos ir. Pode no ser fcil, mas podes apanhar a camioneta para Prairie City, depois da escola, e eu posso encontrar-me 
contigo l. Entretanto, talvez o Chris possa deixar-te l durante o Vero a caminho do trabalho. Creio que ele prefere fazer isso a arriscar a vida vrias vezes 
por semana para voar contigo. Eu preferiria.
       Cassie sorriu. Pobre Chris. Tinha-lhe pregado o susto da sua vida e sabia-o. Tinha parecido uma idia muito boa e durante alguns minutos fora divertido. Depois 
tornara-se a coisa mais assustadora que ela jamais fizera e tambm a mais excitante.
       - Ests a falar a srio? - Estava espantada, mas, de fato, ambos estavam. Ele prprio sentia-se um pouco surpreendido com a oferta que fizera.
       - Acho que sim. Nunca pensei fazer algo deste tipo, mas acho que algumas instrues te mantero afastada de muitos problemas. Depois, quando j voares como 
uma pessoa respeitvel... - Olhava-a fixamente. - Talvez possamos falar com o Pat e ver se te deixa voar aqui. Ele  capaz de o permitir. Tem de ser capaz.
       - No acho que o permita - retorquiu ela com um ar lgubre quando saram para a chuva para ir ter com o pai ao escritrio. Ento, mesmo antes de l chegarem, 
novamente ensopados, a rapariga parou e olhou para Nick com um sorriso que lhe derreteu a alma. Ele no queria ter tais sentimentos em relao a ela e isso assustou-o. 
Todavia, tinham passado por muito naquela noite e tudo os tinha aproximado.
       - Obrigada, Nick.
       - No tens de qu. E farei o que prometi.
       O pai estrangul-lo-ia se soubesse das lies. Passou a mo pelo cabelo molhado e encaminhou-a at ao escritrio do pai. Chris estava com um ar abalado e 
cinzento, e o pai acabara de dar-lhe um gole de brande.
       - Ests bem, Cass?
       Pat olhou para ela, mas viu que a filha no estava com mau aspecto, ao contrrio do irmo. A responsabilidade e a aterragem no aeroporto eram dele. Pelo menos 
era isso o que o pai pensava e Chris no lhe tinha dito o contrrio.
       - Estou bem, pai - assegurou ela.
       - s uma rapariga muito corajosa - retorquiu Pat com admirao, mas no com a admirao suficiente.
       S Nick a tinha compreendido. Nick que tinha concordado em dar-lhe aquilo com que ela sempre sonhara. O seu sonho tornara-se realidade e estava subitamente 
contente por ter subido no meio de uma tempestade, mesmo tendo corrido um enorme risco. Vistas bem as coisas, talvez tivesse valido a pena.
       Pat levou Chris e Cassie para casa, onde a me os esperava. Assim que se sentaram para jantar, o pai contou toda a histria a Oona. Ou aquilo que ele pensava 
ser toda a histria: como Chris fora extraordinrio, como tinha voado por mero instinto e fora e, depois da parvoce inicial de levantar vo no meio de uma tempestade, 
os tinha trazido para casa em segurana. O pai estava to orgulhoso dele que Chris nada disse. Apenas se dirigiu ao quarto, deitou-se na cama e chorou, com a porta 
fechada.
       Algum tempo depois, Cassie foi v-lo. Bateu  porta durante muito tempo. Finalmente, ele deixou-a entrar com um olhar que combinava angstia e fria.
       - O que  que queres?
       - Pedir-te que me desculpes por te ter assustado e quase nos termos matado. Desculpa, Chris. No devia t-lo feito.
       Podia agora dar-se ao luxo de ser magnnima. Agora que Nick concordara com o que ela sempre desejara.
       - Nunca mais subo num avio contigo - disse ele com ar amuado, olhando para ela como um irmo muito mais novo que tinha sido usado e trado por uma irm mais 
velha, mais esperta.
       - No precisas - afirmou Cassie calmamente, sentada  beira da cama a olh-lo. 
       - Vais desistir de voar? - Nunca acreditaria nisso.
       - Talvez... por agora... - Encolheu os ombros como se isso no tivesse importncia, mas ele conhecia-a bem.
       - No acredito.
       - Depois verei. Agora no tem importncia. S queria pedir-te desculpa.
       - E devias - atacou ele rapidamente, recuando logo depois, tocando-lhe o brao. - De qualquer modo, obrigado... por nos teres salvo l em cima. Cheguei a 
pensar que estvamos condenados.
       - Eu tambm - sorriu ela, excitada. - Durante algum tempo, pensei igualmente que tudo estava acabado. - Riu-se novamente.
       - Sua louca! s um piloto incrvel, Cass. Um dia ters de aprender a srio e no fazer todas estas coisas nas costas do pai. Ele tem de te deixar voar. s 
dez vezes melhor piloto do que eu jamais serei. Aposto que s to boa como ele - afirmou Chris com admirao.
       - Duvido, mas tu ficas bem. Es um bom piloto, Chris. No queiras  fazer coisas muito difceis.
       - Claro! Obrigado! - Ele sorriu-lhe j sem vontade de a matar. - Eu lembrar-te-ei isso na prxima vez que quiseres levar-me e matar-me.
       - No o farei durante algum tempo - afirmou ela angelicamente, mas o irmo conhecia-a.
       - O que se passa? Ests a aprontar alguma, Cass.
       - No, no estou. Vou portar-me bem... por algum tempo...
       - Deus nos ajude! Avisa-me quando decidires enlouquecer de novo. Afastar-me-ei do aeroporto. Acho que tambm devias fazer isso durante uns tempos. Ia jurar 
que aqueles fumos todos te subiram  cabea.
       - Talvez - disse ela com um ar sonhador.
       No entanto, era mais do que isso e sabia-o. Tinha aqueles gases no sangue e sabia, melhor do que nunca, que jamais lhes escaparia.
       Bobby Strong apareceu nessa noite depois de jantar. Ficou horrorizado quando ouviu a histria de Pat e furioso com Chris quando o viu.
       - A prxima vez que levares a minha mida e quase a matares, ters de me prestar contas - disse ele para grande espanto de Chris e Cassie. - Foi uma coisa 
muito parva e tu sabe-lo.
       Chris teve vontade de lhe contar que Cassie o tinha desejado e muitas outras coisas que no podia referir.
       - Claro - murmurou vagamente o irmo mais novo enquanto voltava para o quarto. Eram todos doidos: Bobby, Cass, o pai e Nick. Nenhum sabia a verdade, nenhum 
sabia de quem era a culpa. O pai pensava que ele era um criminoso e Cassie tinha-os enganado a todos. Mas apenas Cassie sabia a verdade e agora tambm Nick desde 
que lhe prometera lies de pilotagem.
       Nessa noite, Bobby repreendeu-a sobre os perigos da aviao, a sua inutilidade e o disparate que era. Disse que as pessoas envolvidas eram imaturas e que 
brincavam como se fossem crianas. Esperava que com os acontecimentos dessa noite ela tivesse aprendido a lio e que no futuro tentasse ser mais racional sobre 
as suas estadas no aeroporto. Explicou-lhe que esperava isso dela. Como  que ela poderia esperar ter um futuro se passava a vida coberta de gordura e leo, estando 
disposta a arriscar a vida numa aventura selvagem com o irmo? Alm disso, era uma rapariga e isso no era decente.
       Tentou concordar com ele porque sabia que Bobby lhe queria bem, mas ficou aliviada quando este partiu. Nessa noite, deitada na cama a ouvir a chuva, s conseguia 
pensar no que Nick lhe tinha prometido e no momento em que voariam juntos. Mal conseguia esperar. Esteve acordada durante horas a pensar no assunto e a recordar-se 
da sensao do vento no rosto enquanto descia pelas nuvens no Jenny  procura das rvores,  espera de fugir mesmo antes de tocar o solo, depois subirem e finalmente 
aterrarem em segurana. Tinha sido um dia extraordinrio e ela sabia que, dissessem o que dissessem sobre o perigo e a indecncia, nunca abdicaria de voar. Por nenhum 
deles. Era simplesmente impossvel.

CAPTULO 4
       Trs dias aps a tempestade que acabara por se transformar num tornado a vinte quilmetros de Blandinsville, Cassie levantou-se, fez as suas tarefas habituais 
e quando estava para sair disse  me que ia  biblioteca, depois iria visitar uma colega que se tinha casado nessa Primavera e que esperava o primeiro filho. Depois 
iria at ao aeroporto. Tinha embrulhado uma ma e um sanduche num saco de papel e retirara um dlar das suas poupanas, escondendo-o no bolso. No tinha a certeza 
do preo do bilhete da camioneta, mas queria estar certa de que possua o suficiente para chegar a Prairie City. Prometera encontrar-se com Nick ao meio-dia e, enquanto 
caminhava para o terminal de camionetas sob o sol de Vero, arrependeu-se de no ter posto um chapu, mas sabia que se o tivesse feito a me teria suspeitado. Ela 
nunca usava chapu.
        medida que caminhava, parecia uma rapariga alta que ia ter com os amigos. Aparentava a idade que tinha, mas era extraordinariamente bonita. Ainda mais bonita 
do que a me: mais alta e mais magra e com uma figura imponente. Mas a sua aparncia era algo com que Cassie nunca se preocupava. O aspecto era para aquelas raparigas 
que no tinham mais nada nas cabeas, ou como as irms que queriam casar e ter filhos. Cassie sabia que queria filhos ou, pelo menos, pensava que os queria, no entanto, 
desejava primeiro muitas outras coisas que provavelmente nunca obteria, como excitao, liberdade e voar. Adorava ler histrias sobre mulheres aviadoras e lia tudo 
o que podia sobre Amelia Earhart e Jackie Coclran. Tambm lera We, de Lindbergh, que narrava o seu solo sobre o Atlntico em 1927, e o livro da esposa do famoso 
aviador, North to the Orient, que sara no ano anterior. Lera ainda o livro de Earhart, The Fun of It. Todas as mulheres aviadoras eram as suas heronas. Perguntava 
freqentemente a si prpria por que razo elas tinham podido realizar aquilo com que ela apenas podia sonhar. Mas talvez agora com a ajuda de Nick, se ela pudesse 
voar, se pudesse levantar vo como tinha feito com Chris, conseguisse pairar preguiosamente pelos ares para sempre.
       Estava to perdida nos seus pensamentos que quase perdeu a camioneta, tendo de correr para a apanhar. Ficou aliviada por verificar que no havia ningum conhecido. 
A viagem de quarenta e cinco minutos at Prairie City naquela camioneta dilapidada decorreu calmamente, e o bilhete s custara quinze cntimos. Passou toda a viagem 
a divagar sobre as lies.
       Desde a paragem da camioneta at  pista era uma longa caminhada, mas Nick dissera-lhe exatamente como l chegar. Presumira que ela conseguiria uma boleia 
de algum. Nunca lhe passara pela cabea que Cassie iria caminhar os ltimos quatro quilmetros para ir ter consigo. Quando chegou, estava cheia de calor, suada 
e coberta de p. Ele estava calmamente sentado numa rocha a beber uma soda com o Jenny estacionado no final da pista deserta. No estava mais ningum. Apenas os 
dois. Era uma pista ocasionalmente usada por pulverizadores de colheitas, portanto pouco utilizada, mas estava em bom estado. Nick sabia que era o lugar ideal para 
as lies.
       - Ests bem? - Olhou para Cassie com um ar paternal, enquanto ela tirava o seu brilhante cabelo ruivo do rosto e o prendia no pescoo. O sol estava trrido. 
- Pareces vir do inferno. Toma! Bebe alguma coisa. - Nick deu-lhe uma Coca-Cola, olhando-a com admirao enquanto ela bebia um longo trago. Tinha um pescoo longo 
e gracioso e a sua brancura sedosa lembrava-lhe mrmore cor-de-rosa. Era uma rapariga vistosa e, ultimamente, havia momentos em que quase desejava que ela no fosse 
filha de Pat. Todavia, estava sempre a dizer a si prprio que no lhe serviria de nada. Tinha trinta e cinco anos e ela dezessete, o que no fazia dela uma presa 
justa para um homem da sua idade. Porm, era tentador.
       - O que  que tu fizeste, minha palerma? - perguntou ele aliviando a tenso do momento. Era estranho estar ali, os dois sozinhos na sua misso secreta. - 
Vieste a p desde Good Hope?
       - No - respondeu ela com um sorriso. - S de Prairie City. Isto  mais longe e mais quente do que eu pensava.
       - Desculpa - disse ele. Sentia-se mal por a ter trazido para to longe, mas parecera o local perfeito para os seus encontros com o avio do pai e para as 
lies secretas.
       - No faz mal - sorriu ela, bebendo outro gole da sua Coca-Cola. - Valeu a pena.
       Nick conseguia facilmente ler nos seus olhos o quanto tudo significava para ela. Era louca por avies e completamente apaixonada pela aviao. Exatamente 
como ele fora na sua idade, arrastando-se de aeroporto em aeroporto, feliz por nada fazer exceto estar junto de avies e ter uma oportunidade de os pilotar de vez 
em quando. A guerra fora como um sonho realizado, voando no 94.0 com homens que quase se tinham tornado lendas. Mas Nick tinha pena de Cassie. No seria nada fcil, 
sobretudo se Pat estivesse determinado a impedi-la de voar. Nick esperava que um dia pudesse convenc-lo. Entretanto, ensinar-lhe-ia as coisas mais importantes para 
que ela no se matasse a tentar realizar truques loucos ou fugir com o irmo. Ainda tremia quando pensava nela a voar pelas nuvens, h trs dias atrs, quase a rasar 
o solo e a movimentar-se como uma bala. Pelo menos, agora, passaria a saber o que fazia.
       - Vamos dar uma volta? - perguntou ele, apontando para o Jenny que ali estava  espera dos seus dois velhos amigos.
       Cassie sentia-se demasiado excitada at para falar,  medida que caminhavam pela pista em direo ao to familiar avio. Tinha-o abastecido milhares de vezes, 
limpo o motor, amorosamente lavado as asas e voado meia dzia de vezes com Chris, que fingia estar a levar a irm num pequeno passeio. Mas o Jenny nunca parecera 
to belo a Cassie como agora. Deram uma volta pelo avio e verificaram o trem de aterragem para ter a certeza de que no tinha ficado danificado na aterragem. Era 
um avio baixo, com grande largura de asas, o que o fazia parecer maior, mas no intimidava Cassie. Ela subiu para o seu lugar e apertou o cinto. Sabia que os cus 
em breve seriam dela e tinha tanto direito a eles como os outros. Depois ningum conseguiria faz-la parar.
       - Tudo a postos? - Nick gritou-lhe ao primeiro rudo do motor.
       Cassie acenou com a cabea, sorrindo, e ele saltou para o assento de trs. Inicialmente seria ele a pilotar o avio e, assim que estivessem no ar, passar-lhe-ia 
os comandos. Desta vez ela no teria de os arrancar das suas mos, tal como fizera com Chris. Desta vez tudo seria claro e, ao deslizarem ao longo da pista, Cassie 
virou-se para o ver. O rosto de Nick era-lhe muito familiar. No entanto, ao olhar para ele agora, sentia-se imensamente feliz, e a nica coisa que lhe apetecia fazer 
era atirar-se ao seu pescoo e beij-lo.
       - O que foi? - Ela disse algo que ele no conseguiu ouvir  primeira. No pensava que se passasse alguma coisa, pois Cassie parecia demasiado feliz para haver 
qualquer problema. Mas ela inclinou-se para que a ouvisse melhor. O seu cabelo negro voava ao vento, os olhos tinham a cor de um cu de Vero e estavam semicerrados 
devido  luz do Sol.
       - Eu disse... obrigada!...
       Ela gritou-lhe com os olhos to cheios de alegria que lhe tocou o corao. Apertou-lhe gentilmente o ombro e Cassie virou-se novamente para a frente, colocando 
as mos nos comandos. Mas desta vez no havia dvida sobre quem estava a pilotar. Era Nick.
       Este empurrou a alavanca do acelerador para a frente e usou os pedais da direo. Momentos mais tarde, levantaram suavemente da pista, elevando-se no ar e, 
enquanto o faziam, Cassie sentia o corao a pairar nos ares com o velho Jenny. Sentia a mesma excitao sempre que descolava. Estava a voar!
       Ele comeou uma curva para se afastar da pequena pista, rolou as asas para estabilizar o avio e tocou no ombro de Cassie. Esta olhou e Nick indicou-lhe que 
assumisse o controlo do avio. Ela acenou com a cabea e, quase como por instinto, Cassie apossou-se dos comandos. Sabia o que era necessrio fazer e voaram atravs 
de um brilhante cu azul. Parecia que tinha voado toda a vida e, de certo modo, at tinha. Ele estava espantado com a sua habilidade e instintos naturais. Tinha 
apanhado muitos dos truques de Nick e do pai apenas por observao e parecia possuir um estilo prprio surpreendentemente suave e fcil. Apresentava-se completamente 
 vontade aos comandos do pequeno avio, e Nick decidiu apreciar o que ela conseguiria fazer na primeira lio.
       Mandou-a fazer curvas e inclinaes laterais diferentes, movimentando-se para a esquerda e depois para a direita. Ia-lhe a dizer para conservar direita a 
frente do avio para manter altitude, mas ela parecia saber automaticamente que o avio cairia durante as curvas, sem que ele lhe dissesse nada. O seu instinto natural 
para pilotar era inquietante. Ela conservou a alavanca de comando firmemente puxada para trs, e a frente do avio manteve-se levantada como resposta aos seus movimentos.
       Nick mandou-a fazer curvas em S e, usando uma pequena estrada de terra como guia, verificava o modo como ela as fazia e o seu controlo fcil da altitude. 
Ela raramente parecia olhar para os instrumentos e, no entanto, sabia quando era preciso compensar ou elevar-se no cu. Parecia voar primariamente, por instinto 
e viso, o que era um sinal seguro de um piloto natural. Era raro ver algum como Cassie e ele sabia que tinha visto muito poucos durante a vida.
       H algum tempo que estava a voar em crculos  volta de um silo, que haviam detectado numa quinta distante, mas ela queixou-se de que era aborrecido. Porm, 
ele queria verificar a sua preciso. Era cuidadosa, precisa e espantosamente correta, especialmente para algum que poucas vezes tinha pilotado. Finalmente, deixou-a 
tentar um looping e o duplo looping com que ela tinha querido aterrorizar o irmo. Depois, ensinou-a a recuperar de uma perda de altitude, que era bem mais importante. 
Mais uma vez por instinto, ela parecia sab-lo. A sua calma ao perder altitude impressionou-o, quando o Jenny comeou a cair de focinho para baixo em vo picado, 
ora sobre uma asa ora sobre a outra. Mas segundos depois, ela aliviou a presso na alavanca de comando que tinha provocado a perda de altitude e, num movimento completamente 
temerrio, permitiu o mergulho para aumentar a velocidade. Ele tinha explicado como faz-lo, mas a rapariga pareceu no ter qualquer problema na sua execuo nem 
falta de coragem durante o processo. A maioria dos pilotos ficava aterrorizada com a queda e com a sbita gravidade 0. Cassie no temia nenhuma delas e, quando o 
Jenny ganhou velocidade suficiente, empurrou o acelerador, imprimiu-lhe fora de motor e nivelou-o como se se tratasse de uma guia beb, deixando o avio elevar-se 
at ao ponto que ela queria, sem um murmrio.
       Nick nunca ficara to impressionado, tendo-a obrigado a faz-lo novamente para verificar se ela conseguia manter a mesma frieza e reaes rpidas ou se tinha 
sido apenas sorte de principiante. Mas a segunda queda e recuperao ainda foram mais suaves do que a primeira. Levantou o avio novamente de uma perda brusca de 
altitude que at chegara preocup-lo. Ela era boa. Muito boa. Era brilhante.
       Mandou-a fazer alguns oitos, um Immelmann, e o ltimo exerccio do dia foi a recuperao de um parafuso. No era muito diferente de uma queda, mas primeiro 
tinha de usar o pedal de direo direito para induzir a curva para a direita e depois o pedal esquerdo para recuperar. F-lo na perfeio. Nick e Cassie sorriam 
de orelha a orelha quando o avio aterrou. Nunca se tinha divertido tanto, e a sua nica queixa residia no fato de ter querido tentar fazer rolamentos e Nick no 
a ter deixado. Ele achava que ela tinha feito o suficiente para a lio. e disse-lhe que deviam guardar algo para a prxima Tambm queria fazer uma aterragem sem 
motor, a especialidade de Nick,  qual devia a sua alcunha, mas tambm havia tempo para isso. Havia tempo para tudo. Era uma estudante fantstica.
       Nick ficou algum tempo sentado no avio a olhar para ela, incapaz de acreditar no que Cassie tinha aprendido com os anos, s observando. Todas as vezes que 
Pat ou Nick a tinham levado consigo, todos os momentos, todos os gestos e todos os processos tinham sido absorvidos e, de algum modo, ao observ-los, tinha aprendido 
a pilotar. A jovem era realmente aquilo que ele sempre suspeitara: um piloto nato. Algum que nascera para voar e seria um sacrilgio afast-la.
       - Que tal? - Ela virou-se no assento depois de pararem e terem desligado o motor.
       - Horrvel - afirmou Nick, sorrindo, ainda incapaz de acreditar no que vira. Ela tinha um sentido natural da altitude, uma noo incrvel de direo, um instinto 
tanto mental como manual para pilotar o avio, sabendo exatamente o que fizera. - Acho que nunca mais poderia voar contigo - disse para a arreliar, mas o seu rosto 
espelhou tudo o que ela queria saber, o que a fez soltar um grito de alegria no meio da pista silenciosa. Nunca estivera to contente em toda a sua vida. Nick era 
o seu melhor amigo. Proporcionara-lhe o sonho da sua vida e aquilo era apenas o incio. - Tu s boa, mida - referiu ele calmamente.
       Entregou-lhe outra Coca-Cola que trouxera consigo. Ela bebeu um longo trago, saudando-o, e devolveu-a ao seu novo instrutor.
       - Mas no deixes que isso te suba  cabea. Podem ser palavras muito perigosas. Nunca confies demasiado em ti e nunca partas do pressuposto que podes fazer 
tudo o que queres. No podes. Este pssaro  apenas uma mquina e, se a tua cabea subir demasiado alto, o cho ficar muito mais perto e acabars com uma rvore 
entre as orelhas. Nunca te esqueas disso.
       - Sim, senhor. - Ela estava demasiado feliz para ligar aos seus avisos. Sabia o cuidado que devia ter e estava preparada para isso. Mas, acima de tudo, sabia 
que tinha nascido para voar e que, agora, Nick tambm sabia. Talvez um dia ele conseguisse convencer o pai a deix-la voar. Entretanto, aprenderia tudo o que pudesse 
e seria a melhor mulher-piloto do mundo. Melhor do que Jean Batten, Louise Thaden ou qualquer das outras. - Quando poderemos voltar a voar? - perguntou ansiosamente. 
Tudo o que desejava era subir novamente e no queria esperar muito tempo. Por outro lado, Nick pagava o combustvel e ela no queria que isso lhe custasse muito 
caro. Mas, tal como o viciado, queria mais e ele sabia-o.
       - Queres voltar a voar amanh, no queres?
       Sorriu-lhe. Fora exatamente igual quando tinha a idade dela. De fato, tinha praticamente a idade dela quando circulara por todo o pas, depois da guerra, 
tentando encontrar emprego em aeroportos, chegando finalmente a Illinois para voar com o seu velho amigo Pat O'Malley.
       - No sei, Cass. - Nick pensou alguns instantes. - Talvez pudssemos ter outra aula daqui a uns dias. No quero que o Pat comece a pensar porque  que estou 
a sair com o Jenny. Eu no saio com ele muitas vezes.
       Decididamente no queria que Pat suspeitasse deles. Queria que ela tivesse bastantes lies antes de o confrontarem com a sua habilidade, da qual no havia 
dvidas. Era mil vezes melhor piloto do que o irmo e mil vezes melhor do que as pessoas que ele ensinara. Mas era preciso convencer Pat e ambos sabiam que no ia 
ser fcil.
       - No podias dizer-lhe que ests a dar lies a algum aqui? Ele no precisa de saber que sou eu. Terias ento uma desculpa para trazer o avio sempre que 
quisesses.
       - E onde est o dinheiro, minha menina? No quero que o teu pai pense que estou a engan-lo.
       Nick e Pat ficavam com uma percentagem dos rendimentos dos avies de cada um, quando Nick aceitava charters ou dava lies em horrios que poderia ter usado 
ao servio do Aeroporto O'Malley. Cassie estava um pouco desmoralizada.
       - Talvez eu pudesse pagar-te... das minhas poupanas... - Estava a ficar seriamente preocupada, e Nick tocou-lhe no brilhante cabelo ruivo, fazendo-lhe uma 
festa.
       - No te preocupes. Consigo traz-lo. Teremos muitas mais lies.
       Cassie sorriu-lhe e o seu corao deu um pequeno salto. Era todo o pagamento que Nick desejava.
       Ajudou-a a sair do avio e reparou que havia uma rvore frondosa ali perto.
       - Trouxeste alguma coisa para comer? - Ela anuiu com a cabea e foram-se sentar debaixo da rvore. Cassie partilhou o sanduche com ele, que partilhou a Coca-Cola. 
Nick bebia muita Coca-Cola e, ao contrrio de Pat que gostava de um bom usque de vez em quando, Nick nunca bebera muito. Passava demasiado tempo no ar para poder 
dar-se ao luxo de consumir bebidas alcolicas. Estava sempre a ser arrastado da cama devido a uma emergncia ou a um vo especial de correio ou para transporte de 
carga de longa distncia com destino ao Mxico ou Alasca. Nunca poderia ter pilotado se estivesse inesperadamente bbedo ou de ressaca. Pat tambm era cuidadoso. 
Nunca bebia quando sabia que ia voar.
       Falaram durante muito tempo sobre aviao e sobre a famlia e o quanto a ltima tinha significado para ele, quando chegara a Illinois. Disse que tinha vindo 
de Nova Iorque apenas para trabalhar com o pai dela.
       Foi muito bom para mim durante a guerra. Eu era um mido e louco. Fico feliz por nunca teres de entrar numa situao de combate, a trinta mil metros, com 
uma srie de alemes malucos. Parecia um jogo e, por vezes, era difcil lembrarmo-nos de que era real. Era demasiado excitante.
       Os seus olhos brilhavam enquanto falava. Para muitos deles, tinha sido a altura perfeita e tudo o que acontecera depois no tinha comparao. Cassie achava 
que o pai sentia do mesmo modo e suspeitava que se passava o mesmo com Nick.
       Deve fazer com que tudo o resto parea tremendamente aborrecido. Pilotar o Jenny ou as entregas de carga na Califrnia no Handley no podem ser realmente 
estimulantes.
       - No, no so. Mas  confortvel.  onde preciso de estar. Nunca me sinto to bem quando estou em terra, Cass, por muito louco que parea. A minha vida  
no ar. - Ao diz-lo olhou para o cu. -  o que eu fao bem. - Suspirou, inclinando-se contra o tronco da rvore sob a qual estavam sentados. - No sou to bom no 
resto das coisas.
       - Como por exemplo? - perguntou curiosa. Conhecia-o desde que nascera, mas ele sempre a tinha tratado como uma criana. Agora que partilhavam um segredo, 
pela primeira vez, pareciam quase iguais.
       - No sei. No sou muito bom no que diz respeito ao casamento, s pessoas e aos amigos, a no ser outros pilotos e fulanos com quem trabalhei.
       - Foste sempre espetacular conosco. - Ela sorriu-lhe inocentemente e Nick ficou maravilhado por ver como era bom ter dezessete anos.
       - Isso  diferente. Vocs so a minha famlia. Mas no sei... Por vezes  difcil relacionarmo-nos com as pessoas que no voam. Dificilmente as compreendo, 
e os outros no me compreendem a mim. Especialmente as mulheres.
       Nick sorriu. Isso no o incomodava. A sua vida era assim e estava satisfeito com ela. Havia gente da terra, os que estavam confinados  Terra de corpo e alma, 
e havia os outros.
       - E o Bobby? - perguntou ele inesperadamente. Sabia do namorado. Vira-o freqentemente l em casa quando visitava Pat ou quando era convidado para jantar. 
- O que acharia ele da tua paixo pelos avies? Tu s boa, Cass. Se aprenderes como deve ser, podes mesmo conseguir. - Mas conseguir o qu? Esse era o problema. 
O que pode uma mulher fazer, a no ser bater recordes? - Que diria ele? - insistiu Nick.
       - O que toda a gente diz. Que eu sou maluca. - Cassie riu-se. - Mas no sou casada com ele, sabes!  apenas um amigo.
       - No ser apenas um amigo para sempre. Mais cedo ou mais tarde, ele querer ser muito mais. Pelo menos  isso que o teu pai pensa. - Era o que toda a gente 
pensava e ela sabia-o.
       - Sim? - A sua voz ficou subitamente gelada, e Nick sorriu perante o seu ar cerimonioso.
       - No te atrevas a armar-te em fria comigo. Sabes o que quero dizer. Vai ser um pouco estranho se quiseres ser outra Earhart. Ters de saber viver com isso 
e nem sempre  fcil.
       Sabia-o muito bem. Conhecia muitas coisas que subitamente quis partilhar com ela. A nova dimenso da sua amizade excitava-o e assustava-o. No conseguia imaginar 
onde isso os podia levar.
       - Por que razo  assim to importante? - inquiriu ela sem perceber, pensando nas perguntas de Nick sobre Bobby. No faziam sentido. O que haveria de errado 
em gostar de voar?
       - Acho que  muito importante porque  diferente - explicou Nick. - Os homens foram feitos para andar na terra. Se queres passar a vida a voar, eles podem 
achar que deverias ter penas ou simplesmente achar-te estranha. Mas que sei eu?
       Nick sorriu-lhe e esticou as longas pernas. Era divertido falar com Cassie, pois era muito esperta, jovem, viva e exuberante sobre a vida que tinha  sua 
frente. Ele invejava-a. A vida de Cassie estava plena de desafios e novos comeos. Mesmo aos trinta e cinco anos, a maior parte da exuberncia da sua vida parecia 
j pertencer ao passado.
       Acho que as pessoas tm uma atitude estpida em relao aos avies. So apenas avies e ns somos apenas pessoas - disse ela simplesmente.
       - No, no somos - retorquiu. - Nas suas cabeas somos super-heris porque fazemos algo que eles no conseguem e da qual a maioria tem medo. Somos qual domadores 
de lees ou equilibristas.  tudo muito misterioso e excitante, no ?
       Cassie pensou naquilo durante alguns minutos e depois acenou com a cabea e devolveu-lhe a lata de Coca-Cola. Nick deu um gole e acendeu um cigarro, mas no 
lhe ofereceu um. Ela podia estar a aprender a voar, mas ainda no era assim to crescida.
       - Acho que  realmente excitante e misterioso - concedeu ela, enquanto o observava a fumar. - Talvez seja por isso que eu adoro voar. Sabe to bem, sentimo-nos 
livres, vivos, to...
       No conseguia encontrar as palavras corretas e Nick sorriu. Sabia exatamente o que ela queria dizer. Ainda sentia o mesmo. Cada vez que o seu avio descolava, 
fosse qual fosse o que estava a pilotar no momento, sentia sempre a mesma sensao selvagem de liberdade. Fazia com que tudo o resto parecesse brando e desinteressante. 
Tinha afetado toda a sua vida, tudo o que fizera, tudo o que vira e tudo o que desejara fazer. Alterara todas as suas relaes e um dia afetaria as dela. Nick sentia 
que a devia avisar disso, mas no sabia exatamente como o dizer. Ela era muito jovem, cheia de esperana, e parecia quase um erro avis-la'.
       - Mudar a tua vida, Cass. - Foi tudo o que conseguiu dizer. - Tem cuidado.
       Cassie acenou com a cabea, pensando que compreendera, mas, de fato, tal no acontecera.
       - Eu sei - afirmou, olhando para ele com uns olhos to sbios que quase o assustaram -, mas  isso que eu quero.  por isso que estou aqui. No sei viver 
sobre a terra como os outros. - Cassie era um deles, estava a dizer-lho, e Nick sabia que era verdade. Por essa razo tinha concordado em ensin-la.
       Nesse dia passaram muito tempo a conversar, e Nick detestou ter de a deixar sozinha para caminhar trs quilmetros at ao lugar onde apanharia a camioneta 
para casa, mas no teve opo. Viu-a afastar-se com um longo aceno e, momentos mais tarde, descolou; fazendo um pequeno parafuso, mostrou-lhe que ia partir. A jovem 
observou-o, durante muito tempo, ainda incapaz de acreditar no que ele tinha feito por ela. Tinha transformado toda a sua vida numa nica tarde e ambos o sabiam. 
Era um empreendimento de coragem para ambos, mas era algo a que nenhum deles conseguia resistir por razes diferentes.
       O longo e quente caminho de regresso  paragem da camioneta pareceu-lhe feito a danar. S conseguia pensar nos feitos que realizara, no toque do avio, e 
finalmente, na expresso dos olhos de Nick. Ele estava orgulhoso dela e isso fazia com que se sentisse muito bem.
       Subiu para a camioneta, fazendo um largo sorriso ao condutor e quase se esquecendo de pagar os quinze cntimos. Quando chegou a casa, era demasiado tarde 
para ir para o aeroporto. Em vez disso, foi ajudar a me e at isso no lhe pareceu to terrvel. Tinha alimentado a sua alma e, fosse qual fosse o preo a pagar, 
valia a pena.
       Nessa noite, esteve calada durante o jantar, mas ningum reparou. Todos tinham algo a dizer. Chris estava muito excitado com o trabalho no jornal, o pai tinha 
conseguido um novo contrato do Governo para transporte de correio, o beb de Colleen nascera na noite anterior e a me queria contar-lhes tudo. Apenas Cassie estava 
estranhamente calada e, no entanto, era ela que tinha as melhores notcias, mas no podia partilh-las.
       Bobby chegou depois de jantar, como era hbito, e conversaram durante algum tempo. Cassie no parecia ter muito para lhe dizer. Estava perdida nos seus pensamentos 
e a nica coisa que realmente lhe disse foi que mal conseguia esperar at ao festival areo. Seria logo depois do 4 de julho desse ano. Bobby nunca assistira, mas 
estava a pensar ir para que Cassie pudesse explicar-lhe tudo sobre os avies. Porm, para ela, a perspectiva de ir com um novato e explicar-lhe tudo no parecia 
muito estimulante. Ela preferia ir com Nick e ouvi-lo. Mas no lhe passava pela cabea que as mudanas tinham comeado. Nessa tarde, lanara-se numa longussima 
e interessante viagem, mas muito solitria.

CAPTULO 5
       As lies continuaram durante todo o ms de julho no mais completo segredo. Mas o festival areo e a exaltao de Cassie com a perspectiva no eram segredo. 
Todos foram assistir: toda a famlia, Nick, alguns dos pilotos do aeroporto, Bobby e a sua irm mais nova. Foi excitante para todos, mas nada era mais importante 
para Cassie do que as lies com Nick. Nem mesmo o Blandinsville Air Show. Em finais de julho, ela j dominava uma impressionante aterragem sem motor. Tambm aprendera 
a rolar, a fazer aberturas, folhas de trevo e outras manobras ainda mais complicadas.
       Cassie era o aluno com que cada instrutor de vo sonhava. Uma esponja humana desesperada para aprender tudo com as mos e mente de um anjo. Ela conseguia 
pilotar quase tudo e, em Agosto, Nick comeou a trazer o Bellanca em vez do Jenny, pois era mais difcil de pilotar e ele queria dar-lhe a oportunidade de ter esse 
desafio. Tambm tinha a velocidade necessria para que aprendesse as manobras e truques mais complicados. Pat ainda no suspeitava e, apesar das demoradas viagens 
de camioneta e do longo caminho a p, as lies de vo eram freqentes e fceis.
       Em Agosto, Cassie e Nick ficaram profundamente consternados quando um dos pilotos que voava para o pai morreu devido a uma falha de motor num vo de regresso 
do Nebrasca. Todos foram ao funeral, e Cassie estava ainda deprimida quando tiveram a lio seguinte. O pai tinha perdido um bom amigo e um dos seus dois DH4. No 
Aeroporto 0'Malley estavam todos profundamente comovidos.
       - Nunca te esqueas que estas coisas acontecem, Cass - recordou Nick calmamente, enquanto se sentavam para almoar debaixo da sua rvore favorita, depois 
de uma lio no ltimo dia de Agosto. Para Cassie, o Vero tinha sido maravilhoso e nunca se sentira, to perto de Nick que era o seu amigo mais querido, o nico 
verdadeiro, e mentor. Pode acontecer a qualquer um de ns. Um mau motor, mau tempo, azar.  um risco que todos ns corremos. Precisas de enfrentar isso.
       - J o fiz - disse ela tristemente, pensando no Vero mais maravilhoso da sua vida que estava quase a acabar. - Mas acho que preferia morrer assim do que 
de qualquer outra maneira. Voar  tudo o que eu desejo, Nick - afirmou firmemente, mas ele j sabia. No era preciso fazer nada para o convencer. j o convencera 
com as suas capacidades, habilidade natural, extraordinria facilidade de aprendizagem e com a sua paixo genuna pelos avies. Nick estava convencido de muitas 
coisas sobre ela.
       - Eu sei, Cass. - Olhou longa e duramente para ela. Cassie era a nica pessoa com quem se sentia verdadeiramente  vontade, para alm de Pat e dos homens 
com quem voava. Era a nica mulher que parecia partilhar a sua viso da vida e os seus sonhos. O fato de ser muito mais nova do que ele e filha do seu melhor amigo 
era puro azar. No havia esperana de alguma vez ser mais do que isso. Mas gostava da sua companhia e de conversar com ela; e ensin-la a voar significara bastante 
para Nick. - O que pretendes fazer com as lies quando comeares as aulas? - perguntou ele quando terminaram de almoar.
       Cassie regressava s aulas no dia seguinte, para o seu ltimo ano de liceu. Parecia difcil acreditar que ela j era uma finalista. Sempre a vira como uma 
rapariguinha, mas agora conhecia-a muito melhor. De muitas maneiras, era mais adulta do que a maioria dos homens que conhecia e era uma grande mulher. No entanto, 
tinha tambm o seu lado infantil. Cassie adorava pregar partidas e arreliar as pessoas, ria-se com facilidade e adorava brincar com ele. De certa maneira, no era 
muito diferente do beb que fora.
       - Que tal aos sbados? - perguntou ela pensativamente, ou domingos?
       Aquilo significava que voariam juntos com menor freqncia, mas pelo menos era alguma coisa. Ambos tinham comeado a contar com aquelas longas horas que passavam 
juntos, a sua f inabalvel nele, a sua confiana em tudo o que Nick dizia e o prazer dele em ensinar-lhe as maravilhas da pilotagem. Era um dom que partilhavam 
e cada um o enaltecia.
       - Aos sbados, posso - afirmou ele decididamente, pois o tom que empregou no deu a entender que alguma coisa o impediria. Ela era agora a sua aluna dileta 
e, para alm disso, eram grandes amigos e parceiros numa amada conspirao que ambos guardavam carinhosamente. Nenhum deles desistiria facilmente nem tencionavam 
faz-lo. - No sei como  que vais caminhar quatro quilmetros at  camioneta quando o tempo piorar.
       Nick preocupava-se, por vezes, com o fato da rapariga ter de caminhar quatro quilmetros, se bem que ela pudesse aborrecer-se com semelhante preocupao. 
Era um esprito independente e estava convencida que podia lidar com tudo. Mas s de pensar nela sozinha numa estrada de campo, Nick ficava bastante nervoso.
       - Talvez o pai ou o Bobby me possam emprestar o caminho...
       Nick acenou com a cabea, mas pensar em Bobby tambm o irritava. Sabia que no tinha o direito de colocar objees a qualquer dos pretendentes de Cassie, 
contudo Bobby no parecia ser a pessoa certa para Cassie. Era to enfadonho e to agarrado  terra!
       - Sim, talvez - disse ele descomprometidamente, lembrando-se que tinha o dobro da idade dela e Bobby no.
       - Eu resolvo. - Ela sorriu-lhe sem mostrar qualquer preocupao. Era difcil no ficar encantado com a sua beleza.
       Ambos perguntavam a si prprios como conseguiriam continuar a encontrar-se numa pista deserta para as lies. At agora tudo tinha corrido bem, mas ambos 
sabiam que seria mais difcil durante o Inverno. Se no houvesse mais nada, j as condies climatricas seriam um grande problema.
       Surpreendentemente, as coisas resultaram muito bem e encontraram-se com regularidade todos os sbados. Disse ao pai que tinha um colega de escola com quem 
se encontrava para fazer os trabalhos de casa e ele emprestava-lhe o caminho todos os sbados  tarde. Ningum parecia importar-se, e ela chegava sempre a casa 
a horas, com os braos cheios de livros e cadernos e muito bem-disposta.
       A sua capacidade de vo tinha melhorado ainda mais, e Nick estava justificadamente orgulhoso dela. Afirmava repetidas vezes que teria dado tudo para a pr 
no ar durante o festival areo. Chris j estava a preparar-se para o prximo com preciso e confiana, mas, como sempre, muito pouco excitado e no possuindo o talento 
natural e instintivo da irm. Ambos sabiam que, se Pat no o tivesse pressionado, Chris nunca teria pilotado um avio. j tinha admitido a Nick, mais do que uma 
vez, que realmente no gostava.
       Cassie e Nick sentavam-se e almoavam dentro do caminho quando o tempo resfriava e, por vezes, quando o tempo estava bom, iam passear para junto da pista.
       Em Setembro, falaram sobre o fato de Louise Thaden ter sido a primeira mulher a entrar na corrida denominada Bendix Trophy, e em Outubro sobre Jean Batten 
se ter tornado a primeira mulher a voar de Inglaterra  Nova Zelndia. Falavam sobre muitas coisas. Sentavam-se em rvores cadas e falavam durante horas;  medida 
que os meses passavam, aproximavam-se cada vez mais. Pareciam concordar em tudo, se bem que ela pensasse que ele era, politicamente, demasiado conservador, e ele 
pensasse que ela era demasiado jovem para sair com rapazes, tendo-o afirmado.
       Cassie troou dele, mas Nick adorava a sua irreverncia. Comunicou-lhe ento que a ltima rapariga com quem o vira era a mulher mais feia do mundo. Nick respondeu-lhe 
que Bobby Strong era claramente o mais fastidioso. Cassie nunca soube se ele estava a falar a srio. Apenas adoravam voar, conversar e partilhar as suas vises da 
vida. Tudo parecia estar bem sincronizado: os seus interesses, preocupaes, o fato de partilharem a paixo por tudo o que voava e at o seu quase idntico sentido 
de humor. Era quase sempre difcil superar a separao ao fim da tarde de sbado, pois sabiam que era preciso esperar uma semana para poderem encontrar-se novamente 
assim. Por vezes, ele no podia estar presente, pois havia vos de longo alcance e no conseguia voltar a tempo. Mas isso raramente acontecia porque ele organizara 
o seu horrio de acordo com as lies.
       Como era habitual, Nick juntou-se  famlia dela no dia de Ao de Graas. Cassie arreliou-o sem merc. Riam-se sempre muito um com o outro, mas as suas trocas 
de palavras pareciam um pouco mais manhosas e ntimas do que tinham sido antes das lies. Pat disse-lhes que eram pouco civilizados, enquanto Oona perguntava a 
si prpria se no estaria a notar algo de diferente. Depois de todos aqueles anos, parecia difcil de acreditar, mas eles pareciam mais prximos do que nunca. Quando 
Oona o referiu a Colleen, esta riu-se e disse que Cassie apenas estava a divertir-se. Nick era como um irmo mais velho. Mas Oona no estava enganada. O tempo que 
passavam juntos, as coisas que Cassie aprendera e as longas conversas sob a rvore, nos ltimos seis meses, tinha-os aproximado bastante.
       Nick estava deitado no sof, dizendo que morreria se comesse mais. Cassie, sentada a seu lado, brincava com ele, dizendo-lhe que a gula era um pecado e que 
deveria ir confessar-se. Sabia como ele detestava ir  igreja e Nick estava a fingir ignor-la, sorrindo-lhe apreciativamente, quando Bobby surgiu  porta e entrou, 
escovando a neve do chapu e ombros. Era um rapaz alto e bem-parecido e, s de olhar para eles, Nick sentia-se mil anos mais velho.
       - Est um frio de rachar - queixou-se Bobby, sorrindo amavelmente para todos, mas com um certo receio, para Nick. Havia algo nele que fazia com que Bobby 
se sentisse desconfortvel, se bem que no tivesse a certeza do que era. Talvez fosse o fato de ele estar sempre to  vontade com Cassie. - A comida chegou para 
todos? - perguntou, orgulhoso do fato de lhes ter mandado um peru de treze quilos. Todos grunhiram como resposta. Tinham-no convidado para jantar, mas Bobby ficara 
com os pais e com a irm.
       Convidou Cassie para dar um passeio, mas esta no aceitou, ficando a ouvir a me tocar piano. Glynnis cantava e Megan e o marido juntaram-se a ela. Megan 
tinha acabado de participar a sua nova gravidez. Cassie ficou feliz, mas era um tipo de notcia que sempre a fazia sentir-se diferente. Nem daqui a anos-luz se imaginava 
casada e com filhos. No era o que desejava fazer da vida. Mas o que faria da vida?, perguntou a si prpria. Sabia que nunca seria uma Amelia Earhart, uma Bobbi 
Trout ou Arny Mollison. Essas eram estrelas e ela sabia que nunca o seria. Parecia no haver meio-termo: ou fazia o que as irms faziam, casavam-se assim que acabavam 
a escola, tinham filhos e instalavam-se, numa vida montona, ou fugia e tornava-se uma espcie de superestrela. Mas no havia dinheiro para ela comprar avies, entrar 
em corridas e estabelecer recordes. Mesmo que o pai a ajudasse, os avies eram velhos e de servio e, decerto, no os que usaria para se tornar mundialmente famosa.
       Ultimamente, e mais do que era habitual, conversava com Nick sobre o que ia fazer da sua vida. Da a seis meses acabaria o liceu. E depois? Ambos sabiam que 
no havia um emprego  sua espera no aeroporto. Ela tambm falara com um dos seus professores e estava perto de saber o que desejava. Se no pudesse voar profissionalmente, 
e de momento no via grandes possibilidades, pelo menos iria para a faculdade. Estava a pensar tornar-se professora e para sua grande alegria soubera que vrias 
escolas para professores, especialmente o Bradley College em Peoria, ofereciam cursos de Engenharia e Aeronutica. Estava  espera de se candidatar no Outono e, 
se conseguisse uma bolsa de estudos, coisa que os professores achavam possvel, tiraria o curso de Engenharia Aeronutica. De momento, era a nica maneira de estar 
prxima dos avies. Se no pudesse ganhar a vida a pilotar um avio, tal como um homem, poderia pelo menos ensinar tudo sobre eles. Ainda no contara aos pais os 
seus planos, mas parecia-lhe uma boa deciso. S Nick sabia, mas os seus segredos estavam seguros com ele. Nessa noite, olhou para ela quando se levantou para sair, 
lanando um olhar depreciativo a Bobby que estava a falar sobre a torta de abbora com que a me ganhara um prmio. Bobby Strong nunca cessava de o aborrecer.
       Nick beijou Cassie no rosto ao sair, e Bobby ficou consideravelmente mais tranqilo. Aquele homem mais velho deixava-o sempre nervoso. Mas Cassie parecia 
distante, aps a sada de Nick. Parecia estar a pensar em muita coisa e mandou Bobby calar-se quando este comeou a falar do fim do ano letivo. Detestava falar sobre 
esse assunto. Todos tinham planos concretos e ela no. Tudo o que possua eram esperanas, sonhos e segredos.
       J era tarde quanto Bobby finalmente foi para casa e, quando ele saiu, Chris comeou a pic-la, perguntando-lhe quando seria o casamento. Cassie apenas fez 
uma careta e simulou um gesto de agresso.
       - Mete-te na tua vida - rosnou ela.
       O pai riu-se dos dois.
       - Acho que o rapaz no est enganado, Cassie. Dois anos a aparecer quase todas as noites deve significar alguma coisa. Estou espantado por ainda no te ter 
feito o pedido.
       Todavia, Cassie estava aliviada por ele no o ter feito. No saberia que responder. Sabia o que supostamente devia responder, mas isso no encaixava nos seus 
planos, que agora incluam a faculdade. Talvez depois. Mas quatro anos era pedir de mais. Pelo menos, por ora, no teria de se preocupar com isso.
       Ela e Nick voaram bastante nas trs tardes de sbado que se seguiram, apesar do tempo estar difcil. Dois dias antes do Natal, subiram no Bellanca e, alguns 
minutos depois, j tinham gelo nas asas. Cassie pensou que os dedos iam congelar dentro das luvas enquanto segurava a alavanca de comando. Subitamente ouviu o motor 
a parar e perder velocidade quando estavam a comear um vo picado. Tudo aconteceu com uma velocidade incrvel.
       Nick assumiu os comandos, mas era bvio que estava a lutar com eles enquanto o ajudava a segur-los. Recuperaram do mergulho, o que j era um grande feito, 
mas, nessa altura, a hlice parou e ela soube imediatamente o que isso significava. Teriam de fazer uma aterragem forada. O vento zunia-lhes nos ouvidos e Nick 
no tinha maneira de lhe dizer fosse o que fosse, mas ela sabia instintivamente como ele ia agir. Tudo o que Cassie podia fazer era dar-lhe apoio, mas percebeu subitamente 
que estavam a cair demasiado depressa. Virou-se, fez-lhe um sinal e, durante alguns momentos, ele discordou dela. Depois acenou com a cabea, decidindo confiar na 
sua deciso. Nick levantou o avio como pde, mas o solo aproximava-se muito depressa. Durante um segundo, a jovem teve a certeza de que iam despenhar-se, mas, no 
ltimo minuto, o avio roou o cume das rvores, o que de algum modo amorteceu a queda. Aterraram com demasiada fora, mas no se magoaram. S uma roda ficou danificada. 
Tinham tido uma sorte fabulosa. Deixaram-se ficar sentados, a tremer, percebendo, ento, como tinham estado perto da morte.
       Cassie ainda estava a tremer quando saram do avio, mas era tanto de frio como de comoo. Nick olhou para ela e puxou-a com fora para os seus braos numa 
onda de alvio. Durante vrios minutos, tivera a certeza de que, por muito que fizesse, ia mat-la.
       - Desculpa, Cass! Nunca devamos ter subido com este tempo.  uma lio para ti. Nunca aprendas a voar com um velho louco que pensa que sabe mais do que o 
clima. Obrigado por me teres feito sinal quando estvamos a cair. - O seu extraordinrio sentido de altitude e velocidade tinha-os salvo. - No te farei isto novamente! 
juro. - Ainda tremia enquanto a segurava nos braos. Era difcil ignorar o que a rapariga significava para ele; Nick olhou para Cassie e sentiu o corao a bater. 
Apenas quisera salv-la e no a si prprio. Teria prontamente dado a sua vida para salvar a de Cassie.
       Ela ento olhou-o e sorriu, ainda nos seus braos.
       - Foi divertido - disse rindo, e ele s teve vontade de a estrangular.
       - Es louca! lembra-me para no tornar a voar contigo. - Mas era uma louca que significava tudo para ele. Depois libertou-a lentamente.
       - Talvez precisasses de receber uma ou duas lies - disse ela para o arreliar. Em vez disso, ajudou-o a atar o Bellanca a uma rvore e a colocar pedras debaixo 
das rodas. Depois, deu-lhe boleia at ao aeroporto do pai. Ningum pareceu questionar o fato de chegarem juntos, e ele mandou-a ir para casa aquecer-se. Tinha medo 
que ela adoecesse por causa do frio. Entrou no escritrio para tomar um pouco do usque irlands de Pat. Ainda estava muito abalado com o fato de quase a ter morto 
nessa tarde.
       - O que  que estiveste a fazer esta tarde? - perguntou o pai quando ela chegou a casa. Pat tinha acabado de chegar com a rvore de Natal, e os sobrinhos 
e sobrinhas de Cassie iam ajudar a decor-la e ficar para jantar.
       - Nada de especial - retorquiu, tentando parecer descontrada. Tinha rasgado as luvas ao rebocar o avio e tinha leo nas mos.
       - Estiveste no aeroporto?
       - Por pouco tempo. - Subitamente, pensou se ele saberia alguma coisa, mas o pai apenas acenou com a cabea enquanto levantava a rvore de Natal no canto da 
sala com a ajuda de Chris. Parecia estar bem-disposto e pouco inclinado a interrogar Cassie.
       Esta tomou um banho quente, pensando sobre o susto dessa tarde. Fora aterrorizador, mas a coisa mais estranha era o fato de no se importar de morrer num 
avio. Era o stio onde desejava estar e parecia um bom lugar para morrer. No entanto, sentia-se muito contente por isso no ter acontecido.
       E Nick tambm. Ainda estava profundamente perturbado com o que acontecera. s dez horas da noite estava completamente bbedo, sentado na sua sala, perguntando 
a si prprio como  que Pat sobreviveria se o seu mais velho amigo tivesse morto a filha. Isso f-lo pensar duas vezes sobre as lies de vo, mas sabia que no 
conseguiria parar. Tinha de o fazer e no s por ela. Era quase como se precisasse de estar com a jovem, do seu esprito e humor, da sua sabedoria, dos seus grandes 
olhos e do seu ar belssimo sempre que a via. Adorava a maneira como ela pilotava, o seu conhecimento instintivo e como trabalhava tanto para aprender aquilo que 
no sabia. O problema consistia agora no fato de ter percebido, nessa tarde, que adorava demasiadas coisas nela.
       A rvore de Natal dos O'Malley estava linda. As crianas tinham-na enfeitado como sabiam, e os tios, tias e avs ajudaram. Penduraram o conjunto dos velhos 
enfeites feitos  mo. Todos os anos, Oona fazia alguns enfeites novos e, nesse ano, a estrela do espetculo era um grande anjo de seda que pendurou no topo da rvore. 
Cassie estava a olhar para ele com admirao quando Bobby entrou, carregado de sidra e bolos de gengibre feitos em casa.
       Oona fez um grande espalhafato com ele, enquanto as filhas saam pouco depois para deitar as crianas. Pat e Chris foram apanhar mais madeira para a lareira 
e Cassie encontrou-se subitamente sozinha com Bobby na cozinha.
       - Foi simptico da tua parte trazeres os bolos de gengibre e a sidra - agradeceu ela com um sorriso.
       - A, tua me disse que adoravas bolos de gengibre quando eras pequena - retorquiu ele timidamente, com o cabelo louro a brilhar e olhar de criana. No entanto, 
era to alto e to srio que havia algo de bastante msculo nele. Acabara de fazer dezoito anos, mas podia-se j adivinhar qual seria o seu aspecto aos vinte e cinco 
ou trinta anos. O pai era ainda um homem muito bem-parecido e a me bastante bonita. Bobby tambm era um belo rapaz e exatamente o tipo de pessoa com quem os pais 
desejariam que ela casasse. Tinha um futuro slido, uma famlia decente, bons valores morais, bom aspecto e at era catlico.
       Cassie sorriu, pensando novamente nos bolos de gengibre.
       - Uma vez comi tantos que fiquei doente durante dois dias e no pude ir  escola. Pensei que ia morrer!
       Porm, nessa tarde quase tinha morrido. Quase tinha morrido com Nick dentro de um avio e agora estava a conversar com Bobby sobre bolos. A vida era por vezes 
muito estranha, absurda e insignificante, mas de repente tornava-se excitante.
       - Eu... - Ele olhou para ela desajeitadamente, no sabendo bem o que dizer e pensando se seria uma boa idia. Conversara primeiro com o pai, e Tom Strong 
pensava que sim. Mas era muito mais difcil do que julgara, especialmente quando olhou para Cassie. Estava muito bonita, com um par de calas pretas e uma camisola 
azul-clara, o brilhante cabelo ruivo contornando-lhe o rosto, semelhante a um dos anjos de seda branca de Oona. - Cass... No sei bem como dizer isto, mas... eu... 
- Aproximou-se, agarrou-lhe a mo. Ambos podiam ouvir o pai e o irmo a mexer-se na sala, tendo cuidadosamente deixado os dois jovens namorados sozinhos na cozinha. 
- Eu... eu amo-te, Cass! - afirmou Bobby com um tom de voz que subitamente pareceu mais forte e de um homem mais velho. - Amo-te muito e gostaria de me casar contigo 
quando acabares o liceu em junho.
       Pronto! Estava dito e ele parecia extraordinariamente orgulhoso de si. Cassie olhou-o fixamente, empalideceu, os seus olhos azuis plenos de consternao. 
Os seus maiores receios tinham-se concretizado. Agora era preciso enfrent-los.
       - Eu... Obrigada! - afirmou ela, desejando ter-se despenhado nessa tarde. Teria sido mais simples.
       - E ento? - Ele fixou-a com os olhos cheios de esperana, ansiando que Cassie lhe desse a resposta esperada. - - O que achas? - Estava to orgulhoso de si 
que quase gritava. Mas a sua excitao no era partilhada. Tudo o que Cassie sentia era desnimo e terror.
       - Acho que s maravilhoso... - Por alguns instantes, ficou esttico com o que ela acabara de lhe dizer. - E acho que o teu pedido foi muito bonito. Eu... 
eu ainda no sei o que vou fazer em junho. - junho no era a questo. O problema era o casamento. - Bobby! Eu... eu quero ir para a faculdade. - Disse isto como 
que exalasse, aterrorizada com o fato de mais algum a ouvir.
       - Queres? Porqu? - Bobby estava estupefato.
       Nem o pai dela, nem a me nem nenhuma das irms o tinha feito. A sua pergunta era pertinente e ela nem sequer sabia se havia uma resposta. Porque no posso 
voar profissionalmente ...  No parecia uma boa resposta, e casar imediatamente aps o final da escola nunca lhe parecera uma opo agradvel.
       - Acho que devo. H umas semanas atrs estive a falar com Mistress Wilcox e ela acha que devo. Depois, se quiser, poderei dar aulas. - E no teria que me 
casar e ter filhos imediatamente.
       -  isso que queres? - Parecia surpreendido. Nunca tinha contado com o fato de ela querer ir para a faculdade, e isso alterava-lhe os planos. Todavia, tambm 
era possvel casar-se e freqent-la. Conhecia pessoas que o tinham feito. - Queres ser professora?
       - Ainda no tenho a certeza. Apenas no quero casar-me e ter filhos assim que sair do liceu e nunca fazer nada da minha vida. Quero mais do que isso.
       Estava a tentar explicar, mas era muito mais fcil explic-lo a Nick. Era muito mais velho e sensato do que Bobby.
       - Podias ajudar-me com o negcio. H muita coisa que poderias fazer na loja. O meu pai diz que se quer reformar dentro de alguns anos. - Subitamente, teve 
uma idia que lhe pareceu brilhante. - Podias estudar contabilidade e fazer a escrita. O que achas, Cass?
       Achava que ele era um bom rapaz, mas no queria fazer a escrita.
       - Quero ir para engenharia - disse ela.
       Bobby ficou com um ar ainda mais confuso. Sabia que ela sempre fora uma mulher cheia de surpresas. Pelo menos no lhe dissera que queria ser Amlia Earhart. 
No proferira uma nica palavra sobre avies. Apenas sobre a escola e agora sobre engenharia. Mas isso tambm era um disparate. No tinha a certeza do que iria dizer 
ao pai.
       - O que vais fazer com um curso de Engenharia, Cass?
       Ele estava compreensivelmente admirado.
       - Ainda no sei.
       - Parece-me que precisas de pensar um pouco. - Sentou-se  mesa da cozinha e puxou-a para uma cadeira ao lado da sua. Segurava-lhe a mo e tentava sensibiliz-la 
para a perspectiva de um futuro juntos. - Podamos casar e continuavas a poder ir para a faculdade.
       - At ficar grvida. Quanto tempo demoraria? - Ele corou com a sua franqueza e era claro que no queria discutir mais esse assunto. - Provavelmente, nunca 
acabaria o primeiro ano. Depois ficaria como a Colleen: sempre a pensar em voltar para a faculdade e demasiado ocupada com os filhos.
       - No precisamos de ter tantos filhos como ela. Os meus pais s tiveram dois. - Ele ainda tinha esperana.
       - So dois a mais do que aqueles que quero ter durante algum tempo. Bobby... no posso. Agora no. Ainda no. No seria justo para contigo. Estaria sempre 
a pensar no que no conseguira fazer ou no que desejaria ter feito. No posso fazer isso a nenhum de ns.
       - Os avies tm alguma coisa a ver com tudo isto? - perguntou com algumas suspeitas, mas ela abanou a cabea. Nunca lhe diria tudo o que j tinha feito, o 
que tambm constitua um problema. No conseguia imaginar-se casada com um homem em quem no podia confiar. Nick e ela eram apenas amigos, mas no havia nada que 
no lhe pudesse dizer.
       - No estou preparada. - Estava a ser honesta com ele.
       - Quando estars? - inquiriu Bobby tristemente. Era uma desiluso e sabia que os seus pais tambm ficariam desiludidos. O pai j se tinha oferecido para o 
ajudar a escolher e a pagar o anel de noivado. Agora no haveria anel.
       - No sei. Talvez daqui a muito tempo.
       - Se j tivesses feito a faculdade, casarias comigo? - perguntou-lhe ele frontalmente, o que a deixou admirada.
       - Provavelmente. - No teria qualquer desculpa para no o fazer. No que precisasse de uma desculpa. Cassie gostava dele. Apenas no se queria casar com ningum. 
Ainda no, agora muito menos e provavelmente durante muito tempo. Repentinamente, Bobby ficou com uma expresso de esperana.
       - Ento, eu espero!
       - Mas isso  uma loucura. - Ela estava embaraada por o ter encorajado. Como  que poderia saber o que ia sentir quando acabasse a faculdade?
       - Ouve! Estou apaixonado por ti! No estou  espera de uma noiva por correspondncia que vou levantar em junho. Se tenho de esperar, f-lo-ei, mas preferia 
no ter de esperar os quatro anos de faculdade. Talvez pudssemos comprometer-nos daqui a um ou dois anos e pudesses terminar o curso quando nos casssemos. Pelo 
menos pensa no assunto. No  preciso ser to terrvel. E... - Ele corou furiosamente. -No  preciso ter um filho imediatamente. H maneiras de o evitar - disse 
quase chocado.
       Ela estava to emocionada com o que ouvira e com a generosidade dos sentimentos de Bobby que o abraou e beijou.
       - Obrigada por seres to justo.
       - Amo-te - disse ele honestamente, ainda corado com o que acabara de lhe dizer. Propor-lhe casamento e ser rejeitado fora a coisa mais difcil que jamais 
fizera.
       - Eu tambm te amo - sussurrou ela, subjugada pela culpa, ternura e um redemoinho de emoes.
       -  tudo o que preciso de saber - retorquiu ele calmamente.
       Ficaram muito tempo sentados na cozinha a conversar calmamente sobre outras coisas. Antes de se ir embora, beijou-a no alpendre, sentindo que tinham chegado 
a um acordo. A deciso no seria tomada agora, mas sim mais tarde. Tudo o que precisava de fazer era convenc-la de que mais valia mais cedo do que mais tarde. No 
calor do momento, parecia apenas uma pequena tarefa.

CAPTULO 6
       A classe de 1937 caminhou lentamente pela ala do auditrio do liceu Thomas Jefferson. Os rapazes e raparigas, aos pares, de mo dada, as raparigas transportando 
um ramo de margaridas. Elas estavam com um aspecto lindo e puro, os rapazes mostravam um ar muito jovem e esperanoso. Ao observ-los, Pat recordou-se dos rapazes 
que tinham voado para ele durante a guerra. Eram da mesma idade e muitos tinham morrido.
       Toda a classe cantou a cano do liceu pela ltima vez. As raparigas e as mes choravam. At os pais tinham lgrimas nos olhos quando os diplomas foram entregues. 
Subitamente, a cerimnia terminou e foi o caos. Trezentos adolescentes tinham acabado o liceu e iriam continuar a sua vida, sendo o destino da maioria casar e ter 
filhos. Apenas quarenta e um dos trezentos e catorze iriam para a faculdade. Dos quarenta e um, todos menos um iam para a universidade estatal de Macomb e apenas 
trs eram mulheres. Claro que uma delas era Cassie, sendo a nica que ia para Peoria freqentar a faculdade de Bradley. Seria um longo caminho todos os dias, bem 
mais de uma hora para cada lado no velho caminho de seu pai, mas ela estava convencida que valia a pena pela possibilidade de tirar os cursos de Aeronutica que 
ofereciam e aprender alguma engenharia.
       Cassie tivera de lutar bastante por isso. O pai pensava que era um desperdcio de tempo e que ficaria bem melhor se casasse com Bobby Strong. Ficou furioso 
com ela por declinar o pedido e apenas recuou porque Oona lhe afirmara seriamente que tinha a certeza que eles acabariam por se casar se ela no fosse pressionada. 
Cassie apenas precisava de tempo. Fora Oona que prevalecera e convencera Pat a deix-la ir para a faculdade. No seria prejudicial, mas Cassie teve de se comprometer 
em escolher o curso de Ingls e no o de Engenharia. Se acabasse o curso, poderia ensinar, mas ela tinha ainda concorrido para Aeronutica. Nenhuma mulher se candidatara 
a esse curso e fora-lhe dito que era preciso esperar para ver se o professor achava que ela podia freqentar a aula. Mas Cassie tencionava falar com ele assim que 
chegasse  escola, em Setembro.
       Depois da cerimnia de graduao no liceu, houve uma recepo, e Cassie j tinha ido ao baile do liceu com Bobby. Nos ltimos seis meses, ele parecia ter 
aceite o seu destino, mas na noite em que se graduaram, voltou a falar-lhe no assunto, para o caso de Cassie ter mudado de idias e desistido da faculdade.
       - No, no mudei - retorquiu ela com um sorriso gentil. O rapaz era-lhe to fiel e to honesto que por vezes a fazia sentir-se culpada. Mas ela comprometera-se 
com outras coisas e no queria perd-las de vista. No importava a sua doura e gentileza, nem a culpa que ela sentia, nem a adorao que o pai lhe manifestava.
       Ele saiu cedo nessa noite, pois a av estava na cidade e Bobby precisava de ir para casa, a fim de estar com ela. Pat resmungou com Cassie depois de Bobby 
sair. Ela ainda trazia o vestido branco que usara sob a capa negra e estava muito bonita.
       - s uma parva, Cassie O'Malley, se deixares esse rapaz fugir-te.
       - Ele no o far, pai. - Era a nica coisa que conseguia dizer. Parecia preconceituoso, mas era melhor do que dizer que no se importava, o que o teria realmente 
enraivecido. Mas, na verdade, importava-se. Havia alturas em que pensava que realmente o amava, especialmente quando ele a beijava.
       - No tenhas tanta certeza - ralhou o pai. - Nenhum homem espera para sempre. Mas talvez quando terminares o curso de professora j no te importes. Talvez 
tenhas em mente tornar-te uma velha professora solteirona. Isso  realmente um timo desejo para o futuro.
       Pat ainda estava zangado com a filha devido  ida para a faculdade. Em vez de se sentir orgulhoso, tal como acontecia com os pais das outras duas raparigas, 
achava que era parva. Mas Nick estava muito contente com isso. H muito que percebera como ela era inteligente e capaz, e no parecia justo, mesmo para si, pression-la 
a casar-se e a ter filhos. Nick tambm estava aliviado por ela no ter decidido casar com Bobby Strong imediatamente a seguir ao liceu. Isso teria mudado tudo e 
ele no o teria suportado. Cassie sabia que eventualmente as coisas mudariam, mas pelo menos, os seus sagrados sbados estavam seguros, bem como as suas preciosas 
horas de vo.
       Nessa noite, Cassie sentou-se junto da telefonia depois de todos sarem. Estivera toda a tarde  espera para o fazer, mas sabia quanto isso aborreceria o 
pai. Amelia Earhart: descolara nessa tarde de Miami, com Fred Noonan, num Lockheed Electra de dois motores. Ia fazer a volta ao mundo, e a expedio tinha sido altamente 
publicitada pelo marido, George Putnam. A viagem fora estranhamente planejada devido  ameaa de guerra, e havia reas que era necessrio evitar. Haviam escolhido 
o caminho pelo equador, que era o mais longo, e sobrevoar os pases mais perigosos, mais isolados e subdesenvolvidos, o que oferecia menos pistas de aterragem e 
menos oportunidades de reabastecimento. No era uma tarefa fcil, e Cassie estava deliciada com tudo aquilo. Tal como muitas raparigas da sua idade e metade do mundo, 
Cassie estava apaixonada pela coragem e estmulo de Amelia Earhart.
       - O que ests a fazer, querida? - perguntou 'a me ao passar por ela em direo  cozinha. Fora um dia emocionante para Oona, e achava que Cassie tambm estava 
com um ar cansado.
       - Estou apenas a ver se h notcias da Amelia Earhart.
       - No a esta hora - sorriu a me. - Haver bastantes no noticirio de amanh.  uma rapariga muito corajosa.
       Ela era obviamente muito mais do que uma rapariga. Faltava apenas um ms para completar quarenta anos, o que para Cassie parecia bastante idade. Mas apesar 
disso continuava a ser excitante.
       - Que sorte - disse Cassie baixinho, desejando poder fazer algo como Earhart estava a fazer. Mais do que tudo na vida, gostaria de dar a volta ao mundo, estabelecer 
recordes e voar distncias incrveis sobre terras estranhas e rios que no estavam no mapa. Isso no a assustava minimamente. Apenas a entusiasmava.
       Disse-o a Nick no dia seguinte, depois de terem feito curvas  volta de uma marca sobre a pista.
       - s to louca como ela - disse Nick, fazendo um gesto casual em relao  loucura de Earhart. - Nem  o grande piloto que Putnam afirma. j se despenhou 
mais vezes do que metade das outras mulheres que voam e aposto um dlar que naquele Electra ela sair de qualquer pista.  uma mquina muito pesada, Cass, e tem 
o motor Wasp da Lockheed mais pesado que existe. Isso  muito difcil para uma mulher da sua estatura e constituio fsica. Esta viagem  apenas um truque para 
fazer dela a primeira mulher a dar a volta ao mundo. j foi feita por homens e no vai ter qualquer influncia no progresso da aviao. Apenas para o progresso da 
Amelia Earhart. - Ele parecia pouco impressionado, mas Cassie no se deixava intimidar.
       - No sejas burro, Nick. S ests zangado por ela ser mulher.
       - No estou. Se me dissesses que a Jackie Cocliran iria fazer esta viagem, eu diria que era timo. S acho que a Earhart no tem o estofo necessrio para 
a fazer. Em Chicago, falei com um fulano que a conhece e me disse que ela e o avio no estavam preparados. Mas Putmam quer espremer toda a publicidade que puder. 
Na verdade, at sinto pena dela. Acho que est a ser usada e levada a tomar decises pssimas.
       - Isso soa a azedume, Nick - disse Cassie para o irritar, enquanto partilhavam uma Coca-Cola. Os seus vos juntos tinham-se tornado um ritual muito querido 
que nenhum deles teria perdido por nada deste mundo. j durava h um ano. - Engolirs essas palavras quando bater todos os recordes - concluiu Cassie, confiante, 
enquanto ele abanava a cabea.
       - No fiques  espera. - Sorriu-lhe com os cantos dos olhos a brilhar, tal como acontecia quando tinha o Sol pela frente durante um vo. - Preferia apostar 
em ti dentro de alguns anos. - Estava a brincar com ela, mas era verdade.
       - Claro que sim! E o meu pai estar a receber as apostas, no ? - Eles ainda no tinham descoberto uma maneira de lhe contar que Cassie voava e muito menos 
que Nick achava que Cassie era um dos melhores pilotos que conhecia. Mas ele tinha prometido que, um dia, quando fosse a melhor altura, o fariam.
       O festival areo de Peoria era da a duas semanas e ele estava a trabalhar com Chris, agora no melhor da sua forma e to desinteressado como sempre. Ia participar 
no festival areo apenas para agradar ao pai. Tentaria estabelecer um recorde de altitude, se bem que no pensasse consegui-lo. Esse tipo de habilidades no era 
o seu ponto forte e a pilotagem temerria ainda o assustava. No entanto, tinham reforado a estrutura do Bellanca de Nick e colocado um turbo compressor no motor 
para aumentar a potncia.
       - Adorava poder voar nele - disse Cassie, e Nick desejou o mesmo.
       - Tambm eu. Para o ano! - prometeu ele e disse-o a srio.
       - Achas mesmo que conseguiria? - A rapariga parecia esmagada de excitao. Se bem que estivesse a um ano de distncia, era algo para desejar ainda mais do 
que a faculdade.
       - No vejo qualquer razo para que isso no acontea, Cass. Tu voas muito melhor do que qualquer dos tipos que l vo. Seria uma sensao e espant-los-ia 
a todos. Acredita em mim. Eles precisam disso.
       - H fulanos muito bons no festival - disse Cassie respeitosamente. Tinha visto pilotagens brilhantes ao longo dos anos, mas tambm sabia que voava to bem 
ou melhor do que a maioria desses homens. Cassie tambm vira terrveis tragdias ao longo dos anos. No era estranho haver fatalidades nesse tipo de espetculo. 
Oona tinha finalmente forado Pat a desistir porque os truques eram demasiado perigosos. Mas ele adorava v-lo.
       - No me queres voltar a subir e proporcionar-me mais alguns arrepios? - perguntou Nick depois de almoo. Por vezes, voltavam a descolar, se as condies 
climatricas estivessem boas e tivessem tempo, o que era o caso nessa tarde. - Precisas de trabalhar as descolagens e aterragens com ventos cruzados. - Tinham estado 
a trabalhar as descolagens com redues de potncia.
       - Um raio  que preciso. As minhas aterragens so melhores que as tuas - discordou Cassie com um sorriso.
       - No sejas to modesta. - Ele desordenou-lhe o cabelo com a mo e sentou-se no banco de trs. Como era habitual, ela no o desiludiu. Era fabulosa. Naturalmente 
fabulosa. Era to simples como isso. Continuou a ter pena de no conseguir inscrev-la no festival desse ano.
       Porm, dois dias antes do festival, Cassie estava sentada junto da telefonia, incapaz de acreditar no que estava a ouvir. Amelia Earhart tinha cado algures 
perto de Howland Island, no Sul do Pacfico. Parecia-lhe inacreditvel, e para todos os que ouviram as notcias, menos para o pai que repetia constantemente que 
o lugar das mulheres era na cozinha e no aos comandos de um avio. As Skygids talvez fossem uma exceo e at isso no lhe parecia apropriado. Mas Cassie tambm 
se recordou do que Nick lhe dissera: Earhart no era muito boa a lidar com avies pesados. Alm disso, vrias pessoas que a conheciam bem tinham afirmado que ela 
no estava preparada. Parecia uma terrvel tragdia e o Governo cooperou imediatamente nas buscas. Dois dias mais tarde, no dia do festival, ainda no a tinham encontrado.
       O estado psicolgico de Cassie no era dos melhores enquanto observava os truques e acrobacias no festival.
       - Anima-te! - Ouviu uma voz familiar atrs de si. - No estejas com esse ar to soturno.
       Era Nick. Tinha um cachorro numa mo e uma cerveja noutra e na cabea um chapu de papel alusivo ao 4 de julho. Aqueles espetculos areos eram sempre festivos.
       - Lamento - desculpou-se ela com um sorriso cansado. No se deitava h dois dias para ouvir as notcias sobre Amelia Earhart, mas estas no surgiram. No 
tinham encontrado nada. Desaparecera completamente. - S estava a pensar em...
       - Eu sei no que estavas a pensar. Na mesma coisa em que vens a pensar desde que ela levantou vo. Mas no vai servir-te absolutamente de nada ficar doente 
por causa dela. Lembra-te do que eu disse. H riscos que todos corremos e aceitamo-los. Ela fez o mesmo. Estava a fazer o que queria.
       Ofereceu-lhe uma dentada do cachorro, que ela aceitou com um ar pensativo. Talvez Nick tivesse razo. Talvez ela tivesse o direito de morrer daquela maneira. 
Se lhe houvessem dado a escolher entre uma velhice tranqila numa cadeira de balouo ou uma sada rpida num Lockheed, provavelmente escolheria a segunda. Mas Cassie 
continuava a detestar pensar que ela tivesse cado. Era a morte de uma lenda.
       - Talvez tenhas razo - retorquiu Cassie em voz baixa -, mas  muito triste.
       -  muito triste - concordou ele. - Ningum disse que no era.  terrvel quando algum se despenha, mas  um risco que todos corremos e que, simultaneamente, 
amamos. Tu tambm. - Colocou-lhe a mo sob o queixo e recordou-lhe silenciosamente como adorava voar e estava disposta a correr riscos. - Se te dessem essa possibilidade, 
tu farias o mesmo, minha pequena doida! Se alguma vez tentares fazer uma dessas disparatadas voltas ao mundo, deito-te fogo ao avio. Podes contar com isso.
       - Obrigada! - Ela sorriu-lhe e depois apertou-lhe o brao com a excitao.
       - Olha! Olha para aquilo! L vai o Chris! V... v l! Focinho para cima!
       Ele estava a tentar ganhar o trofu de altitude no avio de Nick e quase desapareceu enquanto eles o observavam. Tinha umas mos firmes e uma circunspeo 
que o tornavam perfeito para aquele tipo de competio. No tinha o mesmo tipo de agitao ou garra de Cassie. Tudo o que possua era resistncia. Quando Chris aterrou, 
Nick ficou espantado com a altitude que alcanara. Apressaram-se ajuntar-se a Pat Oona e a algumas das irms que estavam com os filhos. Glynnis e Megan estavam, 
de novo, enormemente grvidas e Colleen tinha um ar doentio, o que fez com que Oona suspeitasse que estava de novo grvida e que ainda no o participara. Eram um 
grupo muito prolfero. Este seria o quarto para Megan e Colleen e o quinto para Glynnis.
       - Ainda bem - sussurrou Cassie enquanto conversava com Nick - que no tenciono ter filhos. No que me diz respeito, elas podem ter os filhos que quiserem. 
- Ultimamente comeara a pensar que nunca casaria ou teria filhos.
       - Tambm ters filhos. No te iludas. Porque no?
       Nick nunca acreditava em Cassie sempre que esta afirmava que nunca casaria ou teria filhos. Ela tambm no acreditava muito nela prpria, mas sabia que no 
desejava nada disso para j. Tudo o queria era avies.
       - O que te d tanta certeza que eu terei filhos, Nick? perguntou com ar de desafio.
       - Porque vens de uma famlia que se multiplica como coelhos.
       - Muito obrigada.
       Ainda estava a rir quando Bobby Strong a descobriu e olhou estranhamente para Nick. Tinha sempre a sensao que Nick no gostava dele. Alguns instantes mais 
tarde, tendo falado muito pouco com qualquer um deles, Nick foi juntar-se aos outros pilotos.
       Meia hora depois, anunciaram que Chris ganhara o prmio do recorde de altitude e o pai ficou fora de si de contentamento. Foi tentar descobrir Chris, enquanto 
Oona ia buscar bebidas para as filhas e netos. Bobby ficou a ver o espetculo com Cassie, em que pequenos avies vermelhos, azuis e prateados faziam acrobacias e 
movimentos de rotao, piruetas lentas no ar, oitos e oitos duplos e mais alguns truques de que Cassie nunca ouvira falar. S de os ver ficava sem respirao, e 
a multido gritou mais do que uma vez quando o desastre parecia iminente. Depois, quando no ltimo segundo recuperavam, aplaudia. Ela estava habituada, mas era sempre 
excitante.
       - Em que estavas a pensar agora mesmo? - Bobby tinha comeado a observar o seu rosto. Estava cheio de luz e com uma expresso de total enlevo enquanto observava 
um avio a fazer um looping exterior. Era uma habilidade que Jimmy Doolitde inventara h uns dez anos e que a impressionava bastante. O piloto acabou com um floreado, 
fazendo uma passagem invertida a baixo nvel longe da multido para que ningum ficasse em perigo. Bobby observou com fascnio a expresso do seu rosto. Depois, 
ela virou-se e sorriu-lhe quase com tristeza.
       - Estava a pensar que queria estar l em cima a fazer aquilo - disse ela honestamente. - Deve ser muito divertido. Tudo o que Cassie queria era ser um deles.
       Acho que ficaria doente - afirmou ele com a mesma honestidade. Ela sorriu-lhe enquanto um vendedor apregoava algodo doce.
       - Provavelmente ficarias. Eu quase fiquei algumas vezes.
       - Quase falou de mais nessa altura, e teve de se lembrar que era preciso ter cuidado. - Os Gs negativos provocam isso. Fazem-se durante uma perda de altitude, 
mesmo antes do momento da recuperao.  como se o estmago nos sasse pela boca. Mas no sai. - Voltou a sorrir.
       - No sei como podes gostar de tudo isto, Cass. A mim assusta-me terrivelmente.
       Ele era louro, bem-parecido e com um ar muito jovem, e ela tornava-se, dia aps dia, uma linda mulher.
       - Acho que me est no sangue!
       Bobby acenou com a cabea, preocupado com o fato de poder ser verdade.
       - Foi uma pena o caso de Amelia Earhart.
       Ela tambm acenou com a cabea.
       - Realmente foi! O Nick diz que todos os pilotos aceitam essa possibilidade. Pode acontecer a qualquer um. - Olhou para o cu. - A qualquer um daqueles. Penso 
que acham que vale a pena.
       - No h nada que valha o risco da tua vida - discordou Bobby -, a no ser que seja durante uma guerra ou para salvar algum que ames.
       - Essa  a dificuldade. - Cassie olhou para ele com um sorriso triste. - A maioria dos pilotos arriscaria tudo para voar, mas as outras pessoas no compreendem 
isso.
       - Talvez seja por isso que as mulheres no devem voar, Cass - disse ele calmamente.
       - Pareces o meu pai.
       - Talvez devesses prestar-lhe mais ateno.
       Gostaria de dizer: No posso, mas sabia que no devia faz-lo. Apenas podia diz-lo a Nick. Este era o nico ser humano que sabia toda a verdade sobre ela 
e a aceitava. Mais ningum a conhecia e muito menos Bobby.
       Entretanto, viu Chris a caminhar na sua direo e correu para ele. Trazia a sua medalha e o rosto a brilhar de orgulho, enquanto Pat parecia nas nuvens.
       - A primeira medalha aos dezessete anos! - declarava este a todos os que ouvissem. -  assim mesmo! - Estava a oferecer cervejas e a dar palmadas nas costas 
de todos, incluindo Chris e Bobby. Chris estava exposto ao calor do amor e aprovao do pai. Cassie observava-os, fascinada pelo desespero com que o pai desejava 
o sucesso de Chris na aviao e simultaneamente inflexvel em relao  possibilidade de ela o poder alcanar. Era dez vezes melhor piloto do que Chris, ou ainda 
mais, mas o pai nunca o reconheceria ou saberia.
       Nick foi apertar a mo a Chris. O rapaz estava extasiado com a sua vitria e depois foi com Nick conhecer alguns dos pilotos. Era um dia muito importante 
para Chris e tambm o dia por que Pat O'Malley esperava h cinqenta e um anos. Naquilo que lhe dizia respeito, aquela vitria era apenas o princpio, no conseguindo 
ver que aquilo era o mximo que Chris conseguia fazer. Queria mais. j estava a falar do ano seguinte, e Cassie sentiu ento pena de Chris. Ela sabia quanto o pai 
significava para o irmo, que, custasse o que custasse, faria tudo para lhe agradar.
       O cl O'Malley estava de muito bom humor. Foram praticamente os ltimos a sair, e Bobby foi jantar com eles. Nick saiu para celebrar com os amigos; j estava 
muito bem bebido quando abandonou o campo do festival, mas no se preocupou, pois sabia que Chris levaria o Bellanca para o aeroporto e iria para casa no caminho 
de Pat.
       De manh, antes de sarem, Oona fizera galinha frita, havendo ainda milho, salada, batatas assadas e tambm presunto. Quando chegou a casa, fez uma torta 
de framboesas e gelado. Era um verdadeiro festim, tendo Pat oferecido a Chris um copo cheio de usque irlands.
       - Bebe, rapaz! Es o prximo s desta famlia.
       Chris lutou com a bebida enquanto Cassie os observava, sentindo-se triste. De certo modo, achava-se posta de lado. Ela deveria ter voado com eles e estar 
includa no orgulho do pai, mas sabia que era impossvel. Perguntou a si prpria se alguma vez se realizaria. O nico caminho que parecia estar  sua frente era 
igual ao das irms: ter um filho todos os anos e estar condenada  cozinha. Parecia-lhe uma vida horrvel, se bem que amasse as irms e a me, mas preferia morrer 
a passar a vida daquela maneira.
       Cassie notou tambm que Bobby estava muito simptico com todos eles. Foi gentil com as irms e adorvel com as crianas. Era um cavalheiro e daria um fantstico 
marido. A me salientara-o de novo quando Cassie estava a ajudar a limpar a cozinha. Depois os dois foram dar um longo passeio, e Bobby surpreendeu-a quando lhe 
falou de avies.
       - Hoje estive a observar-te, Cass, e percebi o que tudo aquilo significa para ti. Podes pensar que estou louco, mas quero que me prometas que nunca fars 
nenhuma daquelas loucuras. Na realidade, eu no quero que tu voes. Podes divertir-te  vontade, mas no quero que te acontea o que aconteceu com a Amelia Earhart.
       Parecia razovel e comoveu-a, mas Cassie riu-se nervosamente. A idia de prometer fosse a quem fosse que no voaria f-la estremecer.
       - Se  isso que te preocupa, no vou dar a volta ao mundo de avio - respondeu com um sorriso ansioso. Mas ele abanou a cabea. Estava a referir-se a muito 
mais do que isso e ela sabia-o.
       - No  isso que quero dizer. No quero mesmo que voes. - Bobby apenas tinha visto o perigo de relance, mas ao apreciar as acrobacias do festival areo ficara 
convencido. No havia dvidas sobre os perigos da aviao e, dois anos antes, dera-se uma terrvel tragdia no mesmo espetculo. Bobby no era parvo e conhecia a 
magia que voar constitua para ela. Resumindo, no a queria perder. - No quero que aprendas a voar, Cass. Sei que o desejas, mas  demasiado perigoso. O teu pai 
tem razo.  demasiado perigoso para uma mulher.
       - No acho que seja um pedido razovel - disse ela calmamente. No queria mentir-lhe, mas tambm no queria dizer que voava regularmente com Nick h j um 
no. - Acho que deves confiar no meu bom senso em relao a isso.
       - Quero que prometas que no voars - afirmou ele, mostrando uma fora e uma teimosia que a jovem nunca vira. Estava impressionada, mas no prometeria.
       - Isso  um exagero. Sabes como adoro voar.
       -  por isso que te peo que prometas, Cass. Acho que serias pessoa para correr riscos.
       - Acredita que no. Sou cuidadosa e sou boa... isto seria. olha, Bobby! Por favor no faas isso.
       - Ento quero que penses no assunto.  muito importante para mim.
       Queria gritar que voar tambm era importante para si. Era a nica coisa que importava e ele queria tirar-lha. O que se passava com todos eles? Bobby, o pai 
e at Chris. Por que razo queriam tirar-lhe uma coisa que ela amava tanto? Apenas Nick compreendia. Era o nico que sabia e se importava com os seus sentimentos.
       Mas, nesse preciso instante, Nick Galvin estava a dormir nos braos de uma rapariga que conhecera no festival, que tinha um brilhante cabelo ruivo e lbios 
pintados. Ao aninhar-se junto dela, sorriu e sussurrou: Cassie.

CAPTULO 7
       O horrio de Cassie em Bradley era mais exigente do que o do ltimo ano de liceu, mas ela conseguiu cumpri-lo e encontrar-se com Nick duas vezes por semana: 
aos sbados e, s vezes, numa manh de um dia de semana. O pai no sabia exatamente o horrio, sendo, como tal, fcil para ambos. Tinha comeado a trabalhar como 
criada de mesa para pagar o combustvel a Nick, mesmo que no pudesse pagar-lhe as lies, mas ele nunca esperara qualquer tipo de pagamento. Fazia-o meramente por 
amor e prazer.
       Cassie melhorava sempre que voava, aperfeioando alguns aspectos e pilotando todos os avies que podia para aprender as suas diferenas e subtilezas. Voou 
com o Jenny, o velho Cipsy Moth, o Bellanca de Nick, o De Havilland 4 e at o velho Handley. Nick queria que ela pilotasse todos os avies disponveis, conseguindo 
que aperfeioasse com grande preciso todas as tcnicas e competncias. At lhe tinha ensinado algumas tcnicas de salvamento e informou-a de todos os pormenores 
das suas aterragens foradas mais famosas, durante a guerra com os Alemes. Havia muito pouco que ela no soubesse sobre o Jenny, o Bellanca ou mesmo o Handley, 
o qual Nick trouxera consigo por ser muito mais pesado e difcil de pilotar devido aos seus dois motores.
       Cassie passava agora menos tempo no aeroporto do pai porque a distncia para a escola era maior. Todavia, ainda andava por l sempre que podia, trocando sorrisos 
de conspirao com Nick quando se cruzavam.
       Um dia, estava a trabalhar num motor no hangar traseiro, quando, surpreendida, viu entrar o pai e Nick. Estavam a falar da compra de um novo avio, e o pai 
pensava que era demasiado dispendioso. Era um Lockheed Vega usado.
       - Vale a pena, Pat.  um avio pesado, mas  uma bela mquina. Vi um a ltima vez que fui a Chicago.
       - E quem pensas que o vai pilotar? Tu e eu. Os outros s conseguiro despenh-lo nas rvores.  uma mquina muito boa, Nick, e no h cinco homens em quem 
confiasse para o pilotar. Talvez nem dois.
       Porm, enquanto O Pai proferia estas palavras, Cassie viu Nick a olhar para ela com uma expresso estranha e sentiu o terror a subir-lhe pela espinha. Soube 
instintivamente o que ele ia fazer. Quis dizer-lhe que parasse, mas, por outro lado, desejava que o fizesse. No se podia esconder eternamente. Mais cedo ou mais 
tarde, o pai teria de saber, e Nick continuava a falar sobre a sua participao no prximo festival areo.
       Pode no haver cinco homens aqui que o consigam pilotar, Pat, mas posso apontar-te uma mulher que o, consegue fazer de olhos fechados.
       - O que quer isso dizer? - O pai resmungou, j aborrecido com a referncia a uma mulher que conseguia pilotar fosse o que fosse e quanto a um homem mais um 
avio o qual no confiaria
       Nick disse-o muito devagar e calmamente enquanto Cass os observava, aterrorizada e a rezar para que o pai ouvisse.
       - A tua filha  o melhor piloto que conheo, Pat. H mais de um ano que voa comigo. Para ser exato h um ano e meio. Ela  o melhor piloto que tu e eu j 
vimos desde 1917. Estou a falar a srio.
       - Tu o qu? - Pat olhou para o seu velho amigo e scio completamente ultrajado. - Tens andado a voar com ela? Sabendo o que eu sinto sobre isso? Como te atreves!
       - Se eu no me atrevesse, ela atrever-se-ia. Ter-se-ia matado h um ano atrs, pressionando o irmo a lev-la e a deix-la pilotar qualquer coisa em que conseguisse 
pr as mos. Estou a afirmar-te que ela  o melhor piloto nato que j vi, e tu s parvo se no a deixares mostrar-te o que vale, Pat. D uma hiptese  mida. Se 
fosse rapaz, f-lo-ias e sabes disso.
       - Eu no sei o que sei - disse irado a ambos -, a no ser que vocs so dois grandes mentirosos. A ti, Cassandra Maureen, digo-te j que te probo de voar. 
- Olhou diretamente para ela e depois para Nick. - E no vou aturar disparates teus, meu grande idiota, Nick Galvin. Ests a ouvir?
       - Ests completamente enganado! - Nick insistia, mas Pat estava demasiado lvido para ouvir.
       - No me interessa o que pensas. Ainda s mais idiota do que ela. Ela no pilotar os meus avies no meu aeroporto. Se s suficientemente louco para voar 
com ela num outro stio qualquer, responsabilizo-te se a matares. Se ela te matar a ti a culpa ser tua. No h uma mulher viva que consiga pilotar decentemente 
e tu sabe-lo. - Tinha acabado de deitar abaixo, com um s golpe, uma gerao inteira de mulheres extraordinrias, sendo a filha uma delas. Mas ele no se importava. 
Era naquilo que acreditava e ningum lhe ia provar que era diferente.
       - Deixa-me lev-la e mostrar-te, Pat. Ela consegue pilotar tudo o que ns temos. Tem uma noo de velocidade e altitude que lhe est no sangue e nos olhos 
e no no que ela v no painel de controles. Pat, ela  fabulosa.
       - Tu no vais mostrar-me nada e eu no quero ver. Que par de idiotas... Suponho que ela te convenceu de tudo isto.
       Olhou para a filha na mais completa fria. Segundo Pat, a culpa era toda dela. Cassie era um pequeno monstro teimoso, determinada a matar-se com os avies 
do pai e no seu prprio aeroporto.
       - Ela no me convenceu de nada. Eu vi-a fazer uma descida h um ano naquela tempestade em que se meteu com o Chris e percebi imediatamente que no era este 
que estava a pilotar. Achei que, se no interviesse, ela mataria ambos, por isso comecei a ensin-la nessa altura.
       - Era o Chris que estava a pilotar durante a tempestade do ano passado  argumentou o pai com ar de desafio.
       - No era! Nick gritou-lhe, j furioso pela falta de compreenso de Pat que apenas queria sustentar uma posio completamente desatualizada. - Como consegues 
ser to cego! O rapaz no tem coragem nem mos. Tudo o que consegue fazer  subir e descer como um elevador, tal como fez no festival. Em nome de Deus, o que te 
faz pensar que ele conseguiria salv-los daquela tempestade? Foi a Cassie. - Nick olhou possessivamente para esta e ficou surpreendido ao ver que ela estava a chorar 
devido  fria do pai.
       - Fui eu, pai - disse, baixo. - Fui eu! O Nick sabia. Confrontou-me com o fato quando descemos e...
       - No quero ouvir isto. Alm de tudo o mais, s mentirosa, Cassandra Maureen, ao tentares retirar a glria ao teu irmo. - A fora das suas acusaes cortou-lhe 
a respirao e mostrou-lhe novamente como era intil tentar convenc-lo. Talvez um dia. Agora no. E isso parecia cada vez mais provvel.
       - D-lhe uma oportunidade, Pat. - Nick estava novamente a tentar acalm-lo, mas era intil. - Por favor! Deixa-a mostrar o que sabe. Ela merece-o! No ano 
que vem gostaria de a inscrever no festival areo.
       - Esto os dois parvos. Completamente parvos. O que te faz pensar que ela no se mataria juntamente com mais uma dzia de assistentes do festival, incluindo 
ns dois?
       - O fato de ela pilotar melhor do que qualquer um dos que j l vi. - Nick tentou manter-se calmo, mas estava lentamente a perder o controlo. Pat no era 
um homem fcil e o assunto era muito espinhoso. - Ela voa melhor do que o Rickenbacker,  por Deus. Deixa-a mostr-lo.
       No entanto, ele tinha cometido um sacrilgio ao invocar o nome do comandante do 94. Esquadro Areo. Nick sabia que tinha ido longe de mais, pois Pat virou 
as costas, voltando para o escritrio. Nunca olhou para trs e no disse nem mais uma palavra  filha.
       Esta estava a chorar copiosamente e Nick colocou-lhe o brao sobre os ombros.
       - Jesus! O teu pai  um homem muito teimoso. Tinha-me esquecido como consegue ser impossvel quando alguma coisa o irrita. Mas eu ainda consigo convenc-lo. 
Prometo! - Apertou-a contra si e ela sorriu atravs das lgrimas.
       Se fosse Chris, o pai t-la-ia deixado mostrar qualquer coisa. Mas agora no! Nunca! Tudo porque era uma rapariga. Era muito injusto, mas ela sabia que nada 
o faria mudar de opinio.
       - Ele nunca aceitar, Nick.
       - No tem de aceitar. Tens dezoito anos. Podes fazer o que quiseres. No ests a cometer nenhum crime. Ests a ter lies de vo. E depois? Est bem? Descansa. 
- Receberia o seu brevet muito em breve, pois estava mais do que apta para tal. Quando Pat comeara a voar em 1914 nem precisara de um brevet para voar.
       - E se ele me expulsa de casa?
       Parecia assustada, mas Nick riu-se. Conhecia bem Pat e ela tambm. Fazia muito barulho e era bastante limitado nas suas idias e crenas, mas adorava os filhos.
       - Nunca o far, Cass. Poder tratar-te mal durante uns tempos, mas nunca te expulsar. Ele adora-te.
       - Ele ama o Chris - contraps a jovem, com um ar triste.
       - Mas tambm te ama. S est um pouco atrasado no tempo e  teimoso como o diabo. Por vezes, leva-me  loucura.
       - A mim tambm. - Ela sorriu, assoou o nariz e olhou para Nick com uma expresso preocupada. - Continuas a ensinar-me?
       - Claro. - Sorriu com um ar de rapazinho malandro e depois fingiu olhar para ela muito srio. - Mas no deixes que tudo o que eu disse te suba  cabea. Tu 
no voas como o lder do grande 94.0 - disse com um ar carregado, sorrindo depois. - Contudo poderias ser melhor do que ele foi, se melhorasses algumas das tuas 
curvas e ouvisses o teu instrutor.
       - Sim senhor.
       - Vai lavar a cara. Ests com um ar horrvel. Encontramo-nos amanh na pista, Cass. - Sorriu. - No te esqueas! Temos de nos preparar para o festival areo.
       Cassie olhou para Nick com uma expresso de agradecimento quando ele se foi embora, pensando no que seria preciso para convencer Pat O'Malley.
       Decerto que ainda no estava convencido quando, nessa noite, se recusou a dirigir a palavra a Cassie durante o jantar. Contara tudo a Oona e a me soltou 
um grito quando ouviu. H muito que Pat a tinha convencido de que as mulheres no tinham constituio fsica nem mental para pilotar avies.
       -  muito perigoso - tentou ela explicar a Cassie mais tarde no quarto. Com as irms casadas e fora de casa, Cassie h muito que tinha o seu prprio quarto.
       - No  mais perigoso para mim do que para Chris - disse Cassie novamente a chorar. Estava exausta de lutar contra eles e sabia que nunca ganharia. At Chris 
nada dissera em sua defesa. Detestava discutir com os pais.
       - Isso no  verdade - contraps a me. - O Chris  um homem.  menos perigoso para um homem do que para uma mulher - disse a me como se de uma verdade do 
Evangelho se tratasse, pois aprendera-a com o marido.
       - Como pode dizer isso?  um disparate.
       - No . O teu pai diz que as mulheres no possuem a mesma concentrao.
       - Isso  mentira, me. juro. Olhe para a quantidade de mulheres que voam. Grandes mulheres. -
       - Olha para a Amelia Earhart, querida. Ela  o exemplo perfeito daquilo que o teu pai afirma.  bvio que se perdeu ou ficou sem presena de esprito e levou 
aquele pobre homem com ela.
       - Como sabes se o desaparecimento no foi culpa dele? - insistiu Cassie. - Ele era o navegador. Tambm pode ter sido abatida - disse Cassie tristemente. Sabia 
que no chegaria a lado nenhum. A me estava completamente convencida daquilo que o marido sempre lhe dissera.
       - Tens de parar de te comportar desta maneira, Cassie. Nunca te devia ter deixado andar pelo aeroporto todos estes anos. Mas gostavas tanto que pensei ser 
agradvel para o teu pai. Tens de acabar com esses sonhos disparatados, Cassie. s uma universitria e um dia sers professora. No podes andar a voar por a como 
uma cigana.
       - Posso sim, com um raio. Posso sim. - Cassie levantou a voz  me, e, alguns instantes mais tarde, o pai estava no quarto a dizer-lhe para pedir desculpa 
 me. Nessa altura, ambas as mulheres choravam enquanto Pat estava completamente furioso e claramente lvido.
       - Desculpa, me - disse ela com pesar.
       - Acho muito bem que te desculpes - afirmou o pai antes de sair e bater com a porta. Momentos depois, a me saiu do quarto e Cassie deitou-se na cama a soluar 
de pura frustrao por no conseguir lidar com os pais.
       Mais tarde, quando Bobby Strong chegou, Cassie pediu a Chris que lhe dissesse que estava com uma dor de cabea terrvel. Ele foi-se embora preocupado, depois 
de lhe deixar um bilhete a desejar-lhe rpidas melhoras e a dizer que voltaria no dia seguinte.
       - Amanh se calhar estou morta - disse ela tenebrosamente ao ler o bilhete que o irmo lhe tinha entregue. - Talvez fosse melhor!
       - Descansa, mana. Aquilo passa-lhes - disse Chris calmamente.
       - No. No passa. Ao pai nunca passar. Recusa-se a acreditar que as mulheres conseguem pilotar e acha que s servem para fazer malha e ter filhos.
       - Isso parece ser timo. E como vai o teu tric? - disse-lhe para a arreliar. Ela atirou-lhe com um sapato enquanto o irmo fechava a porta para fugir dela.
       No dia seguinte, sentia-se melhor. Sentia-se como ela prpria, assim que descolou no Bellanca com Nick. Este achava que no a deveria deixar pilotar os avies 
do pai. Como era habitual, fez uma pilotagem muito competente e s o fato de estar no ar com Nick melhorava-lhe o estado de esprito. Depois, sentaram-se no velho 
caminho a conversar, mas Cassie parecia muito triste. Ainda estava perturbada com a reao do pai.
       - Com que ento sou to boa como o Rickenbacker? - disse a Nick para o arreliar.
       - Eu disse-te para no deixares que isso te subisse  cabea. S estava a mentir para o impressionar.
       - Ele pareceu bastante impressionado. No achas?
       Cassie sorriu pesarosamente e Nick riu-se. Ela era uma boa companheira e, mais cedo ou mais tarde, conseguiriam convencer Pat, que no podia ficar eternamente 
com a cabea enterrada na areia. Ou podia?
       O seu horrio de vo pouco mudou. A nica vez que aconteceu foi quando Nick fez vos de longo alcance ou quando ela tinha demasiado trabalho de casa. Mas 
como nenhum deles estava disposto a faltar s lies, faziam sempre primeiro as suas outras obrigaes. O mais interessante  que o pai nunca perguntou a nenhum 
deles se estavam a continuar com as lies.
       Nick juntou-se-lhes no dia de Ao de Graas, como era habitual. Pat estava com um comportamento mais frio do que o normal em relao aos dois. Ainda no 
lhes tinha perdoado pelo que considerava uma traio. No aeroporto, Nick caminhava sobre ovos e, em casa, Pat mal dirigira duas palavras a Cassie desde Outubro. 
Estava a tornar-se cada vez mais difcil, mas no Natal ele parecia mais tranqilo. Rendeu-se finalmente quando Bobby Strong ofereceu um pequeno anel de brilhantes 
a Cassie, na vspera de Natal.
       Bobby disse que sabia que era uma longa espera, mas que se sentiria melhor se j fossem noivos. Namoravam h trs anos, por isso no achava que fosse demasiado 
cedo. Estava com um ar to srio e to apaixonado que Cassie no teve coragem de o recusar. No tinha a certeza do que sentia, a no ser confuso, no momento em 
que o deixou colocar-lhe o anel lentamente no dedo. Sentia-se muito culpada e infeliz com tudo desde que os pais tinham feito todo aquele espalhafato pelo fato de 
ela voar. O noivado parecia modific-los e instal-la, de novo, nas suas boas graas.
       Ficaram muito contentes. Anunciaram o noivado ao resto da famlia no dia seguinte, durante o jantar de Natal. Nick tambm estava l e pareceu muito surpreendido 
com as notcias. Apenas olhava para Cassie, perguntando a si prprio se aquilo mudaria tudo entre eles. Estranhamente, ela no teve um comportamento diferente. No 
parecia estar mais perto nem mais confortvel com Bobby e, como sempre, estava muito  vontade com Nick., De fato, muito pouco mudara. Bobby apenas ficou um pouco 
mais no alpendre antes de se ir embora, mas no era o que a prpria Cassie teria esperado de um noivado. Quanto a Nick, ainda estava a pensar nisso quando se encontraram 
novamente na pista deserta.
       - O que  que isso significa? - Apontou para o anel.
       Ela hesitou por alguns instantes e encolheu os ombros. Cassie no queria ser m, mas no reagia como as pessoas esperavam.
       - No tenho a certeza - disse honestamente. O fato de ter o anel no dedo no a fazia sentir-se diferente em relao a Bobby. Gostava dele, mas no conseguia 
imaginar ser mais para ele do que era agora. Tinha aceite o noivado apenas porque parecia ser importante para Bobby e para os pais. Parecia, sobretudo, ser importante 
para Bobby e ela compreendia-o. - No tive coragem de o devolver. - Olhou envergonhadamente para Nick enquanto vigiava o Bellanca. Tinham feito um bom vo nesse 
dia e ela aperfeioara alguns aspectos sobre a aterragem com ventos cruzados. - Ele sabe que eu quero acabar a faculdade - disse com um ar indefeso. Mas a faculdade 
no era realmente o problema.
       - Pobre tipo! Vai ser o noivado mais longo da histria. Quanto tempo ? Trs anos e meio?
       - Sim. - Ela sorriu maliciosamente para Nick.
       Este no conteve o riso enquanto resistia ao impulso de a beijar. Estava muito aliviado. Ficara doente quando vira o anel de noivado. Detestava a idia de 
Cassie se casar com algum, ou at de estar noiva, mas Bobby no era afinal uma grande ameaa. Mais cedo ou mais tarde, Cassie teria de resolver o problema sozinha, 
mas, nessa altura, outro seria o problema. Sabia o quanto isso o ia incomodar quando acontecesse.
       - Muito bem! Mexe-me esse rabo, O'Malley. Vamos l ver outra aterragem sem motor. - Ia subir com ela novamente.
       - Deves pensar que vou passar metade da minha vida em terra e no no ar. No sabes ensinar mais nada, Stick? - Ela enfatizou a palavra. - Ou  o nico truque 
do teu repertrio? - Adorava irrit-lo, adorava estar com a nica pessoa no mundo que realmente a compreendia. E ainda era melhor se estivessem a voar.
       Daquela vez, ele mandou-a sozinha e observou a sua perfeita aterragem sem motor, mais uma vez sem uma nica falha, e finalmente, sem pestanejar, com ventos 
cruzados.
       Deu por si novamente a pensar que era uma pena o pai recusar-se a v-la voar. Ter-lhe-ia dado muito prazer.
       - Ests pronta para acabar por hoje? - perguntou ele enquanto caminhavam para o caminho que a levaria de volta a Good Hope.
       - Sim. Acho que sim - disse ela tristemente. - Detesto sempre ter de aterrar. Gostava de continuar para sempre.
       - Talvez fosse melhor seres uma Skygirl quando cresceres - arreliou-a ele novamente. Cassie bateu-lhe com as luvas, mas estava com uma expresso triste. De 
fato, no tinha opes. Se no fosse Nick, ela nunca voaria.
       - Tem calma, mida - disse este gentilmente. - O teu pai vai aceitar.
       - No. No vai - respondeu a jovem que conhecia o pai.
       Nick tocou-lhe na mo e os seus olhos encontraram-se. Ela estava-lhe grata por tudo o que ele lhe dera e pela sua bondade. Tinham aquele tipo de amizade que 
nunca encontrara noutra pessoa. Cassie era uma grande mulher e uma boa amiga e tinham-se divertido muito nas tardes roubadas e passadas na sua pista secreta. Nick 
apenas desejava que pudesse continuar para sempre. No conseguia imaginar no a encontrar mais daquela forma, ou no a ter para voar consigo e partilhar os seus 
pensamentos. De todas as maneiras importantes, era a nica pessoa com quem ele realmente desabafara. Ele tambm era o seu nico amigo. A nica tragdia para ambos 
residia no fato de no terem mais nada no seu futuro.
       Ao fim da tarde, foi para casa sozinha, a pensar nele. Comeou a nevar assim que chegou. Entrou em casa e ajudou a me a fazer o jantar para os quatro, mas 
o pai estava atrasado. Uma hora mais tarde, ainda no tinha chegado. Finalmente, Oona mandou Chris ao aeroporto para tentar encontrar Pat.
       Chris voltou vinte minutos mais tarde para levar comida para si e para o pai. Tinha havido um desastre de comboios, trezentos e sessenta quilmetros a sudoeste, 
com centenas de feridos, e estavam a pedir equipas de salvamento de todo o lado. Pat estava a organizar equipas de salvamento no aeroporto e queria que Chris ajudasse. 
Nick tambm l estava, tentando chamar todos os pilotos. Mas trs estavam em casa, demasiado doentes para poderem ir, e ainda no tinham conseguido localizar os 
outros. Ainda estavam  espera que alguns chegassem. Pat dissera a Chris para comunicar  me que no iriam para casa  noite. Oona acenou com a cabea, habituada 
a estas coisas, e embalou alguns alimentos para comerem no aeroporto.
       - Espera! - disse Cassie quando Chris ia a sair. - Vou contigo.
       - No devias... - Oona comeou a objetar, mas, ao ver a expresso no rosto da filha, encolheu os ombros. No fazia mal. Tudo o que ela poderia fazer era ficar 
sentada no aeroporto. - Est bem. Vou embrulhar algo para comeres.
       Deu-lhes um cesto cheio de comida, e ambos foram-se embora, derrapando de vez em quando na velha estrada que ia dar ao aeroporto. Estava uma noite gelada 
e a neve caa h duas horas. Perguntava a si prpria se conseguiriam descolar. As condies climatricas no estavam nada boas e o pai parecia preocupado quando 
ela e Chris entraram no escritrio do aeroporto.
       _ Ol, midos. - Empurrou a comida para o lado. Ele e Nick estavam a falar ansiosamente sobre os avies que poderiam usar e os homens que precisavam. Estavam 
a tentar mandar quatro avies com mantimentos e equipas de salvamento. Tudo e todos estavam reunidos, exceto os pilotos. At agora, ainda faltavam dois homens que 
tentavam contatar. Pat iria pilotar o novo Vega com Chris. No entanto, se fosse necessrio, Pat voaria sozinho. Outro dos seus melhores homens tinha chegado com 
o co-piloto e a cada um estava destinado um avio. Mas precisavam de mais dois homens para pilotar o velho Handley. Era difcil de dirigir e, devido  sua idade, 
tamanho, alm das condies climatricas, era melhor levar dois homens. Nick poderia t-lo pilotado sozinho, mas no seria uma deciso sbia. Alm disso, queria 
algum muito bom para voar com ele. Silenciosamente, olhou para Cassie, mas nada disse.
       Pouco depois, tiveram notcias de mais dois homens. Um estava completamente exausto, depois de uma viagem de dezesseis horas pelo pas a entregar correio 
com um tempo terrvel, e o outro admitiu ;imediatamente que estivera a beber.
       - S nos resta um - disse Nick, infeliz. Um homem de quem precisavam ter notcias. Por volta das dez horas, este finalmente ligou, dizendo que tinha uma terrvel 
dor de ouvidos. - Chegamos ao fim da linha, O'Malley - afirmou Nick vincadamente. Faltava-lhes um homem para a misso. Pat leu-lhe facilmente o pensamento e comeou 
a abanar a cabea, mas desta vez Nick no o ouviu.
       - Vou levar a Cassie comigo - disse ele calmamente quando Pat ia comear a refilar. - No percas tempo, s. Esto centenas de pessoas feridas  espera de 
ajuda e mantimentos e no vou discutir contigo. Sei o que estou a fazer e ela vem comigo. - A outra opo era deix-la ser co-piloto do Vega com o pai, mas Nick 
sabia que ele no o permitiria.
       Nick agarrou no casaco e encaminhou-se para a porta. Susteve a respirao quando viu Pat olhar para ele, zangado, sem fazer qualquer objeo.
       - Es um louco, Nick - rosnou-lhe Pat, mas no disse mais nada enquanto juntavam as coisas e telefonava a Oona para lhe pedir que esperasse por eles no aeroporto.
       Cassie seguiu Nick em silncio at ao avio, sentindo algo a tremer dentro de si e, s por um instante, viu o pai a olhar fixamente para ela com uma expresso 
de raiva e traio. Quis dizer-lhe qualquer coisa, mas no sabia o qu. Instantes depois, ele desaparecia com Chris no Vega.
       - Ele fica bem - disse Nick enquanto a ajudava a subir para o lugar, mas a jovem apenas abanou a cabea. Como sempre, Nick tinha-o enfrentado. Acreditava 
nela e no receara diz-lo. Era um homem espantoso, e ela apenas esperava no o deixar ficar mal ao pilotar o velho avio, com aquele mau tempo, at ao Missouri.
       Fizeram as habituais verificaes no solo e depois no interior. Ela conhecia bem o avio, graas a Nick, e, enquanto apertava o cinto, ficou subitamente muito 
excitada com o que iam fazer e esqueceu-se completamente do pai. Transportavam mantimentos de emergncia que lhes tinham sido trazidos ao aeroporto. Os outros avies 
tambm transportavam mantimentos, dois mdicos e trs enfermeiras. Estava a chegar auxlio de quatro estados. Havia quase mil pessoas feridas.
       Nick descolou cautelosa mas suavemente. No havia gelo nas asas e a neve j no caa com tanta intensidade. Tinha quase parado quando chegaram  sua altitude 
final de oito mil ps e voaram para sudoeste em direo a Kansas City. Era um vo de duas horas e meia, se bem que Pat e Chris o fizessem em pouco mais de uma hora 
no Vega. Houve quase sempre turbulncia, mas isso no perturbou Cassie ou Nick. Cassie estava atordoada com a beleza da noite e com o fato de ser to pacfico estar 
ao comando de um avio numa noite cheia de estrelas, agora. Era como estar  beira do mundo num universo infinito. Nunca se sentira to pequena, to livre e to 
viva como naquele momento.
       Nick deixou-a pilotar a maior parte do tempo e, quando chegaram a um campo com rea suficiente, perto dos destroos do comboio, ele aterrou o avio.
       Quando chegaram ao comboio, havia feridos por todo o lado, os mantimentos estavam a chegar e o pessoal mdico tentava ajudar pessoas deitadas no cho e crianas 
que choravam. Nick, Cassie e os outros ficaram a ajudar at de madrugada e, nessa altura, a polcia estatal parecia ter tudo sob controlo. Tinham surgido ambulncias 
e pessoal mdico oriundos de todo o estado. As pessoas tinham vindo de carro ou de avio e chegado o mais depressa possvel. De manh, Nick e Cass voaram para casa 
com os outros. Mal vira o pai durante a noite, enquanto faziam tudo o que podiam para ajudar as equipas de salvamento.
       O Sol nasceu no momento em que descolaram, e no caminho de regresso Nick deixou-a pilotar e fazer uma aterragem perfeita, apesar dos ventos fortes e do gelo 
na pista. Nick apertou-lhe a mo depois de ela desligar os motores e cumprimentou-a por um trabalho bem feito. Ela sorria ao descer do avio e ficou surpreendida 
quando quase chocou com o pai. Este estava de p ao lado do avio, olhando para Nick com uma expresso cansada. Depois ladrou uma pergunta.
       - Quem aterrou este avio? - O avio era dele e Cassie sentiu imediatamente que ia haver problemas.
       - Fui eu - disse Cassie calmamente, pronta a assumir a responsabilidade por algum erro que tivesse cometido. Levava tudo aquilo muito a srio e com calma.
       - Fizeste um belssimo trabalho - disse Pat estranhamente. Depois virou-se e foi-se embora.
       Ela tinha provado tudo o que Nick afirmara e ambos ficaram a pensar no que Pat faria agora. Era difcil saber. No era possvel prever Pat O'Malley. Enquanto 
observava o pai  distncia, tinha lgrimas nos olhos. Fora o nico elogio significativo que partira da boca do pai e desejou gritar de contentamento. Em vez disso, 
sorriu para Nick, reparando que ele tinha um largo sorriso estampado no rosto. Dirigiram-se de brao dado para o escritrio.
       A me tinha trazido caf e po com manteiga para todos, e Cassie sentou-se calmamente a beb-lo e a conversar com Nick sobre o que tinham visto. Fora uma 
noite longa e dura, mas pelo menos tinham sido teis.
       - Com que ento pensas que s muito boa. - Ouviu as palavras do pai que estava em p junto dela e olhou para ele. j no tinha uma expresso zangada.
       - No, pai. No acho. Apenas quero voar - disse Cassie suavemente.
       - No  natural. Isso  que  a verdade. Olha o que aconteceu  pobre Earhart. - Cassie j ouvira vrias vezes aquele discurso e estava preparada para tal, 
mas no se sentia, de modo algum, pronta para o que ouviu a seguir, abrindo a boca de espanto quando olhou para Nick para ter a certeza que tinha ouvido corretamente. 
- Eu dou-te trabalho aqui depois da escola. Nada de especial. Apenas pequenas coisas. No posso dar-me ao luxo de ter o Nick a voar por todo o lado e a gastar gasolina 
e tempo para te dar lies. - Ela sorriu quando olhou o pai, e Nick soltou um grito de contentamento que fez com que os outros homens olhassem confusos para ele.
       Ela atirou-se ao pescoo do pai, Nick apertou-lhe a mo e Chris dirigiu-se  irm e abraou-a. Nunca fora to feliz. Ia deix-la voar. O pai ia deix-la voar 
e dar-lhe pequenas tarefas no aeroporto.
       - Espera at ao festival areo de julho - sussurrou ela a Nick enquanto o abraava com fora e este sorria. O pai ia ter uma grande surpresa. Aquilo era, 
decerto, um excelente comeo.

CAPTULO 8
       Nos seis meses que se seguiram, os dias de Cassie pareciam voar. Conduzia para Bradley todos os dias, trabalhava num restaurante trs tardes por semana para 
pagar a Nick a gasolina das lies e depois tentava chegar ao aeroporto antes do cair da noite. Fazia o que podia para ajudar, mas a maior parte do trabalho para 
o pai, como piloto, realizava-se aos fins-de-semana. Eram os seus dias mais felizes. Nick at a levou em algumas viagens de transporte de carga para Chicago, Detroit 
e Cleveland.
       A sua vida nunca parecera to perfeita. Tinha saudades das secretas lies de vo com Nick e dos momentos que haviam partilhado juntos. Mas, agora, ele ensinava-a 
abertamente quando tinham tempo, descolando do aeroporto do pai. Apesar de Pat nunca lhe ter dito nada, era bvio que aprovava o seu estilo e, uma vez, admitira 
secretamente a Nick que ela era um grande piloto. Todos os seus elogios iam para Chris que tentava, mas realmente no os merecia. Mas isso j no incomodava Cassie. 
Tinha tudo o que queria.
       O seu nico problema era o fato de o noivo no aprovar a permisso de Pat. No entanto, j que o fizera, havia muito pouco que Bobby poderia dizer, exceto 
recordar-lhe constantemente a sua reprovao. A prpria me pensava que era apenas uma fase passageira, e que Cassie se desinteressaria quando casasse e tivesse 
filhos.
       A maior notcia dessa Primavera foi a tomada da ustria por Hitler, em Maro. Pela primeira vez, havia uma sria preocupao em relao  possibilidade de 
uma guerra, se bem que a maioria das pessoas ainda acreditasse em Roosevelt. Este dissera que no haveria guerra e que, mesmo que houvesse, a Amrica nunca entraria. 
Uma vez bastara para aprender a lio.
       Nick, porm, no pensava que isso fosse assim to simples. Lera alguma coisa sobre Hitler e no confiava nele. Tambm tinha amigos que se tinham oferecido 
como voluntrios para a Guerra Civil de Espanha, havia dois anos, e acreditava que, muito em breve, toda a Europa estaria em grandes sarilhos. Nick conseguia facilmente 
visionar o novo envolvimento dos Estados Unidos, apesar das promessas e protestos de Roosevelt.
       - No acredito que entremos novamente. E tu, Nick? perguntou Cassie muito sria, depois de terem praticado para o festival.
       - Eu acredito - respondeu ele honestamente -, e acho at que o faremos. Penso que o Hitler ir longe de mais e teremos de nos envolver para apoiar os Aliados.
       - Isso  difcil de acreditar - disse Cassie.
       Era ainda mais difcil acreditar que o pai no tivesse colocado entraves  sua participao no festival. Nick tinha-o convencido e agora, mais do que nunca, 
Pat tinha medo de ficar envergonhado. j vira que ela era muito segura, tinha boas mos e havia sido bem ensinada. E se as coisas corressem mal? Se tudo corresse 
to mal ao ponto de ele no conseguir erguer a cabea?
       - O Chris no te deixar ficar mal - dissera Nick para o encorajar e Pat tinha ingenuamente acreditado.
       Nick tinha muitas mais certezas a respeito de Cass, mas no se teria atrevido a diz-lo ao pai. Pat ainda queria acreditar que Chris tinha um grande futuro 
aos comandos de um avio e recusava-se a ver que o filho no dava qualquer importncia  aviao. Com toda a justia, Chris no deixava transparecer os seus verdadeiros 
sentimentos. Tinha medo.
       Quando finalmente chegou o grande dia, todas as previses de Nick estavam certas. Chris ganhou novamente o prmio de altitude, mas Cassie ganhou o segundo 
lugar em velocidade e o primeiro numa corrida em circuito fechado. Durante a tarde, quando anunciaram os vencedores, Pat no conseguia acreditar no que estava a 
ouvir e Cassie tambm no. Ela e Nick danavam como duas crianas, abraando-se e beijando-se, e largando gritos de contentamento. O jornal local tirou uma fotografia 
de Cassie sozinha e depois outra ao lado do pai. Chris no ficara enciumado com nada do que acontecera. Sabia quanto aquilo significava para ela. Era toda a sua 
vida. Pat no conseguia acreditar no que ela fizera, mas Nick conseguia. Sempre o soubera e no se surpreendeu quando um dos juzes afirmou que nunca tinha visto 
um piloto to bom em curvas a alta velocidade como Cassie.
       - Conseguiste, mida - disse Nick, sorrindo, enquanto a conduzia para casa ao fim do dia, depois de terem pilotado todos os avies do pai de regresso ao aeroporto.
       - Eu ainda no acredito - afirmou ela, observando fixamente Nick, olhando depois para longe pela janela.
       - O teu pai tambm no. - Ele sorriu.
       - Devo-te tudo a ti - disse ela seriamente, mas Nick apenas abanou a cabea.
       - Tu deves tudo a ti prpria.  a essa pessoa a quem tu deves tudo. Eu no te dei o dom. Foi Deus que to deu. Eu apenas ajudei.
       - Tu fizeste tudo. - Ela virou-se para olh-lo, sentindo-se subitamente triste. E se ele a deixasse de ensinar? E se deixassem de passar tempo juntos? - Ainda 
virs voar comigo?
       - Claro. Se prometeres no me assustar. - Nessa altura disse-lhe o que o juiz referira, com um verdadeiro orgulho nela.
       Ela deu uma gargalhada ruidosa e depois quase gemeu quando viu Bobby Strong  sua espera no alpendre. Este tivera tanto medo que algo lhe acontecesse que 
se recusara a ir ao festival. Havia coisas que ela tinha de admitir, mas nunca tivera a coragem, e ele nunca quisera ouvir. Bobby no queria acreditar no quanto 
significava para Cassie voar, e at que ponto desejava fazer outras coisas para alm de ser mulher e me. Naquele momento, Cassie s desejava reviver cada momento 
do festival com Nick e que este lhe assegurasse que os seus momentos juntos no iriam acabar. Em vez disso, teria de lidar com Bobby.
       - Ali est o teu amigo - disse Nick calmamente. - Vais casar-te com ele? - Fora algo em que Nick sempre pensara.
       - No sei - respondeu honestamente com um suspiro. Era quase sempre honesta com ele, mas Bobby no queria respostas honestas. Ela tinha dezenove anos e no 
se sentia preparada para se ligar a ningum. No entanto, era o que todos queriam. - Todos continuam a dizer-me que mudarei e que casar e ter filhos altera tudo. 
Acho que  disso que tenho medo. A minha me diz que  tudo o que as mulheres desejam. Ento como  que se compreende que tudo o que eu desejo  o que tive hoje, 
alm de um hangar cheio de avies?
       - No posso dizer que tenha sentido as coisas de outra maneira - sorriu ele, ficando subitamente pensativo. - No. No  verdade. Senti a vida de outras maneiras 
quando tinha mais ou menos a tua idade. Esforcei-me muito, mas no resultou. Desde ento, tenho um medo horrvel. No h espao para famlia e avies na minha vida, 
o que no significa que tu sejas diferente, Cassie. - De certo modo, queria que ela fosse diferente, mas no com Bobby.
       _ O meu pai conseguiu conjugar bem as duas coisas - disse sorrindo. - Talvez sejamos ambos estranhos ou talvez apenas covardes. s vezes,  mais fcil amar 
avies do que pessoas.
       No entanto, ela sabia que o amava. Era o amigo mais querido que tinha e tambm sabia que Bobby a amava desde criana. O problema agora era que Cassie j no 
era uma criana.
       - Sabes - acenou pensativamente com a cabea, respondendo ao fato de ela se ter apelidado de covarde -, foi exatamente o que eu disse hoje a mim prprio quando 
te vi fazer aquele looping triplo seguido de um parafuso invertido antes de passares para as rotaes na corrida acrobtica. Disse para mim prprio: Ena! Nunca 
pensei que a Cassie fosse covarde.
       Ela riu-se com a expresso do seu rosto e deu-lhe um empurro.
       - Sabes muito bem o que quero dizer. Talvez sejamos covardes com as pessoas - disse Cassie cautelosamente.
       - Talvez s no sejamos estpidos. Acho que casar com a pessoa errada  o pior que pode acontecer. Acredita em mim. Eu tentei.
       - Ests a tentar dizer-me que Bobby  a pessoa errada para mim? - inquiriu Cassie com um tom de voz mais baixo, enquanto o rapaz esperava pacientemente no 
alpendre. j soubera que ela ganhara dois prmios no festival.
       - No posso dizer-te isso, Cass. S tu podes saber e no deixes que ningum te diga que ele  a pessoa certa.  preciso que tu percebas. Se isso no acontecer, 
virs a arrepender-te bastante.
       A jovem acenou com a cabea perante a inesperada sabedoria das suas palavras e depois abraou-o novamente, agradecendo-lhe tudo o que fizera por ela.
       - Vejo-te amanh no trabalho.
       Trabalharia no aeroporto todo o Vero. O pai ia deix-la despedir-se do emprego no restaurante e trabalhar para ele. Perguntou a si prpria se Pat a deixaria 
fazer transportes sozinha e se a sua performance no festival iria mudar alguma coisa.
       Saltou do caminho, olhando uma ltima vez para Nick, indo depois falar com Bobby, que tinha esperado bastante tempo por Cassie e estava contente por ela 
ter ganho. Mas, quando Cassie correu para ele, estava com um ar aborrecido. Toda a tarde, na loja do pai, estivera muito preocupado e aterrorizado com o fato de 
poder ouvir dizer que houvera um desastre no festival. E agora, ali estava ela com um ar muito feliz e despreocupado, como se tivesse ido s compras  cidade com 
as irms.
       - No  justo, Cass - disse calmamente. - Estive toda a tarde preocupado. Tu no sabes o que  pensar em todas as coisas horrveis que te poderiam acontecer.
       - Desculpa, Bobby - disse ela devagar -, mas foi um dia muito especial para mim.
       - Eu sei - acenou com a cabea, mas no parecia contente. Se nenhuma das irms voava, o que  que ela estava a tentar provar? Realmente no queria que continuasse 
a voar e tinha-lho dito. Mas aquela no era a altura ideal para o dizer e Cassie ficou subitamente com um ar muito zangado.
       - Como podes dizer-me uma coisa dessas?
       Ela j tinha ido longe de mais: o festival areo, o pai e todos aqueles anos de lies com o Nick. Nunca mais deixaria de voar. Estava l em cima e iria l 
ficar quer Bobby gostasse ou no. Pensara que eventualmente conseguiria que ela mudasse de idias, mas, no fim do Vero, percebera que a rapariga se tinha aliado 
 famlia dos pilotos e que o sangue era mais forte do que os compromissos. De momento, tudo o que poderia fazer era pedir-lhe para ter cuidado.  claro que Cassie 
era cuidadosa, mas no por causa de Bobby. Apenas era muito boa naquilo que fazia e estava constantemente no ar. No Outono, quando Jackie Cochran ganhou a corrida 
do Bendix Trophy, de Burbank at Cleveland, Cassie estava a comear a entregar correio por conta do pai. Ele j parecia certo das suas capacidades e dera-lhe vos 
para todo o estado. Finalmente, admitira que Nick tinha razo. Era uma coincidncia e no se podia realmente ter a mesma confiana numa mulher como num homem, mas 
ela era um piloto excelente. Obviamente, Pat nunca dissera isso a Cassie.
       Ela ficou em Bradley a fazer o segundo ano e trabalhou no aeroporto durante todo o Inverno. Ajudava em vrias emergncias, voava com Nick sempre que podia, 
e, na Primavera, foi aceite como membro da equipa do aeroporto. Voava para todos os lados, fazia vos curtos e longos e estava novamente a praticar para o festival 
areo de Vero. Por vezes, saa com Nick para praticar, e o tempo que passavam juntos faziam-na lembrar os seus anos de lies. Mas agora, enquanto trabalhavam no 
aeroporto, tinham tempo para falar e, mais do que uma vez, Cassie fora com ele entregar carga ou correio.
       Ainda estava noiva de Bobby Strong, mas o pai dele estivera doente todo o ano e Bobby tinha agora mais responsabilidades na loja. Visitava Cassie com menos 
freqncia, porm esta andava to atarefada que por vezes nem reparava.
       Em Maro, Hitler ocupou o resto da Checoslovquia e tornou-se uma grande ameaa. Mais uma vez se falou de guerra e do medo do envolvimento americano. Roosevelt 
continuava a prometer que tal no aconteceria, e Nick continuava a no acreditar.
       Quando Charles Lindbergh regressou da Europa, na Primavera de 1939, era o mais falado campeo americano que no entraria na guerra. Pat ficou feliz quando 
o soube. Acreditava naquilo que o famoso aviador dizia. Para Pat O'Malley o nome de Lindbergh era ainda sagrado.
       - Ns no pertencemos  prxima guerra, Nick. Aprendemos a lio na ltima. - Pat foi inflexvel. Tinha a certeza de que os Estados Unidos nunca seriam puxados 
para mais uma guerra na Europa, apesar de j estarem a surgir problemas entre os Chineses e os japoneses, Mussolini tomara a Albnia, e Hitler parecia estar a visar 
a Polnia.
       Nessa altura, porm, a nica coisa em que Cassie pensava era no festival areo de Vero. Trabalhara bastante para aprender rotaes e curvas e outras acrobacias 
que vira numa pequena pista em Ohio, onde fora com Nick. Estava a trabalhar na velocidade e a praticar sempre que tinha tempo para isso. Em junho, acabou o segundo 
ano e pensou que estava pronta para o festival.
       Bobby sentia-se aborrecido com a sua participao no espetculo, mas tinha os seus prprios problemas na mercearia e h muito que compreendera que Cassie 
era impossvel quando se falava em voar. Foram ver o novo filme de Tarzan, em junho, tendo sido a nica coisa que compartilharam enquanto ela se preparava para o 
festival.
       Finalmente, chegou o grande dia e, s quatro da manh, Cassie j estava com Nick no aerdromo de Peoria. O irmo viria mais tarde com o pai, mas no estava 
especialmente entusiasmado por voar no festival desse ano. Ficara to excitado com o incio da faculdade na Western Illinois University, em Macomb, que mal praticara. 
Pat ainda colocava todas as suas esperanas nele e, apesar das impressionantes vitrias de Cassie no ano anterior, raramente se referia  sua participao no festival.
       Nick ajudou-a a abastecer o avio e a verificar tudo, e s seis horas foram tomar o pequeno-almoo.
       - Calma - sorriu ele, lembrando-se como ele prprio estivera a primeira vez que voara numa exibio, depois da guerra.
       Pat tinha ido com ele, e Oona trouxera as crianas para o verem. Cassie tambm estivera l, mas tinha apenas dois anos. Essa recordao f-lo sentir-se subitamente 
velho. Desde que comeara a ensin-la a voar, h alguns anos atrs, tinham-se aproximado muito. Haviam desenvolvido um lao emocional que nunca perderiam, mas, todavia, 
era-lhe por vezes penoso lembrar-se que tinha idade para ser pai dela. Cassie j tinha vinte anos e a diferena entre ambos era de dezoito anos. Ele ainda se sentia 
um rapaz e parecia muito mais novo do que realmente era. Cassie acusava-o constantemente de agir como uma criana, mas, de fato, tinha trinta e oito anos e ela apenas 
vinte. Nick teria dado tudo para cortar ao meio a diferena entre os dois, apesar de ela no parecer incomodar-se com o fato. Mas ele importava-se. Por outro lado, 
a jovem ainda era a filha do seu melhor amigo e nada mudaria esse fato. Pat nunca compreenderia aquela ligao ou a aproximao entre eles. Nick sabia que era uma 
barreira que nunca ultrapassariam, ao contrrio do que acontecera com os avies. Pat tinha ido at ali, mas no iria mais longe.
       Nick pediu um prato de ovos com salsichas, uma torrada e uma chvena de caf, mas, assim que tudo apareceu na mesa, Cassie ps tudo de lado.
       - No consigo, Nick. No tenho fome.
       - Tens de te alimentar. Mais tarde, vais precisar. Sei o que estou a dizer-te, mida. Seno, vais-te abaixo das pernas quando estiveres a fazer os loopings 
e a agentar os Gs negativos no festival. S boa menina e come. De contrrio, terei de te meter a comida pela goela abaixo e a empregada pode no entender.
       Olhou-a de uma maneira que mostrava quanto a estimava e ela sorriu-lhe alegremente.
       - Tu s horrvel.
       - E tu s gira. Especialmente quando consegues o primeiro prmio. Eu gosto disso numa rapariga. De fato, estou a contar que os ganhes.
       - S simptico e no me pressiones. Farei o que puder.
       Contudo, ela tambm queria ganhar o primeiro prmio e talvez, quem sabe, vrios. Por Nick, por ela e sobretudo para impressionar o pai.
       - Ele continua a amar-te. Apenas no suporta admitir que estava errado, mas sabe que tu s boa. A semana passada, ouvi-o diz-lo a alguns fulanos l no aeroporto. 
Apenas no o quer admitir perante ti.  s isso.
       Nick compreendia-o melhor do que Cassie. Apesar de tudo o que dizia sobre as mulheres-pilotos, Pat estava desesperadamente orgulhoso dela e tambm demasiado 
envergonhado para o admitir.
       - Se hoje eu conseguisse ganhar um monte de prmios, talvez ele finalmente admitisse, perante mim, e no a um monte de tipos, que eu vo bem.
       Ainda parecia zangada quando falava disso. O pai estava sempre a gabar Chris, que nem sequer gostava de voar, e isso enlouquecia-a.
       - Ser que  to importante ouvir essas palavras? - perguntou Nick enquanto comia ovos estrelados e um bife. Ele no ia fazer loopings, mas tinha exigido 
a si prprio um pequeno-almoo saudvel.
       - Talvez. Gostaria de as ouvir s pelo prazer disso e para saber o que se sente.
       - E depois?
       - Depois volto a voar para ti, para ele e para mim. Acho que no  grande coisa.
       - E acabas a faculdade e tornas-te professora.
       Nick gostava de dizer as palavras, mas ambos sabiam que ela no acreditava nisso.
       - Gostaria de ser instrutora de vo como tu - disse Cassie honestamente, dando um gole no caf quente.
       - Claro! E transportar correio.  uma grande vida para uma universitria.
       - No fiques to impressionado. No aprendi nada a no ser o que me ensinaste.
       E era verdade. Mas antes de ele poder deglutir aquele elogio foram interrompidos por um grupo de jovens que tinham acabado o pequeno-almoo. Pareceu hesitarem 
perto da mesa, andando aos crculos como jovens pssaros, olhando para Nick e para Cassie.
       - Conheces aqueles fulanos? - inquiriu Nick em voz baixa. Ela abanou a cabea. Nunca os vira, mas finalmente um deles aproximou-se da mesa de Cassie. Olhou 
para ela e depois para Nick e ficou subitamente com um ar muito jovem quando conseguiu ter coragem de se dirigir a eles.
       - Vocs so... Stick Galvin? - perguntou hesitantemente, olhando depois para ela. - E Cassie O'Malley?
       - Sou - respondeu Cassie antes de Nick.
       - Eu sou Billy Nolan. Venho da Califrnia. Vamos voar no festival. Vi-a no festival, o ano passado. - Corou furiosamente. - Voc foi extraordinria. - Parecia 
ter cerca de catorze anos e Nick quase resmungou. Tinha de fato vinte e quatro, mas no parecia. Era louro e jovem, o cabelo parecia o de uma criana e tinha o rosto 
cheio de sardas. - O meu pai conheceu-o - disse ele a Nick. - Voou no 94. 0 consigo. Foi abatido. Provavelmente no se lembra dele. Tommy Nolan.
       - Oh, meu Deus. - Nick sorriu ao estender-lhe a mo e convidou-o a sentar-se. - Como . que ele est?
       - Muito bem. Coxeia bastante desde a guerra, mas isso no parece incomod-lo. Temos uma sapataria em So Francisco.
       - timo! E ele continua a voar? - Nick lembrava-se bem dele, e o mais engraado era que Billy era extremamente parecido com o pai.
       Billy disse que ele j no voava h anos e que no estava muito entusiasmado com o fato de Billy ter apanhado o vcio. Nessa altura, os amigos de Billy estavam 
a observ-lo e ele chamou-os. Eram quatro, todos da mesma idade e provenientes de vrias partes da Califrnia. Na sua maior parte, pareciam vaqueiros.
       - Em que corridas est inscrita? - Dirigiram-se a Cass e esta respondeu-lhes. Velocidade, acrobacia e muitas outras, o que Nick pensava ser um pouco ambicioso. 
Mas significava muito para ela, que adorava participar no festival. Como tal, no quis desmoraliz-la. Esperara muito tempo por isso e gostava bastante.
       Billy apresentou-os a todos. Eram um grupo simptico e, pela segunda vez nessa manh, Nick Galvin sentiu-se velho. A maior parte dos rapazes era quinze anos 
mais novo do que ele. Estavam bem mais perto da idade de Cassie e no momento em que abandonaram o restaurante estavam a rir, a conversar e a falar sobre o festival. 
Pareciam midos a caminho da feira da escola e a divertir-se imenso.
       - Devia deixar-vos ir brincar - disse Nick a sorrir mas se calhar a Cassie esquecia-se de voar.  melhor ficar por aqui a ver se se portam bem e se se lembram 
do festival. - Todos se riram e a maioria tinha milhares de perguntas a fazer sobre o 94 Esquadro e sobre os alemes que Nick abatera durante a guerra. - Esperem 
um pouco, rapazes. Um de cada vez. - E contou-lhes outra histria.
       Tratavam-no como um heri e o bom humor reinava quando chegaram ao recinto da feira. Aquilo era o verdadeiro significado de voar: a camaradagem, o divertimento, 
as pessoas que se conheciam em momentos como aquele e as experincias que partilhavam. No significava apenas longos vos, solido e o cu noturno que fazia com 
que se sentissem donos do mundo. Era tudo junto: os altos e baixos, o terror e a paz e os contrastes incrveis.
       Desejaram sorte a Cassie e foram verificar o avio. Iam vo-lo  vez e estavam inscritos em diversas provas. Mas apenas Billy ia voar contra Cassie.
       -  muito simptico - disse ela facilmente quando eles se foram embora e Nick olhou-a por cima do ombro.
       - No te esqueas de que ests noiva - disse educadamente. Ela riu-se do olhar pio de Nick, pois no era nada o seu gnero. Na maior parte do tempo, ele no 
se interessava minimamente por Bobby Strong ou pela sua fidelidade ao noivado.
       - Por amor de Deus! Apenas quis dizer que ele era simptico para conversar, por exemplo. No estava a planejar fugir com ele.
       Estava a abastecer o avio e subitamente perguntou a si prpria se Nick teria cimes., Era uma idia ridcula que afastou imediatamente.
       - Tu podias fugir com ele - insistiu Nick. - Tem a idade certa e voa. Isso poderia ser refrescante - disse com ar inocente.
       - Ests a ver se me arranjas casamento? - Ela estava divertida. - No sabia que isso fazia parte dos teus servios - referiu calmamente.
       - O que os meus servios fornecem ser acorrentar-te ao cho se no preparares bem o avio. No brinques, Cass. Vais esforar muito a mquina e a ti prpria. 
Toma ateno!
       - Sim senhor.
       As brincadeiras tinham terminado. Mas, por uma frao de segundo, poderia ter jurado que ele tinha cimes, se bem que no tivesse razo para isso. Estava 
comprometida com outro e eram apenas amigos como sempre tinham sido. Cassie interrogou-se sobre se ele ficaria aborrecido por v-la travar amizade com outros pilotos. 
Nick estava muito orgulhoso de todas as suas proezas e talvez fosse isso que o incomodava. Foi difcil perceber enquanto ele a ajudava a verificar o avio. Alguns 
minutos mais tarde, viram o pai e o irmo. Nessa altura, j eram quase oito horas. As corridas comeavam s nove, se bem que a sua primeira interveno fosse apenas 
s nove e meia.
       - Tudo pronto, Cass? - perguntou o pai com um nervoso. - Verificaste tudo?
       - Tudo - respondeu na defensiva. Seria que pensava que ela no era capaz de o fazer? E, se se importava tanto, por que razo no a tinha vindo ajudar em vez 
de ajudar Clinis? Ele podia ter dado ateno a ambos, mas no o fizera. Todas as suas preocupaes eram com Chris que, cada vez mais, parecia desejar no estar ali. 
Naquele ano, concorria a uma nica prova e Cassie esperava que ele a ganhasse.
       - Boa sorte - disse-lhe o pai calmamente, deixando-a para se juntar a Chris no outro extremo do aerdromo.
       - Porque  que ele se d ao trabalho de vir at aqui? - murmurou ela ao afastar-se do avio.
       - Porque te ama e no sabe como diz-lo afirmou Nick gentilmente.
       - s vezes tem uma maneira muito estranha de o mostrar.
       - Ah, sim? Talvez seja Porque o mantiveste acordado toda a noite quando nasceste. Talvez o mereas.
       Sorriu com a resposta. Nick fazia sempre com que ela se sentisse bem e era reconfortante saber que ele sempre estivera ali.
       Cassie viu Billy Nolan e os rapazes antes da sua primeira prova. Estavam aos gritos, a rir e a fazer um escarcu dos diabos. Era difcil acreditar que estavam 
a competir a srio, mas tinham participado nas corridas mais difceis.
       - Espero que eles saibam o que esto a fazer - disse Nick.
       Pareciam crianas, mas no era fcil perceber. Ele conhecera verdadeiros ases que pareciam vaqueiros. Porm, ningum queria assistir a uma tragdia, que era 
o que habitualmente acontecia quando as pessoas sobreestimavam as suas capacidades e no conheciam os limites das mquinas que pilotavam.
       Devem estar bem - disse Cassie confiadamente. - Qualificaram-se.
       - Tu tambm e que significa isso?
       - Burro! - Ela riu-se, e meia hora mais tarde estava a caminho. Era quase a sua vez. j tinham assistido a acrobacias bastante impressionantes, a grandes 
sustos e a alguns gritos. Tudo isso fazia parte de um dia de trabalho no festival areo.
       - Mostra-lhes como ! - Gritou-lhe Nick quando saiu de junto dela; enquanto Cassie fazia deslizar o avio pela curta pista no Moth para a prova acrobtica. 
Pela primeira vez, deu consigo a rezar. No ano anterior no estivera to nervoso, mas, este ano, temia que ela fosse demasiado longe para lhe provar, ou ao pai, 
alguma coisa. Tudo o que ela desejava era ganhar e Nick sabia-o.
       Cassie comeou com alguns loopings lentos, depois um duplo e uma rotao. Fez todo o repertrio de trs para a frente, incluindo um oito e uma folha morta 
e, enquanto ele a observava, cada exerccio era completado com perfeio. Ento fez um triplo e uma queda, e algures perto dele uma mulher gritou, no percebendo 
que num instante Cassie recuperaria... e claro que o fez. Na perfeio. Era a mais bela demonstrao que jamais vira, tendo-a terminado com um looping exterior que 
deliciou toda a gente. Quando aterrou, Nick olhava para ela radiante.
       - Nada mau para comear, Cass. Muito bem feito. - Os olhos de Nick brilhavam enquanto a elogiava.
       - S isso? - A sua excitao e adrenalina transformaram-se instantaneamente em desiluso, mas ele deu-lhe um grande abrao, afirmando que tinha sido fantstica. 
- Foste a melhor - disse ele honestamente. Meia hora mais tarde, os juzes confirmaram-no. O pai cumprimentou-a delicadamente quando se cruzaram. Mas o seu elogio 
era mais para Nick do que para Cassie. Estava orgulhoso dela, mas ainda o irritava o fato de ela estar a equiparar-se aos homens com a sua pilotagem.
       - Deves ter tido um belssimo instrutor.
       - E eu tive uma boa aluna - corrigiu Nick. Os dois homens sorriram, mas o pai nada mais disse a Cassie.
       A seguir era a corrida de Chris que tentou, mas perdeu. Nem sequer conseguiu um lugar no pdio e, na verdade, no se importava. Para ele, os dias de piloto 
tinham acabado. Estava muito mais interessado nas aulas e em tudo o que estivesse longe de avies e aeroportos. Pura e simplesmente no possua aquele bichinho. 
A nica coisa que detestava era desiludir o pai.
       - Desculpe, pai - desculpou-se ele depois de parar o avio. - Acho que devia ter praticado mais. - Tinha pilotado o Bellanca de Nick que Cassie tambm iria 
pilotar.
       - Sim. Devias, meu filho - disse Pat tristemente. Detestava v-lo perder, pois sabia que, com um pequeno esforo, Chris poderia ter sido um grande piloto. 
Pelo menos, era assim que Pat pensava. Mas era a nica pessoa que sustentava aquela ambio em relao a Chris. Todos os outros sabiam a verdade: Chris no era um 
aviador. Contudo, Cassie deu-lhe os parabns.
       - Bom trabalho, irmozinho. Foi um belo vo.
       - Parece que no foi o suficiente - disse ele com um sorriso desmaiado, cumprimentando-a, depois, pelo seu primeiro lugar na prova anterior.
       Alguns minutos mais tarde, ela viu um dos amigos de Billy Nolan ficar em segundo lugar. Tinha feito uma bela pilotagem.
       A prxima corrida de Cassie era s dez horas e desta vez mais difcil. Envolvia velocidade, por isso sentia-se preocupada com a possibilidade de o Vega no 
ter capacidade suficiente. Era um avio rpido, mas alguns dos outros avies eram mais rpidos.
       - Ele responde-te se o trabalhares bem - prometeu Nick ao falar com Cassie mesmo antes da descolagem. O Vega era uma grande mquina e Cassie pilotava-o bem. 
Nick sabia que, para aquela corrida, o Vega era melhor do que o Bellanca. - Mantm-te calma, Cass! No te deixes assustar. - Ela acenou com a cabea e no disse 
uma palavra. Instantes mais tarde, estava no ar a pilotar notavelmente. Nick nunca vira nada, de to preciso ou rpido, alm da realizao de algumas manobras extraordinariamente 
complicadas. No conseguia tirar os olhos dela e reparou que Pat tambm a observava atentamente. Isto para j no contar com um jovem louro de casaco e calas brancas. 
Este observava-a com ateno atravs dos binculos e falava com um homem que estava a tirar notas. Como no estava no meio da assistncia, Nick deduziu que pertencesse 
a um dos jornais de Chicago.
       Cassie ganhou o segundo lugar, mas apenas porque no tivera um avio mais rpido. Superara todos os handicaps do Vega e Nick ainda no conseguia acreditar. 
Nunca esperara que ela ganhasse a corrida e acabara por ficar num bom lugar. Quando Cassie desceu, Billy chegou-se e deu-lhe os parabns. Ficara novamente em terceiro 
lugar. Havia um bom grupo de pilotos, mas Nick gostara do que vira Billy fazer. Era cuidadoso e seguro e ganhara, apesar de ter um avio inferior. Tal como Cass, 
tinha levado a mquina at ao limite.
       Nesse dia, Cassie tinha ainda mais duas corridas. Uma ao meio-dia, que correu bem, e a ltima  tarde. Nick no gostara que se tivesse inscrito. Ela e Nick 
almoaram com Billy Nolan e os amigos. Chris juntou-se-lhes e, quando o pai passou, ele apresentou-os ao famoso Pat O'Malley. Gostou de todos os jovens e Billy passou 
mais algum tempo a falar com ele sobre o pai. Pat lembrava-se bem dele e tinha pena de lhe ter perdido o rasto nos ltimos vinte anos. Gostava verdadeiramente dele.
       E chegou a altura da corrida de Cassie. Quando Pat soube que ela se tinha inscrito, ficou furioso e os seus olhos chispavam enquanto discutia com o scio.
       - No a proibiste de o fazer? - ladrou ele a Nick, que parecia aborrecido e infeliz com a reao de Pat. j se sentia muito culpado por ter permitido que 
ela se inscrevesse e Pat no estava a ajudar nada.
       - Sai ao pai, Pat. Faz o que quer.
       - Ela no tem avio nem experincia para isso.
       - Eu disse-lho, mas praticou bastante e acho que  suficientemente esperta para desistir se no for capaz. No vai at ao limite, Pat. Eu prprio lhe disse 
para no o fazer. - Nick s rezava para que ela o tivesse ouvido.
       Os dois homens, Chris, Billy e os amigos e ainda o homem das calas brancas ficaram a olhar para o cu com uma expresso muito infeliz. Era uma prova temerria, 
habitualmente empreendida por velhos pilotos acrobticos com avies destinados para o efeito, o que no era o caso do Bellanca de Nick. Todavia, Cassie queria desesperadamente 
tentar a sua sorte naquela corrida. Permitia-lhe mostrar tudo o que fazia de melhor e conseguir um milagre ou dois se o avio cooperasse com ela nas baixas altitudes. 
Sabia que seria assustador, mas estava preparada para desistir da corrida se fosse caso disso.
       Tinha de fazer pelo menos doze movimentos, todos impressionantes e assustadores, e executou os primeiros seis sem um nico problema. Pat at j estava a sorrir 
enquanto a observava. Depois, no mergulho final, pareceu perder o controlo. O avio mergulhou com as asas de lado e Nick perguntou a si prprio se ela estaria a 
entrar em pnico, se se esquecera de tudo o que lhe fora ensinado ou se tinha desmaiado. No estava a fazer absolutamente nada para se salvar. Ningum se mexeu quando 
viram, horrorizados, o que iria transformar-se numa tragdia em poucos momentos. Subitamente, com um rugido, ela acelerou ao mximo e levantou o avio pouco acima 
das cabeas de uma multido aterrorizada e elevou-se, completando com uma tripla rotao que fez com que todos ficassem sem respirar. Finalizou cada movimento e 
fez um looping final que a fez ganhar a corrida mesmo antes da opinio dos juzes.
       Nick tinha um n na garganta do tamanho de um ovo e Pat estava cinzento, mas, quando percebeu o que ela fizera, Nick s desejou espanc-la pelo susto que 
lhe pregara. Como  que ela tivera coragem de os assustar daquela maneira? Nem o primeiro prmio valia isso. Correu para o lugar onde ela aterrara e quase a arrancou 
da carlinga.
       - Que diabo estavas tu a fazer, minha louca? Atentar suicidar-te para dar espetculo? No percebes que mais trinta centmetros e j no conseguias levantar 
o avio?
       - Eu sei - disse ela calmamente e espantada por perceber que estava a tremer. Fizera tudo intencionalmente e com um clculo infalvel.
       - s louca! No s humana e no tens o direito de estar dentro de um avio.
       - Perdi? - Estava com um ar agonizante e, mais do que nunca, Nick quis aban-la, enquanto o pai observava  distncia com uma expresso de fascnio. Ao olhar 
para o rosto de Nick, Pat percebeu que estava a ver algo que nunca vira e perguntava a si prprio se Nick estaria consciente disso.
       - Se perdeste? - continuou Nick furioso e firmemente agarrado ao brao de Cassie. - Ests doida? Quase perdeste a vida e matavas cerca de cem pessoas.
       - Desculpa, Nick. - Subitamente, pareceu constrangida. - Pensei que conseguia faz-lo.
       - E conseguiste, diabos te levem. Foi a pilotagem mais fabulosa que vi na vida, mas se o fizeres mais alguma vez eu mato-te.
       - Sim, senhor.
       - timo. Agora sai do raio do avio e vai pedir desculpa ao teu pai.
       Surpreendentemente, Pat foi muito mais gentil para ela, se bem que estivesse to assustado como Nick e desse graas a Deus por Oona no estar a assistir. 
Tinha ficado em casa com Glynnis, de novo grvida, pois todos os seus cinco filhos estavam com papeira. Mas Pat vira o que Nick fizera e achou que j se dissera 
o suficiente. Assim, deu os parabns  filha pelo seu estilo e coragem.
       - Afinal, acho que o Nick tinha razo - afirmou ele quase humildemente. - Es um piloto e tanto, Cass.
       - Obrigada, pai. - Ele deu-lhe um abrao que constituiu o momento mais maravilhoso da sua vida.
       Depois disso, observaram Billy Nolan a voar, que tambm ganhou o primeiro prmio da sua corrida. Cassie ganhara um segundo e trs primeiros lugares, o que 
era muito melhor do que sonhara. Os jornais estavam constantemente a tirar-lhe fotografias.
       Estavam todos a beber cerveja e a ver a ltima prova quando, subitamente, Cassie reparou que os maxilares de Nick estavam tensos. Seguiu os olhos dele para 
o cu, viu fumo e, tal como todos os outros, ficou assustada.
       - Ele est em apuros - sussurrou-lhe Nick. Todos sabiam quem era. Um jovem piloto chamado Jim. Bradshaw. Tinha mulher e dois filhos e um avio que nada valia, 
mas adorava os festivais areos.
       - Oh, meu Deus!
       Cassie proferiu as palavras enquanto todos observavam assustados o momento em que ele comeou a cair em espiral, tal como ela fizera, mas desta vez era verdade 
e o fumo que saa da fuselagem assegurou-lhes que no era um truque. Era um> desastre. A multido comeou a fugir do local onde o avio parecia estar, e as pessoas 
comearam a gritar. Cassie descobriu que estava incapaz de se mexer, e tudo o que conseguia fazer era olhar para aquela ave preguiosa que vinha a caminho do solo 
e subitamente o atingiu, provocando um barulho tremendo e uma exploso. As pessoas fugiam, enquanto Nick e Billy foram dos primeiros a chegar, tentando retirar Jim 
dos destroos, mas era demasiado tarde. Estava completamente queimado e era bvio que morrera com o impacto. A mulher soluava histericamente com os filhos ao colo 
e outras duas amparavam-na.
       As ambulncias j l estavam, mas foi um fim sombrio para um dia to excitante. Era uma maneira de os recordar do perigo que corriam constantemente.
       - Acho melhor irmos para casa - disse Nick em voz baixa e Pat concordou. Nesse dia, Pat tinha temido que Cassie tivesse o mesmo fim. Teve vergonha de admitir 
como estava grato por ser outra pessoa e no a filha.
       Billy veio despedir-se deles enquanto carregavam e amarravam firmemente os seus trs avies.
       - Gostaria de o visitar no aeroporto antes de me ir embora - disse ele a Pat depois de apertarem as mos.
       - Sempre que queiras. Vais regressar a So Francisco?
       - Na realidade, estava a pensar ... Estava  espera que lhe Pudesse fazer falta outro par de mos ... Eu no me importaria de ficar e voar um pouco.
       - Faz-nos falta um piloto como tu, rapaz. Aparece, amanh de manh, para falar comigo.
       Billy agradeceu-lhe profusamente e despediram-se de novo. Os amigos regressavam a casa no dia seguinte e Billy parecia muito emocionado por ficar.
       - Para que  que precisamos de outro mido? - perguntou Nick a Pat com um ar aborrecido.
       - Ests a planejar passar o resto da tua vida a voar  noite? - perguntou Pat com um ar divertido. - No te preocupes. No acho que seja o tipo dela. - Sorriu 
e, pela primeira vez em anos, Nick corou e virou as costas ao seu velho amigo, - E  melhor recordar-te, Nick Galvin, que ela est noiva do Bobby Strong e que, no 
que depender de mim, casar com ele. Precisa de um homem com os ps assentes na terra e no no cu como ns. - Estava a falar a srio, pois o que vira nos olhos 
de Nick nesse dia intrigara-o. Havia algo de muito poderoso entre os dois, apesar de suspeitar que Cassie fosse demasiado jovem para o saber. Mas ele tambm sabia 
que Nick era suficientemente esperto para no se deixar levar pelas emoes.
       Dirigiram-se  residncia dos O'Malley, onde Oona iria cozinhar o jantar.
       Quando chegaram a casa, ficou boquiaberta ao saber das vitrias de Cassie. De muitas maneiras, tinha sido um belo dia, mas a morte de Jim Bradshaw estragara 
o prazer a todos, e depois, a meio do jantar, Bobby chegara com um ar enlouquecido. Irrompeu pela sala e pediu desculpa quando viu que estavam todos a jantar. Dirigiu 
os olhos para Cassie e estava quase a chorar. Parecia to perturbado que Oona se levantou para se aproximar dele, mas ele saiu da sala e ficou em p  porta.
       - Desculpem! Disseram-me que tinha havido um acidente... - Os olhos encheram-se-lhe novamente de lgrimas e todos sentiram pena dele. Era fcil ver em que 
 que ele pensara; ento Cassie levantou-se e dirigiu-se-lhe.
       - Desculpa. Foi o Jim Bradshaw - disse ela suavemente.
       - Oh, meu Deus. Pobre Peggy! Ficava viva aos dezenove anos e sozinha no mundo com dois filhos. Bobby parecia muito transtornado com o assunto, mas o que 
o tinha perturbado terrivelmente fora o medo de Cassie ter sido a vtima. Alm disso, ningum com quem falara parecia saber o que acontecera.
       Foram-se sentar no alpendre e Cassie fechou a porta. No se conseguia ouvir nada l dentro, mas podiam ver como o rapaz estava transtornado a falar com ela. 
Cassie apenas acenava com a cabea.
       Estava a dizer-lhe que no conseguia viver s com o compromisso de noivado, que no iam a lado nenhum no casando, pois ele no estava completamente seguro 
de que iriam ter um futuro. Sabia que ela queria terminar a faculdade, mas no tinha a certeza de conseguir esperar mais dois anos. O pai estava muito doente e a 
me muito dependente dele. Bobby parecia esmagado por tudo aquilo e era bvio que precisava dela para o ajudar. No entanto, era patente que Cassie no estava preparada 
para desistir de tudo e ser o que ele desejava.
       - E esta histria dos avies! - Olhou para ela com os olhos cheios de angstia. - No consigo viver assim--- Estou sempre a pensar que vais morrer e hoje 
podias ter morrido. Podias... - Comeou a chorar e ela abraou-o.
       - Pobre Bobby! Pobre Bobby! Est tudo bem! Chhh... - Era como consolar um dos seus sobrinhos, mas compreendia agora que o rapaz tinha uma grande carga sobre 
os ombros e ela era apenas parte dessa carga. Ele precisava desesperadamente de algum que o ajudasse. Tinha apenas vinte e um anos e era pouco mais do que um rapaz. 
Merecia muito mais do que o que ela tinha para dar, e ambos o sabiam. Enquanto o confortava, tirou o anel de noivado do dedo e meteu-lho na mo. - Tu mereces muito 
mais! - murmurou-lhe. - Tu mereces tudo e eu tenho um caminho bem longo  minha frente. Agora j tenho a certeza.
       Queria a vida, liberdade e voar. Agora que o pai aceitava, talvez conseguisse ter tudo isso. Apenas no tinha possibilidade de dar a Bobby Strong o que este 
merecia e, na verdade, era a ltima coisa que queria.
       - Tu vais continuar a voar, Cass? - inquiriu ele num tom lamentoso, fungando como uma criana, enquanto os membros da famlia que estavam na sala tentavam 
ignor-los.
       - Vou - disse ela acenando com a cabea. - Tenho de o fazer.  a minha vida.
       - No te magoes! Oh, Deus, Cassie no te magoes. Eu amo-te. Hoje pensei que tinhas morrido. - Continuava a soluar e ela sentia-se muito mal. S conseguia 
imaginar o que deveria ter sido, tal como fora para Peggy Bradshaw.
       - Estou bem! Estou tima! - Sorriu-lhe com lgrimas nos olhos., - Tu mereces coisas maravilhosas, Bobby, e no algum como eu. Encontra uma boa esposa, Bobby 
Strong. Tu merece-lo!
       - Vais continuar a viver aqui? - perguntou ele curiosamente, o que Cassie achou estranho. No tinha para onde ir e sempre vivera ali.
       - Para onde iria?
       - No sei. - Sorriu tristemente segurando no anel. j estava com saudades dela. - Pareces to afastada de mim. s vezes, detesto aquela mercearia e todos 
os problemas que arrasta.
       - Fars grandes coisas - afirmou ela, sabendo que estava a mentir, mas Bobby precisava de todo o encorajamento que lhe pudessem dar.
       - Achas que sim, Cass? - Suspirou, pensando na sua vida. - O mais divertido  que a nica coisa que desejo  casar e ter filhos.
       - E eu no quero. - Ela sorriu. - Esse  o problema.
       - Espero que um dia queiras. Talvez nos encontremos novamente - disse ele cheio de esperana, continuando a perseguir o sonho. Cassie sempre lhe parecera 
muito estimulante. Talvez at de mais.
       Cassie, porm, abanou a cabea, olhando para ele. Era mais sensata do que Bobby.
       - No esperes por isso. Vai em busca do que desejas.
       - Eu amo-te, Cass.
       - Eu tambm te amo - murmurou ao abra-lo, levantando-se depois. - Queres entrar? - perguntou, mas ele abanou a cabea, com os olhos cheios de lgrimas.
       - Acho melhor ir para casa.
       Ela acenou a cabea, vendo-o meter o anel no bolso. Parou durante alguns momentos e olhou novamente para Cassie. De repente virou-se e correu antes de comear 
de novo a chorar. Cassie voltou para dentro e sentou-se. Ningum fez perguntas, mas todos conseguiam adivinhar o que acontecera. Nick olhou-lhe para o dedo e ficou 
surpreendido por no ver o anel. Na realidade, estava aliviado por no o ver. Agora a sua nica preocupao era Billy Nolan.

CAPTULO 9
       Na manh seguinte, enquanto Cassie estava deitada a pensar nos acontecimentos da vspera, percebeu com espanto que j no estava noiva. No tinha a certeza 
se algo iria mudar, mas sentiu subitamente que no pertencia a ningum. Em parte era entusiasmante, mas, por outro lado, fazia-a sentir-se muito s.
       Sempre soubera que era um erro, mas no tivera a coragem de o dizer. Nessa noite, parecera-lhe muito cruel continuar a tortur-lo, a faz-lo esperar mais 
dois anos e depois dizer-lhe que ainda no estava preparada. Pensava que nunca ia estar preparada para levar uma vida como a dele e para ele, e agora sabia-o de 
fato.
       Fez o seu pequeno-almoo e viu um bilhete da me a dizer que tinha sado para tomar conta dos filhos de Glynnis e que calculava no estar em casa a tempo 
para fazer o jantar. Chris deixara outro bilhete a dizer que tinha sado com os amigos. Uma hora e meia mais tarde, Cassie j tinha tomado uma ducha, j se vestira 
e j estava no aeroporto. Vestiu um macaco limpo, abasteceu alguns avies, quando, ao meio-dia, finalmente viu Nick e o pai.
       A dormir at ao meio-dia, Cass? - disse Nick para a irritar. - Ou estiveste apenas a repousar sobre os louros da vitria?
       - No sejas parvo. s nove j aqui estava. Estive a trabalhar no hangar de trs.
       - Ah, sim? Bem! Se quiseres, tenho hoje um vo para ti.
       - Para onde? - Estava intrigada.
       - Indiana. Um pequeno carregamento, algum correio e uma paragem rpida em Chicago no regresso. No deve ser muito demorado. Deves estar em casa  hora de 
jantar. levas o Handley.
       - Por mim, est bem - sorriu ela. Nick disse-lhe onde levantar o dirio, e o pai saiu do escritrio nessa altura para mandar Billy colocar a carga no avio. 
Este aparecera subitamente e trabalhara bastante durante todo o dia. Cassie ficou surpreendida quando o pai disse a Billy para ir com ela.
       - Posso ir sozinha, pai.
       - Claro que podes, mas ele precisa de conhecer as nossas rotas e no gosto muito da idia de ires a Chicago. - Rolou os olhos, ela fez uma careta, mas pelo 
menos no estava a colocar entraves. Tudo estava bem, e Nick olhou para ela e Billy como se fossem crianas traquinas.
       - Portem-se bem. Nada de acrobacias e de rotaes. - Virou-se para Billy. - E cuidado com os loopings duplos dela.
       - Se tentar alguma coisa, tiro-a do avio por uma orelha - sorriu Billy, parecendo-se cada vez mais com o irmo de todos.
       Enquanto se dirigiam para o avio, Nick ficou em p por alguns instantes a observ-los. Pareciam to contentes como duas crianas. Nick no conseguia imaginar 
que Cassie se apaixonasse pelo rapaz, mas j tinham acontecido coisas mais estranhas. Na realidade, mesmo que isso no acontecesse, nada mudaria para ele. No tinha 
o direito de perseguir uma rapariga daquela idade e nunca o faria. Ela merecia muito mais do que a vida numa barraca no Aeroporto O'Malley, e Nick tinha conscincia 
disso.
       Haviam acabado de descolar quando chegou um Lincoln Zephyr verde, completamente novo, e dele saiu um homem de fato cinzento que olhou  sua volta. Olhou prazenteiramente 
para Nick e para o pequeno edifcio que alojava os escritrios.
       - Sabe onde poderei encontrar Cassie O'Malley? - perguntou numa voz suave. Tinha o cabelo louro ondulado e o aspecto de uma estrela de cinema. Subitamente" 
Nick ficou a pensar se algum iria oferecer a Cassie uma carreira cinematogrfica. Aquele era o homem que Nick vira de fato branco, na vspera, no festival. Agora 
j no parecia um reprter, mas sim um homem de negcios ou talvez um agente.
       Nick apontou para o cu.
       - Acabou de descolar para uma entrega de correio. Posso ser-lhe til?
       - Gostaria de falar com ela. Sabe quando voltar?
       - Daqui a, sete ou oito horas. Provavelmente, durante a noite. Quer que lhe transmita alguma mensagem?
       Entregou o seu carto-de-visita a Nick. Chamava-se Desmond Williams; e o carto dizia Williams Aircraft com uma morada em Newport Beach, na Califrnia. 
Nick sabia muito bem quem era. Era o jovem milionrio que herdara uma fortuna e uma companhia de aviao por morte do pai. j no era assim to novo. Devia estar 
perto da idade de Nick. De fato, tinha trinta e quatro anos e, na opinio de Nick, demasiado velho para Cassie.
       - Faa-me o favor de lhe entregar este carto! Estou no Portsmouth. - Era o melhor hotel da cidade e, mesmo assim, no era grande coisa. Era o melhor que 
Good Hope tinha para oferecer.
       - Dir-lhe-ei - assegurou-lhe Nick, morrendo de curiosidade. - Mais alguma coisa? - Williams abanou a cabea e olhou para Nick com interesse. - Gostou do festival 
areo? - Nick no conseguira resistir. - Nada mau para uma cidade pequena, pois no?
       - Muito interessante - concedeu Williams com um sorriso. Depois mediu Nick de alto a baixo e decidiu fazer-lhe uma pergunta. Todo o estilo de Williams era 
muito frio, tudo nele era perfeito e imaculado, completamente calculado e previsto. Era um homem que nunca cometia erros ou se dava ao luxo de se deixar levar pelas 
emoes. -  voc o instrutor dela?
       Nick acenou a cabea com orgulho.
       - Era. Agora , ela que pode ensinar-me a voar.
       - Duvido - disse Desmond Williams educadamente. Tinha uma pronncia do leste, apesar da sua morada de Los Angeles. Acabara o curso superior em Princeton h 
doze anos. - Ela  muito boa. Fez justia ao seu instrutor.
       - Obrigado - disse Nick calmamente, pensando no que aquele homem quereria de Cassie. Havia algo de ominoso nele, de incrivelmente frio e estranhamente excitante. 
E muito bonito e aristocrtico, mas tudo nele dizia que o que desejava era um bom negcio.
       No disse nem mais uma palavra a Nick e voltou para o carro que acabara de comprar em Detroit h alguns dias, abandonando o aeroporto.
       - Quem era? - perguntou Pat quando saiu. - No h dvida que levantou muita poeira. No, consegue ir mais depressa? - O carro era a ltima maravilha da Ford 
com um motor V- 12.
       - Era Desmond Williams. - Nick respondeu  pergunta, olhando com uma expresso preocupada para o seu velho amigo. - Andam atrs dela, Pat. Nunca pensei que 
acontecesse, mas agora acho ser possvel. Ela mostrou-se bastante no festival.
       - J temia isso. - Pat olhou para Nick com um ar infeliz. No queria que ela fosse explorada ou usada e sabia como era fcil tal acontecer. Cassie era bonita, 
jovem, inocente e um piloto incrvel. Era uma combinao perigosa e ambos o sabiam. - Onde  que ela est? - perguntou Pat.
       - J saiu. Ela e o Nolan descolaram no momento em que este chegou.
       - timo. - Pat olhou para o carto, agarrou-o e rasgou-o. - Esquece-o.
       - No vais dizer-lhe? - Nick olhou para ele, espantado. Fosse qual fosse a sua opinio, nunca teria a coragem de o fazer. Por outro lado, no era pai dela.
       - No. No vou - respondeu Pat. - E tu tambm no. No  verdade, Stick?
       - Sim, senhor. - Nick bateu-lhe a pala com um sorriso e ambos voltaram para o trabalho.
       No regresso de Chicago, Cassie entregou os comandos a Billy para ver como  que ele lidava com o avio. Ficou impressionada com a sua habilidade. Billy disse-lhe 
que o pai o tinha ensinado aos catorze anos e j voava h dez. Pela maneira como pilotava era fcil acreditar nele. Tinha umas mos seguras, bons olhos, voava com 
firmeza e bem, e ela sabia que o pai ficaria impressionado. Billy ia ser uma grande aquisio para o aeroporto. Alm disso, era um tipo impecvel, inteligente e 
uma companhia agradvel. Passaram um bom dia, durante o vo, a trocar histrias.
       - Ontem reparei que ests noiva - mencionou ele casualmente no caminho para casa. - Mas hoje j no vejo o anel. Vais casar em breve?
       - No - respondeu a jovem, pensando em Bobby. - J no estou noiva. Entreguei o anel ontem  noite.
       No sabia bem por que razo estava a contar-lhe aquilo, mas ele estava ali, tinham quase a mesma idade, e gostava dele. Alm disso, Cassie no ficara com 
a impresso de ele estar interessado nela. Apenas queria ser amigo e isso parecia confortvel e fcil.
       - Ests preocupada com isso? Achas que  recupervel?
       - No - respondeu novamente quase sentindo pena de si prpria. - Ele  um timo rapaz, mas odeia que eu voe. Est com muita pressa para se casar e eu quero 
acabar a faculdade. No sei. No estava certo. Nunca esteve e eu nunca tive coragem para lho dizer.
       - Eu sei o que isso . j estive noivo duas vezes e ambas me assustaram.
       - E o que fizeste?
       - Da primeira vez, fugi - admitiu ele honestamente com o seu sorriso de rapazinho no rosto cheio de sardas.
       - E da ltima vez? Casaste? - Cassie parecia surpreendida porque ele no parecia ter sido casado.
       - No - disse ele tranqilamente. - Ela morreu no festival areo de San Diego, no ano passado. - Disse-o com muita calma, mas Cassie conseguiu ver a dor nos 
seus olhos.
       - Lamento. - No havia mais nada a dizer. Todos tinham perdidos amigos em festivais areos. Era terrvel, mas era pior para ele se a tivesse amado.
       - Tambm eu. Mas, at certo ponto, j aprendi a viver com isso. Desde essa altura que nunca mais sa com ningum e acho que nem quero.
       - Isso  um aviso? - sorriu ela.
       -  - disse Billy com os olhos cheios de malcia. - No fosses pensar que podias atirar-te a mim a dez mil ps de altitude. Tenho vindo toda a viagem com 
medo disso. - A maneira como o disse f-la rebentar a rir, e cinco minutos mais tarde estavam ambos a rir. Na altura em que chegaram a casa estavam to  vontade 
um com outro que pareciam velhos amigos. Na opinio de Cassie no havia nada de romntico em Billy Nolan. Cassie apenas gostava dele e Billy era uni excelente piloto. 
O pai tivera sorte e achava que Nick tambm iria gostar dele.
       Aterraram no aeroporto por volta das nove horas, e Cassie ofereceu-lhe boleia para a residencial onde estava hospedado. Os amigos tinham regressado  Califrnia 
com o caminho e o avio, e ele precisava de poupar dinheiro para comprar um carro, o que no estava longe, tendo em conta o salrio que Pat pagava.
       - Quanto tempo pensas ficar? - perguntou ela.
       - No sei. Uns trinta ou quarenta anos ou talvez para sempre - disse sorrindo.
       - Claro. - Ela riu-se com a resposta.
       - No sei. Algum tempo- Eu precisava de me afastar. A minha me morreu, e com o caso da Sally o ano passado achei que precisava de sair da Califrnia. Tenho 
saudades do meu pai, mas ele compreende.
       - A sorte foi nossa - disse ela sorrindo-lhe. - Hoje foi divertido. At amanh.
       Disse-lhe adeus e foi para casa. Nessa altura, a me j chegara e fez um sanduche a Cassie. O pai estava sentado na cozinha a beber cerveja. Perguntou-lhe 
como correra o vo e ela respondeu-lhe que estava muito impressionada com a pilotagem de Billy. Disse-lhe porqu e Pat acenou com a cabea, contente com o seu relatrio, 
se bem que tivesse de ver com os seus prprios olhos. Mandou-a ir para a cama depois de comer e nunca mencionou a visita de Desmond Williams ao aeroporto.

CAPTULO 10
       No dia seguinte, Cassie estava deitada sob um Electra, com o rosto completamente coberto de leo depois de estar a trabalhar na roda traseira, quando olhou 
para cima e reparou num par de calas de linho de um branco imaculado. No pde deixar de sorrir ao olhar para elas, pois pareciam muito incongruentes ali. O mesmo 
acontecia com os sapatos brancos sobre os quais as calas assentavam. Olhou para cima com curiosidade e ficou surpreendida ao ver um atraente homem louro a olh-la 
com uma expresso incrdula. Cassie estava quase irreconhecvel, com o cabelo apanhado no alto da cabea, gordura no rosto e um velho macaco azul que pertencera 
ao pai.
       - Miss O'Malley? - perguntou ele de sobrolho franzido.
       Ela sorriu. Parecia uma personagem cmica de vaudeville, com os dentes brancos a brilhar no meio de um rosto negro. Aquele homem de ar polido no conseguiu 
evitar um sorriso.
       - Sim. Sou Miss O'Malley. - Ainda estava deitada de costas a olhar para ele e subitamente percebeu que era melhor levantar-se e saber o que ele queria. Ps-se 
facilmente de p e hesitou em cumpriment-lo. Parecia to limpo e incrivelmente engomado que tudo nele estava perfeito., Perguntou a si prpria se ele quereria alugar 
um avio e esteve quase a envi-lo ao pai. - Em que posso ajud-lo?
       - Chamo-me Desmond Williams e via-a no festival areo h dois dias. Gostaria de falar consigo, se for possvel. - Olhou  volta do hangar e depois novamente 
para a jovem. - Existe algum local onde possamos conversar?
       Ela ficou espantada com a pergunta- Nunca ningum a visitara e o nico local em que poderiam falar em privado era o escritrio do pai.
       - Se o barulho dos avies no o incomodar, podemos ir para junto da pista. - No sabia que mais lhe oferecer.
       Comearam a caminhar lado a lado e ela quase se riu ao pensar como deviam parecer diferentes! Ele extraordinariamente limpo e ela incrivelmente suja. Mas 
forou um ar srio. Cassie no sabia se ele possua sentido de humor. Reparou que Billy os tinha visto e que lhe acenara, mas ela apenas acenou com a cabea.
       - Voc foi impressionante no festival - afirmou Desmond Williams, enquanto caminhavam ao longo dos campos e os seus sapatos comeavam a ficar cobertos de 
poeira.
       - Obrigada.
       - Acho que nunca vi ningum ganhar tantos prmios e, decerto, nunca uma rapariga da sua idade. A propsito. Que idade tem? - Observava-a cuidadosamente e 
ao seu ar srio, mas rapidamente lhe sorriu. Ela ainda no sabia o que queria.
       - Tenho vinte anos. No Outono estarei no terceiro ano da faculdade.
       - Entendo - acenou ele com a cabea como se isso fizesse uma grande diferena. Parou e olhou para Cassie antes de formular a pergunta seguinte. - Miss O'Malley. 
j alguma vez pensou num futuro na aviao?
       - Em que sentido? - Estava completamente atordoada e, subitamente, interrogou-se sobre se ele fora ali perguntar-lhe se queria ser uma Skygirl, mas, at para 
Cassie, isso no parecia muito provvel. - O que quer dizer com isso?
       - Quero dizer voar. Como emprego de futuro. Fazer o que gosta mais ou, pelo menos, o que pensa que gosta mais. Voc voa como se os avies fossem tudo para 
si.
       Cassie agitou a cabea com um sorriso e ele observou-lhe o rosto fixamente. At agora gostava do que via.
       - Estou a falar em pilotar avies fantsticos, avies que mais ningum possui, test-los, estabelecer recordes e tornar-se uma parte importante da aviao 
moderna, como Lindbergh.
       - Como Lindbergh? - Estava completamente estarrecida. Aquele homem no podia estar a falar a srio. - E para quem estaria a voar? O senhor est a dizer-me 
que algum me daria esses avies ou que eu teria que os comprar? - Talvez ele estivesse a tentar vender-lhe um novo avio, mas Desmond Williams sorriu perante a 
sua inocncia. Estava contente por ningum a ter abordado antes dele.
       - Estaria a voar para mim. Para a minha companhia, a Williams, Aircraft. - Assim que ouviu o nome, a rapariga percebeu quem ele era. S no conseguia acreditar 
que ele estivesse a falar com ela e a compar-la a Charles Lindbergh.
       H um futuro maravilhoso para algum como voc, Miss O'Malley. Poder fazer grandes coisas e pilotar avies que, de outro modo, nunca estariam disponveis 
para si. O melhor que h. Isso  extremamente emocionante. No como estes. - Olhou  sua volta distraidamente e, por um momento, ela sentiu-se magoada por causa 
do pai. Aqueles avies eram seus amigos, e o pai tinha muito orgulho neles. - Estou a falar de avies a srio - continuou Williams. - Aqueles em que se conseguem 
estabelecer recordes mundiais.
       - E o que  que eu teria de fazer para conseguir esse emprego? - perguntou ela com algumas suspeitas. - Terei de lhe pagar?
       Nunca ningum lhe oferecera algo assim e no fazia a menor idia de como as coisas funcionavam. Sempre pensara que os pilotos importantes possuam os seus 
prprios avies. Nunca lhe ocorrera que eram dados ou emprestados por companhias de aviao como aquela. Tinha muito que aprender e ele estava mais do que disposto 
a ensin-la. Ela era o primeiro rosto fresco que via desde que assumira a liderana da companhia do pai.
       - No ter de me pagar nada. - Sorriu-lhe. - Eu  que lhe pagarei e muito bem. Estaro sempre a tirar-lhe fotografias, ter muita publicidade, e, se  to 
boa como eu penso que , tornar-se- uma figura importante da aviao.  claro que... - olhou para ela cuidadosamente. - Bem,  claro que ser necessrio lavar o 
rosto mais vezes do que agora - disse ele a brincar, e subitamente a jovem lembrou-se que provavelmente estava coberta de leo. Limpou o rosto com a manga e ficou 
espantada com o que viu. Mas ele ficou muito mais impressionado com aquele rosto que agora podia ver mais claramente. Era exatamente o que sempre procurara. Era 
a rapariga dos seus sonhos. Tudo o que precisava agora era faz-la assinar o contrato.
       - Quando comearia? - perguntou Cassie curiosa. Era a coisa mais fantstica que j ouvira e estava ansiosa por dizer a Nick e ao pai.
       Amanh ou para a semana. Assim que conseguir chegar a Los Angeles.  claro que pagaremos a sua deslocao e poremos um apartamento  sua disposio.
       - Um apartamento? - A sua voz mal se ouviu enquanto acenava com a cabea.
       - Em Newport Beach, sede da Williams Aircraft.  um stio lindssimo e fica perto da cidade. O que me diz? Quer o emprego? - Trouxera o contrato consigo e 
esperava que a rapariga o assinasse sem hesitaes. Mas ela hesitou por uns instantes.
       - Sim. Mas tenho de falar com o meu pai. Teria de desistir da faculdade e ele pode no gostar. - Especialmente quando se tratava de trocar a faculdade por 
um emprego na aviao, e apesar do pai nunca se ter mostrado muito entusiasmo com o fato de ela freqentar a faculdade. No entanto, tambm poderia no gostar daquilo.
       - Ns podemos providenciar para que tenha aulas sempre que estiver livre, mas, a maior parte do tempo, estar bastante ocupada. Trata-se de muita boa vontade, 
muitas fotografias e, para falar com franqueza, bastantes vos.
       Tudo aquilo parecia extremamente fantstico.
       - Na realidade, vim c ontem, mas o homem que estava no escritrio disse que voc tinha sado. Deixei o meu carto e pedi-lhe para que voc me telefonasse. 
Provavelmente chegou demasiado tarde, por isso pensei que seria melhor voltar c, no fosse ele perder o carto. - Sorriu com uma expresso vencedora enquanto Cassie 
o olhava pensativamente.
       - Deu-o a um homem? - Teria de ser Nick ou o pai.
       - Sim, e disse-lhe que estava no Portsmouth. Telefonou para l? Talvez no tenha recebido o recado.
       - No. No telefonei - afirmou ela honestamente. - No recebi nem o carto nem o recado.
       - De qualquer modo, no faz mal. Estou contente por a ter encontrado hoje. Eis aqui o contrato, para que o estude com o seu pai.
       - O que diz o contrato? - perguntou ela inocentemente.
       - Compromete-a a um ano de vos de teste e publicidade para a Williams Aircraft. Nada mais. No acho que encontre nada de incorreto - disse ele confiantemente. 
De certo modo, conseguira transmitir-lhe, apenas olhando para ela, que era uma excelente oportunidade que adoraria.
       Cassie segurou o contrato com mos nervosas, pensando no que tudo aquilo significava e por que razo ele tinha vindo. No podia ser assim to simples.
       - Eu mostro-o ao meu pai - declarou ela. Tambm queria saber a sua opinio. Porque  que ele e Nick lhe tinham omitido a visita de Desmond Williams? Para 
lhes dar o benefcio da dvida, talvez se tivessem esquecido. Mas algo lhe dizia que era mais do que isso. Eles no queriam que ela soubesse. Mas porqu? Parecia 
to bom...
       - Pensem bem no assunto e voltaremos a conversar amanh de manh. Que me diz a um pequeno-almoo no meu hotel s oito e meia? Depois tenho de voltar para 
a costa oeste. Espero, porm, que voc tambm l esteja dentro de alguns dias. - Sorriu, e Cassie notou que havia algo nele de muito persuasivo. Era um homem muito 
bonito e muito calmo, o que fazia com que ela sentisse que no conseguiria resistir-lhe e que certamente no o faria. - Amanh s oito e meia? - inquiriu ele contundentemente. 
Ela anuiu com a cabea. Apertaram as mos e, instantes mais tarde, Williams j voltara para o carro e partira.
       Enquanto olhava fixamente, o Lincoln desapareceu no horizonte. Tentou lembrar-se de tudo o que j ouvira sobre Desmond Williams. lera algures que este tinha 
trinta e quatro anos, era um dos homens mais ricos do mundo e herdara um imprio. A sua companhia fabricava os melhores avies e constava que era impiedoso nos negcios. 
Vira uma fotografia dele com algumas estrelas de cinema. Ela no conseguia imaginar o que quereria de Cassie O'Malley.
       Caminhou lentamente para o pequeno edifcio onde Nick e o pai trabalhavam, a pensar em tudo o que Williams dissera e no que poderia significar para si. Era 
uma oportunidade que no voltaria. Ainda no conseguia acreditar que aquele momento tivesse chegado.
       Entrou, usando ainda o velho macaco do pai, e este olhou para o seu rosto manchado de leo e cabelo despenteado; perguntou-lhe se havia algum problema com 
o De Havilland. Se estivesse preparado, precisavam dele ao meio-dia para um vo de longa distncia. Mas ela no estava a prestar-lhe ateno e olhava fixamente para 
o pai. Segurava o contrato na mo.
       - Porque  que no me disseram que algum me visitara ontem? - perguntou ela. Pat ficou espantado.
       - Quem te disse isso? - Se Nick o tivesse trado, ia haver confuso. Mas Nick estava a olhar para eles e vira a expresso no rosto de Cassie quando esta entrara 
no escritrio.
       - A questo no  essa. O homem veio c ontem e deixou um carto para mim e nenhum dos dois mo disse. - Olhou para Nick com uma expresso zangada, acusando-o 
tambm, e ambos os homens se sentiram desconfortveis com aquele olhar. -  como se me tivessem mentido. Porqu?
       O pai tentou parecer despreocupado.
       - No pensei que fosse importante. Provavelmente esqueci-me.
       - Sabe quem ele ? - Olhava para um e para outro, incapaz de acreditar que tivessem sido to ignorantes. - E Desmond Williams, da Williams Aircraft. - Era 
um dos maiores fabricantes de avies do mundo e o segundo nos Estados Unidos. Desmond Williams era certamente uma pessoa a quem se poderia chamar importante.
       - O que  que ele queria? - perguntou Nick casualmente, sempre a observ-la, mas j percebera, pelo comportamento de Cassie, o que Williams supostamente dissera.
       - Nada de importante. Apenas me quer dar um monte de avies espantosos para pilotar, que faa vos de teste, estabelea recordes e verifique como se comportam 
os avies. Nada de importante. Apenas um pequeno emprego que d uma enormidade de dinheiro e direito a um apartamento.
       Os dois homens trocaram um olhar sombrio. Era exatamente o que eles tinham temido.
       - Parece bom - concordou Nick facilmente. - Qual  a rasteira?
       - No h.
       - H, sim - disse Nick, rindo. Cassie era ainda uma criana e ele sabia que os dois precisavam de fazer tudo para a proteger. Desmond Williams andava por 
todo o pas  procura de pessoas que lhe fizessem publicidade e, assim que a agarrasse, us-la-ia at ela cair. No eram s os vos de teste, mas tambm documentrios, 
anncios e infinitas sesses de fotografias. Na opinio de Nick, ela ia apenas ser uma outra espcie de Skygirl. - Ele deu-te um contrato? - perguntou Nick casualmente 
e Cassie acenou de imediato com o documento.
       - Claro que deu.
       - Importas-te que o leia? - Ela entregou-lho, e Pat olhou para ambos. Era exatamente aquilo que ele nunca desejara.
       - Tu vais recusar, Cassandra Maureen - afirmou o pai calmamente enquanto Nick lia o contrato.
       Nick no era advogado, mas parecia-lhe bastante bom. Ofereciam-lhe um carro, um apartamento para sua utilizao e no como presente, deveria voar tudo o que 
eles achassem apropriado e fazer vos de teste. A segunda parte do contrato dizia que ela estaria disponvel para publicidade ilimitada relacionada com os avies. 
Tinha de estar tambm disponvel para acontecimentos sociais, estatais e at federais e para fotografias. Seria a porta-voz da Williams Aircraft e esperavam que 
agisse como tal. No podia fumar ou beber em excesso, havia um subsdio para o guarda-roupa e fornecer-lhe-iam os uniformes de vo. Tudo estava exposto com clareza. 
O contrato era por um ano, e ofereciam-lhe cinqenta mil dlares por ano com opo de renovao para um segundo ano, se ambas as partes concordassem, com um ordenado 
mais alto a ser negociado. Era o melhor contrato que Nick lera e uma oportunidade que poucos homens recusariam. Mas o contrato tambm esclarecia que a Williams; 
Aircraft estava  procura de uma mulher. Podia ser uma oportunidade difcil de recusar, apesar do fato de ela ser parte piloto e parte modelo. Mesmo assim, ainda 
suspeitava bastante de Desmond Williams.
       - O que achas, Pat? - Nick olhou para este, esperando curiosamente a sua reao.
       - Ela vai ficar aqui.  isso que eu penso. No vai para lado nenhum e muito menos para a Califrnia para viver num apartamento.
       Cassie olhou para o pai, cega de raiva por ele no lhe ter dito que Desmond Williams a visitara.
       - Ainda no decidi, pai. Vou ter com ele amanh de manh.
       - No, no vais - disse Pat O'Malley firmemente  filha.
       Nick no quis discutir com ele em frente de Cassie. Achava existirem muitas possibilidades naquele negcio e valia a pena analis-lo. Seria divertido para 
ela e, durante um ano, pilotaria avies fantsticos. Era muito estimulante. At estavam a testar avies para os militares e a competir abertamente com os Alemes, 
e o dinheiro que ela ganharia dava-lhe para viver durante muito tempo. Parecia injusto afast-la disso ou, pelo menos, no o considerar cuidadosamente.
       - E a faculdade? - perguntou Nick calmamente, enquanto o pai voltava para o escritrio e batia com a porta.
       - Ele disse que eu poderia ter aulas quando tivesse tempo.
       - No me parece que consigas, pois ters o tempo bastante ocupado. Quando no estiveres a voar, estars a fazer publicidade. Tens a certeza de que  isto 
que desejas, Cassie? - indagou ele cuidadosamente.
       A jovem olhou para ele com um ar pensativo. Nunca quisera deixar a casa dos pais, mas a sua vida no estava a ir a lado nenhum. Gostava de andar pelo aeroporto 
e divertira-se bastante no festival areo. Mas no queria ensinar. No queria casar com Bobby Strong ou com qualquer outro dos seus colegas de escola. O que iria 
fazer com o resto da sua vida? Por vezes, pensava nisso e at ela sabia que a vida era muito mais do que lubrificar e abastecer os avies do pai ou voar at Indiana 
com Billy Nolan.
       - Qual  o meu futuro aqui? - perguntou ela honestamente.
       - Andar por a comigo - disse ele com um ar triste. Se ela pudesse faz-lo para sempre, Nick adoraria.
       - A pior parte  deixar-vos todos aqui. Seria perfeito se os pudesse levar.
       - O contrato diz que te emprestam um avio para vir a casa de vez em quando. Mal posso esperar. Que tal trazer um XW-1 Phaeton para um fim-de-semana calmo?
       - se quisesses, at te traria um Starlifter. At o roubaria.
       -  uma boa idia. Isso talvez acalmasse o teu pai. Estamos a precisar de avies novos. Talvez nos quisessem dar um ou dois - disse ele a brincar, mas sentia-se 
devastado s de pensar na sua partida. Cassie fazia parte da sua vida diria e tinham voado tantas vezes juntos nos ltimos trs anos que no conseguia suportar 
o fato de ela ir para Los Angeles. Nunca esperara nada disso.
       E Pat tambm no. No tinha a menor inteno de perder a sua menina. j era suficientemente mau o fato de Chris querer ir para a Europa estudar arquitetura 
durante um ou dois anos, mas isso ainda vinha longe. Isto estava a acontecer agora e no era a Chris. Era a Cassie.
       - No vais a lado nenhum - reiterou ele essa tarde e  definitivo.
       Ela pensava que teria ainda de tomar uma deciso. Falou novamente com Nick e este via, de fato, possibilidades de a usarem, mas havia tantas vantagens para 
ela no processo que ele no tinha bem a certeza de que o resto fosse importante. O dinheiro, a fama, os avies, os vos de teste e os recordes que estabeleceria... 
As vantagens para Cassie pareciam infinitas. Seria impossvel recusar, no entanto no fazia a menor idia de como convencer o pai.
       Falou com Billy sobre o assunto, que conhecia a reputao de Desmond Williams. Alguns diziam que era um homem justo ~ outros no gostavam nada dele. Oferecera 
um emprego a uma rapariga de So Francisco, conhecida de Billy, e ela tinha detestado. Dissera que havia demasiado trabalho e sentia-se possuda por eles. Porm, 
Billy confidenciou a Cass que ela era um pssimo piloto. Para algum como Cassie, seria a oportunidade de uma vida.
       - Tu realmente poderias ser uma nova Mary Nicholson - disse ele, mencionando uma das estrelas da atualidade, mas Cassie nem imaginasse vir a ser to famosa.
       - Duvido ~ respondeu. A dificuldade da deciso estava a enlouquec-la. No queria deixar a casa e a, famlia, mas tambm sabia que se ficasse teria muito 
pouco. Se queria voar, a Williams Aircraft era o local certo para estar, no importando a quantidade de fotografias que lhe tirariam ou as entrevistas que teria 
de dar. Queria pilotar avies e a Williams tinha os melhores.
       - Pensa bem no assunto. Podes no ter outra oportunidade - aconselhou Billy num tom solene, enquanto nos escritrios Nick dizia a Pat praticamente a mesma 
coisa. Ela era um piloto brilhante e ali no ia a lado nenhum. Andaria toda a vida pelo aeroporto, a percorrer rotas difceis pelo Midwest com um monte de fulanos 
que nunca pilotariam to bem como ela.
       - Eu disse-te para no a ensinares a voar - rosnou Pat subitamente zangado com todos: Nick, Cassie, Chris e todos os outros. A culpa tinha de ser de algum 
e o ltimo culpado era o prprio diabo: Desmond Williams. - Se calhar ele  um criminoso que persegue raparigas inocentes para lhes roubar a virtude.
       Nick sentiu pena dele. Depois de todos aqueles anos, e quase sem aviso, Pat estava prestes a perder a sua menina. Nick compreendia o que Pat sentia. Detestava 
Desmond Williams tanto quanto Pat, mas tambm sabia que eles no tinham o direito de a reter. Ela precisava de voar como uma ave e chegara a altura de pairar com 
as guias.
       - No a podes impedir, Pat - afirmou Nick calmamente, desejando poder dizer como isso o magoava. - No  justo. Ela merece muito mais do que aquilo que lhe 
oferecemos.
       - A culpa  tua - gritou Pat de novo. - No devias ter-lhe ensinado a voar to bem. - Nick riu-se da recriminao e Pat tomou um gole de usque. Sabia que 
no iria voar nesse dia e estava profundamente perturbado por perder Cassie. Ainda tinha de informar Oona da visita de Desmond Williams.
       Nessa noite, quando o fez, Oona ficou chocada. Imaginou todo o tipo de coisas imorais. No conseguia conceber que Cassie vivesse noutro lado que no em casa 
e certamente nunca em Los Angeles, vivendo sozinha como piloto de testes e porta-voz publicitria para Desmond Williams.
       - As raparigas fazem esse tipo de coisas? - perguntou ela a Pat com um ar infeliz. - Pousar para fotografias e tudo isso? Esto vestidas?
       - Claro, Oona. No  um salo de striptease. O homem constri avies.
       - Ento o que  que eles querem da nossa menina? - A tua menina - disse ele num tom lamuriento -  o melhor piloto que j vi, incluindo o Nick Galvin ou o 
Rickenbacker.  o melhor que h, e o Williams no  parvo, sabe ver isso. Ela deu um espetculo fabuloso h dois dias no festival elevando-se de um parafuso a pouco 
mais de cento e cinqenta metros do solo. Eu quase morri. Mas ela conseguiu e nunca hesitou. Tambm fez muitas acrobacias loucas, mas na perfeio.
       - Ele quer a Cassie para vos acrobticos?
       - No. Apenas para testar avies e tentar estabelecer alguns recordes. Li o contrato e parece justo. S que no gosto da idia de ela partir e j sabia que 
tu tambm no ias gostar.
       - O que  que ela quer fazer? - perguntou a me, tentando assimilar tudo aquilo, mas havia muito para absorver num perodo to curto. Todos sabiam que Cassie 
teria de tomar uma deciso antes de amanhecer.
       Eu acho que ela quer ir. Diz que quer ir e afirma desejar a liberdade de decidir o seu prprio destino.
       - E o que  que disseste? - perguntou Oona com os olhos muito abertos.
       - Eu proibi-a de ir, tal como a proibi de voar.
       - Isso no te levou muito longe - sorriu Oona -, e suponho que ir acontecer o mesmo.
       - O que devemos dizer?
       Ele virou-se para a mulher  espera de um conselho. Confiava mais no seu julgamento do que pensava e, por vezes, mais do que desejava. Confiava nela sobretudo 
no que dizia respeito s filhas.
       - Acho que a devemos deixar fazer o que quer. Ela f-lo- de qualquer modo, Pat. Ficar mais feliz se sentir que pode tomar as suas prprias decises. Por 
muitos avies que pilote na Califrnia, voltar para ns porque sabe que ns a amamos.
       Chamaram-na ao quarto e Oona deixou que o pai lhe transmitisse a sua deciso.
       - A tua me e eu queremos que... - Hesitou e olhou para Oona rapidamente. - Bem... Queremos que tomes as tuas decises. Seja o que for que decidires, ns 
apoiamos-te. Mas se fores - avisou ele -,  melhor voltares e com muita freqncia.
       Pat tinha lgrimas nos olhos quando a abraou e Cassie agarrou-se a ele e abraou a me, que estava a chorar.
       - Obrigada. Obrigada. - Abraou-os a ambos e sentou-se aos ps da cama com um suspiro. - Foi uma deciso difcil.
       - J decidiste o que vais fazer? - perguntou Oona. Pat no ousou pergunt-lo, mas j suspeitava qual fora a deciso de Cassie, quando esta acenou com a cabea 
e olhou para eles a tremer de excitao.
       - Vou para Los Angeles.
       No entanto, deix-los era mais difcil do que ela temera. Na manh seguinte, encontrou-se com Desmond Williams no Portsmouth e assinou o contrato. Comeu torradas 
com caf, pois estava demasiado nervosa para comer mais, e os pormenores que ele lhe transmitia eram to animadores que comeou a ficar confusa. Ele ia-lhe arranjar 
um vo de Chicago para Los Angeles, haveria um apartamento, um carro, uniformes, uma dama de companhia, sempre que achassem necessrio, um guarda-roupa completo, 
acompanhantes e uma casa de fim-de-semana em Malibu. Haveria ainda um avio para seu uso pessoal sempre que quisesse vir a casa. Acima de tudo, dispunha dos avies 
que sempre quisera pilotar.
       O seu plano de trabalho comeava dentro de cinco dias. Haveria uma conferncia de imprensa, um documentrio e um vo de teste de um novo Starlifter que acabara 
de ser construdo. Ele queria que Cassie mostrasse a toda a Amrica como era boa, mas primeiro queria mostrar-lhe as capacidades dos seus avies. Passaria as duas 
primeiras semanas com ela e sobretudo a voar.
       - No consigo acreditar - disse ela a Billy mais tarde nessa manh, enquanto estavam deitados ao sol numa parte da pista que no era utilizada.
       - Tiveste muita sorte - afirmou ele com inveja. Mas estava feliz ali e de momento no desejava voltar para a Califrnia.
       - Daqui a duas semanas venho a casa, acontea o que acontecer - prometeu ela a todos.
       Nessa noite e antes de partir, os pais deram um grande jantar em sua honra, em que juntaram as irms, os cunhados e os sobrinhos, Cliris, Nick e Billy. Claro 
que Bobby no estava presente, se bem que Cassie o tivesse visto dois dias antes no velrio de Jim Bradshaw. Ele estivera a conversar calmamente com Peggy, tendo 
ao colo um dos seus filhos.
       Porm, foi ao lado de Nick que ela esteve toda a noite, pois no suportava ter de o deixar. Vivera tantos anos com o conforto e apoio de Nick que agora no 
sabia como iria sobreviver sem ele.
       Na manh seguinte, estavam todos no aeroporto quando ela partiu. Nick ia lev-la a Chicago no Vega e, depois de ter beijado a me, as irms e Chris, dirigiu-se 
ao pai. Ambos tinham lgrimas nos olhos. Pat queria pedir-lhe para mudar de idias, mas nunca o faria.
       - Obrigada, pai - sussurrou-lhe ela enquanto o abraava.
       - Tem cuidado, Cassie. Toma ateno. Nunca te desleixes num daqueles avies finos. Eles nunca te perdoaro.
       - Prometo, pai.
       - Desejava acreditar em ti - sorriu ele - numa mulher-piloto.
       Pat ria-se atravs das lgrimas e deu-lhe outro abrao de urso, mandando-a depois embora. Chris e Billy estavam a acenar da pista quando eles descolaram e 
Cassie deu um enorme suspiro. Tinha sido mais difcil do que sonhara deixar a casa paterna, e s conseguia pensar nas pessoas que estava a deixar e no nos lugares 
para onde iria. Quando se virou para olhar para Nick, o seu corao ficou ainda mais pesado. Ela queria agarrar-se a todos os momentos que tinha com ele.
       - s uma rapariga de sorte - recordou-lhe Nick enquanto subiam e para que ela no pensasse na famlia que ainda estava a acenar. - Mas merece-lo. Tens o que 
 preciso, Cass. Apenas no deixes que esses fulanos da cidade te usem.
       Desmond Williams era de fato bastante esperto, mas tambm parecia justo e honesto. Tinha-lhe dito exatamente o que pretendia dela. Queria o melhor piloto 
do mundo, a mulher mais bonita e mais bem-comportada que pudesse encontrar para representar o seu produto. Queria estabelecer novos recordes e manter os seus avies 
ilesos e bem considerados pelo pblico americano. Era uma tarefa difcil, mas ela era capaz de a levar a cabo. E Williams era suficientemente inteligente para sentir 
isso. Ela era o melhor piloto que j vira e uma bonita mulher, o que para Williams era j um bom comeo. Para Nick era um fim, mas estava disposto a sacrificar-se 
pelo futuro dela. Era a sua ltima ddiva de amor a Cassie. Primeiro, voar e, finalmente, a liberdade.
       - No deixes que ele te d ordens - lembrou-lhe Nick. - s uma grande rapariga e, se eles forem demasiado duros contigo, manda-os para o inferno e volta para 
casa. S precisas telefonar. Eu irei buscar-te. - Parecia uma loucura, mas era bastante reconfortante.
       - Virs visitar-me?
       - Claro. Sempre que tiver de ir para esses lados, farei um pequeno desvio.
       - Ento no ds ao Billy os vos para a Califrnia. F-los tu. - Ele sorriu perante a sua admoestao e reparou que ela ficara subitamente muito nervosa.
       - Eu pensei que gostasses de o ver mais vezes - disse Nick, falando de Billy to casualmente como podia, o que significava no muito  vontade. - Estou errado?
       Ficou aliviado com o que ela respondeu, mas j tinha comeado a suspeitar que Billy era um amigo e no um romance, tal como Pat previra. Todavia, era agradvel 
ouvi-la confirmar. O que ele queria dela era o celibato e a adorao total e reconhecia que isso era uma loucura. Um dia, Cassie encontraria um marido e teria filhos. 
Sabia que no seria ele, mas desejava poder ser.
       - Billy e eu somos apenas amigos - disse ela. - Tu sabes!
       - Sim, talvez saiba.
       - Tu sabes muitas coisas - continuou ela gravemente. - Sobre mim, a minha vida e sobre o que  e no  importante. Ensinaste-me muitas coisas, Nick. Fizeste 
com que toda a minha vida tivesse significado. Deste-me tudo.
       - Gostaria de ter dado, Cass, mas eu prprio no me sa muito bem. Ningum o merece mais do que tu.
       -  verdade. Deste-me tudo - afirmou, sendo bvia a sua admirao e o seu amor por ele.
       - Eu no sou um Desmond Williams, Cass - disse ele honestamente. No era pretensioso.
       - Ser que algum ? A maioria das pessoas no tem tanta sorte.
       - Pode ser que tu tenhas, Cass. Podes tornar-te muito importante.
       - Por estar em documentrios e por me tirarem fotografias? Duvido. Isso  fingido. No  verdadeiro. At a chego eu.
       - s uma rapariga muito esperta, Cass. No mudes. No deixes que te estraguem.
       Aterraram em Chicago pouco depois, e ele acompanhou-a at ao avio, levando-lhe a mala. Cassie trazia vestido um fato azul-escuro que tinha sido da me. Parecia 
um pouco fora de moda e demasiado grande para ela, mas era difcil que Cassie O'Malley parecesse outra coisa que no uma mulher muito bonita. Aos vinte anos de idade, 
conseguia fazer parar o trnsito com o seu brilhante cabelo ruivo, os seus grandes olhos azuis, os seios bem feitos, pernas longas e cintura estreita,  volta da 
qual ele adorava pr as mos quando a ajudava a descer do avio. Porm, neste momento, ela olhava para Nick com uma admirao infantil, e tudo o que ele parecia 
dever fazer era lev-la para a me. Cassie tinha os olhos cheios de lgrimas, mas no estava a chorar por eles. Estava a chorar por Nick. No queria deix-lo.
       - Vem ver-me, Nick. Vou ter muitas saudades tuas. Estarei sempre contigo, mida. No te esqueas.
       - No me esquecerei.
       Fungou e ele abraou-a. No lhe disse mais nada. Apenas a beijou no alto da cabea e foi-se embora. Nada mais havia para dizer e sabia que se o fizesse, a 
voz o trairia. Ele nunca a deixaria.

CAPTULO 11
       Quando o vo proveniente de Chicago aterrou em Los Angeles, estavam trs pessoas  sua espera: um motorista, um representante da companhia e a secretria 
de Mr. Williams. Cassie ficou surpreendida ao v-los. Ele dissera-lhe que iria esper-la ao avio, mas ela no imaginara uma recepo to oficial ou com tantas pessoas.
       No caminho para Newport Beach, o representante da companhia deu-lhe uma lista de compromissos para toda a semana: um estudo sobre os seus ltimos avies, 
o vo de teste de cada um, uma conferncia de imprensa com todos os membros mais importantes da imprensa local e um documentrio cinematogrfico. A secretria entregou-lhe 
ento uma lista de acontecimentos sociais em que ela deveria estar presente, com ou sem um dos vrios acompanhantes, e alguns com Mr. Williams. Era mais do que esmagador. 
Mas ainda ficou mais aflita quando viu o apartamento que tinham alugado para ela. Era em Newport Beach e tinha um quarto, uma sala e uma casa de jantar, todos com 
vista para o mar. Tinha vistas espetaculares e um terrao a rode-lo. O frigorfico estava cheio, a moblia era linda e as gavetas encontravam-se cheias de roupa 
de cama italiana. Foi-lhe dito que a criada atenderia a todas as suas necessidades se ela desejasse ter convidados e que limparia diariamente o apartamento.
       - Eu... Oh, meu Deus! - exclamou Cassie quando abriu uma gaveta que estava cheia de toalhas de mesa de renda. A me teria dado o seu brao esquerdo para ter 
apenas uma e Cassie no conseguia imaginar por que razo ela as possua. - Para que  isto?
       - Mr. Williams pensou que gostasse de receber visitas - disse Miss Fitzpatrick, secretria pessoal de Williams. Tinha o dobro da idade de Cassie e freqentara 
a escola de Miss Porter, no Leste. Sabia muito pouco sobre avies, mas sabia tudo o que havia a saber sobre assuntos sociais e as regras bsicas da etiqueta.
       - Mas eu no conheo ningum aqui - disse Cassie, rindo enquanto andava de um lado para o outro a olhar para o apartamento. Nunca sonhara com nada assim. 
Estava morta por dizer ou mostr-lo a algum. Billy, Nick, as irms, a me... mas no estava ali ningum. Apenas Cassie e o seu sqito. Quando olhou para o quarto, 
viu toda a sua nova roupa muito bem arranjada e arrumada. Havia quatro ou cinco fatos muito bem cortados, numa variedade de cores discretas, vrios chapus a condizer, 
um vestido de noite negro, comprido, e dois curtos. At havia sapatos e algumas malas. Tudo tinha os tamanhos que ela lhe fornecera. Num armrio, encontrou todos 
os seus uniformes de vo. Eram em azul-escuro e pareciam extremamente oficiais. Havia at um pequeno chapu especialmente desenhado e sapatos regulamentares. Por 
uns instantes, ela quase sentiu o corao a afundar-se. Talvez Nick tivesse razo. Talvez fosse apenas uma skygirl.
       Tudo estava regimentado e preparado. Tudo aquilo parecia um sonho estranho. Era como cair na vida de outra pessoa com a sua roupa e o seu apartamento. Mal 
conseguia acreditar que tudo aquilo fosse dela.
        espera de Cassie estava tambm uma jovem, muito bem vestida, com um fato cinzento e chapu a condizer. Tinha um sorriso amistoso, olhos azuis muito vivos 
e um cabelo castanho-claro bem cortado, at aos ombros, semelhante a um pajem. Parecia ter trinta e poucos anos.
       - Esta  Nancy Firestone - explicou Miss Fitzpatrick. - Ser a sua dama de companhia sempre que Mister Williams decidir que  necessria. Ajud-la- em tudo 
o que for preciso, a lidar com a imprensa, ir consigo a reunies e almoos.
       A jovem apresentou-se a Cass e sorriu-lhe enquanto lhe mostrava o apartamento. Uma dama de companhia? O que faria com ela? Deix-la na pista enquanto testasse 
os avies? Depois de ver tudo aquilo, Cassie estava a comear a perguntar a si prpria se teria tempo para voar.
       - Ao principio,  tudo um pouco esmagador - disse simpaticamente Nancy Firestone. - Porque  que no me deixa desfazer-lhe as malas? Durante o almoo falaremos 
sobre o seu plano de trabalho - continuou Nancy enquanto Cassie olhava  sua volta, sentindo-se perdida. Reparara que na cozinha estava uma criada a fazer sanduches 
e salada. Era uma mulher de uma certa idade, de uniforme negro, e parecia estar muito  vontade, o que era mais do que Cassie sentia naquele momento. No conseguia 
deixar de pensar no que iria fazer com toda aquela gente. Era bvio que estavam l para ajudar, e Desmond Williams tinha, decerto, providenciado o conforto de todos. 
Fizera mais do que isso: proporcionara-lhe o sonho da sua vida. Mas subitamente tudo o que Cassie sentiu foi uma solido desesperada entre todos aqueles estranhos. 
Nancy Firestone pareceu sentir isso. Era essa a razo por que Williams a contratara. Conhecia-a bem e avaliara instantaneamente que era exatamente o que Cassie precisava.
       - Ainda vamos hoje ver os avies? - inquiriu Cassie. Pelo menos era algo de que estava a par e sentia-se muito mais interessada em avies do que no que vira 
no armrio. Pelo menos os avies eram-lhe familiares e aquele tipo de vida sofisticada no era. Ela no tinha vindo para a Califrnia para brincar aos vestidos. 
Viera para pilotar avies. No meio de todos os chapus, sapatos e luvas e das pessoas que estavam ali para tomar conta dela, pensou se iria ter oportunidade de pilotar 
um que fosse. De repente, Cassie apenas ambicionou uma vida simples no Illinois e um hangar cheio de avies do pai.
       - Iremos at ao campo de aviao amanh - informou Nancy amavelmente. Sabia instintivamente, a partir do que Desmond dissera, que devia tratar Cassie com 
calma. Era um mundo completamente novo, e avisara Nancy de que a rapariga era uma estranha em relao a tudo aquilo e que no incio se assustaria um pouco. Avisara-a 
tambm que era teimosa e independente. Ele no queria que a jovem decidisse que aquele mundo no lhe servia. O seu objetivo era lev-la a gostar. - Mister Williams 
no quis que se cansasse no seu primeiro dia - continuou Nancy com um sorriso caloroso, enquanto se sentavam e serviam de sanduches. Mas Cassie no tinha fome. 
- Tem uma conferncia de imprensa s cinco horas. A cabeleireira vem s trs. Temos muito que conversar antes disso.
       Disse-o como se fossem apenas duas raparigas a prepararem-se para uma festa, mas, enquanto ouvia, a cabea de Cassie estava s voltas. A secretria de Williams, 
Miss Fitzpatrick, abandonou o apartamento depois de apontar para uma pilha de papis informativos sobre os seus avies, que Mister Williams desejava que Cassie lesse, 
e referiu rapidamente que Mister Williams, viria busc-la entre as quatro e as quatro e meia.
       Ele vai consigo  conferncia de imprensa - explicou Nancy depois de a porta se fechar atrs de Miss Fitzpatrick. Aquilo parecia uma grande honra e Cassie 
sabia que o era. Tudo e todos a aterrorizavam, e o que Cassie podia fazer na altura era olhar para Nancy Firestone com espanto e desnimo. O que era aquilo? O que 
significava? O que estava ali a fazer? O que  que tudo aquilo tinha a ver com avies? Nancy leu-lhe facilmente os pensamentos e tentou tranqiliz-la.
       - Eu sei que tudo isto  um pouco assustador - disse Nancy, sorrindo gentilmente.
       Era uma mulher bonita, mas havia algo de triste nos seus olhos e que Cassie notara assim que a vira. Mas parecia determinada em fazer com que Cassie se sentisse 
 vontade naquele espao estranho.
       - Eu nem sei por onde comear - admitiu Cassie, sentindo subitamente uma vontade esmagadora de chorar, mas sabia que no podia. Estavam todos a ser muito 
bons para ela, porm havia muito para absorver e compreender: a roupa, os compromissos, o que esperavam dela e o que devia dizer  imprensa. Tudo o que ela realmente 
desejava era aprender mais sobre avies e, em vez disso, tinha de se preocupar com a sua aparncia, com a maneira de vestir e se parecia suficientemente inteligente 
ou adulta. Era pavoroso, e at o calor de Nancy Firestone pouco a confortava.
        primeira vista, quase parecia que a tinham trazido para um espetculo e no para voar.
       - O que querem de mim? - perguntou Cassie honestamente enquanto estavam sentadas a olhar para o oceano Pacfico. - Porque  que ele me trouxe para aqui? - 
J estava quase arrependida de ter vindo. Era demasiado assustador.
       - Ele trouxe-a - respondeu Nancy - porque, segundo sei, voc  um dos melhores pilotos que ele j viu. Deve ser mesmo muito boa, Cassie. Desmond no se impressiona 
com facilidade. Ainda no parou de falar de si desde que a viu no festival. Ele tambm a trouxe porque voc  uma mulher e no s um piloto espantoso. Para Desmond 
 muito importante. - De certa maneira, as mulheres eram importantes para ele; de outra, no o interessavam. Mas Nancy no explicou o segundo aspecto a Cassie. Desmond 
Williams gostava de ter mulheres  sua volta quando serviam os seus objetivos, mas no se ligava a ningum. - Ele acha que as mulheres vendem melhor avies do que 
os homens por serem mais excitantes. Pensa que as mulheres, mulheres como voc,  claro, so o futuro da aviao. Voc  um bnus incrvel para a imprensa e um grande 
empurro para as relaes pblicas. - No disse a Cassie que tambm era devido  sua beleza, mas isso fazia parte de tudo. Ela era realmente bonita e, se no o fosse, 
no estaria ali. Nancy sabia que Williams procurava algum como ela h muito tempo, que falara com muitas mulheres-pilotos e que fora a muitos festivais areos antes 
de a encontrar. Era uma idia que ele tinha h anos, mesmo antes de George Pumam descobrir Amelia Earhart.
       - Mas porqu eu? Quem se importa comigo? - indagou Cassie inocentemente, ainda com um ar aterrado, apesar das explicaes e encorajamento de Nancy. Ainda 
no compreendia. No era estpida, mas sim ingnua e, para a maioria das pessoas, era muito difcil conceber uma mente como a de Desmond Williams.
       Antes de morrer a testar um dos avies de Williams, o marido de Nancy tinha-lhe contado muitas coisas sobre ele. Outros pilotos que ela conhecia tambm a 
tinham informado, bem como a sua prpria experincia desde a morte de Skip. Desmond Williams fizera muito para ajudar. De vrias maneiras, fora uma ddiva de Deus. 
No entanto, havia coisas muito enervantes no seu carter. Possua uma franqueza que, por vezes, era assustadora. Quando queria alguma coisa, ou pensava que algo 
seria bom para a companhia, no olhava a meios para a alcanar.
       Fora muito bom para Nancy depois da morte de Skip e fizera os impossveis por ela e pela filha. Dissera-lhe que ambas faziam parte da famlia e que a Williams 
Aircraft tomaria conta delas para sempre. Abrira-lhes uma conta bancria e tudo o que necessitassem seria providenciado. A educao de Jane e a penso de Nancy estavam 
asseguradas. Skip morrera a trabalhar para Desmond Williams e este nunca se esqueceria disso. At lhes comprara uma pequena casa e redigido um contrato. Ela permaneceria 
como funcionria da Williams Aircraft durante os prximos vinte anos, executando projetos como o de Cassie, nada de muito complicado ou de muito exaustivo, mas projetos 
que requeriam inteligncia e lealdade. Recordou-lhe sutilmente o que fizera por elas, e subitamente Nancy percebeu que no tinha escolha: devia fazer o que ele queria. 
Skip deixara-lhes dvidas e doces recordaes. Agora, depois de tudo o que fizera por ela e por Jane, Desmond Williams possua-as. Mantinha-a numa pequena gaiola 
dourada, fazia bom uso dela, era justo, ou pelo menos parecia ser, mas nunca a deixava esquecer que era propriedade dele. No podia ir a lado nenhum nem sair de 
Los Angeles. Se o fizesse ficariam na misria. No tinha treino especfico para nada, e arranjar um emprego seria um golpe de sorte. Alm disso, Janie nunca iria 
para a faculdade. Se ficasse poderia ter tudo o que ele lhe dava. Williams via algo de til nela, tal como em Cassie. Tinha o que queria. Comprava de uma maneira 
justa e pagava um alto preo por tudo. Mas no havia dvida da sua propriedade assim que o contrato era assinado e a transao completada. Era um homem esperto e 
sabia sempre o que queria.
       - A seu tempo, todos gostaro de si - disse Nancy gentilmente. Sabia mais sobre os planos de Williams, mas no tencionava partilhar tudo com Cassie. Ele era 
um gnio a lidar com a imprensa e em criar um conceito enorme a partir do nada. - O pblico americano vir a ador-la. Mulheres e avies so o nosso futuro. A Williams 
Aircraft fabrica os melhores avies, mas fazer com que isso entre em casa do pblico atravs dos seus olhos, ou seja, atravs de si,  uma coisa muito poderosa. 
V-la identificada com os avies dar-lhes- um certo apelo e uma magia especial. - Desmond Williams, sabia-o e era isso que ele queria de Cassie. H anos que procurava 
uma mulher que encarnasse o sonho americano: jovem, bela, uma rapariga simples muito bonita, uma boa cabea e um piloto brilhante. Para espanto de todos, tinha-o 
finalmente encontrado em Cassie O'Malley. E haveria melhor destino para ela? Que mais poderia ela desejar? Nancy sabia que Cassie era uma rapariga de sorte e, mesmo 
que eventualmente houvesse outros compromissos e ele quisesse uma lealdade vitalcia, compens-la-ia. Seria famosa, rica, e transformar-se-ia numa lenda se jogasse 
bem aquele jogo. At aos olhos de Nancy, que sabia como esses laos podiam ser apertados, Cassie O'Malley estava numa situao invejvel. Desmond ia fazer dela uma 
estrela mpar.
       - No entanto, quando se pensa nisso parece muito estranho - disse Cassie, olhando pensativamente para Nancy. - Eu no sou ningum. No sou Jean Batten, Amy 
Jolinson ou qualquer outra mulher importante. Sou uma rapariga do Illinois que ganhou quatro prmios num festival areo local. E depois? - perguntou ela modestamente, 
dando finalmente uma dentada num sanduche de galinha perfeitamente cortada.
       - Voc j no  apenas uma rapariga - afirmou Nancy. - Deixar de ser, depois das cinco horas de hoje. - Sabia o cuidado com que Desmond tinha comeado 
a aplanar o terreno desde que Cassie assinara o contrato. - E como  que pensa que as outras mulheres comearam? Sem algum como Desmond a fazer-lhes publicidade, 
elas nunca teriam sido ningum. - Cassie ouvia, mas no concordava com ela. A reputao dessas mulheres tinha sido construda com base na sua percia e no s na 
publicidade, mas Nancy acreditava piamente no que Williams estava a fazer. - A Earhart foi o que George Putnam fez dela. Isso sempre fascinou Desmond. Sentia sempre 
que ela no era to bom piloto como Putnam afirmava e talvez tivesse razo. - Skip tivera a mesma opinio e, enquanto Nancy pensava nisso, olhou tristemente para 
a jovem.
       Cassie estava intrigada com Nancy, se bem que houvesse muita coisa que lhe agradava. No entanto, havia uma parte de Nancy que parecia estar muito longe. Mostrava-se 
muito entusiasmada com o futuro de Cassie e, por outro lado, parecia ter cimes. Fazia com que tudo parecesse uma grande coisa e falava de Desmond como se o conhecesse 
melhor do que queria admitir. Ao observ-la, Cassie no pde deixar de pensar se haveria algo entre eles ou se era apenas uma grande admirao, querendo ter a certeza 
que Cassie apreciava tudo o que ele fizera por ela. Tudo isto era difcil de absorver e analisar numa tarde. Enquanto separavam as coisas de Cassie, Nancy tentou 
explicar-lhe a importncia do marketing. Tal como Desmond, Nancy pensava que o marketing era tudo. Era o que fazia com que as pessoas comprassem produtos fabricados 
por outras pessoas e, neste caso, avies. Cassie fazia parte de um plano bem mais vasto. Ela era e seria sempre um instrumento para vender avies. Era uma idia 
muito estranha para Cassie, e, quando a cabeleireira chegou, ela ainda estava a tentar entend-la.
       Nancy tinha-lhe contado a histria do marido e de Jane. Explicara simplesmente que Skip morrera num acidente h um ano, durante um vo de teste sobre Las 
Vegas. Falou sobre o assunto com muita calma, mas havia desolao nos seus olhos quando falava nele. De certo modo, a sua vida acabara quando ele morrera ou, pelo 
menos, era assim que o sentia. Mas alguns dias depois, Desmond Williams j mudara tudo isso.
       - Ele tem sido muito bom para mim - afirmou ela tranqilamente - e para a minha filha.
       Cassie acenou com a cabea, observando-a, e depois a cabeleireira distraiu ambas com os seus planos para a ruiva e brilhante melena de Cassie. Queria fazer-lhe 
um bom corte para que o usasse comprido como Lauren Bacall. At disse que havia uma certa semelhana, o que fez rir Cassie. Sabia que Nick teria rido a bom rir se 
tivesse ouvido aquilo, pelo menos era o que ela pensava. Mas Nancy levou a cabeleireira muito a srio e aprovou tudo o que esta pensava fazer.
       - O que  que eles realmente querem de mim? - perguntou Cassie com um suspiro nervoso, enquanto a cabeleireira cortava e aparava com determinao, sob o olhar 
supervisor de Nancy.
       Esta conseguiu olhar para Cassie com um sorriso e respondeu-lhe o melhor que podia.
       - Eles querem que voc esteja bonita, parea inteligente, que saiba portar-se bem em pblico e voe como um anjo.  tudo. - Sorriu novamente e Cassie fez um 
trejeito irnico perante a descrio. Nancy tornava tudo surpreendentemente simples.
       Isso no deve ser muito difcil. Pelo menos, a parte dos vos. O comportamento deve estar bom, se isso significar no cair para o lado de bbeda ou andar 
com homens. No tenho a certeza do que significa parecer inteligente e pode ser um pouco complicado. Bonita poder no ter soluo. - Cassie sorriu para a sua 
nova amiga. Quando deixasse de se sentir aterrorizada, tudo pareceria muito excitante. Como  que aconteciam coisas destas? Era quase como entrar num filme. Havia 
uma sensao de irrealidade,  qual ela j no conseguia fugir.
       - Tenho a impresso de que voc no olha para o espelho h algum tempo - disse Nancy honestamente, e Cassie corroborou com um aceno de cabea.
       - Nunca olhei. Tenho estado muito ocupada a pilotar e reparar avies no aeroporto do meu pai.
       - Agora ter de aprender a olhar para o espelho. - Esta era a razo por que Williams tinha tanta f em Nancy. Tinha muito tacto, era uma senhora, inteligente, 
e fazia o que lhe mandavam, sabendo o que era esperado dela. Desmond Williams conhecia bem o seu pessoal e sabia sempre o que estava a comprar. Nunca duvidara que 
Nancy lhe seria til quando assinaram o contrato. - Sorria apenas e pense que algumas fotografias no lhe faro mal. No tempo restante, poder pilotar o que quiser. 
 uma oportunidade que quase ningum tem, Cassie. Voc teve muita sorte - encorajou Nancy. Ela sabia exatamente de que  que gostavam os fanticos dos avies e como 
persuadir Cassie a fazer o que no gostava, tal como as conferncias de imprensa planejadas, as entrevistas, os documentrios e as festas em que Desmond desejava 
que ela fosse vista. Miss Fitzpatrick tinha at fornecido uma lista de acompanhantes.
       - Porque  que tenho que ir a essas festas? - perguntou Cassie com algumas reservas.
       - Porque as pessoas precisam de saber o seu nome. Mister Williams teve muito trabalho para a incluir e voc no o pode desiludir. - Disse isto com uma firmeza 
surpreendente
       - Oh! - exclamou Cassie com uma expresso atnita No queria parecer ingrata e j comeava a confiar nas opinies de Nancy. Tudo estava a acontecer muito 
rapidamente, e Nancy era a nica amiga que ali tinha. O que dissera era verdade: Williams estava a fazer muito por ela e talvez devesse aceitar os convites. No entanto, 
quando Cassie olhou para a lista, as obrigaes sociais pareciam infinitas. Mas Desmond Williams e Nancy sabiam exatamente o que estavam a fazer.
       Quando a cabeleireira terminou, todas gostaram do cabelo de Cassie. Subitamente, ficou com um ar mais sofisticado, mas elegante e simples. Depois, a cabeleireira 
ajudou Cassie a maquiar-se. s trs e um quarto tomou banho e s trs e quarenta e cinco vestiu a roupa interior e as meias de seda que lhe tinham sido deixadas. 
s quatro horas, quando vestiu o fato verde-escuro estava uma verdadeira estampa.
       - Ena! - disse Nancy, ajustando cuidadosamente a blusa de Cassie e verificando se os sapatos combinavam com o fato e com a mala.
       - Meias de seda! - Cassie irradiava alegria. - Espere at eu dizer  minha me! - Tinha um sorriso aberto de criana. Nancy riu-se e perguntou-lhe se ela 
tinha brincos. Cassie ficou desorientada e depois abanou a cabea. A me tinha um par que pertencera  av, mas Cassie e as irms nunca haviam possudo nenhuns.
       - Terei de avisar Mister Williams.
       Nancy tomou nota disso. Tambm precisava de um colar de prolas. Ele dissera a Nancy qual a figura exata que desejava em Cassie. Nada de macaces cheios de 
leo ou roupa de trabalho. Poderiam deixar isso para uma fotografia rara, talvez para a Life, como parte de algo mais importante. Quando no estava a voar, ele queria 
que Cassie parecesse uma verdadeira lady, se bem que, ao olhar para Cassie, Nancy s conseguisse ver Rita Hayworth.
       Desmond Williams chegou pontualmente s quatro horas e ficou muito satisfeito com o que viu. Entregou-lhe algumas fotografias e pormenores do Phaeton e do 
Starlifter que ela iria pilotar nessa semana para se familiarizar com eles. Na semana seguinte, teria testes importantes a fazer num avio de grande altitude que 
ele estava a tentar converter para o Corpo Aerotransportado do Exrcito. Mas quando Cassie olhou para as fotografias no conseguiu deixar de pensar no marido de 
Nancy. E se os avies de Williams fossem demasiado perigosos e os riscos a correr demasiado grandes? Tal como qualquer bom piloto de testes, ela juntava a coragem 
 cautela. Decidiu, enquanto olhava para as fotografias do Phaeton experimental, que no tinha medo de pilotar nenhum avio.
       - Vai deixar-me pilotar isto? - Sorriu-lhe, e ele acenou com a cabea. - Ena! E que tal agora? Esquea a imprensa. Vamos voar! - Cassie fez um sorriso largo 
e, como por magia, desapareceram todas as suas preocupaes e hesitaes.
       Ele riu-se. Adorava a sua nova aparncia, e Nancy tinha-o informado que Cassie cooperara completamente com ela. Desmond estava muito contente com ambas. Era 
o melhor plano de publicidade que tivera e sabia-o.
       - Nunca se esquea da imprensa, Cassie. Ela pode construir ou destruir um negcio. Pelo menos o meu. Ns queremos ser sempre muito agradveis para ela.
       Olhou para Cassie sagazmente, e ela acenou com a cabea, sentindo receio dele. Trazia vestido um fato azul-escuro impecavelmente cortado e sapatos negros, 
feitos  mo, brilhantemente engraxados. O seu cabelo louro estava perfeitamente penteado e tudo nele tinha goma, estava passado a ferro na perfeio e imaculado. 
Era o homem mais bem vestido que conhecera e ela observava-o com grande fascnio. Tudo nele era calculado e bem concebido, pensando at ao ensimo grau. Mas ela 
era muito jovem para compreender aquilo. Apenas via o produto acabado. O que ele queria que ela visse. E era isso que Desmond queria ensinar-lhe: mostrar ao mundo 
exatamente a imagem que queria. Uma rapariga de uma pequena cidade, sorridente, que pilotava melhor do que qualquer homem com ousadia para tudo e que saa da carlinga 
do avio com um grande sorriso e um cabelo ruivo perfeitamente penteado. Dentro de seis meses, todos os homens do pas estariam apaixonados por ela, se demorasse 
tanto, e iria ser o dolo de todas as mulheres. Para o conseguir, Cassie teria de se comportar na perfeio, possuir uma aparncia espetacular e pilotar os avies 
de maneira a fazer tremer at os pilotos mais duros. Ele tinha estudado os erros de toda a gente e no tencionava comet-los. Desmond Williams no iria falhar, e 
Cassie tambm no, se ele a controlasse. A jovem tornar-se-ia a maior figura do pas. Ele ia cri-la e,  sua pequena maneira, Nancy Firestone ajud-lo-ia, confortando-a 
e observando-a- Ele no permitiria que os seus sonhos fossem destrudos: nem por uma bebedeira de Cassie, nem por praguejar contra algum, ou tivesse um ar horrvel 
depois de um longo vo, ou se envolvesse com um vagabundo. Teria de ser perfeita.
       - Pronta para o grande momento? - disse ele sorrindo.
       A jovem estava bonita, de fato at mais do que isso, mas ainda havia lugar para alguns melhoramentos. Cassie possua a sua prpria beleza, mas o fato era 
um pouco grande para ela, e mais tarde diria a Nancy para tratar das alteraes. Ela era apenas um pouco mais magra do que a imagem que Desmond gravara na memria 
e bastante mais bonita. Precisava de algo um pouco mais vistoso e que a tornasse um pouco mais jovem. Quando a conhecera em Good Hope, no se apercebera de que a 
rapariga possua uma figura to espetacular. Queria fazer o seu jogo sem a rebaixar ou at aproxim-la do vulgar. Mas havia uma figura que queria alcanar e ainda 
no tinham l chegado. No entanto, e para comear, ela estava tima.
       Cassie lidou com a conferncia de imprensa bastante melhor do que ele esperara, a qual teve lugar numa grande sala de conferncias, mesmo ao lado do seu escritrio.
       Tinha escolhido vinte dos mais impressionveis membros da imprensa: homens que gostavam bastante do sexo feminino, mulheres. No escolhera nenhum dos grandes 
cnicos. Ento, apresentou-a. Ela entrou com um ar assustado e plido, sentindo-se um pouco estranha naquela sua roupa e com aquele batom vermelho-vivo. No entanto, 
estava muito bonita com o seu novo corte de cabelo e fato verde. A sua beleza natural e natureza calorosa brilhavam.
       Encantou-os. Deu-lhes as informaes sobre o festival areo e foi muito humilde. Explicou que estivera no aeroporto do pai toda a vida a trabalhar em motores 
e a abastecer avies.
       - Passei a maior parte da minha infncia coberta de leo. Apenas descobri que tinha cabelo ruivo quando aqui cheguei - disse ela a brincar e todos adoraram. 
Tinha um estilo fcil e, assim que se habituou a eles, tratou-os como velhos amigos, o que fez os reprteres adorarem. Desmond Williams estava to estupefato que 
no conseguia parar de sorrir.
       No final, teve de a arrancar dali. Teriam ficado toda a noite a ouvir as histrias de Cassie. Ela at lhes tinha referido o fato de o pai no querer que ela 
voasse e que apenas o convencera depois da noite em que voara com Nick, atravs de uma tempestade de neve para tentar salvar os feridos de um desastre de comboios.
       - Que avio pilotava, Miss O'Malley?
       - Um velho Handley do meu pai.
       Houve um olhar de apreciao nos membros da assistncia. Era um avio difcil de pilotar, mas todos sabiam que ela tinha de ser muito boa porque, de outro 
modo, Williams nunca a teria trazido.
       Na altura em que Cassie os deixou, j a tratavam pelo nome prprio. Ela era, na verdade, despretensiosa e totalmente ingnua. No dia seguinte, quando chegou 
aos cabealhos do Los Angeles Times, a fotografia estava sensacional e a histria falava de uma bomba ruiva que ia atingir Los Angeles e tomar o mundo de assalto. 
Mais valia terem feito um cabealho a dizer: Amamos-te, Cassie!, pois era bvio. A campanha comeara. A partir da, Desmond Williams manteve-a muito ocupada.
       No seu segundo dia em Los Angeles, Cassie visitou todos os avies.  claro que a imprensa estava presente, bem como os membros da Movietone para rodar um 
documentrio.
       Quando o documentrio foi lanado, a me levou as filhas e os netos para o verem. Cassie queria que Nick e o pai tambm o vissem, mas tudo o que lhe chegou 
foi um postal de Nick que dizia: Temos saudades tuas, skygirl!, o que a aborreceu. Ela sabia que no documentrio estava de uniforme, mas tambm sabia que os avies 
tinham de o impressionar. Eram perfeitamente fantsticos.
       Os seus primeiros vos foram no Phaeton, em que estavam a trabalhar, e depois no Starlifter que ele lhe tinha mostrado. Depois disso, deixou-a pilotar um 
avio de grande altitude e tomar notas extensivas para entregar aos engenheiros. Tinha ido at aos quarenta e seis mil ps e fora a primeira vez que usara uma mscara 
de oxignio ou um fato de vo climatizado. Porm, fora capaz de reunir informaes muito importantes. O objetivo era converter o avio num bombardeio de alto nvel 
para o exrcito. Era um empreendimento difcil e Cassie assustou-se uma ou duas vezes, mas Desmond Williams ficara muito impressionado. Os engenheiros e um dos pilotos 
tinham ido com ela e descrito a sua pilotagem como melhor que a. de Lindbergh. Alm disso, um deles destacara que ela era mais bonita. Mas isso Williams sabia. Aquilo 
que mais lhe agradou ouvir foi que as suas capacidades estavam para alm das expectativas.
       Na segunda semana, Cassie estabeleceu um recorde de altitude e, trs dias mais tarde, um recorde de velocidade no Phaeton. Ambos foram confirmados pela FAI, 
tornando-se oficiais. Aqueles eram os avies com que sempre sonhara.
       A nica coisa que a abrandava eram as constantes conferncias de imprensa, sesses de fotografia e documentrios. Eram muito fastidiosos e, por vezes, a imprensa 
impedia-a de fazer muita coisa., Estava em Los Angeles h trs semanas e a imprensa j comeava a segui-la para todo o lado. Comeava a tornar-se uma notcia. Se 
bem que tentasse ser agradvel para eles, o fato aborrecia-a deveras. Cassie quase atropelara um deles na vspera, durante uma descolagem.
       - Importam-se de os tirar da pista, meu Deus? - gritou da carlinga antes da descolagem. No queria ferir ningum e eles tinham-na assustado por se terem chegado 
to perto do avio. Mas os homens apenas encolheram os ombros. j estavam a habituar-se. O frenesi, provocado por Cassie no era comparvel a nada jamais visto. 
Estavam constantemente a surgir notcias e fotografias dela. O pblico adorava-a e Desmond Williams continuava a dar-lhe exatamente o que aquele queria. O suficiente 
para os excitar e manter viva a relao amorosa, mas nunca ao ponto de se poderem cansar dela. Era uma arte requintada, mas Desmond era brilhante na sua prtica. 
Nancy Firestone informava-o de todos os pequenos pormenores pessoais necessrios, continuando a ser uma enorme ajuda para Cassie.
       Ia fazer um anncio sobre cereais de pequeno-almoo para crianas e um anncio na sua revista favorita. Um dia, quando Nick a viu no aeroporto, atirou-a para 
o lixo. Ficou furioso e descarregou em Pat.
       - Como  que a deixas fazer isto? O que  que ela est a fazer? A vender cereais ou a voar?
       - A mim parece-me que est a fazer as duas coisas. - Pat no se importava. De qualquer modo, no pensava que as mulheres pertencessem a uma aviao sria. 
- A me adora!
       - Quando  que ela tem tempo para voar? - gritou Nick, mas Pat sorriu.
       - No sei, Stick. Porque no vais at l e lhe perguntas?
       Agora que Cassie estava na Califrnia, Pat andava surpreendentemente calmo em relao ao assunto. A nica coisa de que tinha pena era o fato de Cassie no 
conseguir ir  faculdade. 
Mas estava a pilotar avies tremendamente bonitos. No conseguia deixar de estar orgulhoso dela, se bem que nunca o referisse.
       Nick j pensara vrias vezes em ir v-la, mas no tinha tido tempo para se afastar do aeroporto. Com Cassie longe, ele estava a fazer muitos mais vos, apesar 
da presena til de Billy Nolan. O negcio estava a expandir-se no O'Malley, e Pat era o primeiro a reconhecer que o estrelato sbito de sua filha talvez no os 
tivesse afetado. Os reprteres tambm tinham aparecido algumas vezes, mas no havia muito que os interessasse. Depois de algumas fotografias, em especial da casa 
onde ela crescera, os rapazes da imprensa voltavam para Chicago.
       A vida de Cassie na costa oeste parecia movimentar-se ainda mais depressa do que os avies. Ela mal conseguia agentar entre vos de teste e vos curtos para 
verificar novos instrumentos e reunies com os engenheiros para que lhe explicassem a aerodinmica do avio. Tambm tinha ido a algumas reunies de desenvolvimento 
para compreender melhor os objetivos da Williams Aircraft, e o prprio Desmond no conseguia acreditar na extenso do seu envolvimento. Ela queria saber tudo sobre 
os avies. Desmond sentiu-se elogiado e impressionado e estava muito orgulhoso do seu discernimento. Tinha herdado um imprio que duplicara num curtssimo espao 
de tempo. Aos trinta e quatro anos, era um dos homens mais ricos do pas, se no do mundo, e poderia ter tido ou feito quase tudo o que quisesse. j se casara e 
divorciara duas vezes. No tinha filhos e a nica coisa de que gostava com paixo, era do seu negcio. As pessoas entravam e saam da sua vida, havendo sempre muito 
falatrio sob as suas mulheres. A nica coisa com que se importava era os seus avies e estar no topo do negcio da aviao. De momento, Cassie O'Malley estava a 
ajud-lo a chegar onde queria.
       Williams adorava a maneira notvel 'como Cassie compreendia os avies e as suas percepes ingnuas, mas claras, sobre o negcio. No tinha medo de se exprimir 
e, quando necessrio, de o enfrentar. Gostava de a ver nas reunies, do fato de ela se importar o suficiente para estar ali, e mostrava-se entusiasmado com os recordes 
de vo que a jovem estabelecera. Cassie no tinha medo de nada dentro do razovel. A nica coisa perante a qual parecia hesitar e tentava quase sempre evitar era 
estar presente em ocasies sociais, mas Desmond insistia que eram vitais, enquanto Cassie pensava serem um disparate.
       - Mas porqu? - argumentava ela constantemente com Nancy Firestone. - No posso passar a noite fora. Vo inteligentemente s quatro da manh.
       - Ento comece mais tarde. Mister Williams compreender. Ele quer que voc saia esta noite.
       - Mas eu no quero. - A teimosia natural de Cassie no havia ficado em Illinois e tinha inteno de ganhar. - Prefiro ficar em casa a ler sobre os avies.
       - No  isso que Mister Williams quer - disse Nancy firmemente e, at  altura, ganhara todas as discusses.
       Algumas vezes, Cassie conseguira fugir-lhe. Preferia caminhar na praia ou estar sozinha  noite a escrever a Nick, s irms ou  me. Tinha muitas saudades 
da famlia e das pessoas com quem tinha crescido. At escrever a Nick lhe partia o corao. Por vezes, quando lhe escrevia a contar o que andava a fazer, parecia 
que o ar estava a ser empurrado para fora dela. Tinha saudades de voar com ele, de discutir com ele e de lhe dizer que estava enganado ou que era parvo. Queria transmitir-lhe 
as saudades que tinha dele, mas parecia sempre estranho numa carta. freqentemente, a carta era rasgada e apenas lhe contava tudo sobre os avies que pilotava.
       Nunca mencionou a vida social a ningum, pois no significava nada para ela, se bem que escrevessem muito sobre isso nos jornais. Nancy descobrira bastantes 
jovens para lhe servirem de acompanhantes, mas a maioria nada sabia sobre avies e alguns eram atores que precisavam de ser vistos em pblico. Tudo girava  volta 
do ser visto, dos locais para onde ia e com quem era vista. Cassie no queria ser vista com nenhum deles; na maioria dos casos, apenas pousavam para as fotografias 
e depois levavam-na a casa. Ela atirava-se para cima da cama, aliviada por se livrar deles. A nica coisa que realmente gostava na sua nova vida de estrela de cinema 
era voar.
       Os vos eram inacreditveis. Descolar de madrugada no Phaeton e bater todos os recordes de velocidade eram as coisas mais doces que fizera e provavelmente 
as mais perigosas. Mas, para sua surpresa, aquelas mquinas incrveis estavam a aperfeioar as suas capacidades. Andava a aprender como lidar com mquinas muito 
pesadas, a compensar os problemas que tivessem e a assinal-los e corrigi-los juntos dos engenheiros. As suas informaes e opinies eram valorizadas, adoravam a 
maneira como ela voava e compreendiam tudo o que a rapariga queria. Estar no lugar dela era o sonho de todos os pilotos e enquanto estivesse no ar no havia dvidas 
sobre isso. Ela adorava.
       Uma tarde, estava a descer de um avio de perseguio, do exrcito, com o motor Merlin para maior velocidade, depois de um pequeno vo sobre Las Vegas para 
tirar algumas notas destinadas  equipa de construo, quando uma mo se estendeu e a ajudou a descer. Ficou surpreendida ao ver que era Desmond Williams. Estava, 
como sempre, impecvel e o cabelo caa-lhe um pouco para o rosto com o vento; pareceu-lhe subitamente menos rgido e muito mais novo do que das outras vezes.
       - Fez um bom vo?
       - Fiz. Mas o motor Merlin  uma desiluso. Ainda no nos deu o que queremos deste avio.  preciso tentar outra coisa. Porm, tenho algumas idias que quero 
expor amanh  equipa de construo. O avio estava a puxar para bombordo, inclusive na descolagem, o que constitui um srio problema.
        Pensava sempre nos avies e nos problemas que estes precisavam de superar.  noite sonhava com eles e de dia levava-os at aos seus limites. Enquanto Desmond 
olhava para ela, sentia-se cada vez mais impressionado com o que ouvia.  uma mina de ouro.
       - Parece-me que est a precisar de um intervalo. - Williams sorriu enquanto ela tirava o cabelo dos olhos e alisava o uniforme. s vezes, ainda sentia saudades 
dos macaces e dos velhos tempos em que no se importava com o seu aspecto quando voava. Para Cassie no era importante. - Quer jantar comigo esta noite?
       Ficou surpreendida com o convite e perguntou a si prpria se ele teria algo em mente. Se calhar no estava contente consigo. Nunca a tinha convidado para 
sair e o seu convvio sempre fora estritamente profissional.
       - Passa-se alguma coisa, Mister Williams?
       Parecia preocupada e ele riu-se da pergunta. At chegou a pensar se a ia despedir, mas ele abanou a cabea e olhou-a com ar divertido.
       - A nica coisa errada  que voc trabalha de mais e no faz a mais pequena idia do milagre que constitui para ns. Claro que no se passa nada. S pensei 
que poderia ser agradvel jantar.
       - Com certeza - disse ela timidamente, perguntando a si prpria como  que seria jantar com Desmond. Era to bonito, to perfeito, to inteligente e to rico 
que a assustava. Nancy sempre dissera que ele era uma companhia boa e agradvel e esta parecia conhec-lo bem. Todavia, Williams ainda assustava Cassie.
       - O que prefere? Comida francesa? Italiana? H timos restaurantes em Los Angeles. Imagino que j os conhea todos.
       - Sim, conheo. - Olhou-o nos olhos, superando a sua timidez por alguns instantes. - Mas desejava no os conhecer.
       - Foi o que me constou. - Desmond sorriu-lhe. Soube que o seu plano social no lhe agrada. - Durante alguns instantes, ficou com um ar quase paternal, apesar 
da idade, e Cassie percebeu ento a razo por que Nancy gostava dele.
       - Isso  pouco. Apenas no entendo por que razo tenho de sair todas as noites se vou voar para si s quatro da manh.
       - Talvez devesse comear mais tarde - disse ele pragmaticamente, mas Cassie no gostou da resposta.
       - Isso  o que Nancy diz, mas voar  a parte mais importante. Sair no me interessa.
       Ele parou de caminhar e olhou-a; Cassie ficou muito surpreendida ao perceber que Desmond era muito mais alto do que ela. Era um homem de grande estatura em 
vrios aspectos.
       - Tudo  importante, Cassie. Tudo. No s voar. Sair tambm . Olhe o que os jornais dizem de si, o que o pblico pensa e como gosta de si. Repare no que 
isso significa, no acesso que o pblico tem  sua personalidade, e qual o peso que voc j tem junto dele em apenas um ms. Querem saber o que voc come, l e o 
que pensa. Nunca subestime isso.  o poder do pblico americano.
       - No percebo - contraps Cassie, com ar de rapariguinha, e ele sorriu-lhe. Desmond j a conhecia bastante bem, pois tinha uma excelente percepo em relao 
s pessoas.
       - Percebe, sim - disse este calmamente. - Apenas no quer perceber. Voc quer jogar com as suas prprias regras, mas no final conseguir muito mais se jogar 
 minha maneira. Confie em mim.
       - Jantar no Cocoanut Grove ou no Mocambo no vai fazer de mim um melhor piloto.
       - No, mas torn-la- mais excitante e sofisticada. Algum que as pessoas querem conhecer melhor. Isso far com que elas a ouam e, enquanto a estiverem a 
ouvir, voc pode dizer o que quiser.
       - E no ouviro se eu estiver a dormir em casa?
       Sorriu, mas percebera onde ele queria chegar. No entanto, isso intrigava-a.
       - Nessa altura, tudo o que eles ouviro, Miss O'Malley,  o seu ressonar.
       Cassie riu-se e ele deixou-a no hangar alguns minutos mais tarde. Prometeu ir busc-la s sete, dizendo-lhe que diria mais tarde qual o restaurante onde iriam 
jantar.
       Quando chegou a casa, Cassie informou Nancy com quem ia jantar, mas esta j soubera por Miss Fitzpatrick quais eram os seus planos. No havia segredos na 
Williams Aircraft e ela j suspeitava em que restaurante iriam jantar. Provavelmente, no Perino. Nancy ajudou-a a escolher um vestido especialmente sofisticado e 
assegurou a Cassie que era o tipo de vestido que Williams gostava.
       - Porque acha que ele quer jantar comigo? - perguntou Cassie com alguma preocupao. Ainda estava a pensar se Desmond se sentiria secretamente descontente 
consigo. Talvez estivesse aborrecido com o fato de ela se queixar das sadas noturnas e quisesse ralhar-lhe.
       - Eu acho que ele quer sair consigo porque voc  muito feia - disse Nancy para a arreliar. Comeara a tratar Cassie como uma filha. De certo modo, Cassie 
ainda era uma criana e no muito diferente de Janie. De fato, Jane e Cassie tinham-se dado muito bem nas duas ocasies em que Nancy a convidara para jantar. T-la-ia 
convidado com mais freqncia, mas Cassie nunca tinha tempo para uma noite em privado. - Agora v lavar a cara e pare de se preocupar. Ele  um cavalheiro. - Fossem 
quais fossem os seus desejos, negcios ou prazer, era sempre um cavalheiro. Desmond Williams tinha uma mente brilhante e modos impecveis. O que ele no tinha era 
corao. Pelo menos, era o que as mulheres diziam. Se o tinha, ainda ningum o encontrara. Todavia, Nancy sabia que Desmond no queria o corao de Cassie. Desejava 
a sua lealdade, a sua vida, a sua mente, a sua avaliao dos avies e a sua coragem. Era o que ele queria de todos. Desejava tudo, exceto o mais importante e, na 
volta, Desmond tomaria conta dela  sua maneira: com contratos e dinheiro.
       Cassie estava pronta a horas quando ele apareceu l em baixo com um Packard novo. Era um homem que gostava de mquinas e comprava todos os bons carros que 
existiam. O Zephyr com que ela o tinha visto em Illinois j tinha sido expedido para a Califrnia.
       Cassie trajava um vestido negro muito justo, que Nancy escolhera, com meias de seda negras e sapatos de cetim negro de salto alto, o que a fazia parecer ainda 
mais alta. De qualquer modo, ele era ainda mais alto do que Cassie, e aquele vestido negro dava-lhe uma figura fabulosa. O cabelo estava apanhado no alto da cabea, 
caindo em caracis soltos e, durante aquele primeiro ms em Los Angeles, aprendera a maquiar-se na perfeio.
       - Ena! Que vestido espantoso! - Desmond olhava radiante para ela enquanto se dirigiam  cidade.
       - Eu tencionava vestir o meu macaco - disse ela maliciosamente -, mas Nancy tinha-o mandado para a lavanderia.
       - No posso dizer que esteja desiludido - replicou ele. Conversaram calmamente, durante todo o caminho, sobre o novo avio que estavam a construir. Havia 
perguntas que ela quis fazer sobre a fuselagem, e as suas dvidas sobre o design impressionavam-no profundamente.
       - Como  que voc conseguiu saber tanto sobre avies, Cass?
       - Apenas gosto muito deles.  como as bonecas para algumas midas. Toda a vida brinquei com avies. Consegui montar o meu primeiro motor aos nove anos. Fao-o, 
desde que me conheo. O meu pai ps-me a trabalhar quando eu tinha cinco anos, mas depois ficou furioso quando aprendi a voar. Montar e desmontar motores estava 
bem, mas voar era para homens e nunca para mulheres.
       -  difcil de acreditar. - Ele estava com um ar divertido. Para Desmond tudo o que estava a ouvir parecia um conto da Idade Mdia.
       - Eu sei. - Cassie sorriu, pensando carinhosamente no pai. - Ele  um velho dinossauro adorvel e eu amo-o. No primeiro dia em que voc foi ao aeroporto, 
ele deitou o seu carto fora.
       - Pensei que pudesse fazer algo de semelhante. Ele e o scio. Foi por essa razo que l voltei. - Olhou-a no momento em que chegaram a Los Angeles. - Estou 
feliz por o ter feito. Quando penso no que perderia e no que este pas perderia, seria uma tragdia.
       Disse-o com um expresso muito dramtica e ela riu-se. As suas palavras eram assustadoras, mas sempre lhe parecera um disparate. Ela sabia o que valia ou, 
pelo menos, pensava que sabia. Era um piloto muito bom, mas no era o orculo nem o gnio nem a beldade que ele pretendia que fosse, mas os Americanos j comeavam 
a pensar de outra maneira. Concordavam com Desmond Williams.
       - Onde vamos esta noite? - inquiriu ela com um pouco de curiosidade. Reconhecera o bairro, mas no adivinhara qual o restaurante. Ele tinha-lhe dito que iriam 
ao Trocadero.
       E, assim que entraram, Cassie viu instantaneamente como era sofisticado e luxuoso. As luzes estavam baixas e a orquestra tocava uma rumba.
       - Ainda no tinha vindo a este restaurante. Pois no, Cassie?
       Abanou a cabea, visivelmente impressionada com o que a rodeava e por estar ali com ele. Tinha vinte anos e nunca vira nada assim.
       - No, senhor - disse. Ele chegou-se mais para a jovem e tocou-lhe no brao.
       - Pode chamar-me Desmond. - Sorriu-lhe e ela corou. Aquela atitude to amistosa era estranha. Ele era um homem muito importante, seu patro e muito mais velho.
       - Sim, Sir. Quero dizer, Desmond. - Ainda estava corada na semiescurido, enquanto eram conduzidos para a melhor mesa da casa.
       - Claro que Sir Desmond soa muito bem. Ainda no tinha pensado nisso.
       Ele fazia-a rir com facilidade e ajudou-a a encomendar o jantar. Fazia-a sentir surpreendentemente confortvel, se bem que toda aquela experincia fosse nova 
para ela. No entanto, nunca a fez sentir-se ignorante ou ridcula. Tudo era uma grande oportunidade para ambos. Dizia-lhe sempre como se sentia um felizardo por 
estar ali com ela. Era um mestre na requintada arte de a pr  vontade e, antes do jantar ser servido, Cassie j se ria e danava completamente  vontade. Tanto 
assim que danou nos seus braos como se o fizesse h muitos anos. Quando os fotgrafos apareceram depois de jantar, conseguiram uma bela fotografia em que sorria 
para ele como se o adorasse.
       No dia seguinte, a caminho do trabalho, sentiu-se desconfortvel quando viu os jornais. A fotografia conseguia, de certo modo, transmitir a impresso de que 
estava envolvida com ele, o que no era, de todo, verdade. Mas havia algo de muito ntimo na maneira como ele a olhava. No entanto, nada acontecera de inapropriado 
ou fugazmente romntico. Ela trabalhava para Desmond, para o homem que a descobrira e lhe dera aquela fantstica oportunidade, e Cassie estava-lhe muito grata. Mas 
no havia absolutamente mais nada entre eles. Perguntou-se se algum na fbrica comentaria o fato, mas ningum o fez. O nico comentrio surgiu trs dias depois, 
quando recebeu um telefonema de Nick. Nessa noite, faria um vo de entrega de correio para San Diego e podia ir v-la na manh seguinte. Era sbado e Cassie estava 
livre para passar o dia com ele. Tinha um baile de caridade, onde iria nessa noite com um dos jovens amigos de Nancy, mas, por Nick, cancelaria tudo.
       - Ento! O Williams est a atirar-se a ti ou s tu que ests a apaixonar-te por ele? - perguntou sem cerimnias, depois de lhe dizer que iria ter ao apartamento 
assim que chegasse de San Diego.
        - O que queres dizer com isso? - Ficou aborrecida com a afirmao.
       - Estive ontem em Chicago, Cass. Vi a fotografia dos dois no jornal. Muito romntico... - Havia uma expresso cortante na sua voz que ela nunca ouvira e no 
gostava.
       - Eu trabalho para ele e levou-me a jantar. Foi s isso. Tem tanto interesse em mim como nos engenheiros dele. Portanto, pra com isso.
       - Acho que ests a ser ingnua, e aquela roupa no era exatamente trajo de trabalho.
       Estava zangado e enciumado e com pena de o pai a ter deixado ir para ali. Os vos que Cassie fazia para Williams eram demasiado perigosos. Todavia, no estava 
apenas incomodado com os vos, mas com a expresso do rosto de Desmond ao olhar para ela.
       - Foi apenas um jantar de negcios, Nick. Apenas tentou ser simptico. Provavelmente estava profundamente aborrecido. Acredites ou no, aquela  a minha roupa 
de trabalho. - Referia-se ao vestido negro justo que trazia. - A minha dama de companhia compra-me tudo e depois faz-me sair todas as noites, como se eu fosse um 
co amestrado, para que me mostre e me tirem fotografias. Chamam-lhe relaes pblicas.
       - Isso no me soa a trabalho ou a pilotagem.
       Ele estava consumido de cimes e com o fato de no a ver h mais de um ms. Estava louco para a ver, mas Cassie ainda no tivera tempo para ir a casa. Ficara 
chocado quando descobriu as saudades que tinha dela. Era como se tivesse perdido um brao ou uma perna ou o seu melhor amigo, e no gostava da idia de Williams 
a levar a jantar.
       - Falaremos disso quando chegares - disse ela calmamente, parecendo mais adulta do que em casa. j mudara, mas no se apercebera. Tambm j adquirira parte 
da educao social de uma grande cidade. - Quanto tempo podes ficar?
       - Tenho de voltar s seis horas. Preciso de voltar com mais correio.
       Ela ficou imediatamente desiludida, pois no teria nenhuma desculpa para cancelar o baile de beneficncia para crianas com paralisia infantil.
       - Faremos o melhor que pudermos. Tenta chegar cedo.
       - To cedo quanto puder, mida. No estou a pilotar um dos teus avies.
       - No precisas deles. Com a tua habilidade podias pilotar caixas de ovos e conseguir melhor do que aquilo que vejo aqui - disse calorosamente.
       - Pra de lisonjear um velho - contraps Nick com uma expresso mais suave do que no incio do telefonema. - At amanh.
       Ela mal podia esperar e, como era hbito, estava levantada s trs e meia, ansiando pela sua chegada. O tempo parecia no passar at ele tocar  campainha, 
s sete e um quarto da manh. Cassie desceu as escadas a correr e atirou-se para os braos de Nick com tanta fora que quase caram os dois. Ficou muito impressionado 
com a sua beleza e com a fora do seu afeto. Ela tambm tivera saudades dele, mais do que imaginara. Tivera saudades das suas confidncias, das longas conversas 
e dos vos.
       - Eh! Espera um pouco. D-me uma oportunidade antes de me sufocares. - Ela estava a beij-lo e a abra-lo como uma criana perdida que finalmente encontrara 
os pais. - Est tudo bem! Est tudo bem! - Cassie estava agarrada a Nick de lgrimas nos olhos, e este abraava-a com muita fora, desejando no ter de a largar 
nunca. Nick nunca a vira to bonita e ela nunca se sentira to bem nos seus braos. Teve de se forar a afastar-se e a larg-la, pois gostaria de ficar assim para 
sempre. - Ests muito bonita! - Nick sorriu. Reparou no corte de cabelo, na maquiagem, e nas calas cremes e na sweater branca que ela usava. Parecia-se bastante 
com a Hepburn ou a Hayworth. - No pareces ter estado a sofrer - disse ele para a arreliar. Depois assobiou quando viu o apartamento. - Meu Deus! E ainda se diz 
que as pessoas passam mal.
       - No  fantstico? - perguntou Cassie, radiante, mostrando-lhe a casa. Nick ficou muito impressionado, mas lembrou-se que aquela era a menina que conhecia 
desde beb e no uma estrela de cinema que acabara de conhecer. Aquela era a filha de Pat O'Malley.
       - Parece que te saiu a sorte grande, Cass - disse, pensando que ela o merecia. No havia motivo para que ela no tivesse tudo aquilo. No entanto, Nick ainda 
estava preocupado. Eles tratam-te bem?
       - Fazem tudo por mim. Compram-me o vesturio, alimentam-me e tenho uma criada que  a pessoa mais amorosa que conheo. Chama-se Lavinia. Tenho uma dama de 
companhia, chamada Nancy, que me compra a roupa e me trata de tudo, como todos os acontecimentos sociais onde devo estar presente, de todos os acompanhantes e das 
pessoas que conheo. - Cassie continuou a falar e Nick olhou para ela com uma expresso estranha.
       - Os teus acompanhantes? Eles marcam-te compromissos com homens? - Estava espantado e muito desagradado, enquanto ela lhe servia o pequeno-almoo que fizera.
       - Mais ou menos, mas no  bem isso. Muitos deles no so realmente... quero dizer, no gostam de mulheres, mas so amigos ou conhecidos da Nancy. Outros 
so atores que precisam de ser vistos e ns... eu... ns vamos a eventos sociais ou festas e tiram-nos fotografias juntos. - Parecia envergonhada ao explicar a situao, 
pois era a parte do seu trabalho de que gostava menos, mas, depois da explicao de Desmond na noite em que saram, estava a tentar aceitar o fato. - Eu no gosto, 
mas  importante para Desmond.
       - Desmond? - Nick levantou uma sobrancelha enquanto comia os ovos que ela lhe estrelara. Estavam deliciosos. Mas a sbita meno de Williams em termos to 
familiares f-lo parar de comer.
       - Ele acha que as relaes pblicas so o aspecto mais importante de um negcio.
       - E os vos? So importantes ou nem consegues pilotar?
       - V l, Nick. S justo. Tenho de fazer o que me pedem. Olha para tudo isto. - Ela apontou para a espaosa e moderna cozinha e para o resto do apartamento. 
- Olha o que eles esto a fazer por mim. Se querem que eu saia e tire fotografias, devo-lhes isso. No  nada do outro mundo. - Mas ele ouvia-a com um ar zangado.
       - Isso  treta e tu sabes disso. No vieste para aqui para ser modelo ou para freqentar uma escola de aperfeioamento, Cass. A nica coisa que lhes deves 
 arriscar a vida a testar os avies e bater os recordes que consigas.  isso que lhes deves. O resto  contigo ou, pelo menos, deveria ser. O Williams no  teu 
dono. Ou ?
       Nick olhou-a com um ar desconfiado, mas ela abanou a cabea. Ele f-la sentir vergonha por concordar com o plano, Mas sentia realmente que lhes devia isso 
e compreendia o que Williams desejava. Queria que ela se tornasse uma estrela para lhe proporcionar uma grande carreira na aviao e para fazer publicidade aos avies. 
No considerava que fosse propriamente um erro, pois as outras mulheres aviadoras tambm tinham passado pelo mesmo. Fazia o que era necessrio fazer.
       - No acho que estejas a ser justo - disse com calma.
       - Acho que ests a ser usada e isso enfurece-me - retorquiu Nick, empurrando o prato e tomando um gole de caf. - Ele quer usar-te, Cass.  bvio.
       - No  verdade. Ele quer ajudar-me, Nick. Mal cheguei e j fez muito por mim.
       - O qu? Levar-te a danar uma noite? Quantas vezes fez isso?
       Apenas uma vez. Estava a ser simptico. Tentava explicar-me como so importantes os acontecimentos de carter social, pois a Nancy disse-lhe que eu os detestava.
       - Bem! Pelo menos j sei que no foste completamente levada. Quantas vezes saste com ele? - perguntou Nick sagazmente e Cassie fixou-o quando respondeu.
       - J te disse que s sa com ele uma vez e ele foi educado e respeitador. Um perfeito cavalheiro. Danou comigo duas vezes e acontece que na segunda vez nos 
tiraram uma fotografia.
       - Suponho que isso foi um acidente.
       Nick ficava maravilhado com a sua inocncia. Era tudo to bvio para ele. Ao princpio, pensara que seria uma grande oportunidade, mas apenas se o seu alvo 
principal fosse voar. Todo aquele disparate social, sair e cortejar a imprensa, dizia-lhe algo de muito diferente. Dizia-lhe que Williams estava a us-la num sentido 
bem mais lato e Nick sabia que Cassie era demasiado jovem para o entender. Que mais quereria Williams? Quereria Cassie para si prprio? Com a sua juventude e ingenuidade, 
ficaria inevitavelmente inebriada, e subitamente Nick entendeu que tambm no gostava dessa possibilidade. Cassie era demasiado jovem para estar envolvida com um 
homem como aquele. Alm disso, Desmond Williams no a amava. Nick dissera tudo isso a Pat e at sugerira que Williams poderia ter desgnios desapropriados para ela, 
tentando avisar Pat do fato. Mas o pai estava sob a magia de Oona, que estava completamente siderada por ver a filha em documentrios cinematogrficos. Pat nunca 
faria nada que interferisse. Cassie estava segura, bem e, pelo que dizia nas cartas, era tratada como uma rainha. Se at tinha uma dama de companhia, como  que 
as coisas poderiam ser imprprias? Alm disso, pagavam uma enorme soma. Que mais queria ela?
       - No percebes que... - pressionou Nick - ... ou o fulano est apaixonado por ti ou ento montou todo este estratagema para que todos o pensassem, levando-te 
a um stio onde pudesses ser vista e fotografada. Provavelmente, informou-os de que vocs estariam naquele restaurante. Assim, toda a Amrica fica com mais do que 
um rosto bonito. Fica com um romance. O elegante milionrio corteja a querida do midwest americano e s da aviao Cassie O'Malley. Cassie acorda! O homem est a 
usar-te e  muito bom nisso. Est a resultar. Vai transformar-te num grande nome at apenas vender os avies. E depois? - Era isso que preocupava Nick. E se casassem? 
Ficava doente s de pensar nisso, mas nada  o problema? O que h de errado nisso? - Cassie no via todos os perigos que Nick via.
       - Ele est a fazer tudo por si prprio e pelo negcio. No  por ti. No est a ser sincero. Est-se nas tintas. Para ele isto  negcio. Est a explorar-te, 
Cass, e isso assusta-me. - Tudo em Williams e os avies de Cassie o assustavam.
       - Porqu? - Era isso que ela no entendia. Por que razo estava Nick contra? Por que motivo suspeitava tanto de Desmond Williams? S lhe proporcionara coisas 
boas, mas Nick via outros perigos.
       - Olha o que aconteceu  Earhart. Tornou-se demasiado grande e fez algo que nunca devia ter feito. Muitos pensavam que ela no era capaz de fazer aquela ltima 
viagem e foi bvio que no era. O que acontecer se Williams te fizer o mesmo? E no ser exatamente isso que pretende? Tu sairs magoada, Cass.
       Sentiu o corao apertado ao pensar nisso, e tudo o que desejava era lev-la para Good Hope, onde sabia que ela estaria segura para sempre.
       - Ele no est a fazer isso, Nick. juro. Que eu saiba, no tem planos para mim. De qualquer modo, sou melhor piloto do que Earhart. - Era uma coisa horrvel 
de dizer e riu-se ao diz-lo. Mas Nick levou-a a srio enquanto a observava. Ela ficara ainda mais bonita naquele ms em que no a vira e nem o sabia.
       - De fato, s mais rpida. De qualquer modo, no sabes quais so os planos de Williams. Ele no faz nada sem receber algo de grande em troca. Deve ter em 
mira um grande acontecimento.
       - Talvez tenhas razo - retorquiu Cassie com reservas. Talvez tivesse em mente uma volta ao mundo. - Se ele disser alguma coisa, eu digo-te. Prometo.
       - Tem cuidado.
       Nick franziu o sobrolho, ainda preocupado, e acendeu um cigarro. Ela fechou os olhos e sentiu o aroma familiar dos seus Camel. Faziam-na lembrar o aeroporto 
do pai, Nick e os velhos tempos em que se encontravam na pista de Prairie City. S o fato de estar ali sentada com ele causava-lhe saudades de casa, dele e de todas 
as pessoas que amava. Mas, acima de tudo, sentia saudades de Nick.
       No fim, ele descontraiu-se e gozou o fato de estar finalmente com Cassie. Estar longe tanto tempo quase o levara  loucura. Dia aps dia, pensara nas novas 
intrigas que Williams pudesse estar a chocar para a explorar. Parou de a aborrecer com os possveis planos de Williams em relao a ela e com o fato de Cassie estar 
a ser usada, e tiveram uma tarde agradvel. Deram um longo passeio na praia, depois sentaram-se na areia, sob o sol de Agosto, a olhar para o oceano. Sabia bem estarem 
de novo ali sentados, lado a lado, e mantiveram-se muito tempo em silncio.
       - Vai haver uma guerra na Europa em breve - disse ele  laia de profecia, quando comearam novamente a conversar. - Os sinais so to claros como o Sol - 
acrescentou com um ar infeliz. - No conseguem controlar Hitler. Tero de o fazer parar.
       - Achas que entraremos? - Adorava falar com ele sobre poltica. No tinha ningum com quem conversar. Estava demasiado s e ocupada. Nancy falava com ela 
sobre roupa, e os acompanhantes apenas pousavam para fotografias.
       - A maioria das pessoas pensa que ns no entraremos, mas acho que ser inevitvel.
       - E tu? - Ela conhecia-o bem. Demasiado bem. Pensou se o que Nick estava a tentar dizer era que sentia a mesma atrao que sentira h vinte anos. Cassie esperou 
que no fosse isso. - Irs?
       - Provavelmente estou demasiado velho. - Tinha trinta e oito anos e no era nada velho. Mas, se quisesse, poderia ficar em casa. Pat estava demasiado velho 
para entrar noutra guerra, mas Nick tinha outras hipteses. - Se calhar, at ia. - Sorriu-lhe, com o cabelo a voar com o ar do mar. Estavam sentados na areia, lado 
a lado, e os ombros e mos tocavam-se. Era muito reconfortante t-lo ao p de si. Confiara e aprendera muito com ele durante muito tempo. Sentia mais saudades de 
Nick do que de qualquer outra pessoa, enquanto este descobrira que a ausncia de Cassie era como uma dor fsica que ainda no desaparecera.
       - No quero que vs - disse ela com um ar triste, olhando para os olhos azuis que conhecia to bem, com os pequenos ps-de-galinha nos cantos. No conseguia 
suportar a idia de os perder. Queria faz-lo prometer que no iria para outra guerra na Europa.
       - No conseguiria suportar que te acontecesse alguma coisa, Nick. - Cassie disse-o to suavemente que Nick mal a conseguiu ouvir.
       - Todos os dias corremos os mesmos riscos - afirmou ele honestamente. - Tanto tu como eu podemos ter um acidente amanh. Acho que ambos o sabemos.
       - Isso  diferente.
       - No completamente. Tambm me preocupo contigo. Pilotar aqueles avies  um negcio arriscado. Ests a lidar com altas velocidades, mquinas pesadas e motores 
alterados a altitudes no habituais. Andas a detectar problemas e a tentar estabelecer recordes. Maior perigo do que esse no existe - disse ele taciturnamente. 
- Estou sempre a pensar que vais despenhar-te num desses avies de teste. - Nick olhou para ela com uma expresso sria e ambos reconheceram o perigo. - Alm disso, 
o teu pai diz que as mulheres no sabem pilotar. Ele sorriu e Cassie riu-se.
       - Obrigada.
       - Eu conheo o pssimo instrutor que tiveste.
       - Claro. - Sorriu e tocou-lhe o rosto com os dedos. - Tenho muitas saudades tuas e dos dias em que saamos e ficvamos a conversar na pista.
       - Eu tambm - afirmou ele num tom baixo, enrolando os dedos nos dela. - Foi uma altura muito especial. - A jovem acenou com a cabea e nenhum abriu a boca 
durante bastante tempo.
       Caminharam pela praia, falando sobre a famlia e os amigos. O irmo no voava desde o festival, e o pai parecia no se importar. Chris estava muito ocupado 
com os estudos.
       Colleen estava novamente grvida e Cassie achava que era um poo sem fundo. Bobby comeara a sair com Peggy Bradshaw. Esta estava viva e sozinha com dois 
filhos e Nick vira-o mais do que uma vez a caminho da sua pequena casa.
       - Ser a mulher ideal para ele - disse Cassie, querendo ser justa, mas surpreendida com o pouco que sentia por Bobby. Era espantoso, pois tinham estado noivos 
durante um ano e meio, o que nunca deveria ter acontecido. - Agora Peggy detestar a aviao tanto como ele - referiu tristemente, recordando o terrvel acidente 
ocorrido durante o festival areo. Fora horrvel.
       - Tu terias sido muito infeliz com Bobby - afirmou Nick, olhando para ela com uma expresso de posse. S queria ficar ali para a proteger e no a deixar ser 
usada ou posta em perigo.
       - Eu sei. Acho que j sabia nessa poca. Apenas no sabia como sair sem o ferir. Pensei realmente que tinha de casar com ele. No sei o que vou fazer - disse 
olhando para o horizonte. - Um destes dias, todos vo querer que eu cresa e que saia dos cus. Que farei ento, Nick? Acho que no o suportarei.
       - Talvez consigas arranjar uma maneira de ter as duas coisas ao mesmo tempo: uma vida normal e voar. Eu nunca as tive, mas tu s mais esperta do que eu. - 
Era sempre honesto com ela. A maior parte dos aviadores optava e ele fizera a sua opo. De momento, Cassie tambm.
       - No percebo por que motivo no podes ter ambas as coisas, mas mais ningum parece acreditar nisso.
       - No  uma grande vida para os companheiros, e a maioria das pessoas  suficientemente esperta para o saber. O Bobby foi e a minha mulher tambm.
       - Sim - disse ela acenando a cabea. - Acho que sim.
       Depois, voltaram para o apartamento e continuaram a conversar. Nick prometeu dizer  me tudo sobre onde ela vivia. Depois, levou-o ao aeroporto. Entrou com 
ele no Bellanca que conhecia to bem e quase chorou. Era como se voltasse para casa. Ficou ali sentada durante muito tempo, depois, finalmente, saiu, quando ele 
j estava na pista.
       Nick olhou-a com o sorriso que ela conhecia e amara toda a vida e teve vontade de chorar e de suplicar que a levasse com ele. Mas eles tinham as suas vidas. 
Nick precisava de voltar para Illinois e ela assinara um contrato com Desmond Williams. A maioria das pessoas teria dado a vida pelo que lhe fora proporcionado, 
mas parte dela desejava desistir de tudo e voltar para casa, onde tudo era mais simples.
       - Toma conta de ti, mida. No os deixes tirar muitas fotografias.
       Ele sorriu-lhe. Ainda no confiava naquilo que Williams teria na manga. Porm, depois de a ver, sentia-se melhor em relao a Cassie. Esta tinha a cabea 
bem assente nos ombros e no seria esmagada por ningum. Tambm no parecia estar apaixonada por Desmond Williams.
       - Volta em breve Nick.
       - Tentarei. - Olharam-se durante muito tempo. Tinha muito para lhe- dizer, mas no era o momento.
       - Diz ol a todos.  me, ao pai, ao Chris e ao Billy. - Estava a tentar arrastar o tempo, desejando que ele ficasse, mas sabia que Nick no podia.
       - Est bem. - Ele olhou para a jovem, querendo lev-la consigo. H muito que desejava faz-lo, mas agora sabia que nunca o faria. No estava nos seus destinos. 
Tudo o que precisava de fazer era aceitar o fato. - V l se no foges com Desmond Williams. Irei atrs de ti se o fizeres.  claro que a tua me  capaz de me dar 
um tiro por destruir a tua grande oportunidade.
       - Diz-lhe que no se preocupe. - Cassie riu-se. Era algo que tinha a certeza que nunca ocorreria. - Diz-lhe que a amo. - Enquanto ele acelerava os motores, 
teve de o dizer. - Amo-te, Nick. Obrigada por teres vindo.
       Ele acenou com a cabea, querendo dizer-lhe que tambm a amava, mas no o fez. Cumprimentou-a, fez-lhe sinal para recuar e alguns minutos mais tarde, circulava 
preguiosamente sobre o aeroporto de Pasadena. Cassie observou-o at ele parecer apenas um pequeno ponto no horizonte.

CAPTULO 12
       Exatamente duas semanas depois de Nick ir a Los Angeles, a Alemanha invadiu a Polnia e o mundo ficou horrorizado com a destruio causada por Hitler. Dois 
dias depois no dia trs de Setembro, a Gr-Bretanha e a Frana declararam guerra  Alemanha. Finalmente acontecera. A Europa estava em guerra.
       Cassie telefonou para casa quando soube, mas Nick tinha sado e o pai fora levar uns passageiros a Cleveland. Nesse dia almoou com Desmond, que tinha falado 
com o presidente dos Estados Unidos de manh. No havia dvida: os Estados Unidos estavam a planejar ficar de fora. Fora um alvio ouvir aquilo.
       - Ela disse-lhe que queria ir a casa, e Desmond emprestou-lhe um dos seus avies particulares durante o fim-de-semana. Desde julho que estava a planejar ir 
a casa passar um fim-de-semana, mas ainda no tivera tempo. Aquela oportunidade era perfeita e ningum objetou.
       Cassie aterrou no aeroporto do pai na sexta-feira  noite. Sara de Los Angeles ao meio-dia e chegou a Good Hope s oito e meia, hora local. No estava l 
ningum, mas ainda era dia quando aterrou na longa pista leste-oeste e deslizou at parar. Estacionou o avio e encaminhou-se para o velho caminho que o pai mantinha 
ali, No avisara ningum da sua chegada. Queria surpreend-los e conseguiu. Entrou em casa depois das nove horas da noite. Os pais j estavam na cama e a me quase 
desmaiou quando ela saiu do quarto em camisa de noite, na manh seguinte.
       - Oh, meu Deus! - gritou a me. - Pat! - Este saiu a correr do quarto e sorriu quando a viu.
       - Ol, me! Ol, pai! Pensei fazer-vos uma visita. - Cassie sorria radiosamente para eles.
       - Tu s muito manhosa. - O pai abraou-a com um largo sorriso, a me fez-lhe um enorme pequeno-almoo e acordou Chris que ficou muito contente de a ver.
       - Como  que te sentes como estrela de cinema? - disse o pai para a arreliar. Ainda no sabia se deveria aprovar ou> no, mas toda a gente na cidade pensava 
ser uma grande coisa, o que era difcil de ignorar.
       - O Nick diz que vives num palcio - disse a me enquanto mirava Cassie atentamente. Parecia saudvel e bem e, para alm do belo corte de cabelo e de umas 
unhas vermelhas maravilhosamente tratadas, no parecia diferente.
       -  uma casa muito bonita - concedeu Cassie com um sorriso. - Estou contente por saber que ele gostou.
       Sentaram-se durante algum tempo a falar da sua vida em Los Angeles, depois vestiu-se e foi com o pai para o aeroporto. Estava feliz por ver todos os seus 
velhos amigos e Billy largou um grande grito de alegria quando a viu. Vestiu um macaco velho e foi trabalhar com ele num dos avies. Meia hora mais tarde ouviu 
o velho caminho de Nick a chegar. Olhou para cima e esboou um sorriso. No entanto, s  hora de almoo  que ele foi ao hangar v-la. Achou que devia estar ocupado 
e que o veria em breve, mas estava feliz s por saber que estava perto dele.
       - Aqui comea-se a trabalhar tarde - disse ela quando o viu. - Todos os dias s quatro da manh eu j estou a catorze mil ps de altitude.
       - Sim? E como  que vais  cabeleireira? - perguntou Nick a sorrir e obviamente deliciado com a sua presena. Os seus olhos danavam e o corao batia com 
fora enquanto a olhava. Os seus sentimentos estavam a comear a preocup-lo. O fato de Cassie estar a viver na Califrnia talvez fosse bom nesse aspecto. Ultimamente, 
estava a ser cada vez mais difcil controlar o que sentia por ela.
       - Muito engraado.
       - Ouvi dizer que os fulanos da Movietone estaro aqui s trs horas. - Sorriu para Billy e para dois dos outros homens. -  melhor vestir roupa lavada.
       - Ser uma boa mudana em ti, Stick - disparou Cassie imediatamente. Nick encostou-se ao avio em que ela estava a trabalhar com Billy e olhou-a com uma expresso 
de aprovao. Estava muito mais bonita.
       - Trouxeste a tua dama de companhia?
       - Achei que conseguia lidar contigo sozinha.
       - Sim - acenou ele lentamente com a cabea. - Se calhar at podes. Queres ir comer qualquer coisa? - O convite foi feito num tom de voz pouco habitual nele. 
Era raro lev-la fosse onde fosse. Normalmente, apenas andavam juntos no aeroporto.
       - Claro. - Seguiu-o at ao caminho e ele levou-a  confeitaria Paoli que tinha uma sala de jantar nas traseiras e faziam uns bons sanduches e gelado caseiro.
       - Espero que sirva. No  exatamente o Brown Derby.
       - Serve. - Cassie estava to contente por estar com ele que teria ido a qualquer lado e adorado.
       Nick pediu sanduches de carne assada para os dois e um batido de chocolate para ela. Para si s queria caf.
       - No fao anos, sabes? - lembrou-lhe. Ainda estava impressionada com o fato de Nick a convidar para almoar. j nem se lembrava da ltima vez que o fizera, 
se  que o tinha feito.
       - Achei que ests to mimada que almoar nas traseiras do hangar no seria apropriado. - Nick encolheu os ombros, mas estava desesperadamente feliz por a 
ver. Estavam a meio do almoo, quando notou que ele no estava a comer quase nada. Percebeu ento que aquilo no tinha sido apenas um convite para almoar. Subitamente, 
Nick ficara pouco  vontade e um pouco preocupado.
       - O que se passa, Stick? Roubaste um banco?
       - Ainda no, mas estou a pensar nisso. - No entanto, as brincadeiras terminaram ali. Nick olhou-a nos olhos, e Cassie percebeu tudo no momento em que olhou 
para ele; disse-o ainda antes dele.
       - Vais? - As palavras ficaram-lhe entaladas na garganta e o batido imediatamente se lhe azedou no estmago quando ele acenou com a cabea. - Oh, Nick, no. 
No tens de ir. Ns no temos nada a ver com essa guerra.
       - A seu tempo teremos. Assim que eles o disserem. Aposto que Williams tambm o sabe e est a contar com isso. Vender muitos avies. No acredito nessa histria 
de os Estados Unidos ficarem de fora e tambm no me interessa se ficarem. Eles precisam de ajuda. Vou para Inglaterra para me juntar  RAF. Fiz algumas perguntas 
e soube que precisam de todos os homens que conseguirem. Tenho o que eles necessitam e ningum precisa de mim aqui. No precisam de um gnio para fazer entregas 
de correio em Cincinnati.
       - Mas tambm no precisam que sejas abatido numa guerra que no  nossa. - Os olhos de Cassie estavam cheios de lgrimas. - O pai sabe?
       Nick acenou com a cabea. Tinha detestado dizer-lho, mas queria ser ele prprio a faz-lo. Tinha-o dito a Pat no momento em que soube que ela estava em casa 
e Pat concordara.
       - Disse-lho ontem. De qualquer modo ele j sabia. - Olhou para Cassie com uma expresso estranha. - Eu volto, Cass. Ainda tenho muitos anos para fazer este 
tipo de coisas. Quem sabe? Talvez eu cresa. H coisas que no fiz na minha vida depois da ltima guerra.
       - Podes faz-las aqui. No tens de arriscar a vida para mudar aquilo de que no gostas nela.
       - No gosto da preguia em que tenho andado nem da calma com que tenho vivido. Apenas passei pelos ltimos vinte anos da maneira mais fcil. Passaram to 
depressa que me esqueci onde estava. Agora estou a meio caminho e perdi muito tempo. No voltarei a fazer isso.
       Cassie no tinha a certeza do que Nick queria dizer, mas era bvio que tinha pena de no ter feito certas coisas e de no se ter incomodado com algumas relaes. 
Sempre pensara que havia tempo, mas, de certo modo, faltara-lhe a coragem. Nunca mais quisera casar, gostar demasiado de algum, envolver-se de mais ou ter filhos. 
Em terra nunca quisera arriscar nada. 
No queria perder, mas no se importava de morrer. Era uma forma estranha de cobardia, peculiar  maioria dos aviadores:  eram corajosos no ar, mas em terra uns 
covardes tremendos.
       - No vs - sussurrou ela sobre os restos do almoo. No sabia que dizer para o convencer, mas era tudo o que desejava. No queria perd-lo.
       - Tenho de ir.
       - No. No tens! - Levantou a voz e as pessoas viraram-se nas mesas. - No tens de fazer nada!
       - Tu tambm no - replicou ele subitamente zangado-, mas fizeste as tuas opes de vida. Tambm tenho o direito de as fazer. No vou ficar aqui sentado enquanto 
h uma guerra para travar. - Levaram a batalha para a rua e gritaram um com o outro sob o sol de Setembro.
       - Achas que s assim to importante? Que s o nico aviador que fazes bem as coisas? Por amor de Deus, Nick! Cresce! Fica aqui! No te mates por uma coisa 
que no  tua nem nossa. Nick... Por favor!
       Cassie j chorava e ele no se apercebeu que j estava a abra-la e a dizer como a amava. Prometera a si prprio que nunca o faria, mas j no conseguia 
suportar mais.
       - Querida! No chores, por favor! Amo-te muito, mas preciso de fazer isto. Quando voltar as coisas sero diferentes. Talvez j no sejas a skygirl de Desmond 
Williams e eu tenha aprendido algo que nunca percebi. Quero muito mais do que tenho agora e nunca percebi como o obter, Cassie.
       - Tudo o que tens a fazer  agarr-lo.  s isso. - Cassie abraava-o e tudo o que desejava era fugir com ele para qualquer lado e esquecer a guerra, mas 
agora no havia lugar algum para fugir.
       - No  assim to simples - afirmou Nick lentamente, olhando para ela. Queria dizer-lhe muita coisa, mas no ousava. Talvez nunca se atrevesse. No tinha 
respostas para lhe dar.
       Caminharam de mo dada de volta ao caminho e, quando chegaram ao aeroporto, dirigiram-se ao hangar onde estava o Jenny. Era o avio em que ele a ensinara 
a voar e ela percebeu imediatamente para onde iam. Cassie subiu para o lugar da frente, por deferncia a ele, pois o instrutor sentava-se sempre no assento de trs. 
Alguns minutos mais tarde, j tinham feito todas as verificaes e deslizavam na pista. Pat viu-os levantar vo e no disse nada. Sabia que Nick j lhe dissera que 
ia para Inglaterra.
       Chegaram  velha pista. Nick deixou-a aterrar e depois sentaram-se por baixo da sua rvore. Ela encostou a cabea no ombro de Nick, sentados na erva macia 
a olhar para o cu. Era difcil acreditar que algures havia uma guerra e que Nick iria juntar-se aos combatentes.
       - Porqu? - perguntou, desesperada, algum tempo depois, com as lgrimas a rolar-lhe lentamente pelas faces. Ele pensou que o seu corao se iria quebrar enquanto 
lhe tocava o rosto e ternamente lhe limpava as lgrimas. - Porque  que tens que ir? - Durante todo aquele tempo Nick nunca lhe dissera que a amava e agora ia partir, 
quem sabe, para sempre.
       - Porque acredito no que estou a fazer. Acredito em homens livres, na honra e num mundo seguro. Vou defender tudo isso nos cus de Inglaterra.
       - J o fizeste uma vez. Deixa que outro o faa agora, Nick. No  problema teu.
       - , sim. No tenho nada de importante a fazer aqui, mesmo que isso seja da minha responsabilidade.
       - Ento vais porque ests aborrecido. - Havia sempre um pouco disso em todos os homens. Isso e o esprito de caador. No entanto, Cassie tambm sabia que 
existiam bons motivos. Apenas achava uma loucura ir naquele momento e no queria que lhe pudesse acontecer alguma coisa. Nick jurou que isso no aconteceria.
       - Sou demasiado bom para ser ferido - disse ele, arreliando-a.
       - Tu voas muito mal quando ests cansado - retorquiu, no acreditando completamente no fato, mas ele riu-se.
       - Farei tudo para dormir bastante. E tu? - perguntou de sobrolho franzido. - Ests a pilotar aqueles avies pesados sobre o deserto e no penses que ignoro 
os perigos que corres quando os testas. j muitos morreram a faz-lo e provavelmente voavam melhor do que tu.
       Aquela afirmao f-la lembrar-se do marido de Nancy e acenou com a cabea. No podia negar os perigos do seu emprego, mas era muito boa no que fazia, e no 
havia alemes a disparar sobre ela por cima de Las Vegas.
       - Eu tenho cuidado.
       - Todos temos, mas por vezes no  o suficiente. s vezes  preciso um pouco de sorte.
       - Por favor, tem sorte - sussurrou ela.
       Nick olhou para Cassie durante muito tempo e depois, sem uma palavra, fez o que desejava fazer h muito tempo e nunca ousara. O que nunca tinha permitido 
a si prprio fazer e julgava que nunca permitiria. Agora, porm, sabia que tinha de o fazer. No podia ir-se embora sem que ela soubesse como a amava. Inclinou-se 
com uma profunda gentileza e beijou-a. Ela devolveu-lhe o beijo como nunca fizera com nenhum homem. Alis nunca houvera nenhum homem. Apenas um rapaz. Agora havia 
Nick, o homem que ela amava desde sempre.
       - Amo-te - sussurrou ele quase sem flego, desejando que pudesse haver mais e sabendo que era impossvel. - Sempre te amei, sempre te amarei. Quero dar-te 
tudo, Cass, mas no tenho nada para te dar.
       - Como podes dizer isso? - Aquelas palavras quebraram-lhe o corao. - Eu estou apaixonada por ti desde os cinco anos. Sempre te amei. S precisamos disso. 
No quero mais nada.
       - Devias ter muito mais do que isso. Devias ter uma casa e filhos. Muita coisa, como tudo o que te deram na Califrnia e que deveriam vir de um marido.
       - Os meus pais nunca tiveram grandes coisas e no se importaram. Tinham-se um ao outro e construram o negcio do meu pai a partir de um monte de terra. Eu 
no me importo de comear do nada.
       - No poderia permitir que o fizesses e, alm disso, o teu pai matava-me. Sou dezoito anos mais velho do que tu.
       - E depois? - Cassie no estava impressionada. Tudo em que pensava era no fato de ele a amar e no o queria perder. Nunca, depois de tudo o que j tinham 
passado.
       - Sou um velho - tentou Nick objetar com pouca convico. - Pelo menos, ao p de ti. Deverias casar com algum da tua idade e ter um monte de filhos, tal 
como fizeram os teus pais.
       - Provavelmente enlouqueceria se o fizesse, e nunca quis um rancho de filhos. Um ou dois seria o suficiente. - Com Nick, at a perspectiva de ter filhos no 
era to assustadora como pensara.
       Ele sorriu-lhe ternamente enquanto a ouvia tentar convenc-lo de algo impossvel. Ia para a guerra e Cassie tinha um contrato para pilotar avies na Califrnia. 
No entanto, tinha de admitir que gostava do que estava a ouvir. Talvez um dia, mas duvidava. Ele nunca seria esse sortudo ou esse louco Cassie merecia muito mais 
do que ele podia dar-lhe.
       - Adorava dar-te filhos, Cassie. Adorava dar-te tudo que tenho para dar, mas nunca vou ter nada seno um punhado de avies velhos e uma barraca no aeroporto 
do teu pai-
       - Tu sabes que ele te daria metade de tudo. Ganhaste-o. Mereceste, pois construste o negcio com ele. Sabes bem que sempre quis que fosses scio.
       -  engraado. Eu era to jovem quando comecei que nunca quis ser mais nada para alm de empregado. Agora tenho pena. Talvez estejas a fazer o melhor para 
ti naquele emprego louco, Cass. Faz um monte de dinheiro, poupa-o e volta para o teu lugar com algo para mostrar. No tenho nada e nunca me importei, a no ser quando 
cresceste e percebi tudo aquilo que no tinha para te dar. Isso e o fato de eu ter quase o dobro da tua idade e o teu pai, provavelmente, me matar por isso.
       - Duvido - disse Cassie sabiamente. Era mais esperta do que Nick no que respeitava ao pai. - Sempre pensei que ele no ficaria surpreendido. Acho que preferia 
que eu fosse feliz do que casar com o homem errado e ser uma desgraada.
       - Tu devias casar-te com um homem como Desmond Williams - afirmou com uma expresso infeliz, que a fez rir. Ele odiava a idia, mas Williams tinha muito para 
lhe dar.
       - E tu devias casar-te com a rainha de Inglaterra. No sejas estpido, Nick. Quem  que se importa? - Cassie sorriu-lhe, mas ele no estava convencido.
       - Importar-te-s quando fores mais velha. Es apenas uma mida. Achas que as tuas irms ou a tua me so felizes sendo pobres?
       - A minha me no se queixa de nada e acho que  feliz. Se as minhas irms deixassem de ter um filho por ano talvez no fossem to pobres. - Cassie sempre 
pensara que elas tinham demasiados filhos. Um ou dois parecia sensato, mas Glynnis estava  espera do sexto e Colleen e Megan do quinto. A Cassie sempre parecera 
excessivo e um pouco assustador.
       Nick beijou-a novamente, pensando nos filhos que gostaria de ter tido com ela e que nunca teria. Nunca permitiria a si prprio o comodismo ou egosmo de casar 
com Cassie, no importando o amor que lhe tinha, ou talvez precisamente por isso. Ela merecia muito mais.
       - Eu amo-te, Nick Galvin. No vou fugir e no vou deixar que fujas de mim. Vou l ter para te descobrir, se for preciso. - E Nick sabia que Cassie o faria.
       - No te atrevas. Eu mando-te expulsar de Inglaterra e no te atrevas a deixar que Williams te convena a fazer uma volta ao mundo. Tenho quase a certeza 
de que  isso que ele pretende. Com a guerra na Europa no estars segura em lado nenhum: nem no Pacfico nem na Europa. Fica em casa, Cass. Promete-me. - Parecia 
desesperadamente preocupado e ela acenou com a cabea.
       - Promete tu tambm - pediu suavemente, beijando-o depois. Nick teve de se controlar ao sentir a paixo de Cassie ir ao encontro da sua. Estava deitado no 
cho com Cassie nos braos e apenas desejava que aquele momento pudesse ser eterno. - Quando partes? - perguntou ela finalmente com uma voz rouca enquanto se mantinham 
na mesma posio.
       Ele hesitou durante algum tempo e depois respondeu-lhe.
       - Daqui a quatro dias.
       - O pai sabe? - Sabia que seria difcil para Pat e tinha pena de no poder estar ali para o ajudar.
       - Sabe, sim. O Billy disse que tratava das coisas.  um bom rapaz e um belssimo piloto. Acho que apenas precisa de se afastar do pai. s vezes, os velhos 
pilotos tornam a vida difcil aos filhos, mas acho que tu sabes bem disso, no  verdade?
       Ela sorriu, pensando nas atitudes do pai, mas ultimamente achava-o mais condescendente.
       Sentou-se e olhou para Nick, querendo saber como as coisas estavam entre eles.
       - O que  que tudo isto significa, Nick? Ns descobrimos que nos amamos e tu vais-te embora? E agora? O que farei sem ti?
       - O mesmo que fazias antes - disse ele finalmente. - Sai e sorri para as cmaras.
       - O que  que isso significa?
       - Exatamente o que disse. Nada mudou. Tu s livre e eu vou para Inglaterra.
       - Tretas! - gritou Cassie. -  s isso? Eu amo-te, tu amas-me, at  vista, adeus. Vou para a guerra, tem uma boa vida e vejo-te quando voltar. Se calhar.
       -  isso mesmo. - Nick ficou subitamente com uma expresso endurecida, mas h muito tempo que tomara essa deciso e no voltaria atrs. Por ela.
       - E depois o que acontece? Voltas para casa e, se tivermos sorte, encontramo-nos novamente e comeamos tudo outra vez?
       - No - disse ele tristemente. - Se tiveres sorte encontramo-nos novamente e tu apresentas-me ao teu marido e filhos se eu estiver fora muito tempo, e se 
isso no acontecer apenas me apresentas ao teu marido.
       - O que  que tu tens? Ests louco ou doente?
       Cassie parecia ultrajada ao olh-lo, desejando subitamente bater-lhe. Que tipo de jogo era aquele? Mas, para ele, aquilo no era um jogo. H anos que Nick 
Galvin prometera a si prprio no arruinar a vida de Cassie, apenas pelo fato de a amar.
       - No tens estado a ouvir-me? - Estava a gritar com ela, no seu lugar secreto, e no havia ningum para os ouvir. Ali estavam  vontade. - No tenho nada 
para te dar, Cass, e isso no vai mudar enquanto estiver fora e no ir melhorar quando voltar, a no ser que roube um banco ou tenha sorte em Las Vegas.  muito 
provvel que faas mais dinheiro do que eu.
       - Ento, vai trabalhar para Desmond Williams - afirmou ela, zangada. Como podia ele ser to estpido?
       - As minhas pernas no so suficientemente bonitas. Para ele s uma mercadoria. s um gnio a pilotar e bonita.  uma boneca que sabe pilotar. s ouro no 
banco para ele Cass. Eu sou apenas mais um piloto.
       - E a culpa  minha? - disse ela, zangada. - Porqu que ests a vingar-te em mim? Que mal fiz eu para alm de ter sorte?
       Agora, Cassie j chorava e tremia de raiva e frustrao. Porque  que os homens eram to injustos? Era cansativo ser mulher.
       - Tu no fizeste nada. O problema reside no fato de eu nada ter feito nos ltimos vinte anos a no ser pilotar um monte de avies velhos e estar com o teu 
pai. Diverti-me, fizemos coisas muito boas, sendo a melhor ensinar-te a voar, ou, talvez seja mais correto dizer, ensinar-te a no te despenhares, porque tu ensinaste-te 
a ti prpria. Mas isso no chega, Cass. No vou casar contigo sem dinheiro no banco e de bolsos vazios.
       - s um idiota! - Gritou-lhe por entre lgrimas. - Tens trs avies e construste um aeroporto ao meu pai.
       - Eu posso no voltar, Cass - disse ele calmamente. Havia tambm essa parte. No ia deix-la ali  espera. Com a idade dela no era justo. - Isso  um fato. 
Posso estar fora durante cinco anos e posso ficar fora para o resto da vida. Vais esperar porqu? Com a vida e oportunidades que tens agora  isso que queres? Esperar 
por um fulano que tem o dobro da tua idade e que pode deixar-te viva e sem um tosto antes de comear? Esquece! Esta  a minha vida, Cass. Foi o que eu fiz dela. 
 isto que quero: apenas voar, sem compromissos nem promessas.  tudo. Esquece.
       - Como podes dizer uma coisa dessas? - Cassie estava louca de raiva, mas ele olhava-a tranqilamente.
       -  muito fcil: porque te amo de mais. Quero que saias para o mundo e que sejas muito bem sucedida. Quero que consigas tudo o que puderes, que pilotes tudo 
em que puderes pr as mos, desde que em segurana, e quero que sejas feliz para sempre. No quero preocupar-me contigo enquanto estiver a voar atrs de algum Kraut, 
por cima do canal da Mancha.
       - s incrivelmente egosta - disse, irada.
       - A maior parte das pessoas so-no - afirmou ele honestamente. - Especialmente os aviadores. Se no fossem no voariam. No assustariam as pessoas que amam, 
arriscando a vida todos os dias ou a matar-se perante os olhos daqueles que amam em festivais areos. Pensa nisso. Pensa no que fazemos s pessoas que amamos.
       - J pensei nisso e muito. Mas ambos sabemos que isso  uma vantagem. Estamos quites.
       - No, no estamos. Tu tens vinte anos, uma vida inteira  tua frente, e no quero que esperes por mim. Se eu voltar e ganhar alguma coisa enquanto l estiver, 
ns falamos.
       - Odeio-te - disse Cassie, furiosa, incapaz de o demover. Nick era to teimoso como ela.
       - Calculei que isso acontecesse. Apercebi-me quando te beijei. - Beijou-a novamente, e toda a fria, raiva e pena explodiram numa onda de paixo que ela tambm 
sentiu. Gostaria de ter mudado muitas coisas, mas sabia que no podia. Queria abra-la e fazer amor com ela at ambos morrerem de prazer. Mas fez um esforo para 
a largar antes que fosse demasiado tarde para parar. Esse momento estava cada vez mais perto para ambos.
       - Escreves-me? - inquiriu ela um pouco depois, quase sem flego.
       - Se puder, mas no contes com isso. No te preocupes se no tiveres notcias minhas.  precisamente isso que eu no quero. No quero que esperes por mim. 
 a histria de amor mais curta do mundo. Eu amo-te. Fim. E provavelmente nunca deveria ter-to dito.
       - Ento porque o fizeste? - perguntou com um ar infeliz.
       - Porque sou um filho da me egosta e j no conseguia suportar no o dizer. Tinha de lutar comigo prprio para no o fazer cada vez que vnhamos para aqui. 
E quase morri quando foste para a Califrnia. H muito que tenho necessidade de to dizer, mas isso no muda nada, Cass.  bom saber, mas vou-me embora.
       Continuaram s voltas com a conversa durante muito tempo, mas ela no conseguiu convenc-lo a ficar. Acabaram por voltar para o aeroporto depois de se beijarem 
durante muito tempo e quase rasgarem as roupas um do outro.
       Foi um fim-de-semana longo e triste, mas Cassie passou muito tempo com Nick. Na tarde de domingo, quando partiu, a despedida deixou-a completamente desfeita. 
O pai tinha-se apercebido do que acontecera e falara com a filha antes de esta partir. No entanto, a conversa no a ajudara muito. F-la sentir-se mais perto dele, 
mas nada mudou em relao a Nick. Estavam apaixonados um pelo outro e ele dizia-lhe para o esquecer. Cassie no o disse ao pai de um modo muito explcito, mas Pat 
compreendeu.
       - Ele  assim, Cass. Precisa de liberdade para fazer aquilo em que acredita.
       - A guerra no  nossa.
       - Mas ele quer que seja dele e  muito bom nisso. O Nick  um bom homem, Cass.
       - Eu sei. - Olhou ento para o pai com uma expresso infeliz. - Ele acha que  muito velho para mim.
       - E . Eu preocupava-me com a possibilidade de se apaixonar por ti - admitiu Pat -, mas tambm penso que seria muito bom para ti. Mas no podemos convencer 
um homem disso.  preciso que ele o descubra por si prprio.
       - Pensa que ficars zangado com ele.
       - O Nick sabe que isso no  verdade. O problema est na cabea dele. No vais encontrar respostas agora, Cass. Se tiveres sorte, ele voltar e podero discutir 
isso mais tarde.
       - E se no volta? - perguntou ela muito consternada.
       - Nesse caso, ters sido amada por um bom homem e tiveste muita sorte em conhec-lo.
       Agarrou-se ao pai, achando que as lies que precisava de aprender ultrapassavam as suas capacidades.
       Cassie despediu-se da famlia em casa, e Nick levou-a ao aerdromo. Ajudou-a a preparar o avio e a fazer todas as verificaes em terra, admirando a extraordinria 
mquina que ela trouxera consigo; mas, enquanto Cassie acelerava os motores, puxou-a para si e abraou-a.
       - Toma conta de ti - pediu ela, angustiada. - Eu amo-te.
       - Eu tambm te amo. Agora s uma boa menina e faz uma boa pilotagem. j percebi porque tens uma dama de companhia - disse ele para a arreliar e ajudar a suavizar 
o momento. Nesse fim-de-semana, tinham estado, mais do que uma vez, muito perto de perder a cabea.
       - Escreve-me. Manda dizer onde ests - implorou enquanto as lgrimas lhe corriam pela cara abaixo.
       Ele apontou para o cu com um sorriso triste. Os olhos de Nick disseram-lhe tudo o que Cassie precisava de saber e no conseguia dizer. Estava a deix-la 
e, se voltasse, ningum sabia o que o futuro contemplava. No havia promessas nem compromissos. Havia apenas o presente e, naquele momento, naquele preciso momento, 
amava-a como nunca amara ningum e nunca mais amaria.
       Tem calma, Cass - disse ele suavemente ao afastar-se dela. - No te deixes ir abaixo. - Nick sorria, mas tambm tinha lgrimas nos olhos. - Amo-te - sussurrou 
e afastou-se do avio. Ela olhou para ele durante um longo e doloroso momento com os olhos to cheios de lgrimas que mal conseguia ver  enquanto deslizava pela 
pista. Foi a nica vez em sua vida em que descolar no fora uma excitao. Balanou as asas em sinal de despedida, e dirigiu-se para oeste enquanto ele a observava.

CAPTULO 13
       As primeiras semanas depois da partida de Nick foram muito difceis para Cassie. Estava sempre a pensar nele e tinha de se esforar para se concentrar noutras 
coisas enquanto voava. Voava de manh  noite e, em Setembro, estabeleceu mais dois recordes no Phaeton. Em Outubro, a Polnia caiu definitivamente nas mos dos 
Alemes. Cassie sabia que Nick estava no aerdromo de Hornchurch, destacado como instrutor numa unidade de caas. Estava a treinar jovens pilotos para a mesma tarefa 
que ele desempenhara na ltima guerra e, at ao momento, no tinha misses. O pai dizia que a idade poderia mant-lo fora da ao, mas achava pouco provvel devido 
 sua extraordinria reputao. Pelo menos, estava em segurana. No lhe escrevera, mas tinha contactado com Pat atravs de outro piloto, o que j era alguma coisa.
       A sua vida em Los Angeles tinha a agitao habitual e os fotgrafos e os acontecimentos sociais parecia serem cada vez mais. Porm, Desmond continuava a insistir 
na sua importncia, levando-a a almoar de tempos a tempos para trocar impresses sobre os avies e ouvir os comentrios de Cassie, que no cessavam de o espantar. 
Simultaneamente, queria mostrar-lhe a importncia das relaes pblicas. As suas conversas eram quase sempre sobre avies. Tratava-a com um parceiro de negcios. 
Havia tambm um respeito mtuo e, por vezes, ele parecia um pouco mais amigvel. Os negcios eram o seu nico interesse e, para algum que tinha um interesse to 
forte pela publicidade, Cassie ficava surpreendida com a raridade com que a sua vida pessoal surgia nos jornais.
       Continuava a ser muito generoso com ela, dando-lhe uma grande recompensa financeira cada vez que ela estabelecia um novo recorde e encorajando-a ainda a pilotar 
todos os seus avies. No dia de Ao de Graas, foi para casa num Williams P-6 Storm Petrel. Era esguio e negro, e Pat ficou completamente estarrecido com a beleza 
da mquina. Ela subiu com o pai e tambm convidou Chris, mas este estava muito ocupado. Tinha uma namorada nova em Walnut Grove e no queria desperdiar tempo no 
aeroporto. Todavia, Billy estava muito ansioso por subir com ela. Tinha notcias de Nick. Parecia que todos tinham menos Cassie. Estava a tentar provar um ponto 
de vista, mas h muito que ela compreendera a mensagem. Tudo estava a desenrolar-se exatamente como ele afirmara, apesar das suas splicas. Eu amo-te. Adeus. Fim 
da histria. Cassie nada podia fazer e no sabia se alguma vez o conseguiria. Uma noite falou com Billy sobre o assunto e este disse-lhe que Nick era o homem mais 
incrvel que conhecera, mas eptome de um solitrio.
       - Eu acho que est louco por ti, Cass. Percebi-o no dia em que vos conheci. Achei que tu tambm sabias e fiquei surpreendido quando vi que no. Penso que 
ele tem medo. No est habituado a ter algum consigo e deve ter pensado que no voltaria. Nunca te faria uma coisa dessas.
       - timo. Ento diz que me ama e rejeita-me.
       - Ele acha que deves casar com algum importante em Los Angeles.
       - Essa deciso foi muito agradvel da sua parte - queixou-se ela, mas no podia fazer nada. Falar com Billy ajudara. Era quase como um irmo, algum que gostava 
de voar quase tanto como ela. Estava a planejar ir v-la a Los Angeles antes do Natal.
       Quando Cassie partiu, prometeu voltar nas frias do Natal. At l, tinha muito que fazer. Williams ia apresentar dois avies novos e ela era uma parte importante 
dessa apresentao. Iria fazer vos de teste, dar entrevistas e posar para fotografias. No entanto, achou que, pelo Natal, o pior j teria passado. Desmond j concordara 
em dar-lhe uma semana de frias entre o Natal e o Ano Novo.
       Os Russos invadiram a Finlndia no dia em que ela regressou do feriado, sendo bvio que as coisas no iam bem na Europa. isso preocupava-a por causa de Nick, 
mas, com o trabalho que tinha, mal conseguia ter tempo para se manter a par das notcias.
       Ficou aliviada por saber que, de momento, Nick era apenas um instrutor.
       Quando Billy a foi visitar em meados de Dezembro, levou-o nos seus melhores avies. Ele ficou completamente atordoado com o que Cassie andava a pilotar.
       - Vocs tm grandes mquinas, Cass.
       Os seus olhos brilharam como uma rvore de Natal quando viu a variante de patrulha martima que Williams desenvolvera a partir de um outro transporte, indo 
buscar inovaes ao fabuloso barco de corrida de Howard Hughes.
       - Se quisesses, dar-te-iam emprego como piloto de testes - sugeriu ela. Mas, se ela o atrasse, o pai ficaria decerto muito zangado. Billy sabia que Pat agora 
s o tinha a ele.
       - Nunca o deixaria - sorriu Billy. - Ficarei feliz se, de vez em quando, trouxeres para casa um destes meninos.
       Entretanto, Cassie apresentou-o a Desmond Williams e, no dia em que almoaram no escritrio, disse-lhe que Billy era um piloto extraordinrio. Desmond mostrou 
algum interesse nele, mas o seu verdadeiro interesse era Cassie. No podia imaginar outro piloto que voasse to bem como a jovem. Tambm falaram bastante sobre a 
guerra na Europa. Williams esperava vender avies para o estrangeiro e, tal como Nick, achava que os Estados Unidos acabariam por se envolver.
       - Penso que seremos obrigados a entrar por vergonha em relao aos Aliados - disse calmamente. Na ltima guerra acontecera exatamente o mesmo.
       - Tenho um amigo em Inglaterra - admitiu Cassie, um dia. - Est destacado como instrutor na RAF. Est em Hornchurch. - Era um daqueles raros dias em que falavam 
sobre alguma coisa que no fosse negcio.
       - Parece ser um homem nobre - comentou Desmond, enquanto um criado lhes servia caf no seu escritrio.
       - No.  apenas outro louco como todos ns - disse Cassie com um ar pesaroso, e ele riu-se. Ambos sabiam que os pilotos eram uma raa especial.
       - E voc, Cass? No tem idias grandiosas e planos nobres? Desde que aqui est j conseguiu muito. Isso no lhe traz grandes idias?
       Ela no tinha a certeza do que Desmond queria dizer, mas parecia ter uma idia que ainda no estava preparado para discutir.
       - De momento, no - afirmou honestamente. - Sou feliz aqui. Voc tem sido muito para mim, Desmond.
       Ele no pde deixar de reparar que ela crescera muito durante aqueles cinco meses em Los Angeles. Estava com um aspecto mais sofisticado e polido, o que se 
devia, em parte,  ajuda de Nancy. No entanto, Cassie j tinha as suas prprias idias em relao ao vesturio. Lidava lindamente com a imprensa, e o pblico adorava-a. 
Para o gosto de Desmond, a maior parte ainda no a conhecia, mas na Primavera ele queria que Cassie comeasse a fazer uma ronda aos festivais areos locais. Por 
vezes, ela perguntava a si prpria que diferena faria esse tipo de publicidade, se realmente fazia com que os avies se vendessem. A maioria dos festivais parecia 
demasiado local e de pequena escala, mas era importante para Desmond, que lhe recordou esperar que ela fizesse uma ronda a vrios hospitais e orfanatos para o documentrio 
de Natal.
       - Dever ter tempo para isso antes de ir para casa - disse ele firmemente.
       - No se preocupe. Eu trato disso.
       Ela sorriu-lhe e foi correspondida. O olhar de Cassie era sempre malicioso, o que ele achava atraente. Sabia que a jovem discordava das suas idias publicitrias 
e estava sempre  espera que ela o contrariasse. Mas, no fim, Cassie sempre fazia o que era esperado dela.
       - A propsito. Em janeiro voc vai a Nova Iorque - disse ele casualmente, mas, daquela vez, com um brilho nos olhos. - Ser um encontro entre a rainha da 
carlinga, Cassie O'Malley, e o ilustre Charles Lindbergh.
       Cassie sabia que o pai ficaria muito emocionado quando lhe desse a notcia. At ela se sentia muito impressionada, enquanto ouvia as explicaes de Desmond.
       Levariam o mais recente avio de Williams, e Cassie faria um vo de demonstrao para Lindbergh. Depois, ele endossaria tanto o piloto como o avio. j o 
prometera a Desmond, pois eram velhos amigos. Tal como Desmond, Charles Lindbergh conhecia o valor das relaes pblicas. Alm disso, Lindy estava interessado em 
conhecer a lendria e jovem piloto de Williams.
       Cassie conseguiu fazer a planejada ronda dos hospitais, e Desmond ficou bastante contente com o resultado do documentrio. Depois, Cassie foi para casa durante 
uma semana. A me estava com gripe, mas conseguiu levantar-se a tempo para fazer o jantar de Natal. O pai estava em forma. Billy tambm fora visitar o pai a So 
Francisco, e Chris andava to envolvido com a nova namorada de Walmit Grove que ela no tinha com quem divertir-se. De qualquer modo, estava feliz. Deu um longo 
passeio na vspera de Natal e,  noite, foi  igreja com as irms. De regresso, parou no aerdromo para verificar o avio. Sentia-se sempre muito responsvel pelos 
avies que trazia para casa, pois eram muito valiosos e no lhe pertenciam. Mas era divertido pilot-los.
       Cassie confirmou se tudo estava em ordem, se as janelas estavam fechadas e se o motor estava protegido. O pai abrira o seu melhor hangar para arrumar o avio 
e ela sabia que os amigos viriam ver a mquina que trouxera para casa. Pouco a pouco, estava a tornar-se uma lenda.
       Depois de verificar o avio, caminhou lentamente atravs do ar noturno, que estava frio e vivificante, havendo neve no cho. Fazia-lhe lembrar Natais da sua 
infncia em que viera para o aeroporto com Nick e o pai. Era difcil no pensar nele ali. Nick fazia parte de muitas das suas recordaes. Olhou para o cu, pensando 
nele, e quase deu um pulo quando ouviu uma voz atrs de si a sussurrar: Feliz Natal. Virou-se para ver quem era e ficou muito admirada quando o viu ali, em uniforme. 
Era como uma viso.
       - Oh, meu Deus! - Cassie olhou para ele, descrente. - O que ests a fazer aqui? - perguntou ela a Nick, quase sem flego, atirando-se para os seus braos.
       - Devo ir-me embora? - perguntou com um sorriso, parecendo ainda mais bonito do que era enquanto a abraava.
       - No. Nunca mais - respondeu Cassie enquanto se abraavam. Ele nunca se sentira to feliz como naquele momento em que a beijou.
       Foram dias maravilhosos. Falaram, riram, voaram, deram longos passeios, foram patinar para o lago, e at ao cinema ver Ninotchka, com a Garbo. Tudo parecia 
um sonho. O tempo em que estavam juntos era precioso, curto e idlico. Se bem que se sentassem, beijassem e abraassem durante horas, ele no queria que ningum 
soubesse como as coisas tinham mudado entre eles.
       - O meu pai j sabe. Que diferena faz? - Como sempre foi muito objetiva, mas ele era persistente e estava convencido de que tinha razo.
       - Eu no quero arruinar a tua reputao.
       Por me beijares? Como se pode ser to antiquado? --No importa. O mundo inteiro no precisa de saber que te apaixonaste por um velho.
       - Prometo no lhes dizer a tua idade.
       - Obrigado.
       Como habitualmente, Nick era muito teimoso. No havia laos, promessas ou futuro  sua frente. Havia apenas o presente e a infinita beleza e dor do momento. 
Beijavam-se sempre que estavam sozinhos e controlava-se para que no fosse mais longe. A ltima coisa que ele queria era deix-la grvida.
       Na vspera da partida, Nick abordou o assunto da guerra. Disse que as condies em Inglaterra eram boas e, at agora, ainda no voara numa nica misso.
       - Eles provavelmente nunca me deixaro voar em misso por causa da idade e ter-me-s de volta so e salvo no fim da guerra. Vers que te arrependes, minha 
amiga - avisou ele. Mas aquilo era tudo o que Cassie almejava.
       - E depois? - Ela tentou encost-lo  parede, mas Nick no permitiu.
       - Depois, conveno-te a casar com Billy, coisa que deverias fazer por iniciativa prpria e no com um velho bode como eu.
       Aos trinta e oito anos, Nick no era um velho, mas, independentemente do que sentia, ainda estava convencido de que era demasiado velho para Cassie. Por vezes, 
perguntava a si prprio se sentiria de maneira diferente se no a tivesse conhecido de fraldas.
       - Eu no amo o Billy - explicou ela com um sorriso enquanto caminhavam junto ao lago.
       - Isso no tem a menor importncia. De qualquer modo, ters de casar com ele.
       - Obrigada.
       - No tens de qu.
       - Achas que o devemos avisar? - Cassie adorava estar com Nick, pois fazia-a rir, mesmo quando a fazia chorar, o que ultimamente acontecia com demasiada freqncia.
       - A seu tempo.  melhor deixar o rapaz descansado durante algum tempo. Alm disso, poderia fugir se soubesse.
       -  muito lisonjeiro da tua parte.
       Ela deu-lhe um empurro que quase o fez tropear no gelo. Nick devolveu-lhe o empurro e, alguns minutos mais tarde, j rolavam na neve aos beijos.
       Foram dias perfeitos que acabaram demasiado depressa. Quase to depressa como tinham comeado. Cassie levou-o a Chicago para apanhar o comboio para Nova Iorque, 
de onde regressaria a Inglaterra.
       - Ters possibilidade de voltar em breve? - perguntou-lhe enquanto esperavam pelo comboio na Union Station.
       - No sei. Terei de ver o que acontece quando chegar a Hornchurch. - Ela acenou com a cabea em sinal de compreenso.
       Mais uma vez no houve promessas. Apenas lgrimas e o sentimento doloroso de saber que ele poderia no voltar e que aquela poderia ser a ltima vez que o 
via. Beijou-a uma ltima vez antes de partir. Ela correu ao lado do comboio at poder e, quando o perdeu de vista, ficou sozinha na estao.
       Foi um vo solitrio at Good Hope; no dia seguinte regressaria a Los Angeles. Sentia umas saudades loucas dele e estava cansada de sofrer com a preocupao 
de no saber se Nick estava bem, se voltaria ou se alguma vez encontrariam uma maneira de estar juntos. Perguntou a si prpria se ele alguma vez superaria as objees 
em relao  diferena de idades, mas era muito difcil saber o que o futuro lhes destinava.
       Em janeiro, foi para Nova Iorque com Desmond no avio novo, para fazer a demonstrao a Charles Lindbergh. Apareceram muitos fotgrafos e rodaram imensos 
documentrios. Depois, a Primavera foi longa e solitria, apesar dos grandes vos, dos testes constantes e das verificaes e reverificaes do novo equipamento. 
A sua reputao aumentava cada vez mais, devido  sua percia e paixo pelos avies. j conhecera algumas das mulheres sobre quem lera durante anos, como Pancho 
Bames e Bobbi Trout. Tinham dado uma nova dimenso  sua vida. Tambm passou algum tempo com Nancy e Jane Firestone. Era divertido estar com elas, se bem que percebesse 
que nunca seria uma verdadeira amiga de Nancy. Talvez a diferena de idades fosse demasiado grande.
       Uma noite, em Abril, saiu novamente para jantar com Desmond e ele surpreendeu-a ao perguntar-lhe se tinha algum envolvimento amoroso. Dada a relao de negcios 
que partilhavam, a pergunta pareceu-lhe estranha, mas disse-lhe que no e que Nancy ainda escolhia os seus acompanhantes.
       - Estou surpreendido - disse ele com um certo contentamento.
       - Acho que devo ser demasiado feia - afirmou Cassie a sorrir, e ele no conseguiu deixar de rir com a brincadeira. Na verdade, ela estava espetacular. Tornara-se 
uma mulher muitssimo bonita, e Desmond nunca estivera to contente com nenhum dos seus planos ou projetos.
       - Talvez trabalhe de mais - disse-lhe atenciosamente, olhando-a diretamente nos olhos. - Ou h algum em casa?
       - J no h - sorriu ela tristemente. - Est em Inglaterra e no  meu - acrescentou Cassie. -  muito dele prprio.
       - Entendo. Talvez as coisas mudem.
       Desmond estava intrigado. Cassie era muito boa como piloto, at melhor do que qualquer homem na sua profisso, e levava-a muito mais a srio. Parecia no 
se preocupar com a vida social e muito menos com a fama. Isso fazia parte do seu encanto e do que o pblico sentia por ela. Por isso a adoravam. Apesar do seu incrvel 
sucesso e da exposio a que estivera sujeita nos ltimos nove meses, conseguira manter-se modesta. Ele no conhecia muitas mulheres assim. Gostava de muitas coisas 
nela, e o fato deixou-o surpreendido. Era raro ter um interesse pessoal pelos seus empregados, exceto em casos pouco habituais como o de Naney.
       - A guerra provoca coisas estranhas nas pessoas - disse. Por vezes, mudam e percebem o que  importante.
       - Sim - ripostou Cassie com um sorriso. - Os seus bombardeiros. Acho que os aviadores so uma raa diferente. Pelo menos, todos os que conheo. At as mulheres. 
So todos um pouco loucos.
       - Faz parte do seu encanto. - Sorriu-lhe, parecendo subitamente mais descontrado do que o habitual.
       - Terei de me lembrar disso - afirmou ela, tomando um gole de vinho e observando-o. Interrogou-se sobre o comportamento de Desmond, mas no havia maneira 
de saber. As suas guardas no baixavam at quando estava a ser amvel. Realmente no havia maneira de o conhecer. Era muito cuidadoso e mantinha as distncias. Nancy 
falara-lhe disso e finalmente Cassie apercebia-se.
       - E depois existimos ns. - Ele sorriu-lhe novamente. - Os que vivem na terra. De maneira simples e baixa.
       - Eu no diria isso - contraps calmamente enquanto Desmond a observava. - Talvez sejam mais sensatos. Mais racionais em relao  vida e mais direcionados 
para os seus objetivos. H muito mrito nisso.
       - E voc? Onde est voc no meio disso tudo, Cass? No cu ou na terra? Pelo que j reparei, voc parece viver bastante bem nos dois mundos. - Sabia que ela 
preferia o cu' vivendo para voar. Tudo o que fazia em terra era passar o tempo at conseguir voltar para os cus e voar como as aves.
       Decidiu ento expor-lhe uma idia. Ainda era prematuro para a concretizar, mas no era cedo para plantar aquela preciosa semente.
       - O que pensa de uma volta ao mundo? - perguntou cuidadosamente, e ela olhou-o, espantada. Nick tinha-a avisado disso e dos perigos que acarretava. Dissera-lhe 
que era isso que Williams tinha em mente. Mas como o soubera? Ela estava com um ar espantado enquanto lutava para lhe dar uma resposta.
       - Agora? No seria muito difcil? - Os Alemes j tinham invadido a Noruega e a Dinamarca e avanavam para a Blgica e Holanda. - A maior parte da Europa 
est inacessvel e o Pacfico  terrivelmente sensvel. - Afetara a rota de Earhart e j tinham passado trs anos. Agora as coisas estavam muito piores.
       - Talvez pudssemos evit-la. No seria fcil, mas poderamos faz-lo se fssemos obrigados a isso. No entanto, sempre pensei que fosse o objetivo final. 
A volta ao mundo feita corretamente. Tem de ser cuidadosamente planejada e brilhantemente executada. Claro que no  para agora. Levaria, pelo menos, um ano a planejar.
       - Sempre pensei que seria fantstico, mas, neste momento, ou at daqui a um ano, no consigo imaginar como a poderemos fazer. - Ficara intrigada e nervosa 
com a idia e pensava nos avisos de Nick. Porm, Desmond parecia muito seguro do que queria.
       - Eu preocupo-me com isso, Cass - disse ele, tocando-lhe na mo com um ar muito entusiasmado que a jovem nunca vira. Era o sonho de Desmond e, tinha-o partilhado 
com ela. - Tudo o que voc tem a fazer  pilotar o melhor avio do mundo. Com o resto preocupo-me eu, se voc alguma vez o quiser fazer.
       - Terei de pensar no assunto.
       Iria certamente mudar a sua vida. O seu nome passaria a ser uma palavra utilizada em todas as casas, tal como Cocliran, Lindberg, Elinor Smith ou Helen Richey.
       - Falaremos novamente no Vero. - Ambos sabiam que o contrato seria ou no renovado nessa altura e no havia motivo para no o renovarem. O amor que Cassie 
tinha pelo que fazia no era segredo para ningum, porm a volta ao mundo era outra coisa. Tambm era o seu sonho, mas Nick tinha sido muito incisivo sobre o fato 
de ela no a fazer para Williams. Ele est a usar-te. Ela ainda conseguia ouvir as suas palavras: No o faas, Cassie. No o faas. Isso assusta-me. E porque 
no? O que havia de errado nisso? Por que razo no o deveria fazer? Nick estava a fazer o que queria. No estava? E nem sequer se dava ao trabalho de lhe escrever. 
Desde o Natal, apenas recebera duas cartas e s lhe contava o que fazia e no o que sentia por ela. Nick no estava a fazer nada para manter a sua relao. Achava 
que no era o homem certo para ela e recusava-se a encoraj-la ou a pedir-lhe que esperasse por ele. As suas cartas pareciam boletins de uma escola de vo.
       Nessa noite, Desmond levara-a a danar e, enquanto giravam na pista de dana de Mocambo, a nica coisa em que falava era na volta ao mundo. Agora que a tinha 
partilhado com Cassie, no podia parar de falar nisso, esperando que ficasse to entusiasmada como ele.
       Na semana seguinte, mencionou-o novamente, apenas de passagem, no para a tentar pressionar, mas como se fosse um segredo que ambos partilhavam e um objetivo 
que ambos desejavam alcanar. Era bvio que aquilo significava muito para ele e, agora que o partilhara com Cassie, sentia-se mais perto dela.
       Dadas as suas inmeras ocupaes, Cassie ficou estupefata quando Desmond lhe perguntou se a podia convidar para sair no dia do seu vigsimo primeiro aniversrio. 
Ficou surpreendida com o fato de ele saber, mas Desmond empregava exrcitos de pessoas para o informarem dos mais pequenos pormenores. Os pormenores eram importantes 
para ele e ficava fascinado com o mais pequeno elemento de qualquer coisa, pensando que isso era o aspecto que distinguia o vulgar da perfeio.
       No tendo ningum em especial com quem celebrar, Cassie ficou muito contente por ele se ter lembrado. Levou-a ao Restaurante Victor Hugo e, mais tarde, a 
danar ao Ciro, proporcionando-lhe uma noite que a comoveu profundamente. Desmond encomendara um bolo de aniversrio no restaurante e, tanto a como no Ciro, fora 
servido champanhe.  claro que tinha consultado Nancy Firestone sobre as coisas favoritas de Cassie e toda a refeio fora planejada de acordo: o seu jantar favorito, 
o bolo preferido e as canes prediletas. Cassie sentia-se uma menina a ter um aniversrio mgico. Depois, Desmond ofereceu-lhe um alfinete em forma de avio, com 
o nmero vinte e um gravado nas asas e a palavra Cassie inscrita de lado. Mandara-o fazer h meses na Cartier. Disse-lho depois de Cassie abrir o presente, e esta 
no conseguia acreditar que ele se tivesse dado a tanto trabalho.
       - Como pde fazer isto? - Corou ao olhar para a jia. Nunca vira nada de to belo e, de certo modo, sentia que no a merecia.
       Porm, Desmond estava a olhar para ela com um ar muito srio. Cassie s lhe vira aquela expresso quando olhava para um avio em estudo e antes de o voltar 
a desenhar.
       - Sempre soube que, um dia, voc seria muito importante para mim. Soube isso no primeiro dia em que a conheci. - Disse com a mesma expresso sria, mas Cassie 
riu-se lembrando-se do momento.
       - De macaco e leo a cobrir-me o rosto? Devo ter causado uma grande impresso. - Ela ria-se, segurando o alfinete que lhe parecia to notvel. At a hlice 
se movimentava quando era tocada.
       - Causou - admitiu ele. - Voc  a nica mulher que conheo que fica bonita com o rosto completamente negro.
       - Desmond! Voc  horrvel.
       Cassie riu-se, sentindo-se mais prxima dele. Era estranho, mas, apesar da distncia entre eles, sentia-se sua amiga. Desmond era um dos poucos amigos que 
Cassie tinha ali. Alm dele, s havia Nancy e um ou dois dos outros pilotos, mas ningum com quem passasse os momentos livres. Tinha um enorme respeito por Desmond, 
pelas suas idias e pela maneira rdua como trabalhava para as concretizar. Ele acreditava na excelncia, a qualquer preo, em relao a si prprio e  companhia. 
Apenas aceitava a perfeio, tal como o demonstrava o pequeno avio com que a tinha presenteado: era perfeito.
       - Sou assim to terrvel, Cass? - perguntou muito srio depois do comentrio de Cassie. - Os peritos j me disseram isso e provavelmente tm razo. - Desmond 
disse-o de uma maneira to triste que ela sentiu pena dele. Percebeu que era um homem solitrio, apesar da sua importncia e de todos os luxos que o rodeavam. No 
tinha filhos, nem esposa, poucos amigos e, de acordo com os jornais, nem mesmo uma namorada. Tudo o que possua era avies e a empresa.
       - Voc sabe que no  horrvel - disse Cassie suavemente.
       - Eu gostaria de ser seu amigo, Cass - afirmou honestamente, segurando-lhe a mo. Cassie no tinha a certeza do que aquilo significava, mas ficou profundamente 
comovida por tudo o que Desmond j fizera por ela e pelo gesto de amizade.
       - Eu sou sua amiga, Desmond. Voc tem sido muito bom para mim. Mesmo antes disto, nunca achei que o merecesse.
       -  por isso que eu gosto de si - declarou ele, sorrindo. - No espera nada e merece tudo. - Desmond agarrou no pequeno alfinete e colocou-lho no vestido. 
- Voc  uma rapariga muito especial, Cass. Nunca conheci ningum como voc. - Cassie sorriu-lhe, emocionada com as suas palavras e grata pela sua amizade.
       Nessa noite, levou-a a casa e subiu. No pediu para entrar e nunca se referiu  volta ao mundo, mas surpreendeu-a no dia seguinte ao mandar-lhe flores ou 
quando lhe telefonou no domingo, convidando-a para dar um passeio. Cassie nunca se interrogara sobre o que ele faria aos fins-de-semana. Normalmente, e se tivesse 
tempo, ela ia voar ou Nancy marcava-lhe compromissos de carter social onde Cassie precisava ser vista com uma longa lista de acompanhantes.
       Desmond foi busc-la s duas horas. Dirigiram-se a Malibu e deram um passeio pela praia. Estava um dia muito bonito e a praia estava quase deserta. Ele falou 
um pouco sobre a sua juventude, sobre os seus anos no colgio interno e em Princeton. Viera a casa bastantes vezes durante essa poca. Desmond era muito novo quando 
a me falecera e o pai se enterrara no negcio. Tinha construdo um imprio, mas, durante o processo, esquecera-se do seu nico filho. Nunca se incomodara em ter 
Desmond em casa durante as frias. Ele ficava nas suas vrias escolas: primeiro, em Fessenden, depois em St. Paul, e finalmente em Princeton. Nessa altura, ele j 
no se importava e, durante as ferias, saa sozinho ou com os amigos.
       - Voc no tinha famlia nenhuma? - Cassie parecia horrorizada com a histria de uma infncia desesperadamente solitria.
       - Nenhuma. Ambos os meus pais eram filhos nicos e os meus avs morreram antes de eu nascer. Nunca tive ningum para alm do meu pai e, na realidade, nunca 
o conheci. Penso que seja essa razo por que nunca quis filhos. No quereria infligir-lhes esse tipo de dor. Sou feliz assim e nunca desiludiria uma criana. - Havia 
algo de muito triste nele e agora Cassie compreendia-o melhor. Era a solido que ela tinha intudo e um isolamento que durava h anos. Tinha feito bom uso dele, 
mas fora muito doloroso. Todavia, Desmond ainda tinha um ar muito jovem.
       - Voc nunca desiludiria ningum, Desmond. Tem sido to bom para mim.
       E tinha. Todos os seus contactos com ele tinham sido muito agradveis. Era um cavalheiro, um amigo e um patro perfeitos. No havia razo para que no fosse 
um marido ou pai perfeito. Sabia que ele casara duas vezes e sempre soubera que no tinha filhos. As revistas que lera faziam questo em dizer que no havia herdeiros 
para aquela gigantesca fortuna. Mas agora Cassie sabia a razo: ele no queria ter filhos.
       - Casei muito novo - explicou quando, finalmente, se sentaram na areia a olhar para o mar. - Ainda estava em Princeton e foi incrivelmente estpido. A Amy 
era uma rapariga adorvel e completamente mimada pelos pais. Quando me formei, voltamos para aqui e ela detestou. - Olhou para Cass subitamente divertido. - Eu tinha 
a sua idade, mas com tremendas iluses de que era adulto e que sabia o que fazia. Ela queria que nos mudssemos para Nova Iorque e eu no quis. Queria estar perto 
da famlia e eu achei isso muito estranho. Em vez disso, levei-a a um safri em frica e depois  ndia durante seis meses. Posteriormente, fomos a Hong Kong, onde 
ela apanhou o primeiro navio para voltar para casa dos pais. Disse-me que eu a estava a torturar e a lev-la a locais horrveis. Chegou a dizer que fora refm dos 
selvagens.
       Sorriu devido ao absurdo da questo, e Cassie riu-se. Desmond fazia com que tudo parecesse muito divertido. - Quando voltei, os advogados do meu sogro j 
tinham iniciado o processo de divrcio. Suponho que nunca compreendi porque ela desejava estar perto da me e eu queria mostrar-lhe algo de mais estimulante.
       A minha segunda mulher era muito mais intrigante. Eu tinha vinte e cinco anos e ela era uma fascinante inglesa de Banguecoque. Era dez anos mais velha do 
que eu e aparente mente levava uma vida muito agitada. Acabei por descobri que j era casada, e o marido surgiu inesperadamente quando j estvamos a viver juntos. 
No ficou nada satisfeito e o nosso casamento foi anulado. Depois voltei para aqui e assentei. Gostei de algumas coisas, mas receio que nenhum deles tenham sido 
verdadeiros casamentos. Aqui, nunca realmente tentei nem fiz o que era esperado. Quando herdei o negcio no tinha tempo para todos esses disparates. No tinha tempo 
para nada, exceto para o negcio. Portanto, aqui estou, dez anos mais tarde, sozinho e muito aborrecido.
       - Eu no lhe chamaria aborrecido. Safris, ndia, Banguecoque... De fato, ficam muito longe do meu Illinois natal. Sou a quarta de cinco filhos e passei toda 
a minha vida num aeroporto. Tenho dezesseis sobrinhas e sobrinhos.  o mais mundano que se consegue ser. Sou o primeiro membro da famlia a freqentar a universidade, 
a primeira mulher a pilotar um avio, a primeira pessoa a sair de casa, se bem que o meu pai e a minha me fossem originrios, respectivamente, de Nova Iorque e 
da Irlanda.  terrivelmente vulgar e no tem uma ponta de aventura ou sofisticao.
       - Agora  uma mulher sofisticada, Cass - disse em voz baixa, observando-a. Ele parecia estar sempre muito interessado nas suas reaes.
       - Eu no acho. Sei que ainda sou a rapariga de macaco com leo no rosto.
       - O que os outros vem  bastante diferente.
       - Talvez eu no compreenda.
       - No se pode dizer que tenhamos muito em comum - disse ele atenciosamente -, mas por vezes funciona - comentou, pensativo. - Na realidade, eu j no tenho 
a certeza do que funciona. j passou tanto tempo desde que deixei de pensar nisso que j nem me lembro. - Sorriu, e subitamente ela sentiu-se como se estivesse a 
ser entrevistada, mas no tinha a certeza de qual era o emprego a que estava a candidatar-se. - E voc, Cass? Por que razo  que com vinte e um anos e dois dias 
ainda no se casou? - Desmond s estava meio a brincar. Queria saber se ela estava livre. Nunca tivera a certeza, se bem que ela no parecesse estar demasiado ligada 
a ningum, a no ser ao piloto da RAF, em Inglaterra.
       - Ningum me quer - explicou facilmente, rindo e fazendo-o rir. Estava surpreendentemente  vontade com ele.
       - Arranje outra desculpa. - Ele deitou-se na areia a olh-la com uma expresso muito divertida e bastante descontrado devido  presena pouco afetada de 
Cassie. - Diga-me algo em que eu acredite. - Ela era demasiado bonita para que ningum a quisesse.
       -  verdade. Os rapazes da minha idade ficam aterrorizados com as mulheres que pilotam, a no ser que tambm voem. Nessa altura, a ltima coisa que querem 
 competio.
       - E os rapazes da minha idade? - perguntou cautelosamente e ela lembrou-se que Desmond era apenas quatro anos mais novo do que Nick, que tinha agora trinta 
e nove.
       - Parece que ficam muito incomodados com a diferena de idades. Pelo menos, alguns, sobretudo os que so quatro anos mais velhos do que voc.
       - Entendo. Pensam que voc  imatura? - Porm, no o era.
       - No. Pensam que so demasiado velhos, mas ainda no chegaram a um ponto da sua vida em que tenham algo para me oferecer. Fogem para Inglaterra e dizem-me 
para ir brincar com os midos da minha idade. Nada de promessas nem esperana.
       - Compreendo. E voc brinca com os rapazes da sua idade? - Desmond estava intrigado com a histria. Perguntou imediatamente a si prprio se ela no se estava 
a referir ao scio do pai, mas no lhe fez qualquer pergunta. Partiu desse pressuposto, depois de ver a maneira como o indivduo a tinha tentado proteger no dia 
em que ele fora ao aeroporto.
       - No - respondeu honestamente. - No tenho tido tempo para rapazes da minha idade. Tenho estado demasiado ocupada a voar para si e a freqentar todos aqueles 
eventos sociais que voc diz serem importantes. - Ela tambm no queria envolver-se com ningum. Estava demasiado apaixonada por Nick para se importar com outras 
pessoas, mas no o referiu.
       - Os eventos sociais so importantes, Cassie.
       - Para mim no so - disse, sorrindo.
       - Voc no  fcil de agradar, Miss Cassie O'Malley. H quase um ano que sai cinco noites por semana com um homem diferente. Ser que no se sentiu atrada 
por ningum?
       - Acho que no. Demasiado ocupada, sem tempo e sem interesse. Todos me aborrecem.
       No se deu ao trabalho de lhe dizer que, na sua maioria, eram modelos masculinos ou menos do que atores. No que isso lhe fizesse diferena.
       - Voc est muito mimada. - Ele abanou um dedo o que a fez rir.
       - Se estou, a culpa  sua. Olhe o que fez por mim: apartamentos, roupa, todos os avies que sempre desejei pilotar, incluindo um de brilhantes. - Sorriu com 
gratido, pois, nessa manh, escrevera-lhe um bilhete de agradecimento. - Carros, hotis e restaurantes chiques. Quem no ficaria mimada?
       - Voc - afirmou ele simplesmente, dizendo a verdade, Depois ajudou-a a levantar-se e caminharam descalos pela praia, contando histrias disparatadas um 
ao outro. jantaram num pequeno restaurante mexicano prximo do apartamento de Cassie, mas Desmond disse-lhe que a comida era terrvel. Contrariamente, Cassie adorou-a. 
Levou-a a casa e prometeu visit-la na manh seguinte.
       - Vou trabalhar s quatro da manh - informou ela. - No estarei aqui.
       - Eu tambm - disse Desmond, sorrindo. - Ambos trabalhamos para o mesmo tirano. Virei v-la s trs e meia.
       Ficou surpreendida quando ele apareceu. Era uma pessoa muito estranha e solitria. As histrias da sua infncia tinham-na deixado muito triste. No era de 
espantar que nunca tivesse amado ningum, pois ningum o amara. Isso fazia com que ela desejasse proteg-lo e desfazer toda a mgoa, mas simultaneamente ele fazia 
coisas por ela. Era uma combinao pouco habitual de calor e frio, invulnerabilidade e de profunda dor.
       Nessa tarde, foi busc-la ao aeroporto e levou-a a casa, mas no entrou. A partir da, visitava-a todos os dias e levava-a a jantar vrias vezes por semana 
a locais sossegados. Nunca fez mais do que isso, e Cassie nunca sentiu que fossem mais do que amigos. No entanto, pouco tempo depois, j eram muito bons amigos. 
Ele nunca mais mencionara a volta ao mundo, mas, por vezes, quando voava, Cassie pensava nisso e em todos os avisos de Nick. Achava que ele se preocupara de mais. 
Desmond no tencionava fazer nada que a magoasse ou pressionasse. Cassie tinha a certeza de que este apenas queria o melhor para ela. Antes de mais, Desmond era 
agora um amigo. Aparecia nos momentos mais estranhos: quando a rapariga estava a largar um avio ou s quatro da manh quando saa. Estava ali para ela, se fosse 
preciso, nunca impunha a sua presena ou pedia mais do que aquela podia dar. Parecia querer muito pouco dela, mas, no entanto, Cassie intua sempre a sua presena.
       Em finais de junho, o prprio Desmond lhe trouxe o novo contrato e, nessa altura, ficou espantada com o que leu. As condies eram quase as mesmas,  exceo 
do fato de os acontecimentos sociais serem opcionais e a remunerao a duplicar. Prometia deix-la testar todos os seus melhores avies e queria que ela garantisse 
que faria um mnimo de anncios por ano. Todavia, a ltima clusula do contrato foi a que a deixou mais espantada: dizia que por mais cento e cinqenta mil dlares, 
comisses e outros benefcios, lhe oferecia uma volta ao mundo da a um ano, no melhor avio que possusse, pela rota mais segura que pudessem planejar e que o embarque 
seria no dia dois de julho de 1941, quase exatamente um ano depois, e no quarto aniversrio do desaparecimento de Amelia Earhart. Seria a volta mais publicitada 
de todos os tempos e ela estabeleceria, sem dvida, novos recordes. A perspectiva era muito tentadora, mas ela achou que devia discutir o assunto com o pai. De qualquer 
modo, ia para casa nessa semana para assistir ao festival areo.
       - Acha que ele no vai aprovar? - perguntou Desmond nervosamente antes de ela partir, parecendo um rapazinho aterrorizado com o fato de algum lhe poder tirar 
o seu brinquedo favorito. Ela sorriu e tentou acalm-lo.
       - Acho que no. Pode pensar que  perigoso, mas, se voc diz que pode ser feita com segurana, eu acredito. - Desmond nunca lhe mentira, atraioara ou iludira. 
Nunca a desiludira como amigo ou como patro e passavam bastante tempo juntos. A sua relao era muito estranha para uma rapariga da idade dela e para um homem da 
idade dele, pois baseava-se no negcio e na amizade. Nada mais. Ele nem sequer tentara beij-la e, no entanto, queria saber se a jovem estava livre. Ficara visivelmente 
mais tranqilo quando soubera que sim,  exceo de Nick, que no lhe escrevia havia meses. Cassie sabia como ele reprovaria violentamente aquele contrato. - O meu 
pai  muito razovel - confirmou ela para o confortar.
       - Sempre foi o meu sonho, Cassie. Mas nunca apareceu ningum que pudesse ou em quem eu confiasse ou que quisesse trabalhar para mim. Confio em si completamente 
e nunca conheci nenhum piloto como voc. - Ela no pde deixar de se sentir elogiada com as suas palavras.
       - Falaremos quando eu voltar - prometeu. Apenas precisava de alguns dias para pensar, mas Desmond sabia que ela estava muito tentada.
       - No vai participar no festival deste ano, pois no? Parecia preocupado antes de a deixar, mas ela rapidamente abanou a cabea. A vida de Cassie era um festival 
quotidiano e, alm disso, no praticara. No tivera tempo, mas estava ansiosa por ir.
       - No, mas o meu irmo vai. Deus sabe porqu. No gosta de voar e s o faz para agradar ao meu pai.
       - No  diferente de todos ns. Pratiquei luta em Princeton porque o meu pai tambm a praticara.  o desporto mais horrvel do mundo e detestei todos os minutos. 
No entanto, pensei que ele iria ficar muito contente. Nem sequer tenho a certeza se soube e lembro-me de todos os torcicolos e hemorragias nasais que tive para no 
mencionar as ndoas negras.
       Cassie riu-se com a descrio e prometeu que telefonaria de casa para lhe contar o que acontecera no festival areo.
       - Vou ter saudades suas, sabia? No tenho mais ningum a quem telefonar s trs da manh.
       - Pode telefonar-me - disse generosamente. - Eu levanto-me para falar consigo. Em Illinois so cinco da manh.
       - Limite-se a divertir-se - disse ele, sorrindo -, e volte para assinar o contrato da volta ao mundo. Se no o fizer - disse com uma expresso subitamente 
sria -, continuaremos amigos. Compreenderei se voc resolver no a fazer.
       O modo como o disse fez com que Cassie desejasse abra-lo e dizer-lhe que o amava. Ele era uma alma muito solitria, desejava desesperadamente fazer o mais 
correto e ser justo. Queria aquela volta ao mundo com tal desespero que ela no queria desiludi-lo.
       - Tentarei no o desiludir, Desmond. Prometo. S preciso de algum tempo para pensar. - Ficou contente por no ter de enfrentar Nick e v-lo entrar em erupo 
qual vulco.
       - Compreendo.
       Desmond beijou-a na face, pediu-lhe para desejar sorte ao irmo e ela prometeu que o faria.
       Voou para casa num dos avies de Desmond, perguntando a si prpria qual seria a opinio do pai sobre a volta ao mundo. No havia dvida de que era muito perigoso, 
mesmo sem guerras e os problemas no Pacfico. Voar distncias to longas poderia ser desastroso, se a situao no fosse perfeitamente dominada ou se tivesse um 
grande azar que a obrigasse a enfrentar tempestades inesperadas. Nunca ningum percebera o que acontecera a Amelia Earhart. O desaparecimento no tinha uma explicao 
racional, a no ser uma falta de combustvel que a fizesse despenhar sem deixar rasto. Era a nica razo aceitvel. Tambm havia adeptos de teorias mais selvagens, 
mas Cassie nunca acreditara nelas. No entanto, a volta ao mundo assombrou Cassie durante todo o vo at casa.
       Perigosa ou no, estava louca para a fazer.

CAPTULO 14
       O Festival Areo de Peoria continuava a ser o mesmo circo maravilhoso de que Cassie se recordava. Nunca fora to feliz como naquele momento em que l estivera 
com Billy e com o pai. A me e as outras raparigas tinham ido passear com as crianas e Chris andava nervosamente de um lado para o outro a comer cachorros-quentes.
       - Ests a pr-me mal disposta - ralhou Cassie. Ele sorriu e comprou algodo doce.
       Todos os seus velhos amigos, os recrutas do pai e os aviadores mais jovens estavam presentes. A maior parte dos fanticos tinham-na visitado na vspera, por 
insistncia do pai. O Festival Areo de Peoria era um acontecimento importante no campo da aviao. Nesse ano, at participavam uma ou duas raparigas, e Chris era 
candidato ao seu habitual prmio de altitude na ltima corrida da tarde. No ligava muito quelas coisas, mas todos sabiam que ele agradaria ao pai.
       - No queres tentar alguma coisa, mana? O pai emprestava-te um avio.
       O que Cassie tinha levado para casa era demasiado grande e desajeitado e valia muito mais dinheiro. Pertencia a Desmond. Tinha-o testado quando comeara a 
trabalhar para a Williams e apenas recentemente tinham conseguido aperfeioar as alteraes que Cassie recomendara. Para uma rapariga de vinte e um anos, tinha um 
emprego extraordinariamente importante. Ali todos conheciam a sua fama e falava-se muito da sua presena. Por sugesto de Desmond, a imprensa aparecera em fora 
para a cumprimentar.
       Cassie respondeu imediatamente ao irmo que no entraria no festival.
       - J no sou suficientemente boa. Tenho pilotado aqueles avies durante todo o ano, alm disso, no pratiquei Chris.
       - Eu tambm no - disse ele com um sorriso. Era extremamente parecido com o pai aos vinte anos. Estava a ir muito bem na escola e ainda tencionava tornar-se 
arquiteto se conseguisse uma bolsa para a universidade de Illinois, dali a um ano ou dois. Atualmente, passava todos os momentos livres com Jessie. Eram adorveis, 
e Pat dizia que no se surpreenderia se eles se casassem.
       Billy no parecia mais velho do que Chris. Naquele ano, aparentava ter ainda mais sardas, mas era bvio, a partir da sua performance nas duas primeiras corridas, 
que, ao contrrio do irmo, tinha praticado. Ganhou dois primeiros prmios e, meia hora depois, outros trs nas competies mais difceis.
       - O que tens estado a fazer? A praticar o ano inteiro? Vocs tm realmente muito tempo livre - disse-lhe para o arreliar, abraada a ele. Um dos fotgrafos 
tirou imediatamente uma fotografia. Cassie teve o cuidado de lhes dar o nome de Billy, soletrando-o corretamente, e de lhes lembrar que, naquela manh, o rapaz tinha 
ganho trs primeiros prmios.
       - E o dia ainda no acabou - retorquiu ele, piscando o olho a Cassie.
       -E Miss O'Malley? - perguntou um dos reprteres. - No voa hoje?
       - Hoje no. Hoje o espetculo  do meu irmo e de Mister Nolan.
       - Existem laos romnticos entre Miss O'Malley e Mister Nolan? - perguntou sagazmente. Ela sorriu-lhe enquanto Billy fingia que se engasgava com a limonada.
       - Nem um nico - respondeu friamente.
       - E entre si e Mister Williams?
       - Somos grandes amigos - disse ela com um sorriso.
       - Mais nada? - O homem continuou a pression-la, e at o pai perguntou a si prprio como  que Cassie o suportava. Mas foi muito paciente e graciosa com o 
reprter. Desmond tinha-a ensinado bem, e ela sentia-se na obrigao de se portar bem perante a imprensa, se bem que um pouco de malcia fosse sempre tentadora. 
Ao contrrio de Cassie, eles levavam tudo muito a srio.
       - No que ele me tenha dito - afirmou Cassie agradavelmente, retirando-se depois para ir ter com uns amigos, o que fez com que, por fim, os reprteres a deixassem 
em paz.
       - Que chatos so - comentou Billy com um ar desagradado. - No te enervam?
       - Sim, mas Mister Williams pensa que so vantajosos para o negcio.
       - A propsito! H alguma verdade no que disseram? - perguntou Billy quando se encontraram de novo sozinhos. - Existe alguma coisa entre ti e o Williams?
       - No - respondeu ela cautelosamente. - Somos apenas amigos. Acho que no quer envolver-se com ningum. Penso que sou to chegada a ele como ele  s outras 
pessoas.  um homem muito solitrio. s vezes sinto pena dele declarou em voz baixa para que mais ningum a pudesse ouvir. Mas Billy no estava na disposio de 
ter uma conversa sria e era sempre irreverente quando se falava em pessoas que valiam mais do que um bilho de dlares.
       - Tambm tenho muita pena dele, de todo aquele dinheiro de que ele tem de tomar conta, e de todas as estrelas de cinema com quem ele deve sair. Pobre tipo!
       - Cala-te!
       Cassie deu-lhe um empurro enquanto Chris vinha ao seu encontro. Estava novamente a comer, e Cassie fez uma careta ao observ-lo. Desde os catorze anos que 
comia assim, continuando magro como um espantalho. Jessie estava ao seu lado, irradiando numa adorao silenciosa. Trabalhava na biblioteca local. Era uma rapariga 
sria e dava todo o dinheiro que ganhava aos pais para ajudar a sustentar as quatro irms mais novas. Tornava-se bvio para todos que estava louca por Chris. Era 
muito terna com todos os O'Malley e especialmente com as crianas.
       - Ser que no paras de comer? - inquiriu Cassie com uma irritao fingida.
       - S se o puder evitar. Com um timing perfeito  possvel comear a comer quando nos levantamos e s parar quando voltamos para a cama. A me diz que eu como 
mais do que a famlia inteira.
       - Ainda acabas por ser um velho gordo - avisou Billy, piscando o olho a Jessie, que deu uma pequena gargalhada.
       Estavam todos de bom humor e houve alguns feitos realmente gloriosos, mas nenhum que se equiparasse aos de Cassie no ano anterior: o seu mergulho aterrorizante 
e aquela recuperao no ltimo segundo.
       - Detestei quando fizeste aquilo - admitiu Chris. - O meu estmago at deu uma volta. Pensei que ias despenhar-te.
       - Sou demasiado esperta para isso - disse ela. No entanto, estava muito contente por ele no ir fazer nada de perigoso. A altitude nunca dava muito trabalho, 
no era muito emocionante, mas ela ficava feliz por saber que o irmo estava em segurana e no corria riscos.
       - Ento! O que est a acontecer em Los Angeles? - perguntou Billy. Ela falou-lhe do seu trabalho e dos avies novos, mas no mencionou a volta ao mundo. Queria 
falar primeiro com o pai. Depois falaria com Billy. j pensara bastante no assunto e, se a fizesse, queria que ele fosse o seu co-piloto. Era o melhor piloto que 
conhecia. Mesmo depois de estar um ano em Los Angeles a voar com grandes pilotos, ainda pensava que Billy era melhor.
       Billy voltou a levantar vo depois de conversarem durante algum tempo e ganhou outro primeiro prmio, o que provava a opinio de Cassie. Pouco depois, esteve 
prestes a haver um desastre, quando dois avies quase colidiram. Conseguiram salvar-se no ltimo instante e, depois de alguns gritos na assistncia, tudo ficou bem. 
No entanto, fez com que todos recordassem o ano anterior em que Jimmy Bradshaw se despenhara no festival. Escusado ser dizer que Peggy no aparecera naquele ano, 
mas Cassie j soubera por Chris que ela e Bobby Strong se iam casar. Cassie no estava arrependida em relao a Bobby. Desejava o seu bem e que fosse feliz com Peggy.
       Chris estava com a irm mesmo antes da prova, a conversar sobre velhos amigos. Pouco depois chamaram o seu grupo para os avies.
       - Boa sorte, mido. Quando voltares, arranjamos-te algo para comeres. Tenta agentar at l.
       - Obrigado. - Sorriu para Cassie, e Jessie foi ter com uma das irms.
       Enquanto ele se afastava, e sem qualquer motivo especial, a no ser o orgulho que tinha nele, Cassie gritou-lhe: Amo-te! Ele virou-se, fez-lhe sinal de 
que tinha ouvido e depois desapareceu. Finalmente, chegou a sua vez de subir no pequeno avio vermelho que se elevava e continuava a elevar sob o olhar fixo da irm. 
Nessa altura, ela pensou ver alguma coisa e semicerrou os olhos contra o sol. Quase dirigiu a palavra a Billy. Por vezes, sentia coisas mesmo antes de as ver. Mas 
antes que pudesse dizer alguma coisa, viu aquilo que temera: uma fina rstia de fumo. Deu por si a olhar para o avio e a desejar que Chris regressasse ao solo o 
mais depressa e suavemente que pudesse. Ainda no tinha a certeza de qual poderia ser o problema, mas momentos depois Cassie teve a certeza. O motor incendiara-se 
e, instantes mais tarde, comeou a cair mais depressa do que subira. Ouviram-se os sons familiares que significavam que algo estava a correr mal. Cassie pedia-lhe 
mentalmente que levantasse o avio e agarrou-se ao brao de Billy sem nunca tirar os olhos do avio do irmo. Finalmente despenhou-se numa coluna de chamas. Cassie 
e todos os outros homens correram para o avio. As chamas eram muitas e o fumo muito negro. Billy foi o primeiro a chegar com Cassie mesmo ao seu lado. juntos arrastaram 
Chris para fora das chamas, mas este j estava morto e tambm em chamas. Algum correu para junto deles com um cobertor para abafar as chamas, enquanto Cassie soluava 
com o irmo nos braos. Nem sequer se apercebeu de que tinha uma grave queimadura no brao. No se apercebeu de nada, a no ser que Chris estava nos seus braos 
e que nunca mais veria, riria, choraria, se tornaria adulto, seria malcriado para ela ou casaria. No conseguia parar de chorar com o irmo nos braos, quando ouviu 
um grito gutural por cima dela logo que o avio explodiu e pedaos de metal caram sobre a multido. Billy puxava-a para se afastarem, mas ainda estava abraada 
ao irmo quando o pai tentou retir-lo dos seus braos.
       - O meu menino! - Soluava. - O meu menino! Oh, Deus! No! O meu filho! - Ambos estavam a abra-lo, e as pessoas corriam e gritavam  sua volta. Depois, 
uns braos poderosos levantaram Chris, o pai foi afastado e,  distncia, conseguia ver Jessie a chorar, e tudo o que Cassie conseguia perceber era que Billy estava 
a abra-la. Depois viu a me a soluar nos braos do pai.  sua volta todos choravam. Acontecera o mesmo no ano anterior, mas isto fora muito pior, pois tratava-se 
de Chris, o seu irmo mais novo.
       Nunca teve a certeza do que aconteceu depois. Recordava-se apenas de estar no hospital e de ter Billy com ela. o brao no lhe doa, mas as pessoas estavam 
a trat-la. Algum disse que era uma queimadura de terceiro grau e continuavam a falar do acidente. O acidente... O avio... Mas ela no se tinha despenhado. Continuava 
a dizer a Billy que no se tinha despenhado.
       - Eu sei, Cass. Eu sei, querida. Tu no fizeste nada.
       - O Chris est bem?
       Subitamente lembrou-se que algo no estava bem com ele, mas no conseguia recordar-se. Billy apenas acenava com a cabea. Ela estava em estado de choque desde 
o acidente. Deram-lhe um sedativo e, quando acordou, o brao doa-lhe terrivelmente, mas no se importou. Agora lembrava-se de tudo.
       Billy ainda l estava e choraram juntos. Os pais tambm j l estavam. Tinham voltado para a ver. A me estava quase histrica e o pai inconformado. Glynnis, 
e o marido, Jack, tambm l se encontravam, e todos choravam. Glynnis disse-lhe que Jessie tinha ido para casa com amigos de Chris e que os pais tinham sido obrigados 
a chamar o mdico.
       Como Chris estava muito queimado, o caixo ficou fechado, o velrio realizou-se na noite seguinte na casa funerria de Good Hope, e o funeral seguiu na manh 
seguinte para St. Mary. Todos os amigos, companheiros de escola e Jessie estavam presentes. Esta estava muito abatida, rodeada pelas irms, e Cassie fez questo 
em dar-lhe um beijo. Era um acontecimento terrvel para uma rapariga de dezenove anos.
       Bobby Strong estava presente e foi falar com Cassie, mas Peggy no conseguiu. Alguns dos colegas de faculdade tambm tinham comparecido, bem como quase todas 
as pessoas que estavam presentes no festival, tal como acontecera no ano anterior em relao a Jim. Parecia um desperdcio e uma maneira estpida de morrer: subir 
aos cus para provar at onde podia ir e sem o conseguir.
       Cassie sentia como se parte dela tivesse morrido e, enquanto seguia o caixo  sada da igreja, teve de ajudar o pai a segurar Oona. Foi a coisa mais terrvel 
que Cassie j vira e a Pior pela qual passara.
       S quando estavam a sair da igreja  que viu Desmond Williams. No conseguia imaginar como soubera, mas depois lembrou-se que os servios de telgrafo tinham 
estado no festival e que provavelmente j estava em todos os jornais. Ela agora era uma estrela e a morte do irmo no festival era notcia de primeira pgina. De 
qualquer modo, Cassie estava contente por Desmond ter vindo. Havia algo de reconfortante na sua presena. Quando saram da igreja, Cassie estendeu-lhe a mo e agradeceu-lhe 
a sua comparncia. Pediu-lhe que fosse l a casa depois do funeral e, quando chegasse, poderia dizer-lhe como fora importante a sua presena. Acenou com a cabea 
enquanto a jovem recomeava a chorar. Desmond abraou-a e sentiu-se embaraado. No sabia que dizer ou fazer. Apenas a abraava, esperando ser o suficiente. Depois 
reparou no brao dela e afastou-a suavemente.
       - Voc est bem?  grave? - Ficara muito preocupado quando soubera que Cassie se tinha queimado a tentar salvar o irmo.
       - Estou bem. O Billy e eu tirmo-lo do avio e... e ele ainda estava a arder.
       A imagem que ela criou era to horrenda que ele quase se sentiu doente. Todavia, ficou mais tranqilo quando Cassie lhe disse que os mdicos no estavam preocupados 
com ela. Desmond informou-a de que, quando voltasse, queria que ela fosse vista em Los Angeles e fez questo em falar com os pais e de conversar com Billy durante 
algum tempo. Depois partiu. Disse que regressaria nessa noite. Apenas quisera estar ali para a confortar e estava feliz por ter ido. Cassie respondeu-lhe que significara 
muito para ela.
       - Muito obrigada por tudo, Desmond.
       No mencionou a volta ao mundo, mas Cassie sabia que ele no pensava noutra coisa e, como tal, ainda planejava falar com o pai sobre o assunto. j dissera 
a Desmond que ficaria em casa mais uma ou duas semanas ao que ele lhe respondera que ficasse o tempo que quisesse.
       Acompanhou-o  porta. Desmond abraou-a e partiu com um ar muito sombrio. Quando Cassie voltou para dentro, o pai estava a chorar e a dizer que Chris fizera 
aquilo para lhe agradar e que nunca o devia ter permitido.
       - Ele f-lo porque quis, pai - disse Cass calmamente. - Todos ns o queremos e o pai sabe. - Era verdade no caso dela, mas no no de Chris. No entanto, era 
o mnimo que podia fazer pelo pai. - Antes de levantar vo, ele disse-me que queria fazer porque gostava. - Era uma mentira piedosa.
       - Ele disse isso? - O pai parecia surpreendido, mas aliviado enquanto enxugava os olhos e tomava outro gole de usque.
       - Foi uma atitude muito bonita - disse-lhe Billy mais tarde. Ela apenas acenou com a cabea, pois estava a pensar noutra coisa.
       - Desejava que o Nick estivesse aqui - afirmou em voz baixa. Nessa altura, Billy decidiu confessar o que tinha feito.
       - Mandei-lhe um telegrama na noite em que tudo aconteceu. Acho que eles no levantam muitos problemas na concesso de licenas aos voluntrios. No sei. Apenas 
pensei... - Billy no tinha a certeza se ela iria ficar zangada, mas agora era bvio que no ficara.
       - Ainda bem que o fizeste - declarou ela em agradecimento e ficou ali a olhar para os amigos.
       Era uma razo horrvel para se reunirem. Pensou ento se Nick viria, se conseguisse a licena.
       Nessa noite, ficou junto dos pais durante horas a falar de Chris e das coisas que este fizera quando era criana. Choraram e riram e recordaram aquelas pequenas 
coisas que agora tanto significavam para eles.
       Na manh seguinte, Cassie passou pelo hospital para que lhe observassem o brao. Mudaram-lhe as ligaduras e ela voltou para casa para junto dos pais.
       Desde o acidente que o pai no ia ao aeroporto, mas Billy estava a tomar conta de tudo. Cassie passou por l, e Billy perguntou-lhe como estava Pat.
       - No est muito bem.
       Nessa manh, depois do pequeno-almoo, estivera a beber. Ainda no conseguia enfrentar o que acontecera. Pat s bebia em momentos de muito stress ou celebraes. 
Quando ela regressou, o pai estava sozinho na sala a chorar.
       - Ol, pai - disse ela ao entrar. Cassie passara a noite em branco a pensar nas situaes em que se zangara com o irmo, nas inmeras vezes em que pensara 
que o pai gostava mais dele. Perguntou a si prpria se Chris alguma vez o percebera e esperava que no. - Como se sente?
       Pat encolheu os ombros e no respondeu. Ento ela falou sobre algumas das visitas e no fato de ter ido ver Billy ao aeroporto. Pela primeira vez, o pai no 
perguntou como tudo estava a correr.
       - Viu Desmond Williams ontem? - perguntou,  procura de coisas para lhe contar. Ele olhou para cima com uma expresso vazia, mas pelo menos respondeu.
       - Esteve c? - Ela acenou com a cabea e sentou-se a seu lado. - Foi simptico da parte dele. Que tipo de pessoa  ele, Cass? - O pai falara brevemente com 
Desmond, mas a dor era tanta que no se lembrava.
       -  muito calmo, honesto, trabalhador e solitrio. - Aquelas referncias em relao  pessoa para quem trabalhava pareciam estranhas. - Acho que a palavra 
correta seria... impelido, pois vive para o negcio. E tudo para ele.
       -  triste - disse Pat, olhando para Cassie e recomeando a chorar. O pobre mido s tinha vinte anos. - Podias ter sido tu, Cass - disse atravs das lgrimas. 
- O ano passado podias ter sido tu. Nunca tive tanto medo na vida como quando te observei.
       - Eu sei - disse ela sorrindo. - Tambm preguei um susto horrvel ao Nick, mas sabia o que estava a fazer.
       -  o que todos ns pensamos - afirmou ele tristemente. - O Chris provavelmente tambm o pensava.
       - Mas nunca o soube, pai. Ele no era como ns.
       - Eu sei - concordou ele. Todos o sabiam. Chris nunca soubera exatamente o que estava a fazer. - No consigo deixar de pensar no aspecto dele quando tu e 
o Billy o tiraram do avio. - Ficou com uma expresso nauseada. Sem saber que fazer, Cassie preparou-lhe outra bebida.  hora do almoo, j estava pouco consciente 
e quase a dormir. Finalmente, adormeceu, e ela deixou-o ficar ali sentado. Talvez a melhor coisa a fazer era deix-lo dormir. Quando a me regressou nessa tarde 
na companhia de duas das filhas, Pat j estava acordado e sbrio. Cassie fez-lhes algo para comer e sentaram-se na cozinha a conversar calmamente.
       Era estranho estar com todos eles, e Cassie percebeu que parecia estarem  espera de alguma coisa. Era como se a realidade da morte de Chris ainda no se 
tivesse instalado, estando todos  espera que ele voltasse para casa ou que algum lhes dissesse que nada acontecera. Mas acontecera. Fora horrvel e no podia ter 
sido pior, a no ser que ele tivesse sofrido.
       Glynnis e Megan saram quando Colleen chegou com os filhos. Aquele breve caos fez-lhes bem, mas depois saram e eles ficaram de novo ss. Cassie fez o jantar 
para os pais; estava contente por estar ali com eles. No fazia idia quando regressaria a Los Angeles. A me recomeou a chorar  hora da refeio, e Cassie levou-a 
para a cama. O pai parecia estar melhor naquela noite. Estava mais calmo e consciente e queria falar com Cassie depois de Oona se deitar. Fez-lhe perguntas sobre 
o seu trabalho, se gostava do que fazia, que tipo de avies pilotava e se gostava da vida em Los Angeles. Sabia que o primeiro ano terminara e queria saber se Cassie 
ficaria em Los Angeles ou voltaria para casa. Com Chris morto, a suas preocupaes eram mais pungentes.
       - Ofereceram-me um novo contrato - respondeu Cassie diretamente.
       - O que  que ele te oferece? - perguntou Pat com interesse.
       - O dobro do salrio do ano passado - respondeu ela com orgulho -, mas tencionava mandar-vos a diferena pois no me faz falta.
       - Pode vir a fazer - disse-lhe o pai bruscamente. - Nunca se sabe o que pode acontecer. As tuas irms tm os maridos, mas tu e o Chris... - Deu novamente 
por si com os olhos cheios de lgrimas. Ela deu-lhe a mo, que Pat agarrou firmemente. - Por vezes esqueo-me - disse Pat entre lgrimas.
       - Eu sei, paizinho. Eu tambm me esqueo.
       Estivera a pensar em Chris toda a tarde e passara-lhe pela cabea que ele estaria em Walnut Grove com Jessie. De repente, lembrou-se. Era como se o corao 
e a mente no
       quisessem aceitar. Nessa tarde, telefonara a Jessie e ela tambm sentia o mesmo. Disse que estava sempre  espera de ou vir o rudo do caminho. Todos estavam.
       - De qualquer modo, quero que fiques com o dinheiro - disse Pat firmemente.
       - Isso  um disparate.
       - Porque  que ele est a oferecer-te tanto dinheiro? - perguntou de sobrolho franzido. - No est a obrigar-te a fazer algo de desonesto ou demasiado perigoso? 
Pois no, Cass?
       - Nada de mais perigoso do que a qualquer outro dos seus pilotos de testes. Provavelmente at menos. Eu sou um grande investimento. Acho que ele pensa que 
sou til para a companhia por ser mulher, por causa da publicidade e porque os recordes que estabeleo so importantes para os seus avies. - Nessa altura, Cassie 
olhou para o pai, pensando se seria demasiado cedo para lhe falar da volta ao mundo. Mas queria dizer-lhe agora, pois desejava assinar o contrato assim que regressasse. 
Pensara muito no assunto, apesar da morte de Chris, e j sabia o que queria.
       - Ele quer que eu faa a volta ao mundo, pai - revelou ela calmamente. Durante alguns instantes, houve um longo silncio.
       - Que tipo de volta ao mundo? H uma guerra na Europa, sabias?
       - Eu sei. Desmond disse que teramos de planejar bem a rota, mas pensa que pode ser executada com segurana.
       - George Putriam tambm o fez - disse o pai com um ar grave. Tinha acabado de perder um filho e no estava disposto a perder outro. - No h maneira de fazer 
uma volta ao mundo em segurana, Cass. Com guerra ou sem guerra. Existem demasiadas variveis e perigos. Os motores podem falhar. Poders fazer uma navegao errada. 
Podes deparar com uma tempestade. Podero surgir milhes de coisas inesperadas.
       - No seria to grave num dos avies de Desmond e se levasse comigo a pessoa certa.
       - Tens algum em mente? - Pensou instantaneamente em Nick, mas agora este no podia ir.
       Cassie acenou com a cabea.
       - Pensei no Billy. - Pat hesitou enquanto pensava no assunto e acenou com a cabea.
       - Ele  muito bom - concordou Pat -, mas  muito jovem. - Depois reconsiderou. Se calhar  preciso ser. Ningum mais velho do que vocs seria suficientemente 
louco para o querer fazer. - Nesse momento, quase sorriu, e Cass sentiu-se melhor. Era como se aprovasse. Cassie desejava que ele o fizesse. Queria que lhe desse 
a sua bno. -  por isso que esto a pagar-te tanto?
       - No - disse a rapariga, abanando a cabea. - Ainda me pagam mais se fizer a volta ao mundo. - Nem lhe disse quanto. Cento e cinqenta mil dlares soar-lhe-ia 
a muito dinheiro e era. Alm disso, Cassie no queria que ele pensasse que o seu motivo era ganncia, pois no se tratava disso. - E como resultado haver bnus 
e patrocnios.  um belo negcio - explicou modestamente. Mas at ela ficava assustada ao falar de somas to elevadas.
       - No ser um bom negcio se morreres - disse Pat francamente. Ela acenou com a cabea. -  melhor pensares nisso com muito cuidado, Cassandra Maureen. No 
 uma brincadeira. Ficars com a vida nas mos se o fizeres.
       - O que acha que devo fazer, pai? - Ela sabia que lhe estava a suplicar a aprovao.
       - Realmente no sei - disse, fechando os olhos para pensar. Abriu-os novamente e segurou-lhe as mos. - Tens de fazer o que achas que deves, Cass. Aquilo 
que o teu corao e a tua cabea mandarem. No posso colocar-me entre ti e um grande futuro. Mas, se te acontecer alguma coisa, nunca me perdoarei ou ao Desmond 
Williams. Gostaria que ficasses aqui e que no corresses riscos, especialmente depois do que aconteceu ao Chris. Mas isso no seria correto. Tens de seguir o teu 
corao; Disse o mesmo ao Nick quando decidiu ir para Inglaterra. Es jovem e, se fores bem sucedida, poder ser um grande feito; se no, um grande desgosto. - Olhou 
demorada e duramente para ela, no sabendo que mais lhe deveria dizer. Cassie tivera razo ao ir para Los Angeles no ano anterior, mas agora no sabia.
       - Eu gostaria de o fazer, pai - disse calmamente. E acenou com a cabea.
       - Na tua idade, eu teria sentido o mesmo. Se algum me tivesse oferecido isso, seria a maior oportunidade da minha vida. Mas ningum o fez. - Sorriu, parecendo-se 
mais consigo prprio. - s uma rapariga de sorte, Cassie. Aquele homem deu-te uma enorme oportunidade para te tornares importante.  uma ddiva, mas perigosa. Espero 
que ele saiba o que est a fazer.
       - Tambm eu, pai, mas confio nele.  demasiado esperto para correr riscos. Acredita completamente no que est a fazer.
       - Quando ser realizada?
       - S daqui a um ano. Quer planejar tudo com o mximo cuidado.
       - Gosto de ouvir isso - disse Pat. - Pensa no assunto e diz-me o que decidires. Se decidires faz-la, s direi  tua me daqui a algum tempo. - Cassie acenou 
com a cabea e, um pouco mais tarde, apagaram as luzes e foram para a cama. Estava muito aliviada por ter falado com o pai e ainda mais por ele no se ter zangado. 
Parecia ter finalmente aceite quem ela era e o que estava a fazer. Tinha percorrido um longo caminho desde a altura em que a proibira de voar ou de ter lies. Agora, 
tudo isso a fazia sorrir.
       No dia seguinte, falou com Billy sobre o assunto, e ele ficou delirante quando Cassie lhe contou que tinha sugerido o seu nome como navegador e co-piloto.
       - Queres que eu v? - gritou ele, atirando-se ao pescoo dela e beijando-a.
       - Queres vir?
       - Ests a brincar? Quando partes? Vou fazer as malas.
       - Tem calma - disse ela, rindo-se. - S daqui a um ano. Para ser exata, no dia dois de julho de mil novecentos e quarenta e um. Desmond quer comear a viagem 
no dia do aniversrio do desaparecimento da Amelia Earhart.  um pouco assustador, mas ele  assim mesmo. - Teria de haver muita publicidade  volta do assunto e 
nisso Cassie confiava no bom senso de Desmond.
       - Porqu tanto tempo? - Billy parecia desiludido.
       - Quer planejar tudo com muito cuidado e testar o avio apropriado. Est a pensar em usar o Starfliter, o que seria um grande golpe publicitrio para o avio, 
no que concerne a distncia e resistncia. - Essa era a questo, mas, se eles conseguissem, as suas vidas nunca mais seriam as mesmas. Alm disso, ainda referiu 
a Billy que o seu bnus seria de cinqenta mil dlares.
       - Poderia divertir-me imenso com todo esse dinheiro. - Mas, tal como Cassie, no o faria por dinheiro, mas sim pela excitao e desafio. Era o mesmo que a 
atraa para Desmond e que at fizera saltar uma pequena fasca no pai. - Depois comunica-me a tua deciso.
       Tal como Pat, Billy suspeitava que ela j decidira. Era verdade, mas estava a pensar nisso e a tentar ter a certeza de que se queria comprometer. Uma coisa 
era trabalhar para Desmond durante mais um ano; mas concordar com uma volta ao mundo era completamente diferente. Sabia que os riscos e as vantagens eram igualmente 
grandes. Imaginem no que a Earhart se teria tornado se tivesse sido bem sucedida? Era difcil imaginar a sua lenda ser ainda mais forte do que j era, mas teria 
sido.
       Billy foi rapidamente a Cleveland naquela tarde, enquanto Pat ainda estava em casa. Assim, Cassie ofereceu-se para tomar conta das coisas e fechar o escritrio. 
Arrumou alguns papis, vestiu um macaco e saiu para abastecer alguns avies. No tinha mais nada para fazer e pouparia trabalho a Billy na manh seguinte.
       Tinha acabado os abastecimentos e de arrumar algumas ferramentas quando viu um pequeno avio a aproximar-se da pista principal. Aterrou e depois deslizou 
at ao hangar mais distante. Cassie perguntou a si prpria se seria um cliente habitual, pois tudo o indicava. j no os conhecia a todos. Este sabia exatamente 
para onde ir e o que fazer. Observou-o durante alguns instantes, mas o sol batia-lhe nos olhos. Ento viu-o. No podia ser. No podia. Tinha regressado. Era Nick 
e, enquanto corria na sua direo, Cassie estava banhada em lgrimas. Voou para os seus braos, acautelando o brao ferido. Estar de novo ali com ele fez com que 
tudo voltasse: a pena, a dor e o choque de ter perdido Chris misturou-se com o prazer de ver Nick. Ele beijou-a longamente, e subitamente Cassie sentiu-se segura 
e em paz, sabendo que Nick estava em casa.
       - Eles deram-me licena assim que soube  explicou ele -, mas foi muito difcil chegar a Nova Iorque. Tive de voar at Lisboa e s cheguei a Nova Iorque a 
noite passada. Aluguei este caixote esta manh. Pensei que nunca mais chegava. Mal consegui levantar vo em New Jersey.
       - Estou to feliz por estares aqui. - Abraou-o, aliviada por v-lo. Estava muito bonito no seu uniforme da RAF, mas parecia tambm muito preocupado.
       - Como est o teu pai?
       - No est muito bem - disse ela honestamente. - Ficar muito contente por te ver. Vou levar-te a casa. Podes l ficar. - Engasgou-se com as palavras. - Podes 
ficar no quarto de Chris ou no meu. Eu durmo no sof. - Billy estava a viver na antiga barraca de Nick e seria muito apertado para dois.
       - Eu durmo no cho - disse ele sorrindo. - No  problema. Os Britnicos so conhecidos pela falta de conforto das suas casernas. No durmo decentemente desde 
Setembro passado.
       - Quando voltas para casa? - perguntou Cassie enquanto o conduzia a casa dos pais.
       - Quando a guerra acabar. - Mas no acabaria em breve. A Frana cara nas mos dos Alemes h trs semanas e Hitler controlava agora a maior parte da Europa. 
Os Ingleses estavam a tentar que ele no apanhasse o resto da frota francesa no Norte de frica. Os problemas estavam longe de estar solucionados.
       Nick perguntou-lhe como estava o brao e ela admitiu que ainda doa, mas que estava a melhorar.
       Quando chegaram a casa, Pat estava sentado numa cadeira no alpendre com um ar doloroso.
       - Ds abrigo a um soldado, s? - perguntou Nick calmamente enquanto subia para o alpendre, caminhava devagar at ao seu velho amigo e o abraava. Os dois 
homens choraram, partilhando a dor um do outro, e Cassie deixou-os sozinhos para que falassem  vontade enquanto fazia o jantar. A me estava na cama com uma terrvel 
dor de cabea. Ainda parecia, compreensivelmente, muito abalada. Era o seu filho mais novo e morrera apenas com vinte anos.
       Cassie fez sanduches para os dois e abriu duas cervejas.
       A me j preparara uma grande salada para o caso de ser necessria. Era o suficiente. Ningum estava com muita fome. Enquanto comiam, Nick contou-lhes o que 
estava a passar-se na Europa. Ouvira algumas histrias sobre a tomada de Frana h trs semanas e da pungente queda de Paris. Os Alemes estavam por todo o lado, 
e os Britnicos receavam, com alguma razo, ser os seguintes, mas ningum o admitia.
       - J ests a voar em misso? - perguntou Pat, sorrindo ao recordar os dias em que tinham voado, no final da guerra anterior.
       - So demasiado espertos para isso, s. Sabem que estou arrumado.
       - Com a tua idade, no. D-lhes tempo. Quando precisarem de pilotos, atiram-te logo para dentro de um caa e pe-te no ar.
       - Espero que no. - Cassie estava zangada de os ouvir. Todos gostavam tanto da guerra e, na sua opinio, podiam-se correr riscos desde que fossem eles a corr-los.
       Nessa noite, deixou-os a conversar no alpendre. Tambm gostaria de ter falado com Nick, mas sabia que o pai precisava mais dele. Ela tinha tempo. Nick ficaria 
trs dias e poderia falar com ele mais tarde.
       No dia seguinte, Pat foi finalmente para o escritrio e ficou muito contente por encontrar tudo em ordem. Billy tinha tomado bem conta dos avies, da secretria 
e todos os pilotos estavam  espera de ordens. Fez-lhe bem voltar e, a meio da manh, Cassie ficou surpreendida com o telefonema de Desmond. Perguntou se podiam 
falar  vontade e ela fechou a porta do escritrio.
       - Estou bem. Foi muito amvel da sua parte.
       - Tenho estado preocupado consigo, Cass, mas no queria interferir numa altura como esta. Como est o brao?
       - Est timo. - No queria preocup-lo, dizendo que a queimadura era grave, mas estava a sarar muito bem. - Est tudo bem por a? - inquiriu ela, sentindo-se 
culpada por estar afastada h tanto tempo. Estava em casa h quase uma semana, mas ele dissera-lhe que ficasse o tempo que fosse preciso. Pediu novamente desculpa 
e Desmond reiterou o que j dissera.
       - Como esto os seus pais?
       - No esto muito bem. O meu pai regressou ao trabalho hoje. Penso que lhe far bem, especialmente quando algum o irritar com qualquer coisa. Ter outras 
coisas em que pensar. - Desmond riu-se do que ela acabara de dizer e perguntou-lhe se j pensara na volta ao mundo. Ela sorriu e respondeu afirmativamente. - j 
falei com o meu pai.
       - Imagino a felicidade com que ele ouviu a notcia. O seu timing foi perfeito, Miss O'Malley. - Quase rosnou ao pensar na reao de Pat. Quase conseguia imaginar 
as palavras do pai. No entanto, Cassie surpreendeu-o.
       - Na realidade, e depois de falarmos algum tempo, ele no se ops completamente. Penso que esteja preocupado com muitas coisas, mas foi bastante razovel. 
Acho que v a volta ao mundo como uma grande oportunidade para mim. Disse-me que deveria ser eu a decidir.
       - E j decidiu? - perguntou, sustendo a respirao. Desde que ela partira que Desmond andava ansioso, tendo ficado surpreendido com as saudades que sentia 
dela. Estava at preocupado com o fato de ela no voltar para Los Angeles ou no renovar o contrato depois da morte do irmo. Cassie era uma parte importante da 
sua vida.
       - Quase - disse para o arreliar. - Quero pensar sobre o assunto enquanto estou aqui. Inform-lo-ei da minha deciso assim que chegar, Desmond. Prometo.
       - Mal consigo agentar. - Estava a dizer a verdade. Estava a lev-lo  loucura.
       - Acho que a resposta vai compensar o sofrimento da espera - continuou ela, arreliando-o, e Desmond sorriu. Gostara da maneira como ela o dissera. No conseguia 
deixar de pensar no seu aspecto enquanto falava com a jovem. At no funeral do irmo, com o rosto pleno de dor e o brao ligado, estava lindssima, mas no lhe parecia 
correto pensar assim naquele momento.
       - Promessas! Volte depressa para casa. Tenho saudades suas.
       - Eu tambm. - Disse-o como o diria a um amigo, a Chris ou a Billy. Tinha saudades de conversar com ele nos momentos mais loucos, em que ambos estavam acordados, 
e sobre coisas de que ambos gostavam: avies.
       - Espero v-la em breve, Cass.
       - Cuide de si. Obrigada por ter telefonado. - Desligou e voltou para junto do pai e de Nick. O pai perguntou-lhe quem telefonara e ela respondeu-lhe.
       - O que  que ele queria? - perguntou Nick com um ar aborrecido.
       - Falar comigo - respondeu friamente. No gostara da maneira como Nick fizera a pergunta. Estava a agir como se a possusse e, para um homem que nem se quer 
se tinha dado ao trabalho de lhe escrever durante meses, estava a exigir de mais.
       - Sobre o qu? - insistiu Nick.
       - Negcios - disse duramente e mudou de assunto.
       Pat sorriu e afastou-se. Comeara a ver uma tempestade a aproximar-se e a nica coisa que conseguia fazer era sorrir. Ela era decididamente uma O'Malley.
       - Como est o brao? - perguntou Nick quando ficaram sozinhos.
       - Vai andando - respondeu honestamente. - Est a comear a doer muito, mas eles dizem que  um bom sinal. - Cassie encolheu os ombros, olhou para ele e convidou-o 
para dar um passeio. Nick concordou e foram at aos campos situados nos limites do aeroporto.
       - O que andas a fazer agora, Cass? - Estava mais gentil do que h alguns momentos atrs e, assim que Nick se aproximou dela e lhe colocou o brao sobre os 
ombros, o seu corao voltou a derreter-se.
       - A mesma coisa: pilotar avies e passar para alm dos limites. O meu contrato acaba na prxima semana. Ofereceram-me um novo.
       - Nos mesmos termos? - perguntou ele diretamente.
       - Melhores. - Tambm sabia ser direta.
       - Vais assin-lo?
       - Acho que sim.
       Ento Nick fez-lhe uma pergunta que Cassie no esperava.
       - Ests apaixonada por ele, Cass? - Fez a pergunta com um ar preocupado, e Cassie sorriu perante a sua franqueza. - Pelo Desmond? Claro que no. Somos apenas 
amigos.  tudo. Ele  um homem muito s.
       - Eu tambm. Em Inglaterra. - Mas no parecia ter pena de si prprio ao diz-lo. Parecia zangado e com cimes de Desmond.
       - Aparentemente no ests suficientemente s para te dares ao trabalho de me escrever - afirmou Cassie. Detestava no ter notcias dele, especialmente porque, 
s vezes, ele escrevia a Pat e a Billy.
       - Sabes o que eu sinto sobre isso. No h motivo para te arrastar comigo ou para nos ligarmos, Cass. Comigo no tens futuro.
       - Continuo a no perceber porqu, a no ser que no me ames. Isso eu entenderia, mas isto no consigo.  uma loucura.
       -  muito simples. Eu posso morrer para a semana.
       - Eu tambm. E depois? Somos aviadores. Estou disposta a correr o risco. Ests disposto a corr-los comigo?
       - Tu sabes que a questo no  essa. Se eu tiver sorte e sobreviver, o que acontecer? Vais viver numa barraca e passar fome o resto da vida? Parabns  grande 
vencedora. Sou um aviador, Cass. Nunca vou ter um monte de dinheiro. At agora nunca me importei e nunca prestei muita ateno, tal como o Billy est a fazer. Est 
a divertir-se. Eu tambm estava e ainda estou. E depois? No  futuro para ti, Cass. No o farei. Alm disso, o teu pai matar-me-ia se eu te deixasse fazer isso 
a ti prpria.
       - Poder matar-te mais cedo se no ficares comigo. Ele acha que somos ambos loucos: eu por te amar e tu por fugires.
       - Talvez tenha razo, mas  assim que eu vejo as coisas.
       - E se eu poupar dinheiro? - Era uma questo interessante.
       - timo. Goza-o bem. Espero que o faas. Neste momento s quase uma estrela de cinema. Cada vez que vejo um documentrio americano, sei mais de ti do que 
do Hitler.
       - Muito obrigada.
       -  verdade. O Williams sabe muito bem o que faz. O que ests a pedir-me? Se estou disposto a viver  tua custa se enriqueceres  custa dele? A resposta  
no, se for essa a pergunta.
       - Tu no facilitas nada, pois no? - Cassie estava a comear a ficar irritada. Nick tornava tudo impossvel. Se for caras eu ganho, coroa perdes. Viciara 
os dados e ela no conseguia ganhar uma nica vez. Cassie j comeava a estar farta. - Ests a dizer que, se tivesses poupado dinheiro nos ltimos anos, virias para 
casa e casarias comigo. Mas tal no aconteceu, e o fato de eu ter dinheiro j no  a mesma coisa.  isso?
       - Isso mesmo - disse ele. Resolvera no lhe arruinar a vida e estava decidido a fazer tudo para manter a deciso. - Eu no vivo  custa de mulheres.
       - Tambm no ests a fazer muito sentido. s o nico homem que conheo que consegue ser mais teimoso do que o meu pai, mas, com a idade, ele est um pouco 
mais sensato. Quanto tempo terei de esperar por ti? - Disse-o com impacincia.
       - At eu ficar mole dos miolos respondeu ele com um sorriso -, e j no tarda muito. Estava cansado de discutir com ela. Tudo o que desejava era abra-la 
e beij-la. Ficava furioso quando a via nos documentrios cinematogrficos. S queria gritar: Esta  a minha mida!, mas no era. Ele no deixava que fosse. Era 
a filha do seu melhor amigo e a rapariga por quem estava apaixonado desde que ela tinha trs anos. E tentar explicar isso a um monte de fulanos da RAF? Ficara muito 
abalado quando percebera. Dois ou trs dos seus companheiros tinham posters dela pendurados nas paredes.
       - Chega c - disse Nick, enquanto ela estava a alguns metros de distncia com os braos cruzados e a bater o p. - E no olhes para mim. assim.
       - Porqu? - Cassie ralhou-lhe.
       - Porque eu posso ser um idiota chapado e querer que cases com um tipo com metade da minha idade e tenhas dez filhos. No entanto, eu amo-te, Cass. Tu sabes 
que sempre amarei.
       - Oh, Nick. - A sua zanga desapareceu imediatamente ao ver a expresso de Nick. Ela s o queria a ele. Beijaram-se durante muito tempo, esquecendo as palavras, 
as discusses e os problemas. Depois, caminharam lentamente at ao aeroporto.
       Pat viu-os do escritrio e pensou que eles tinham resolvido as coisas. Perguntou a si prprio quando  que eles iam perceber que tinham entre si uma coisa 
rara e importante. Mas ambos eram teimosos que nem mulas e Pat no se meteria entre eles. Pensou ainda se Cassie j teria falado a Nick sobre a volta ao mundo e 
na resposta que este lhe teria dado. Porm, o assunto s foi discutido no dia seguinte enquanto estavam todos sentados no escritrio de Pat.
       - De que esto a falar? - perguntou Nick, confuso. Pat mencionara o assunto, e Nick no percebera de que  que Pat estava a falar.
       Ento, Pat olhou para a filha e levantou uma sobrancelha.
       - No vais dizer-lhe?
       - Dizer-me o qu? timo. Qual  o grande segredo? - Nick sabia que ela no estava apaixonada ou at a sair com mais ningum, se bem que lhe dissesse para 
o fazer, o que a deixara severamente escandalizada. Decerto no estava grvida, pois ele tinha quase a certeza da sua virgindade. No houvera ningum na vida de 
Cassie para alm de Bobby e Nick, e com Bobby as coisas no tinham passado de alguns beijos no alpendre. Nick nunca lhe teria tocado. - Afinal o que se passa?
       Cassie decidiu dizer-lhe. Ainda no era um fato consumado, mas era mais do que certo. Iria particip-lo a Desmond quando chegasse a Los Angeles.
       - A Williams Aircraft fez-me uma oferta muito interessante.
       - Eu sei. Mais um ano de contrato. j me tinhas dito - afirmou com um ar presunoso. Cassie apenas olhou para ele e abanou a cabea sob o olhar do pai.
       - No. Para uma volta ao mundo daqui a um ano. Tenho estado a pensar no assunto e falei com o pai antes de chegares. No entanto, queria tomar uma deciso 
antes de te contar.
       - Uma volta ao mundo? Levantou-se rapidamente com uma expresso ultrajada.
       - Exatamente, Nick disse Cassie num tom calmo. No lhe referiu o montante que iriam pagar-lhe, pois no fora importante para a deciso e soaria muito vulgar.
       - Eu disse-te que aquele filho da me tinha isso em mente desde o incio. Diabos te levem, Cassie. No ouviste? - Estava furioso com ela e a gesticular. - 
 essa a razo de ser de todos aqueles documentrios e da constante publicidade. Ele queria fazer o teu nome e agora vai explorar-te at onde puder e colocar a tua 
vida em risco. H uma guerra na Europa. Como pensas ultrapassar esse problema, mesmo que consigam planejar uma rota perfeitamente louca, o que duvido? Raios te partam, 
Cass. No permitirei que o faas.
       - A deciso  minha, Nick - disse ela com suavidade. - A tua opinio tem tanta importncia como a minha teve quando decidiste juntar-te  RAF. Ns tomamos 
as nossas decises.
       - timo!  ento esta a vingana por eu me ter oferecido como voluntrio? Ou por no te escrever? No entendes o que esse tipo est a fazer? Est a usar-te, 
Cass. Por amor de Deus, acorda antes que isso te mate. - Nick estava em fria com o que Williams estava a fazer, e Cass recusava-se a perceber.
       - Ele no vai matar-me. Isso  ridculo.
       - Ests louca? Sabes o perigo que essa viagem constitui com ou sem guerra?  suicdio e no a fars. No tens resistncia ou experincia.
       - Agora tenho.
       - Tretas! Tu s fazes vos de teste, o que no se compara. Quando foi a ltima vez que fizeste uma longa distncia?
       - A semana passada quando vim para casa. Fao-o muitas vezes, Nick.
       - Vais matar-te, minha louca. E tu? - Virou-se para Pat com uma expresso furiosa no olhar. - Ests disposto a permitir uma coisa destas?
       - No estou muito contente com o fato - disse Pat tristemente. Vistas bem as coisas, acabara de perder um filho, mas aprendera bastante nos ltimos anos e 
em grande parte com Cassie. - Ela j tem idade suficiente para tomar as suas prprias decises, Nick. Ms ou boas. No tenho o direito de interferir. - Quando o 
ouviu, Cassie teve vontade de aplaudir.
       - O que te aconteceu? - Nick estava espantado. - Como podes falar assim?
       - Porque estou mais velho e mais sensato. Por um lado, dizes que ela est por conta prpria e que no casam porque s demasiado velho para ela ou Deus sabe 
porqu; por outro, exiges que Cass faa o que queres. As coisas no so assim, Nick. Mesmo que casasses com ela no tinhas o direito de exigir fosse o que fosse. 
Cassie faz parte da nova gerao de mulheres. Estou a aprender depressa e posso dizer-te que estou muito contente por ter conseguido a Oona naquela altura. As mulheres 
de hoje so muito complicadas.
       - No acredito no que estou a ouvir. Desististe. Deixaste que a tua filha te convencesse.
       - No. - Pat foi incisivo. - Ela ainda nem me disse se o faria. A deciso  dela, Nick. Toda dela. No  minha nem tua. No quero ser o homem que a impediu 
e tu tambm no o deves ser.
       - E se morrer? - perguntou Nick contundentemente.
       - Nessa altura, nunca me perdoarei - respondeu Pat com franqueza. - Mesmo assim, no posso interferir. - Estava com lgrimas nos olhos, e Cassie aproximou-se 
e beijou-o.
       Nick estava a olhar fixamente para ela.
       - Vais faz-la? - Ambos os homens sustiveram a respirao enquanto esperavam, depois ela acenou com a cabea. Nick ficou  beira das lgrimas.
       - Vou, sim. Mas ainda no disse ao Desmond.
       - No admira que ele tenha telefonado ontem. - Nick estava muito angustiado. No conseguia acreditar que Cassie fosse cometer uma tal loucura. Ele fora o 
seu instrutor. Sabia que a rapariga era capaz de grandes coisas, mas no disso. Pelo menos, ainda no e provavelmente nunca.
       - Ele telefonou para perguntar se estava tudo bem comigo e com o pai.
       - Que comovente. - Depois olhou para ela com raiva. - E esse ser o prximo passo, no ?
       - O qu? - Nem ela nem Pat o compreenderam, mas Nick j estava a falar de outro assunto.
       - Mais publicidade. Mais habilidades. Quando o ano passado te levou a jantar e a danar e vos tiraram uma fotografia juntos, no foi um mero acidente. Manteve 
as coisas vivas e misteriosas para a imprensa. Agora ter de ir muito mais longe para tornar as coisas interessantes. Quanto queres apostar em como vai pedir-te 
em casamento? - disse Nick com uma raiva desmedida. Cassie olhou para ele enojada, e o pai estava com um ar divertido. Nunca vira o amigo ter um ataque de cimes 
e era claro que o era.
       -  a coisa mais nojenta que j ouvi - acusou Cassie, mas Nick tinha a certeza.
       Pat partilhou com Nick algumas palavras sbias.
       - Se lhe disseste que quando voltares no casars com ela em circunstncia alguma e nem sequer escreves  rapariga, de que ests  espera? Que entre para 
um convento e seja virgem toda a vida? Ela tem direito a viver, Nick. Se no for contigo ser com outra pessoa. Na minha opinio, ele parece um homem decente, sejam 
quais forem os motivos comerciais desta viagem. Vende avies. Tem de fazer o que pode para tornar as coisas interessantes. Se colocar uma linda rapariga aos comandos, 
que por acaso  um piloto excelente, funciona, ento ter mais poder. Se tu no queres casar com ela e ele quiser, no acho que tenhas muito a dizer sobre o assunto, 
pois no?
       Cassie teve de esconder um sorriso ao ouvir Pat. Nunca o pai fizera um discurso daqueles e a melhor parte era o fato de ele ter razo. Mas Nick no o queria 
admitir.
       - Ele no a ama, Pat. Eu amo.
       - Ento casa com ela - disse Pat suavemente, saindo da sala para os deixar sozinhos. Nunca conhecera duas pessoas que precisassem tanto de estar ss. Todavia, 
uma hora mais tarde, ainda estavam a discutir e no tinham chegado a lado nenhum. Nick acusava-a de ser ingnua ou de dar esperanas a Desmond e ela acusava-o de 
ser infantil. Foi uma tarde diablica e, ao fim do dia, estavam ambos exaustos e Nick tinha de voltar para Nova Jersey na manh seguinte.
       Conversaram quase toda a noite, mas nada ficou resolvido. Ele continuava a lembrar-lhe que era um homem de trinta e nove anos, que no casaria com uma criana 
nem lhe destruiria a vida.
       - Ento deixa-me em paz! - gritou-lhe, indo finalmente para a cama. Na manh seguinte, antes de ele partir, ainda estavam zangados um com o outro.
       - Probo-te de fazeres essa volta ao mundo - disse Nick antes de descolar no seu avio alugado. Cassie rogou-lhe que fosse razovel e que no fizesse ultimatos.
       - Ser que no podemos esquecer isso por agora?  s daqui a um ano e tu vais regressar a Inglaterra.
       - Nem que fosse para a Lua. No quero que assines o contrato.
       - No tens o direito de dizer isso. Pra, Nick.
       - No. No paro enquanto no concordares em desistir.
       - No vou desistir! - Cassie gritava com os seus cabelos ruivos a voar ao vento. Nick agarrou-a e puxou-a para si.
       - Vais sim. - Beijou-a, mas continuaram a discutir.
       - No vou.
       - Cala-te!
       - Eu amo-te.
       - Ento desiste.
       - Por amor de Deus! - Beijou-a novamente, mas quando Nick partiu nada ficara resolvido. Quando ele descolou, Cassie ficou a chorar na pista. Cinco minutos 
mais tarde, entrou de rompante no escritrio do pai. - Aquele homem leva-me  loucura.
       - Um destes dias vocs matam-se. At estou espantado como  que ainda no aconteceu - disse Pat a sorrir. - Teimosos como mulas. Ser uma pena se vocs no 
se casarem. Merecem-se um ao outro. Qualquer um de vs consumiria qualquer pessoa normal. - Olhou ento seriamente para a filha. - Achas que ele tem razo quando 
diz que o Williams te pedir em casamento apenas para fazer publicidade  viagem?
       - No acredito. - Cassie estava exasperada. - O homem tem um medo pavoroso de se envolver com algum. Teve dois casamentos desastrosos e acho que, se casar 
novamente, ter de ser por amor.
       - Espero que sim. - Sentiu-se melhor ao ouvir as palavras da filha. - Ele j manifestou algum interesse especial em ti, Cassie? - Para alm de ter vindo ao 
funeral de Chris, que Pat achou ser uma atitude muito bonita.
       - No exatamente. Somos apenas amigos. O Nick no sabe o que est a dizer.
       - Bom! Podias ficar muito pior se no casares com aquele doido quando voltar de Inglaterra. juro, aquele homem ainda me mata. Antigamente, costumvamos ter 
discusses assim.  o filho da me mais teimoso que j conheci. - Cassie no discordou do pai e voltou para casa para ver como estava me.
       Abandonou Illinois na semana seguinte e regressou para Newport Beach, para o apartamento, para o trabalho e para assinar o novo contrato por mais um ano com 
o dobro do salrio. No dia em que chegou, foi ao escritrio falar com Desmond a ss.
       - Passa-se alguma coisa? - perguntou ele nervosamente, levantando-se quando a jovem entrou. Levantava-se sempre que ela entrava em qualquer lado e Cassie 
gostava. - A Fitzpatrick disse que era urgente.
       - Depende da perspectiva - disse Cassie tranqilamente. - Julgava que queria a resposta sobre a volta ao mundo. - Subitamente, ele pressentiu, pela expresso 
do rosto de Cassie, que ela no a queria fazer e o corao caiu-lhe aos ps.
       - Eu... eu compreendo, Cass. Pensei que provavelmente depois da morte do seu irmo... Os seus pais no devem ter ficado muito satisfeitos. No seria justo 
para com eles. - Estava a tentar aceitar graciosamente a deciso de Cassie, mas era uma enorme desiluso e muito dolorosa. Era uma coisa que Desmond desejara toda 
a vida.
       - No. No seria justo para com eles - concordou ela e o meu pai no ficou muito contente. - Tinham concordado em no dizer nada  me to cedo. - No entanto, 
disse-me que era uma deciso totalmente minha e tomei-a. - Ele olhou-a sem dizer uma palavra e Cassie deu um passo em frente. - Fao-a, Desmond.
       - O qu? - sussurrou ele.
       - Fao a volta. Quero faz-la por si.
       - Oh! Meu Deus!
       Caiu na cadeira com os olhos fechados e depois olhou para cima e viu-a. Ps-se em p num salto e saiu da secretria para a beijar. Era um beijo casto, mas 
continha toda a fervorosa gratido que sentia. Nunca nada fora to importante para ele e, depois disto, nada mais seria. Trataria disso. Tinha milhares de planos 
e tencionava partilhar todos com ela. Iria ser um ano incrvel. Quando se sentou e comeou a contar-lhe o que tinha em mente, continuava com a mo de Cassie firmemente 
entre as suas num contnuo agradecimento. Cassie estava muito contente por ter decidido positivamente. Ao diabo com Nick. Aquela era a sua vida.

CAPTULO 15
       A publicidade da volta ao mundo comeou quase de imediato, com um anncio numa conferncia de imprensa em Newport Beach. A isto seguiram-se vrios anncios 
e breves conferncias feitas por Cassie, todas orquestradas e organizadas por Desmond. Falou a grupos masculinos e femininos, em associaes polticas e em clubes. 
Foi entrevistada na rdio e foi rodado um documentrio especial sobre ela. Duas semanas depois, a imprensa estava saturada com notcias sobre a volta ao mundo. Subitamente, 
em meados de Agosto, Cassie saiu das primeiras pginas dos jornais devido ao agravamento da guerra na Europa. Comeara a batalha de Inglaterra ou, como era mais 
conhecido, o blitz. A Luftwaffe estava a bombardear Inglaterra na esperana de a destruir e Cassie sabia que, s pelo fato de l estar, Nick encontrava-se em perigo. 
Por muito zangada que estivesse com ele, as notcias aterrorizaram-na e s pensava em Nick.
       Telefonou ao pai para saber se havia notcias dele, mas no iria haver at ao final de Agosto.
       - No vejo como possa ter acontecido alguma coisa, Cass. Tens de acreditar que ele est bem. Estou listado como seu nico parente e serei imediatamente avisado. 
- Era um pequeno encorajamento e o pai teve de admitir que Nick j deveria ter sido chamado para o servio ativo. j no devia estar como instrutor. Estaria a pilotar 
bombardeiros ou caas. O objetivo da Luftwaffe era destruir a RAF e, como tal, Cassie sabia que Nick tinha de estar a lutar para a defender. O fato era uma preocupao 
constante e parecia ainda mais horrvel pois tinham-se separado zangados. S queria que Nick estivesse bem. Nada mais importava.
       Apesar da guerra, Desmond continuava a planejar cuidadosamente e com tremenda preciso a volta ao mundo. j tinham concordado sobre o avio que ela usaria, 
que j estava a ser equipado e preparado com extraordinrios novos instrumentos, tanques de gasolina suplementares e com dispositivos de vigia de longo alcance. 
Com a meticulosa ateno que Desmond dava aos pormenores, Cassie estava certa que estavam a proceder bem.
       A nica verdadeira dificuldade era a rota devido  guerra na Europa. Em 1940, a guerra espalhara-se a demasiados locais. Havia falta de segurana em certas 
reas no Pacfico, em vastas zonas do Norte de frica e,  claro, em toda a Europa. Tornara-se impossvel pensar em circular o Globo, mas havia ainda recordes extraordinrios 
para estabelecer e enormes distncias a cobrir. Como Desmond se interessava muito por avies de guerra, estava ansioso por provar que eram muito seguros para sobrevoar 
grandes extenses de oceano. Em resumo, iriam circular o Pacfico, fazendo oito etapas em dez dias e cobrindo quinze mil quinhentas e cinqenta milhas. O avio iria 
de Los Angeles  cidade da Guatemala e da para os Galpagos. Das ilhas dos Galpagos at  ilha de Pscoa, seguindo para o Taiti. Do Taiti para Pago Pago e depois 
para a ilha de Howland, onde Desmond j estava a planejar uma breve cerimnia em honra de Amelia Earhart. De Howland iriam para Honolulu, onde haveria mais celebraes. 
Nesse ponto, Desmond iria ao seu encontro e regressariam juntos a So Francisco, a final e triunfante etapa da volta. Ficou desiludido por ela no poder circular 
o Globo, mas a volta ao Pacfico, como era agora chamada, concretizava quase os objetivos. A volta ao mundo teria de ser adiada at ao final da guerra na Europa, 
e voar quase dezesseis mil milhas faria praticamente o mesmo  reputao de Cassie e  dos avies. Cassie tambm estava impressionada com a sensibilidade que Desmond 
manifestara ao fazer o ajuste. De certa maneira, provava que tudo o que Nick dissera sobre Desmond estava errado: ele no era um louco que apenas queria mat-la. 
Nesse ano, ningum, louco ou no, teria tentado sobrevoar a Europa.
       Desmond marcou mais conferncias de imprensa no Outono e fez os possveis para que ela fosse sempre notcia. Queria todas as atenes centralizadas nela. 
Tambm era uma boa diverso em relao  guerra na Europa. Era algo de saudvel, de esperanoso e estimulante, alm de que ela estava sempre to bonita nas fotografias 
que todos estavam apaixonados e queriam que fizesse a viagem. Agora, as pessoas abordavam-na na rua e os homens saam dos carros para a cumprimentar. As pessoas 
pediam-lhe autgrafos. Nesse aspecto, Nick tinha razo: estava a ser tratada como uma estrela de cinema. Nos ltimos tempos, Desmond tinha travado um pouco a sua 
vida social. Parecia querer mant-la pura e livre do falatrio romntico. Nancy Firestone ainda estava a trabalhar com ela, mas j no lhe arranjava acompanhantes. 
Agora, quando Cassie ia a qualquer lugar importante, era acompanhada por Desmond. Dizia que controlava melhor as coisas se estivesse presente. Foram a estrias em 
Hollywood e saam  noite para danar e ir ao teatro. Era uma excelente companhia e Cassie gostava de estar com ele. Como se levantava to cedo quanto ela, no se 
importava de ir para casa cedo. Era um arranjo perfeito.
       Entretanto, a Gr-Bretanha continuava a ser bombardeada sem merc pela Luftwaffe, e Cassie soube que o pai tivera finalmente noticias de Nick, que, em princpios 
de Outubro, continuava em segurana. Estava a pilotar Spitfires no 54.0 Esquadro e ainda estacionado no aerdromo de Horrichurch. Parecia estar a gostar e prometeu 
que, no que dependesse dele, os Britnicos em breve dariam cabo dos Alemes. Apenas mencionou Cassie para dizer a Pat que desse um beijo quela filha pouco razovel. 
Assim, a batalha entre eles ainda no terminara, mas pelo menos estava vivo, o que j era um grande alvio para os O'Malley.
       At Desmond tivera a amabilidade de perguntar por ele, e Cassie reportara-lhe as notcias que obtivera. Em Novembro, a Luftwaffe parecia estar a aliviar um 
pouco os ataques. At l, os bombardeamentos tinham sido incessantes e implacveis. Tinham comeado a chegar crianas aos Estados Unidos para que tomassem conta 
delas at ao fim da guerra, e Colleen tinha acolhido duas crianas, o que comoveu profundamente Cassie. Eram adorveis e ainda estavam completamente aterrorizadas 
quando Cassie as foi ver no dia de Ao de Graas. Curiosamente, ambos eram ruivos como ela. Annabelle tinha trs anos e Humplirey, quatro. Eram irmos, os pais 
tinham perdido tudo em Londres e no tinham parentes no pas. A Cruz Vermelha havia conseguido que viessem para
       Nova Iorque e Billy fora l busc-los. Na viagem de regresso, Billy ficou muito chocado quando eles lhe perguntaram se ia bombardear o aeroporto.
       Cassie apaixonara-se completamente por eles. Ter ali as duas crianas fazia com que a me tivesse algo com que se preocupar e tomar conta, fazendo-a esquecer 
um pouco a morte de Chris. Aquele dia de Ao de Graas foi especialmente difcil para todos, mas conseguiram pass-lo graas uns aos outros. Cassie tambm foi visitar 
Jessie que parecia estar a superar a morte de Chris melhor do que os O'Malley. Era jovem e, eventualmente, apareceria outra pessoa. Cassie nunca teria outro irmo.
       Tambm passou por casa de Bobby e Peggy, pois quase que adivinhara que Peggy estava grvida. Deu-lhe os parabns; Bobby parecia ter crescido e prosperado 
desde o casamento. O pai morrera e a mercearia era agora dele. Ainda sonhava com uma cadeia de lojas espalhadas pelo estado de Illinois, mas de momento estava muito 
excitado com o beb.
       - E tu, Cass? - perguntou ele, hesitante. No queria meter-se na vida dela e ouvira falar da volta ao mundo, mas perguntava a si prprio que mais faria ela 
na vida para alm de voar.
       - Estou muito ocupada a preparar-me para a volta ao Pacfico - respondeu ela, honestamente, e Bobby sentiu pena dela. H muito que Bobby conclura que Cassie 
provavelmente nunca casaria nem sentiria a felicidade como a que ele tinha agora com Peggy.
       A volta no lhe parecia grande coisa, mas era espantoso o nmero de horas que passavam a ler relatrios, a verificar o avio e a analisar cada pequena alterao 
que os engenheiros faziam. Ela tambm estava a fazer viagens de longa distncia para se preparar para a volta, familiarizando-se com os pormenores da rota do Pacfico.
       Explicou-a ao pai, que ficou fascinado com todos os preparativos. Estava ansioso por ver o avio e ela convidou-o a ir  Califrnia visit-la. Porm, Pat 
insistiu que no tinha tempo, pois havia muito que fazer no aeroporto e ainda iria ter mais. Billy foi para Newport Beach logo a seguir ao Natal, a fim de se preparar 
para a viagem. Estava to excitado que no falava noutra coisa. Por outro lado, Pat resmungava constantemente sobre a falta que ele lhe iria fazer durante aqueles 
sete ou oito meses. Esperavam que a viagem propriamente dita levasse menos de um ms a completar, mas depois haveria conferncias de imprensa e entrevistas. Isto 
se eles voltassem. Billy tornar-se-ia um heri ao lado de Cassie e iria ter melhores ofertas do que o Aeroporto O'Malley, mas Pat detestava a idia de o perder.
       Em Dezembro, Cassie tentou fazer milhares de coisas antes de ir para casa passar o Natal. Os dias nunca eram suficientemente longos, por isso decidiu mandar 
Nancy comprar brinquedos para as sobrinhas, sobrinhos, Annabelle e Humplirey. Ela prpria comprou as prendas das irms, cunhados e dos pais. Ficou triste quando 
se apercebeu de que naquele ano no haveria um presente para Chris e que nunca mais haveria. Quando Chris era pequeno, Cassie costumava dar-lhe carrinhos, pelos 
quais trocava as suas bonecas. Na altura, teria feito tudo por ele. Agora, estava morto. Ainda no conseguia acreditar.
       Sabia que o Natal daquele ano iria ser difcil, e ficou muito comovida quando Desmond aparecera, na noite anterior  sua partida, para lhe entregar um presente. 
Cassie comprara-lhe um lindssimo cachecol azul de caxemira na boutique de Edward Bursal, em Beverly Hills, e uma linda pasta na loja de bagagens de <beverly Hills, 
onde Nancy comprava tudo o que necessitava. No imaginava oferecer-lhe algo de frvolo, como uma gravata ou outra coisa qualquer. S a idia a fazia rir, portanto 
ficou muito contente ao ver que Desmond gostara dos presentes. No eram pessoais, mas eram teis e Desmond gostava disso.
       Os presentes que lhe oferecera fizeram com que Cassie se lembrasse de como ele era atencioso. Dera-lhe o livro Listen! the Wind, de Anne Morrow Lindbergh 
a mulher do famoso aviador, e ela prpria piloto qualificado, e uma linda aquarela da praia de Malibu, pois sabia que Cassie gostava muito do local. Depois, entregou-lhe 
uma pequena caixa e Cassie sorriu ao desembrulh-la.
       - No tenho a certeza se irs gostar - disse ele ansiosamente, o que no era hbito. Subitamente, impediu-a de continuar e agarrou-lhe na mo. - Se no gostares, 
Cass, devolve-a que eu compreenderei. No te sintas obrigada a aceit-la.
       - No consigo imaginar-me a devolver qualquer presente que me ofereas - retorquiu gentilmente, e ele deixou-a continuar. Por baixo do papel vermelho havia 
uma pequena caixa negra, mas Cassie no conseguia adivinhar o que estaria l dentro. Ele f-la parar novamente e segurou-lhe em ambas as mos. Estava plido e Cassie 
ficou preocupada, pois no era uma caracterstica de Desmond. Era como se se tivesse arrependido de lhe oferecer o presente ou receasse a sua reao.
       - Eu nunca fiz uma coisa destas - disse, muito nervoso. - Podes pensar que estou louco.
       - No te preocupes - respondeu ela. O rosto de Cassie estava muito perto do dele e, pela primeira vez naquele ano e meio, Cassie sentiu uma estranha ligao 
entre eles. - Seja o que for, tenho a certeza de que gostarei - prometeu, falando com muita suavidade. Desmond pareceu mais aliviado, mas ainda inseguro. Era um 
homem poderoso, porm, naquele momento, parecia muito vulnervel. Cassie no conseguia perceber o que estava a passar-se ou por que razo. Pensou se os feriados 
seriam difceis para ele por estar sozinho. Sentiu pena ao ter aquele pensamento e depois sorriu-lhe.
       - Est tudo bem, Desmond. Prometo. - Queria dar-lhe um pouco de confiana. Eles eram amigos e a longa preparao para a volta ao Pacfico ainda os aproximara 
mais.
       - No digas isso at olhares para o presente.
       - Est bem. Ento deixa-me abri-lo - declarou ela calmamente. Desmond retirou as mos das dela que, finalmente, abriu a caixa. Tudo o que conseguiu fazer 
foi olhar fixamente para o contedo. Era um anel de noivado com um grande brilhante de quinze quilates. Enquanto Cassie o olhava com descrdito, ele meteu-lho no 
dedo.
       - Desmond, eu... - No sabia o que dizer, pois no estava  espera daquilo. Ele nem nunca a beijara.
       - Por favor no te zangues comigo - suplicou. - No tencionava fazer isto, pelo menos desta maneira, mas Cass... - Olhou para ela implorante, parecendo subitamente 
muito vulnervel e exposto. - Apaixonei-me perdidamente por ti. Nunca esperei que isso acontecesse. Pensei que seriamos apenas amigos e depois no sei o que aconteceu. 
Mas, se no quiseres casar comigo, compreenderei. Continuaremos como sempre, faremos a volta... Cass! Por favor! Diz alguma coisa.
       Enterrou o rosto nos seus cabelos e Cassie ficou esmagada pela ternura que sentiu por ele. No o amava como a Nick, o que seria impossvel, mas amava-o como 
se ama um amigo muito querido ou algum que precise terrivelmente de ns. Queria que tudo corresse bem para ele, estar ali por ele e ajud-lo. Desejava at, se pudesse, 
apagar a dor do passado. Todavia, nunca pensara em casar.
       - Oh, Desmond! - disse suavemente enquanto ele se afastava para olhar o rosto dela e ouvir o que Cassie queria dizer.
       - Ests zangada comigo?
       - Como poderia estar? - Estava estupefata. No sabia o que dizer.
       - Oh, Cassie! Como eu te amo - sussurrou ele, beijando-a pela primeira vez sem esperar que ela lhe dissesse se ficaria com o anel. Cassie ficou espantada 
com a extenso da sua paixo. Desmond era profundamente emocional. Muito mais do que ela imaginara. H anos que tinha tudo fechado dentro dele. Beijou-a novamente 
e Cassie ficou surpreendida quando respondeu ao beijo. Estava quase sem flego quando se afastaram. Toda a experincia era estonteante, e estava confusa com tudo 
o que estava a sentir. Desmond era uma pessoa muito mais poderosa do que ela.
       - Acho que isto deveria ser o noivado e no a lua-de-mel - disse. Ele sorriu com um ar juvenil e com excitao no olhar.
       - Sim?  o noivado, Cass? - No conseguia acreditar no que estava a ouvir. Queria que fosse, mas ela ainda no tinha a certeza. Fora tudo muito inesperado.
       - No sei. Eu... eu no estava  espera. - Mas no parecia zangada e ainda no dissera no.
       - No espero que me ames j. Sei do teu amigo da RAF. Se... se achas que... Cassie! Tens de fazer o que  melhor para ti. E ele? - Precisava de saber e a 
jovem queria ser honesta com ele.
       - Ainda o amo. - No conseguia imaginar amar outro que no Nick. Sempre o amara. - Mas diz que nunca casar comigo. A ltima vez que o vi, foi-se embora furioso 
por causa da viagem e desde ento no soube nada dele. Acho que no saberei. - Cassie olhou para Desmond com um ar desolado, recordando a ltima vez que estivera 
com Nick. Porm, com Desmond tudo era diferente.
       - Como  que isso nos deixa? - perguntou ele serenamente.
       Olhou-o e tremeu. Desmond era muito bom e compreensivo com ela, e Cassie sabia que no podia abandon-lo depois de tudo o que fizera por si. No entanto, no 
lhe parecia correto amar um homem e casar com outro. No era justo para com Desmond, mas este parecia estar disposto a aceitar a situao. De qualquer modo, Cassie 
sabia que Nick nunca casaria consigo. Era o homem mais teimoso do mundo. Ela e Desmond tinham muito em comum: partilhavam o negcio e a volta. juntos poderiam fazer 
grandes coisas. Se no podia ter Nick, ento o melhor que podia fazer era casar com um bom amigo. No lhe parecia possvel encontrar outro homem que amasse tanto 
como a Nick, mas, com o tempo, e apesar de ser pouco provvel, talvez conseguisse amar Desmond da mesma maneira. De certo modo, j gostava profundamente de Desmond. 
O casamento poderia ser um lao mais profundo entre eles. No entanto, doa pensar 
em casar com algum que no fosse Nick Galvin.
       - No tenho a certeza. - Olhou honestamente para Desmond. - No quero enganar-te. j tiveste dois casamentos dos quais saste a perder. Eu... - Olhou-o nos 
olhos e viu toda aquela esperana desesperada. Ele suplicava sem proferir uma palavra e Cassie apenas queria agradar-lhe. Queria ajud-lo e estar a seu lado. Talvez 
isso significasse amor.
       - Eu sei quanto ele deve significar para ti - disse Desmond compreensivamente. - No estou  espera de o substituir da noite para o dia, Cass. Eu compreendo. 
Apenas te amo.
       - Eu tambm te amo - disse suavemente. E era verdade. Dava muito valor  sua amizade e lealdade. Respeitava e admirava tudo nele. Desmond s lhe fizera coisas 
boas. Fora maravilhoso desde o momento em que se conheceram e agora queria dar-lhe tudo: queria que ela se tornasse Mrs. Desmond Williams. No pde deixar de sorrir 
ao pensar nisso. Era um pouco mais do que surpreendente.
       - Se o casamento no resultar para ti, pedirei o divrcio disse ele como que para a acalmar, mas parecia horrorizado com a idia.
       Nunca faria isso. - Tinha o casamento dos pais como exemplo. - No quero parecer ingrata ou hesitante. - Estava  procura das palavras exatas enquanto ele 
a observava. os olhos de Desmond no deixavam os seus e sentia-se penetrada pelo poder do seu desejo. Ficou admirada com a intensidade quando lhe agarrou a mo e 
se sentou junto dela. Conseguia sentir a intensidade do seu desejo e de tudo o que queria dar-lhe.
       - Nunca te farei mal, Cass, e nunca irei interferir na tua individualidade. s demasiado importante para mim para te tentar cortar as asas. Se nos casarmos, 
podes ser e fazer tudo o que quiseres.
       - Queres ter filhos? - Sentiu-se envergonhada ao perguntar. A questo era mais ntima do que a relao que tinham tido at ao momento.
       - No so importantes - disse ele honestamente. - Talvez um dia, se quiseres e, no estiveres demasiado ocupada com os teus vos. Mas acho que deves pensar 
no assunto. Tenho imensas coisas importantes para fazer contigo. Ter filhos  capaz de ser mais apropriado para mulheres como as tuas irms.  o emprego delas. Tu 
tens o teu que  muito importante, mas no estou a dizer-te que no tenhas um filho. Apenas me pergunto se  realmente isso que queres.
       - Nunca tive a certeza. Costumava pensar que no queria. - Depois, com Nick, comeara a pensar que gostaria de ter filhos dele. No se sentia preparada para 
desistir definitivamente da idia. Cassie sabia que era demasiado cedo e ainda muito jovem para decidir.
       - Tens muito tempo para tomar as tuas decises. Aos vinte e um anos no  muito importante. Tens de pensar na viagem. - Fora a volta que os aproximara e no 
conseguia imaginar estar ainda mais junto dele se casassem.
       - Desmond! No sei que dizer. - Estava quase a chorar e ele abraou-a.
       - Diz que casas comigo - pediu, colocando-lhe o brao  volta dos ombros e apertando-a junto a si. - Diz que confias em mim. Diz que, mesmo que no tenhas 
a certeza agora, acreditas que um dia poders amar-me. Eu amo-te, Cass. Amo-te mais do que tudo na vida.
       Como  que ela podia negar aquilo? Como poderia desiludi-lo e fugir dele? Como poderia esperar por Nick uma vida inteira se sabia que este no casaria consigo? 
O pai dissera-lhe o mesmo, a ltima vez que Nick fora a casa. Se Nick no casava com ela, no tinha o direito de interferir no seu futuro ou nas suas decises.
       - Sim. - A palavra no passou de um sussurro e ele olhou-a espantado. - Sim - repetiu em voz muito baixa. Sem mais uma palavra, ele beijou-a. Pareceu durar 
horas e Cassie tremia de emoo.
       - Os meus pais vo ficar estupefatos - afirmou, parecendo subitamente uma criana. Ocorrera-lhe agora que tudo iria ser diferente.
       - Porque no vens comigo a casa passar o Natal? - Queria lev-lo para junto da famlia. Se se iam casar, era importante que Desmond os conhecesse e passasse 
algum tempo com eles. Os pais nem sequer se lembravam de o ter visto quando Chris morrera, e o anncio do casamento tornaria o Natal dos O'Malley particularmente 
feliz.
       Desmond, porm, no pareceu muito  vontade com o convite. No tinha um Natal em famlia h anos e j no lhe fazia falta.
       - Eu no quero impr a minha presena, querida. Especialmente este ano. Pode ser de mais para os teus pais, e este tipo de festas no so o meu ponto forte.
       Ela ficou terrivelmente desiludida.
       - Desmond, por favor. Vo pensar que inventei tudo e que roubei o anel.
       - No, no vo. Telefonar-te-ei trs vezes por dia. Tenho imenso trabalho e tu sabes isso melhor do que ningum. Quando voltares, iremos fazer esqui no fim-de-semana.
       A ltima coisa que ele queria era passar o Natal em Illinois com os O'Malley. S a idia lhe dava uma sensao desesperada de desconforto e nenhum dos argumentos 
de Cassie o convenceu.
       - No quero ir esquiar. Quero que venhas a casa comigo - insistiu ela com lgrimas nos olhos. Ficou subitamente esmagada pelos acontecimentos e emoes. Estava 
noiva de Desmond Williams. Era espantoso e, no meio de tudo aquilo Cassie esforava-se por no pensar em Nick Galvin.
       - Prometo que irei no ano que vem - retorquiu ele firmemente.
       - Espero bem que sim - disse, chocada com a idia de no irem. - No vais s ter-me a mim. Vais ter tambm a minha famlia e somos muitas pessoas. - Estava 
radiante com a idia de anunciar o seu noivado.
       - Para mim, h apenas uma - disse com intensidade, beijando-a de novo e, por uma frao de segundo, ela pensou em Nick, sabendo que o tinha trado. Enquanto 
pensava nele, lembrou-se dos avisos em relao a Desmond, mas Nick errara no seu juzo. Desmond era um homem decente. Amava-a e ela sabia que, com o tempo, teriam 
uma boa vida juntos.
       - Para quando marcamos a data? - disse Desmond, interrompendo-lhe os pensamentos e enchendo-lhe o copo com champanhe. - No esperemos muito tempo. No sei 
se o suportarei. Ters de manter a Nancy junto de ti para te proteger. - Desmond sorriu intencionalmente e ela corou.
       - Terei o cuidado de a avisar - respondeu Cassie suavemente. Era feliz com ele, sempre fora e at naquele momento pareciam mais dois amigos do que dois amantes, 
 exceo do sbito fervor dos seus beijos.
       - Que tal no dia de So Valentim? - sugeriu ele. -  um bocado antiquado, mas gosto da idia. O que achas? - Parecia estar a planejar a viagem, mas ela no 
se importou. Estava habituada a ver Desmond controlar tudo, contudo sabia que ele respeitava as suas opinies.
       Era tambm muito romntico. Ia casar com o homem que qualquer mulher do mundo desejaria e este queria casar-se no dia de So Valentim. Perguntou a si prpria 
se haveria algo mais perfeito. S se Nick tivesse tido outra atitude. Mas Cassie no queria pensar nisso. No podia. Agarrar-se-ia para sempre, ao sonho, pois no 
passava disso.
       - O dia de So Valentim.  daqui a menos de dois meses - disse, com um olhar espantado. - Teremos um grande casamento? - Estava a olhar para o anel e a v-lo 
brilhar, pois parecia um farol. Tudo parecia to irreal. Fora uma noite notvel.
       Gostas? - perguntou Desmond, puxando-a novamente para si e beijando-a.
       - Adoro-o. - Nunca vira um brilhante daquele tamanho. Era muito mais do que espantoso,  semelhana de Desmond Williams.
       - Em resposta  tua pergunta - disse ele com um sorriso, enquanto a jovem fazia brilhar o anel e bebia champanhe -, no. Acho que no devemos ter um grande 
casamento. Penso que devemos juntar apenas as pessoas mais chegadas. - Beijou-a novamente e explicou o motivo. - Este pode ser o teu primeiro casamento, meu amor, 
mas no  o meu. Penso que  terceira vez deve ser-se discreto para no causar muitos comentrios.
       - Ah! - No se lembrara que ele era divorciado e que no podiam casar na igreja. Perguntou a si prpria se os pais se importariam muito, se bem que nunca 
tivessem sido muito religiosos. - Qual  a tua religio? - perguntou inocentemente. Nunca se lembrara de lhe perguntar. - Eu, sou catlica.
       Ele sorriu. Por vezes, ainda se comportava como uma criana, porm adorava essa faceta de Cassie.
       - Perteno  Igreja Episcopal, mas penso que um juiz de paz servir muito bem, no achas? - Sentindo-se arrastada pelas suas ondas, Cassie apenas acenou com 
a cabea. - E precisars de um lindo vestido. Algo de curto, mas elegante, em cetim branco e um chapu com um pequeno vu.  uma pena no podermos encomend-lo em 
Paris. - Chapus de Paris, brilhantes de quinze quilates, casamento com Desmond Williams no dia de So Valentim. De repente, Cassie ficou a olhar para ele, perguntando 
a si prpria se tinha sonhado. Desmond estava ali sentado a falar de vestidos brancos. e de chapus com vus e ela tinha no dedo o maior brilhante que j vira. Olhou 
para cima com os olhos cheios de lgrimas, parecendo uma criana.
       - Desmond! Diz-me que no estou a sonhar.
       - No ests a sonhar, meu amor. Estamos noivos e, dentro em breve, estars casada comigo para sempre, para o melhor ou para o pior. - Estava com um ar triunfante 
e muito contente.
       - Queres casar-te aqui? - perguntou ela em voz baixa, encostando-se-lhe. Era demasiado para si e quase se sentia fraca ao olhar para ele. De repente, entendeu 
como Desmond era poderoso e bonito. Possua uma sexualidade calma que mantinha sempre controlada, mas agora Cassie sentia a sua proximidade e interesse. Ainda no 
parara de a beijar desde que pedira a sua mo e ela sentia-se estonteada.
       - Acho que devamos casar aqui. No  como se nos casssemos pela igreja em Illinois, Cass. Penso que assim  mais simples, mais discreto e no precisamos 
de dar tantas explicaes.
       - Tens razo. Espero que os meus pais venham.
       - Claro que viro. Iremos l busc-los. Podem ficar no Beverly Hills.
       - A minha me vai morrer de contentamento - disse ela sorrindo.
       - Espero que no. - Depois, tomou-a novamente nos braos e esqueceu-se de todos os preparativos. Ela era to nova, to doce, to pura, que quase se sentia 
culpado de a beijar. No entanto, agora desejava tudo. Mas sabia que ainda era muito cedo.
       Nessa noite, teve de se forar a sair, telefonou-lhe assim que chegou a casa e, como sempre, s trs e meia da manh. Conversaram como velhos amigos, sendo 
excitante saber que em breve ela seria sua mulher e que partilharia a sua vida para sempre. Decidiram, de comum acordo, no dizer a ningum at Cassie comunicar 
aos pais. Ambos sabiam que todo o pas ficaria muito contente.
       Levou-a ao aeroporto e, como era habitual, ela j preparara um avio para ir a casa. Porm, desta vez, ele pediu-lhe repetidamente para ter cuidado.
       - Isto no me afetou o crebro. Ou talvez sim. - Sorriu, beijando-o novamente. Viu um dos membros do pessoal de terra a olhar para eles e a sorrir. - Se no 
tiveres cuidado, aparecer em todos os jornais.
       Algo de mais dramtico poder aparecer nos jornais se no casares comigo rapidamente, Miss O'Malley.
       - S me pediste a noite passada! Por amor de Deus, d-me oportunidade de arranjar um vestido e um par de sapatos. No ests  espera que me case de uniforme, 
pois no?
       - Provavelmente. Ou at com menos. Talvez fosse melhor ir para Illinois contigo. - Estava apenas a brincar. Ela sabia que Desmond tinha demasiados afazeres 
com a volta ao Pacfico para poder ir fosse onde fosse. No entanto, tinha pena que ele no fosse.
       - Os meus pais vo ficar muito desiludidos - afirmou sinceramente. Em especial, quando ouvissem as notcias. Ela prpria ainda no conseguia acreditar, mesmo 
quando olhava para o anel que tinha no dedo. Nunca esqueceria a ternura com que Desmond lhe fizera o pedido de casamento.
       - Vai com cuidado, meu amor - avisou Desmond novamente. Alguns minutos mais tarde, afastou-se do avio e ficou a acenar enquanto a observava da pista. Ela 
descolou facilmente e o vo foi tranqilo. Tinha muito tempo para pensar nele e em Nick durante o caminho. Ainda estava a sofrer por causa de Nick, mas este fizera 
a sua escolha. Agora, ambos teriam de continuar com as suas vidas.
       O vo at Good Hope levou exatamente sete horas. Aterrou  hora de jantar, e a primeira pessoa que viu no aeroporto foi Billy.
       - Ests pronto para vir para a semana para a Califrnia? - perguntou, mas era uma pergunta desnecessria. Estava pronto para partir naquela noite. Havia semanas 
que no pensava noutra coisa e, ao assinar o dirio de vo de Cassie, reparou no anel e ficou estupefato.
       - O que  isso? Um disco voador?
       - Mais ou menos. - Sorriu-lhe, sentindo-se subitamente embaraada, mas, mais cedo ou mais tarde, teria de lhe dizer. -  o meu anel de noivado. Desmond e 
eu ficamos noivos a noite passada.
       - Ficaram? - Olhou-a, incrdulo, sabendo que era impossvel. Ou no era? E o Nick?
       - O que tem ele? perguntou Cassie friamente.
       - Tudo bem. Desculpa a pergunta, mas ele sabe? Disseste-lhe? - Ela abanou a cabea. - Vais dizer-lhe? Escreveste-lhe?
       - Ele no me escreve - disse tristemente. Porque  que Billy estava a faz-la sentir-se culpada? - Mais cedo ou mais tarde, saber.
       - Acho que sim - disse Billy, confuso com o que Cassie fizera. Desde que a conhecera que sabia que ela e Nick se amavam. - Ele vai ficar muito transtornado, 
no vai? - disse Billy calmamente. Cassie acenou com a cabea, lutando para no chorar. Tomara a sua deciso e no podia desiludir Desmond que a queria para sua 
mulher. Nick afirmara que no queria. Todavia, estar ali tornava mais real a presena de Nick, o que dificultava um pouco as coisas.
       - No posso evitar que Nick fique perturbado - disse calmamente a Billy. - No queria qualquer tipo de laos quando partisse. Disse-me para casar com outro. 
- Cassie olhou para Billy com uma expresso triste.
       - Espero que tenha sido sincero - retorquiu Billy. Depois, conduziu-a a casa dos pais. Todos estavam  sua espera e foi apenas uma questo de segundos at 
uma das irms gritar e apontar-lhe para o dedo.
       - Meu Deus! O que ? - perguntou Megan enquanto Glynnis e Colleen chamavam a ateno da me, que estava a brincar com as crianas.
       - Acho que  uma lmpada - explicou o marido de Colleen.
       - S pode ser - disse Megan a brincar, enquanto os pais trocavam olhares. Cassie no lhe dissera nada pelo telefone.
       -  o meu anel de noivado - disse Cassie calmamente.
       - Isso j eu tinha percebido - retorquiu Glynnis. - Quem  o felizardo? Alfred Vanderbilt? Quem ?
       - Desmond Williams. - No momento em que proferiu o seu nome, o telefone tocou. Era Desmond. - Acabei de lhes dizer - explicou. - As minhas irms ficaram em 
choque quando viram o anel.
       - Que disseram os teus pais?
       - Ainda no tiveram oportunidade de dizer nada.
       - Posso falar com o teu pai, Cassie? - pediu Desmond Cassie passou o telefone a Pat e depois a Oona as irms j deliravam e os cunhados brincavam com ela. 
Dissera-lhes que casaria em Los Angeles no dia de So Valentin e que Desmond mandaria buscar os pais para o casamento.
       Pat e Oona regressaram do telefone. A me chorava um pouco, que era o que ela mais fazia nos ltimos tempos, e abraou Cassie.
       - Parece um homem muito simptico. Prometeu-me que sempre cuidaria de ti como se fosses uma menina. - Beijou Cassie, e Pat tambm parecia contente. Desmond 
dissera-lhe tudo o que queria ouvir, mas, nessa noite, quando ficou a ss com a filha, fez-lhe algumas perguntas, cujas respostas precisava de saber.
       - E o Nick, Cass? Se Deus quiser, ele regressar. No podes ficar zangada para sempre e no podes casar com outro homem por estares zangada com ele.  uma 
atitude muito infantil e Mister Williams no o merece. - Gostara de Desmond, mas queria ter a certeza que a filha estava a ser honesta com ele e consigo prpria.
       - Juro que no vou casar por vingana. Ele s me fez o pedido ontem  noite e apanhou-me de surpresa. Mas est sozinho e teve uma vida muito solitria... 
 uma pessoa decente, quer casar comigo e, de certo modo, eu amo-o. No como amo Nick. Somos amigos e eu devo-lhe muito.
       - No deves tanto a ningum, Cassie O'Malley. Ele paga-te um salrio e tu merece-lo.
       - Eu sei, pai, mas Desmond tem sido muito bom para mim. Quero estar junto dele e, sabe.... alm disso, compreende o caso com Nick. Acho que com o tempo poderei 
realmente vir a am-lo.
       - E o Nick? Que fars com ele? - Fixou-a nos olhos. Consegues dizer-me que no o amas?
       - Ainda o amo, pai - suspirou ela. - Mas nada mudar. Vai regressar a casa e dizer-me novamente a razo por que no casa comigo.  demasiado velho e pobre. 
Talvez no me ame sinceramente. No me escreveu desde que se foi embora, e antes de partir continuava a afirmar que no queria ligaes, laos ou um futuro. Ele 
no me quer, pai, e o Desmond quer. Precisa de mim.
       - E consegues viver com isso? Sabendo que amas outro homem?
       - Acho que sim, pai - disse suavemente. Mas s de pensar em Nick ficava com as pernas bambas. Voltar a casa, tornava a sua presena mais acutilante, mas sabia 
que, por Desmond, devia afast-lo do pensamento.
       -  melhor teres a certeza absoluta antes de casares com este homem, Cassie O'Malley.
       - Tenho a certeza. Serei justa com ele. Prometo.
       - No vou permitir que andes a engan-lo ou que partas com Nick quando este voltar. Nesta casa, uma mulher casada  uma mulher casada.
       - Sim, senhor. - Ficou impressionada com o que o pai lhe dissera e com a maneira como o dissera.
       - O casamento  um voto sagrado seja onde for.
       - Eu sei, pai.
       - No te esqueas disso e no desonres esse homem. Parece amar-te.
       - No o desiludirei, nem a si. Prometo.
       O pai acenou com a cabea, satisfeito com as respostas, mas agora havia outra coisa que desejava saber. Talvez fosse injusto, mas tinha de fazer a pergunta.
       - Lembras-te do que o Nick disse antes de partir? Que o Williams tentaria casar contigo para publicitar ainda mais a volta ao mundo? Achas que o est a fazer 
ou est a ser sincero? Eu no conheo o homem, Cassie, e quero que penses um pouco e que mo digas. - As palavras de Nick tinham-lhe vindo  cabea nessa noite, quando 
Cassie participara que ia casar-se com Desmond Williams.
       Afinal, ela s tinha vinte e um anos e era ainda muito ingnua. Williams tinha trinta e cinco e muito mundano. Engan-la teria sido uma brincadeira de crianas. 
Mas, ao pensar no assunto, Cassie abanou a cabea. Desta vez, Cassie tinha a certeza de que Nick estava enganado.
       - No acredito que me fizesse uma coisa dessas.  apenas uma coincidncia. Temos trabalhado juntos desde que lhe disse que faria a volta, e ele  um homem 
muito s. Acho que foi um acidente, e o fato de Nick o ter afirmado  apenas uma coincidncia. Foi muito mauzinho. Estava com cimes.
       Pat acenou com a cabea, ansioso por acreditar nela e aliviado, mas depois teve de lhe sorrir.
       - Isso no  nada, comparado com o ataque que vai ter quando voltar para casa e descobrir que te casaste. Eu avisei-o.
       - Bem sei. Penso que ele no quer estar ligado a ningum e muito menos a mim - afirmou Cassie, parecendo agora aceitar o seu destino, que era muito bom. O 
pai parecia estar satisfeito com o que ela dissera.
       Olhou ternamente para ela, na vspera de Natal, deu-lhe a mo e beijou-a na face. Havia lgrimas nos olhos de Pat quando lhe falou e nos dela quando o ouviu.
       - Cassandra Maureen, tens a minha bno.

CAPTULO 16
       Cassie ficou em casa at ao dia 31 de Dezembro e, de manh, ela e Billy voaram juntos para Los Angeles. Ficaram todos muito emocionados quando eles partiram. 
Desta vez, a maior parte da famlia foi ao aeroporto. At os pequenos Annabelle e Humplirey. Cassie queria passar a vspera de Ano Novo com Desmond e, quando chegou, 
ele estava  sua espera na pista. Trazia um casaco azul-escuro que flutuava com a brisa, enquanto o Sol se punha atrs dele. Estava muito bonito e com um ar muito 
distinto. Era um homem extremamente aristocrtico e faziam um casal fulgurante.
       Desmond subiu facilmente para a carlinga, assustando-a ao beij-la nos lbios e ao sorrir-lhe mesmo antes de ela sair do lugar. Parecera no reparar em Billy 
que virou a cara com um sorriso enquanto eles se beijavam.
       - Ol, Miss O'Malley. Tive saudades tuas.
       - Eu tambm - disse ela com um sorriso tmido. jantara com toda a famlia na noite anterior e todos tinham brindado ao seu noivado. Estavam muito entusiasmados 
com o casamento, que teria lugar da a seis semanas, e todos queriam conhec-lo. Subitamente, ela era a mais bem sucedida. Era a estrela mais brilhante, e o seu 
anel de noivado brilhava de maneira impressionante na sua mo esquerda como que a prov-lo.
       - Tenho uma surpresa para ti - disse ele com um grande sorriso, depois de finalmente cumprimentar Billy. Este estava a juntar as suas coisas e pronto a sair 
do avio.
       - Mais uma surpresa - afirmou Cassie, radiante, inclinando-se no assento. - Na ltima semana a minha vida tem estado recheada de surpresas. - Ainda era difcil 
acreditar que estavam noivos h apenas uma semana. J parecia que lhe pertencia para sempre. Cassie estava a habituar-se e gostava. Era muito excitante estar noiva 
daquele homem.
       Pensara muito em Nick durante a estada em Illinois, mas esforara-se por se recordar que este queria que ela casasse com outro. Desistira dela intencionalmente, 
e Desmond queria-a muito e precisava dela. Sorriu-lhe ao pensar nisso e ele voltou a beij-la, tocando-lhe gentilmente o rosto com os dedos. O pessoal de terra esperava 
c fora respeitosamente. J se sabia do seu caso: a O'Malley seria a prxima Mrs. Williams.
       - Qual  a surpresa? - perguntou Cassie muito excitada enquanto Billy a observava. Williams parecia estar mesmo louco por ela, mas Billy ainda tinha pena 
de Nick Galvin. Aquilo iria destru-lo.
       - Temos uns amigos  nossa espera l fora - explicou.
       - Quando  o grande dia? - gritou o representante do L. A, Times, enquanto outro do Pasadena Star News tentava furar para tirar outra fotografia. O New York 
Times tirou mais duas, e o San Francisco Chronide quis informaes sobre a volta ao Pacfico e sobre a lua-de-mel.
       - Esperem l. Esperem! - Desmond sorriu-lhes amigavelmente. - O grande dia  no dia de So Valentim, a volta ao Pacfico  em julho e no vamos passar a lua-de-mel 
no North Star. - Era o nome do avio que ela escolhera para a viagem. Desmond, deixando cair a cabea com um sorriso que a fez rir. - Acho que fiquei to entusiasmado 
que falei demais. Alguns dos rapazes da American Press querem tirar-nos uma fotografia juntos. Todos querem ser os primeiros, e eu disse -lhes que tu no estavas 
c, mas que voltavas esta noite. Quando cheguei, eles j c estavam. Importas-te muito, Cass? Ests muito cansada do vo? Estou to orgulhoso que no consegui deixar 
de lhes dizer que estvamos noivos. - Desmond parecia ainda mais vulnervel e infantil. Havia alturas em que parecia um grande milionrio ou at mesmo um frio homem 
de negcios; havia outras em que parecia um rapazinho, e Cassie tinha uma vontade imensa de o abraar.
       - No faz mal. Tambm estou muito entusiasmada. Disse a toda a gente em Illinois. Acho que, se a imprensa l estivesse, no sairia da nossa porta. - Levantou-se 
na carlingal agarrou no seu saco com mapas e com o dirio de bordo, e Desmond tirou-lho das mos. Depois olhou para Billy como se subitamente se tivesse lembrado 
de que ele estava ali.
       - Acho que no deve fazer mal termos o nosso co-piloto conosco. Por favor, junte-se a ns. - Convidou Billy com um sorriso, mas o jovem ficou com um ar envergonhado.
       - No quero intrometer-me.
       - De modo algum. - Insistiu em inclu-lo enquanto Cassie se penteava e pintava os lbios.
       Desmond foi o primeiro a sair do avio com Cassie imediatamente atrs. Quando ela apareceu, dispararam centenas de flashes que quase a cegaram. Ambos acenaram 
para os reprteres e depois ele virou-se e beijou-a. Quando pisou a pista, ficou atordoada ao verificar que deviam l estar cerca de vinte fotgrafos. Nem sequer 
repararam em Billy.
       Depois fizeram mais cem perguntas e, durante todo aquele tempo, Desmond manteve-se ao lado de Cassie, sorrindo e rindo para a imprensa, enquanto ela tentava 
compreender tudo o que estava a acontecer.
       - Acho que  tudo, rapazes - disse Desmond finalmente - A minha noiva fez um longo vo. Temos de ir para casa para ela descansar. Obrigado por terem vindo.
       Tiraram mais uma dzia de fotografias enquanto o casal entrava para o Packard, e um dos membros do pessoal de terra dava boleia a Billy. Cassie acenou ao 
afastarem-se. Da noite para o dia, tornara-se a noiva do ano e a namorada da Amrica em uniforme de vo.
       - Parece to estranho, no parece? - perguntou Cassie, ainda lutando para absorver tudo aquilo. - Eles agem como se fssemos estrelas de cinema, Esto todos 
muito excitados.
       Em Illinois as pessoas abordavam-na na rua para fazer perguntas sobre a volta ao Pacfico e ainda nem sequer sabiam que estava noiva.
       - As pessoas adoram contos de fadas, Cass - disse Desmond enquanto a conduzia a casa. Deu-lhe umas palmadinhas no joelho, pois Cassie estava sentada ao seu 
lado. Tivera realmente muitas saudades dela. -  bonito ser capaz de lhes proporcionar isso.
       - Provavelmente. Mas  estranho ser vista como tal. Continuo a achar que eu sou apenas eu, mas eles agem como se... No sei... Como se eu fosse outra pessoa. 
Algum que eu nem sequer conheo. Agora querem saber e tomar parte em tudo. - Era como se quisessem possu-la e isso fazia com que se sentisse desconfortvel. Uma 
noite tentara explic-lo ao pai, e Pat lembrou-lhe que ainda seria pior depois da volta e que visse o preo que o pobre Lindy tinha pago: o filho raptado e assassinado. 
O preo da fama podia ser assustador, mas Pat esperava que Desmond a protegesse.
       - Tu agora pertences-lhes, Cass - afirmou Desmond como se acreditasse no fato. O que era ainda mais estranho  que parecia aceit-lo. - Eles querem-te. No 
 justo recuar. Querem partilhar a tua felicidade e  bonito deix-los. - Desmond parecia sempre sentir que devia muito ao pblico.
       Todavia, Cassie no estava preparada para a intensidade da sua ateno durante as seis semanas que faltavam para o casamento. Era seguida e fotografada por 
todo o lado: no hangar, no escritrio enquanto revia as cartas e mapas com Billy, fora do apartamento, a caminho do trabalho, nos grandes armazns, a comprar o vestido 
de noiva e sempre que aparecia em pblico com Desmond.
       Agora andava sempre com Nancy Firestone e, por vezes, tentava esconder-se por baixo de um grande chapu ou com um leno e culos escuros. Mas a persistncia 
da imprensa era impressionante. Penduravam-se nas escadas de emergncia e nos parapeitos das janelas, saltavam de toldos, deitavam-se sob arbustos e escondiam-se 
dentro dos carros. Surgiam constantemente  sua frente, vindos no se sabia de onde e, em princpios de Fevereiro, Cassie j pensava que estava a enlouquecer; pela 
primeira vez, Nancy no conseguia ajud-la em nada. Como era muito organizada, Nancy parecia ter muito em que pensar e parecia estar pouco interessada nos pormenores 
do casamento de Cassie. Desmond dissera a Cassie para no se preocupar e mandara Miss Fitzpatrick e uma assistente tratar de todos os pormenores. Cassie j tinha 
muito que fazer, pois era obrigada a lidar com a imprensa e a preparar a volta ao Pacfico. No queria que ela se distrasse com a organizao do casamento.
       Quando Cassie tentava falar-lhe sobre Nancy Firestone, Desmond nunca a levava a srio. Ela tentava explicar-lhe que, ultimamente, Nancy parecia estar aborrecida 
e no sabia porqu. Desde o anncio do noivado de Cassie e Desmond que Nancy se tornara irritvel e fria, sem haver uma explicao racional para isso. A prpria 
Nancy parecia passar menos tempo com ela e, uma noite em que Cassie a convidara para jantar, insistira que precisava de ficar em casa e ajudar Jane a fazer os trabalhos 
da escola.
       - No sei o que se passa com Nancy. Sinto-me muito mal. Por vezes, penso que me odeia. - Nunca se tinham aproximado tanto como Cassie gostaria quando a conhecera, 
mas haviam tido uma relao agradvel e gostavam da companhia uma da outra quando trabalhavam juntas.
       - Provavelmente,  o casamento que est a perturb-la - disse Desmond com a racionalidade de um homem que analisa uma situao. - Talvez lhe faa recordar 
o marido e ela tenha recuado para no se envolver ou perturbar. Provavelmente, traz-lhe recordaes dolorosas - disse ele, sorrindo para a noiva. Era muito jovem 
e havia muitas coisas que no lhe ocorriam. - J te disse que trabalhes com Miss Fitzpatrick.
       - Est bem. Deves ter razo. Sinto-me estpida por no ter pensado nisso.
       Quando a viu novamente, percebeu que a explicao de Desmond se encaixava perfeitamente. Nancy foi seca com ela mais de uma vez e at um pouco agressiva quando 
Cassie pediu um conselho sobre um pormenor do casamento. A partir da, e para bem de Nancy, Cassie seguiu o conselho de Desmond e manteve as distncias. Fez o melhor 
que pde para agentar sozinha com a imprensa, mas s vezes era completamente impossvel suport-los.
       - Ser que eles no param? - perguntou Cassie um dia, j irritada, entrando a correr pela cozinha da casa de Desmond e caindo exausta numa cadeira. Estava 
a tentar retirar algumas coisas do seu apartamento, mas algum os alertou. Tinham chegado em massa antes de ela sair a porta e, a partir da, fora um circo.
       Meia hora mais tarde, Desmond entrou pela porta principal e eles fizeram-lhe um cerco. Finalmente, conseguiu convencer Cassie a sair e a posar com ele para 
os fotgrafos para acabar com aquilo. Dava-lhes sempre o suficiente para os manter felizes.
       - J est nervosa? - gritou um dos reprteres. Ela sorriu-lhes e acenou com a cabea.
       - S com o fato de vocs poderem fazer-me cair no dia do meu casamento. - Eles riram-se.
       - L estaremos - gritaram.
       Desmond e Cassie voltaram para dentro alguns minutos mais tarde, e os reprteres abandonaram o local at  manh seguinte.
       Os pais chegaram na vspera do casamento. Desmond tinha reservado uma sute no Beverly Wilshire. As irms no tinham vindo, pois era muito complicado por 
causa das crianas. Cassie estava especialmente comovida por Desmond ter convidado Billy para seu padrinho. A equipa da casa estaria toda no seu casamento. O pai 
conduzi-la-ia ao altar, se bem que a cerimnia fosse realizada por um juiz, e pedira a Nancy Firestone para ser a sua dama de honra. Nancy recusara, dizendo que 
o lugar deveria ser preenchido por uma das irms, mas finalmente aceitou, depois de Desmond falar com ela. Tinham escolhido um vestido de cetim cinzento para Nancy 
e um maravilhoso vestido branco para Cassie, da Casa Schiaparelli. Magnin fizera-lhe um pequeno chapu com um vu curto, a condizer, e Cassie levaria nas mos um 
bouquet de orqudeas brancas, lrios-do-vale, criados localmente, e rosas brancas.
       Desmond oferecera-lhe um colar de prolas que pertencera  me e um espetacular par de brincos com prolas e brilhantes.
       - Sers a noiva do ano - disse a me orgulhosamente quando olhou para ela, no hotel. Oona tinha lgrimas nos olhos, pois nunca vira Cassie to bonita. Estava 
radiante e muito excitada. - Ests to bonita, Cass - disse a me num suspiro. - Cada vez que olho para um jornal ou revista, vejo a tua fotografia - acrescentou, 
orgulhosa.
       O dia seguinte foi tudo o que tinham esperado. Fotgrafos, reprteres e equipas cinematogrficas esperavam  porta da residncia do juiz, onde iria realizar-se 
a cerimnia. At a imprensa internacional estava presente. Atiraram-lhe arroz e flores quando todos saram para regressar ao Beverly Wilshire, onde Desmond preparara 
uma pequena recepo privada. Havia uma multido  frente do hotel e junto  recepo, pois algum soubera que eles iriam para ali.
       Desmond convidara cerca de uma dzia de amigos e vrios dos seus projetistas mais importantes, especialmente o homem que concebera o avio de Cassie para 
a volta ao Pacfico. Era um grupo impressionante, e Cassie parecia a estrela de um filme. Era a coisa mais bonita que Desmond j vira e estava radiante enquanto 
danavam o Danbio Azul.
       - Ests deslumbrante, minha querida - disse ele orgulhosamente com um sorriso ainda mais largo. - Como  possvel imaginar que aquele pequeno macaquinho cheio 
de leo, que vi debaixo de um avio h menos de dois anos, se tornara uma tamanha beldade? Gostava de ter uma fotografia tua daquele dia. Nunca o esquecerei.
       Cassie deu-lhe uma pequena pancada no ombro com o bouquet e sorriu de felicidade perante o olhar dos pais.
       Foi um dia perfeito e, depois de Desmond, danou com o pai e depois com Billy. Estava muito bonito com o fato novo que comprara para a ocasio. Divertia-se 
imenso em Los Angeles, especialmente devido ao dinheiro que ganhava e tambm porque estava a gozar os melhores vos da sua vida nos avies que sempre desejara.
       - Tem uma filha muito bonita, Mistress O'Malley - disse Desmond calorosamente  sua recente sogra. Cassie comprara-lhe um vestido do azul dos seus olhos e 
um pequeno chapu a condizer. Oona estava muito bonita e muito parecida com a filha.
       -  uma rapariga de sorte - afirmou Oona timidamente. Estava to impressionada com a elegncia e o ar sofisticado de Desmond que mal conseguia falar com ele, 
que foi sempre muito bem-educado e amigvel.
       - Eu  que tive sorte - discordou ele. Pouco depois, Pat fez-lhes um brinde, desejando-lhes muitos anos felizes e muitos filhos.
       - S depois da volta ao Pacfico - imps Desmond como condio e todos riram. - Mas imediatamente depois!
       - Viva! - disse Pat orgulhoso.
       Desmond decidira deixar entrar a imprensa para tirar fotografias. Estavam  entrada do hotel, por isso pensou que era melhor faz-lo de uma maneira controlada. 
Chegaram em massa, conduzidos por Nancy Firestone e conseguiram uma fotografia muito bonita da noiva a danar com Desmond e depois com o pai. Fizeram um grande alarido 
por ele ser um s da aviao durante a ltima guerra, e Cassie forneceu-lhes todos os pormenores, sabendo que o pai se sentiria importante.
       Finalmente, os noivos fugiram para uma limusine que os esperava sob uma chuva de ptalas e arroz. Cassie usava agora um fato cor de esmeralda e uma capelina. 
As fotografias ficaram espetaculares quando Desmond a levantou nos braos e a colocou dentro da limusine. Ao partirem, acenaram pela janela traseira, enquanto a 
me chorava e acenava. O pai estava ao lado da esposa e tinha lgrimas nos olhos.
       Os recm-casados passaram a noite no Hotel Bel Air, mas na manh seguinte voaram at o Mxico para uma praia deserta, numa pequenina ilha ao largo de Mazadn, 
onde Desmond alugara todo o hotel s para eles. Era pequeno, mas completamente privado. A praia era branca como prolas e o Sol estava brilhante e quente, correndo 
sempre uma brisa ligeira.  noite, os mariachis faziam-lhes serenatas. Era o local mais romntico que Cassie jamais conhecera e, enquanto estavam deitados na areia 
a conversar, Desmond recordou-lhe que alguns dos locais por onde passaria na viagem seriam ainda mais bonitos e mais exticos.
       - Vais fazer algo de incrivelmente importante para a aviao, Cassie. Isso  o que conta mais. - Disse-o com firmeza, como se falasse com uma criana que 
no estava a prestar ateno aos trabalhos de casa.
       - Nada  mais importante do que ns - corrigiu ela, mas Desmond abanou a cabea.
       - Ests enganada, Cass. O que vais fazer  muito mais importante. As pessoas recordar-te-o durante centenas de anos. Homens tentaro seguir o teu exemplo. 
Os avies tero o teu nome e sero concebidos a partir do teu. Ters provado que viagens de avio sobre grandes extenses de gua so perfeitamente seguras desde 
que no avio apropriado. Uma mirade de pessoas e idias ser afetada. No penses nem por um instante que no  da maior importncia.
       Ele fazia com que tudo soasse to srio e solene que nem parecia tratar-se de um vo. Por vezes, Cassie perguntava a si prpria se ele no estaria a dar demasiada 
importncia, qual um jogo que deixara de ser divertido e se tornara vital para a vida das pessoas.  claro que a dela e a de Billy dependiam disso, mas, mesmo assim, 
ela nunca perdera de vista a alegria que proporcionava. Desmond j a perdera.
       - Continuo a pensar que tu s mais importante. - Virou-se de costas dentro do seu novo fato de banho branco e apoiou-se nos cotovelos. Ele sorriu quando a 
viu.
       - s demasiado bonita, sabias? - disse, admirando a ligeira clivagem entre os seus seios. Tinha um corpo desejvel - Distrais-me.
       - timo - disse Cassie confortavelmente. - Ests precisar.
       - No tens vergonha?
       Inclinou-se e beijou-a e pouco depois voltaram para o quarto. Ambos estavam admirados com a facilidade com que se tinham adaptado. Inicialmente, Cassie tivera 
medo dele e do que poderia ser o amor fsico, mas Desmond surpreendera-a por no a ter forado e ter passado a noite no Hotel Bel Air apenas abraado a ela, fazendo-lhe 
festas e falando das suas vidas, sonhos e futuro. Tinham at falado da viagem e do que significava para eles.
       Isso fizera com que Cassie se sentisse, como sempre,  vontade com ele. S na tarde seguinte, quando chegaram ao hotel no Mxico,  que ele se permitiu despi-la. 
Tirou-lhe a roupa gentilmente e ficou a olhar para o seu corpo maravilhoso. Era alta e magra, com seios redondos e firmes, uma estreita cintura que conduzia a umas 
ancas estreitas mas atraentes, e umas pernas quase to altas como as dele. Possura-a lenta e cuidadosamente e, naquela semana, mostrara-lhe os maravilhosos xtases 
da unio dos seus corpos. Como tudo o que fazia, Desmond f-lo com percia, bem e com uma preciso extraordinria, e Cassie tinha estado  sua espera. Quisera ser 
sua mulher, estar junto dele, fazer amor com ele e provar-lhe que algum o amava. Cassie era saudvel, jovem, viva e excitante. Desmond era mais controlado, mas 
ela levara-o a pontos que j esquecera h muito, dando por si a gozar a juventude e a entrega inesperada que Cassie lhe trouxera.
       - Eu no sei - disse nessa tarde depois de fazerem amor, - mas tu s perigosa.
       Adorava fazer amor com ela. Muito mais do que esperara. Havia um calor e uma sinceridade nela que, juntamente com a paixo, o surpreendiam e comoviam.
       - Talvez devssemos desistir de voar e passar a vida na cama a fazer bebs - afirmou ela. Depois resmungou consigo prpria, ao pensar que estava a tornar-se 
como as irms. F-la pensar se fora isso que lhes acontecera. Era muito fcil ficar arrebatada nos braos do homem amado e abandonar-se aos prazeres da carne e s 
conseqentes recompensas naturais.
       - Sempre pensei que elas estavam a perder muita coisa ao casarem to cedo e terem tantos filhos - explicou-lhe ela enquanto estavam deitados lado a lado na 
praia com os corpos quentes, midos e satisfeitos. - Penso que agora percebo como acontece.  to fcil deixar as coisas acontecerem, ser mulher, casar e ter filhos.
       Desmond, porm, abanou a cabea ao ouvi-la.
       - Nunca poders fazer isso, Cass. O teu destino reserva-te coisas bem mais importantes.
       - Talvez. Para j. - Se ele o dizia... Naquele momento, sentia que s estava destinada a estar nos seus braos e no desejava mais nada. Apenas ser dele para 
sempre. A sbita apresentao ao seu lado fsico levara-a a lugares que nunca conhecera, e gostava. - Mas um dia gostaria de ter filhos. - Desmond respondeu-lhe 
que estaria disposto a isso se ela o desejasse.
       - Antes disso ainda tens muito a fazer. Coisas importantes - disse ele, voltando a parecer um professor. Cassie sorriu e virou-se para o olhar e passar sedutoramente 
um dedo pelo seu corpo.
       - Consigo pensar em coisas muito importantes... - disse maliciosamente, enquanto ele se ria e a deixava fazer o que queria. Os resultados eram inevitveis. 
O Sol estava a pr-se na sua ilha deserta quando se largaram novamente como dois pedaos de destroos sem vida no oceano.
       - Que tal foi a lua-de-mel? - gritaram os reprteres que estavam no relvado da casa quando eles chegaram. Como era habitual, tinham conseguido saber quando 
 que os Williams chegariam e, quando a limusine surgiu, os reprteres avanaram. Por vezes, Cassie perguntava-se como  que eles sabiam onde estavam e para onde 
iam.
       Mal conseguiram chegar at  porta e depois, tambm como era hbito, Desmond parou alguns instantes para falar com eles. Enquanto o fazia, tiraram milhares 
de fotografias. A que surgiu na capa da Life, na semana seguinte, mostrava Desmond a entrar em casa com a noiva ao colo.
       No entanto, a partir desse momento ` a lua-de-mel tinha terminado para Cassie. Tinham estado fora durante duas idlicas semanas mas, na primeira manh depois 
da chegada, Desmond acordou-a s trs, e s quatro horas ela j estava a treinar no North Star.
       O seu horrio era cada vez mais severo, e tanto ela como Billy recapitulavam os seus passos milhares de vezes. Simulavam todos os acidentes possveis, descolar 
e aterrar s com um motor, depois com os dois, voar sem ambos os motores, e praticavam as aterragens em pistas curtssimas e com os mais ferozes ventos cruzados. 
Tambm simulavam aterragens com todos os tipos de condies climatricas, desde o difcil ao quase impossvel. Faziam ainda vos de longa distncia durante horas 
a fio. Sempre que no estavam no ar, estavam debruados sobre cartas, mapas climatricos e tabelas de combustvel. Encontravam-se com os construtores e engenheiros 
e aprendiam todas as reparaes possveis com os mecnicos. Billy passava horas a praticar com o equipamento de rdio, e Cassie no Link Trainer a aprender a pilotar 
sem visibilidade em todo o tipo de condies.
       Cassie e Billy voavam muito e bem. Constituam uma grande equipa e, em Abril, j faziam habilidades que teriam sido o espanto de qualquer festival areo. 
Passavam catorze horas por dia juntos. Desmond trazia-a para o trabalho s quatro da manh e ia busc-la pontualmente s seis da tarde. Levava-a para casa, onde 
ela tomava banho e faziam uma refeio ligeira. Depois, ele ia para o escritrio com a pasta cheia de notas e planos para a viagem e, mais recentemente, com o pedido 
de vistos. Estava tambm ocupado a enviar combustvel para cada um dos locais onde aterrariam e a negociar contratos para artigos e livros que surgissem depois. 
Geralmente, trazia documentos para ela ler sobre as condies climatricas em todo o mundo, sobre as evolues mais importantes na aviao ou sobre reas em que 
deveriam ser cautelosos durante a viagem, dada a sensibilidade da situao mundial. Era como fazer os trabalhos de casa todas as noites, mas, depois de passar o 
dia inteiro a voar, Cassie normalmente no tinha pacincia para o fazer. Queria jantar fora com ele de vez em 'quando ou ir ao cinema. Era uma rapariga de vinte 
e um anos, mas ele estava a trat-la como um rob. As nicas vezes que saram foi para assistirem a festas sociais importantes em que a sua presena seria til.
       - Ser que no podemos fazer alguma coisa que no tenha a ver com a viagem? - queixou-se ela uma noite em que Desmond trouxera uma pilha impressionante de 
papis e lhe lembrou que precisavam da sua ateno imediata.
       - Agora no. Podes brincar no prximo Inverno, a no ser que tenhas planejado bater mais algum recorde. Agora temos de tratar de negcios - disse firmemente.
       -  s isso que temos feito - queixou-se ela. Desmond olhou-a com reprovao.
       - Queres acabar como a Star of the Pleiades? - perguntou, zangado. Era o avio da Earhart, e havia alturas em que Cassie j estava farta de ouvir dizer aquilo.
       Tirou-lhe os papis das mos e voltou para cima, batendo com a porta do escritrio. Pediu-lhe desculpa mais tarde e, como sempre, Desmond foi muito compreensivo.
       - Quero que estejas preparada de todas as maneiras possveis para que no haja qualquer dissabor, Cassie. - Mas ambos sabiam que existiam elementos que ele 
no poderia prever, como tempestades ou problemas de motor. Porm, at agora, ele pensara em tudo at ao mais nfimo pormenor.
       At Pat ficou muito impressionado com o que Cassie lhe contou sobre os preparativos. O homem era um gnio em planejamento e preciso e, sobretudo, em relaes 
pblicas. Mesmo que fosse compulsivo com todos os seus avies, tinha em mente a sua segurana e bem-estar.
       Para a recompensar do seu trabalho rduo, em finais de Abril levou-a para um fim-de-semana romntico em So Francisco, que Cassie adorou,  exceo do fato 
de Desmond lhe ter marcado trs entrevistas.
       Em Maio, a publicidade subiu radicalmente. Havia conferncias de imprensa todas as semanas e metragens dos seus vos em documentrios. Ela e Billy apareciam 
em todo o lado: na rdio e em clubes femininos, davam autgrafos e posavam constantemente para fotografias. Por vezes, Cassie sentia que no tinha vida prpria e, 
de fato, no tinha. O imenso trabalho e a proximidade da viagem faziam com que ela e Desmond se vissem cada vez menos.  noite, ele ia durante algumas horas ao clube 
para descontrair. Em finais de Maio, ficava a ler documentos no escritrio, acabando por a adormecer        .
       Cassie estava to farta que Desmond sugeriu que fosse passar um fim-de-semana a casa, em Maio, e ela sentiu-se aliviada por ir. Ficou muito feliz por ver 
os pais. Desta vez, significava no passar o seu aniversrio com Desmond, mas, antes de ela partir, ele oferecera-lhe uma linda pulseira de safiras e dissera-lhe 
que estariam juntos nos prximos cinqenta aniversrios. At Cassie sentiu no ser uma tragdia no passar o dia com ele. Estava demasiado tensa com a viagem para 
o gozar plenamente. Ela e Desmond parecia estarem muito distantes, pois s pensavam na viagem.
       Era ridculo. Ia fazer vinte e dois anos e estava casada com um dos homens mais importantes do mundo. Ela prpria era uma mulher muito clebre, mas sentia-se 
angustiada e infeliz Desmond s falava na viagem, passava o tempo a ler sobre a mesma, s queria que Cassie posasse para fotografias e passasse quinze horas por 
dia a voar. A vida era mais do que isso. Pelo menos, pensava que sim, mas ele parecia no saber que ela estava viva. De certo modo, no estava. Nas suas vidas, no 
havia lugar para o romance. Apenas a viagem e uma enorme quantidade de preparativos.
       - Ser que ainda teremos de voar mais? - queixou-se ela a Billy a caminho de casa. Este tinha decidido ir com ela passar o fim-de-semana. - Juro que s vezes 
sinto que odeio Voar.
       - Sentir-te-s melhor quando estivermos a caminho Cass. A espera  muito dura. - S faltavam cinco semanas para a volta e estavam ambos muito tensos. Cassie 
conseguia sentir a tenso. Alm disso, estava casada h trs meses e meio e no estava mais prxima de Desmond. As suas noites juntos eram tudo menos romnticas, 
pensava ela enquanto voava para leste, mas nada referiu a Billy.
       Em vez disso, falaram das conferncias de imprensa que Desmond marcara em Nova Iorque e Los Angeles. Depois do fim-de-semana, queria que eles fossem a Chicago 
dar uma entrevista, mas at agora Cassie no concordara.
       - Deus!  cansativo, no ? - Sorriu para Billy quando j estavam a meio do caminho. Estava muito contente por ir a casa. Precisava de ver os pais.
       - Acho que mais tarde vamos pensar que tudo valeu a pena - sugeriu Billy para a encorajar. Cassie encolheu os ombros e sentiu-se melhor.
       - Espero que sim.
       Continuaram o vo em silncio e depois Billy olhou para ela. Ultimamente andava com um ar especialmente cansado e infeliz. Suspeitava que fosse devido  presso 
constante da imprensa. Como ele no se importavam tanto, mas devoravam Cassie, e Desmond nunca parecia proteg-la deles. Pelo contrrio: at gostava.
       - Ests bem, Cass? - perguntou Billy algum tempo depois. Ela era como uma irm mais nova e a sua melhor amiga. Passavam praticamente todo o dia juntos e nunca 
discutiam ou se cansavam da presena um do outro. Seria a companhia perfeita para a volta ao Pacfico, e Billy estava cada vez mais feliz por participar.
       - Sim. Estou bem. Estou a sentir-me melhor. Ser bom chegar a casa e ver a famlia.
       Ele acenou com a cabea. Na semana anterior, Billy tinha ido a So Francisco ver o pai, que estava muito orgulhoso dele, e Billy sabia como a famlia era 
importante para Cassie. Estava a precisar de v-los, tal como ele precisara de ver o pai. Subitamente, sozinhos no avio, quis fazer-lhe uma pergunta que nunca fizera 
por vergonha. Mas Cassie agora parecia mais descontrada.
       - Tens tido notcias do Nick? - perguntou, como por acaso. Ela olhou fixamente para as nuvens durante bastante tempo e depois abanou a cabea.
       - No, no tenho. Ele queria que ambos fssemos livres. Acho que conseguiu o que queria.
       - J sabe? - inquiriu Billy serenamente, com pena que a relao no tivesse resultado. Nick era um homem fabuloso e Billy sentira, desde o dia em que os conhecera, 
o amor que Cassie tinha por ele. Era como se pertencessem um ao outro.
       - Do Desmond? - perguntou Cassie, e ele anuiu com a cabea. - No. Como ele no queria escrever, achei que acabaria por saber. No quis escrever para lhe 
contar. - Cassie tambm no lhe queria escrever para no perturbar o equilbrio. Uma coisa daquelas seria suficiente para cometer um erro fatal ao pilotar um caa 
e ela no queria que isso acontecesse. - J deve saber. Sei que escreve ao meu pai. - Mas nunca perguntara a Pat se lhe dissera. Pensar nisso era ainda doloroso 
e esforou-se para no pensar nele enquanto sobrevoava o Kansas.
       A imprensa estava  espera deles quando aterraram em Ilinois. Tinha passado todo o dia  espera deles no aeroporto do pai. Sabia que s iria ter paz depois 
da volta ao Pacfico. Estava demasiado prxima.
       Fez o que Desmond sempre quisera que fizesse: deu-lhes bastante tempo, deixou-os tirar fotografias, satisf-los com as respostas a algumas perguntas e depois 
terminou, dizendo que estava ansiosa por chegar a casa e ver a me.
       Pat tinha estado  sua espera, e tanto ele como Billy posaram com ela para os fotgrafos. Finalmente, abandonaram o aeroporto, ela ento deu um suspiro de 
alvio enquanto atiravam as malas para o caminho do pai. Pat olhou-a com um longo e lento sorriso. No entanto, assim que chegaram, notara que o pai estava com mau 
aspecto.
       - Sente-se bem, pai? - Pat estava com uma cor acinzentada, e ela no gostou nada disso, mas pensou que poderia ter tido gripe. Soubera que a me a apanhara 
ao regressar da Califrnia, enquanto o pai trabalhava de mais para um homem da idade dele. Agora trabalhava ainda mais, sem Nick, Billy, Chris ou ela. Confiava tudo 
a empregados e s habituais tripulaes nmades de vagabundos do ar.
       - Estou timo - disse ele de modo pouco convincente. Depois olhou ansiosamente para a filha, Oona afirmar que lhe devia ter dito ao telefone, mas no sabia 
o que dizer. Pat tambm nada dissera a Nick e, surpreendentemente, mais ningum o tinha feito. S chegara na noite anterior.
       - Passa-se alguma coisa? - Ela sentira a sua hesitao. Billy no estava a prestar ateno e olhava para a paisagem pela janela.
       - O Nick est c - disse ele, olhando em frente.
       - Est? Onde est? - perguntou ela, mostrando um certo desconforto.
       - Em casa dele. Mas penso que passar l por casa. Achei melhor avisar-te.
       - Disse-lhe que eu vinha? - Pat abanou a cabea, e Billy olhou-a nos olhos. Acabara de ouvir as palavras de Pat e esperava que isso no a perturbasse demasiado.
       - Ainda no. Chegou a noite passada. S vai ficar alguns dias. No tive oportunidade de lhe contar. - Cassie no ousou perguntar ao pai se lhe comunicara 
o seu casamento.
       Ela no disse nem mais uma palavra, e alguns minutos mais tarde estava nos braos da me. Billy transportou as bagagens e Pat conduziu-o ao quarto de Chris. 
As coisas dele ainda l estavam e era um choque entrar e v-las. Cassie sentiu uma dor no corao quando olhou  sua volta. Era como se ele fosse chegar a casa a 
qualquer momento.
       Instalou-se no seu quarto, mas a me j tinha o jantar  espera deles. Era uma refeio quente e simples composta dos alimentos preferidos de Cassie: frango 
frito, uma maaroca de milho e pur de batata.
       - Se vivesse aqui j estava do tamanho da casa - disse Cassie, feliz entre garfadas.
       - Eu tambm - repetiu Billy com um sorriso feliz. A me sentiu-se muito lisonjeada.
       - Ests mais magra - criticou Oona com o sobrolho franzido. Billy explicou imediatamente.
       - Temos trabalhado muito, Mistress O'Malley. Vos de teste de quinze horas por dia e vos de longo alcance por todo o pas. Estamos a testar tudo o que podemos 
antes de julho.
       - Fico contente de o saber - disse Pat.
       Enquanto Oona levantava a mesa e se preparava para servir torta de ma com gelado de baunilha feito em casa, ouviram passos no alpendre e Cassie sentiu o 
corao parar. Estava a olhar para o prato e teve de se forar a olhar para ele quando Nick entrou a porta. No queria v-lo, mas sabia que era impossvel. Quando 
aconteceu, ficou sem flego. Estava ainda mais bonito, com o seu cabelo negro, brilhantes olhos azuis e muito bronzeado. Quase arquejou quando o viu e depois corou 
muito. Ningum se mexeu ou disse uma palavra. Era como se todos soubessem o que ia acontecer.
       - Interrompi alguma coisa? - perguntou Nick desajeitadamente. Conseguia sentir a tenso que pairava na sala. Depois viu Billy. - Ol, mido. Como ests? - 
Atravessou a sala para lhe apertar a mo, e Billy levantou-se, sorrindo, com o rosto cheio de sardas e os olhos a refletir o prazer de o ver.
       - Est tudo timo. E tu, Stick?
       - Estou a comear a parecer um marinheiro ingls. 
       Nessa altura, e inevitavelmente, Nick olhou para Cassie, e os seus olhos encontraram-se. Os dela estavam cheios de tristeza e os dele espantados. Sentira 
mais saudades dela do que desejara. - Ol, Cass - disse em voz baixa. - Ests com bom aspecto. Deves andar a preparar-te para a viagem. - O ltimo documentrio que 
vira falava do assunto, mas j fora h cinco meses. Por razes bvias, estavam um pouco atrasados no tempo em Hornchurch. No ltimo ano, Nick no fizera mais nada 
seno voar a todos os momentos, horas e segundos. Voar e retirar cadveres de mulheres e crianas de edifcios a arder em Londres. Fora um ano muito duro, mas sentira-se 
til. Era melhor do que estar ali sentado a palitar os dentes e  espera de entregas de correio no Minnesota,
       Oona ofereceu-lhe a sobremesa e ele sentou-se cuidadosamente. Apercebia-se que tinha interrompido alguma coisa, ou que ningum se sentia bem com a sua presena, 
mas podia estar a imaginar coisas. No tinha a certeza, mas conversou amigavelmente com Billy e Pat. Cassie no abriu a boca. Foi para a cozinha ajudar a me, mas 
teria de voltar enquanto todos comiam a sobremesa. No tocou na sua torta de ma, apesar de a me saber que adorava. Pat e Billy percebiam o que se passava com 
ela, mas Nick no sabia o que acontecera.
       Depois, acendeu um cigarro, levantou-se e espreguiou-se. Tambm emagrecera bastante e estava com um aspecto jovem, firme, esbelto e muito saudvel.
       - Queres ir dar uma volta? - perguntou-lhe casualmente. Porm, no havia nada de descontrado na pergunta. Sabia que se passava alguma coisa e queria ser 
ele prprio a perguntar. Durante alguns terrveis instantes, perguntou a si prprio se ela se teria apaixonado por Billy. Desde a morte de Chris, h quase um ano, 
que Nick no vinha a casa, e fora uma estranha ironia do destino terem ido a casa simultaneamente. Mas, como sempre, estava muito contente de a ver. Mais do que 
isso: enchia a sua alma com luz e ar e tudo o que desejava era beij-la. Nick percebeu, porm, que ela estava a evit-lo. Pensou que Cassie pudesse estar zangada, 
pois nunca lhe escrevera no ltimo ano. No queria dar-lhe esperanas, porque o que ele dissera antes de se ir embora era irreversvel.
       - Passa-se alguma coisa, Cass? - perguntou ele finalmente quando chegaram ao riacho que corria junto ao final da propriedade do pai. Cassie ainda no dissera 
uma palavra.
       - No exatamente - disse ela com suavidade, tentando no o olhar, mas sendo obrigada a isso. No conseguia tirar os olhos de Nick. No interessava o que dissera 
a si prpria durante o passado ano sobre estar pronta para continuar, sobre Desmond e o fato de este precisar dela. Tinha a certeza que ainda estava apaixonada por 
Nick, quer ele estivesse ou no. Era assim que as coisas eram entre eles, mas ela nunca trairia Desmond. lembrou-se das palavras do pai, quando lhe comunicara que 
queria casar com Desmond, e iria honrar o seu casamento, mesmo que isso a matasse. Percebeu que isso seria possvel quando olhou para Nick. S olhar para ele causava-lhe 
uma imensa dor no corao.
       - O que , querida? Seja o que for, podes contar-me. Afinal, somos velhos amigos. - Nick sentou-se a seu lado sobre um velho tronco, agarrou-lhe na mo e, 
quando olhou para baixo, viu-a. A fina linha de ouro no terceiro dedo da sua mo esquerda. Cassie no levara o anel de noivado, Apenas a aliana que j dizia tudo. 
Os seus olhos encontraram-se e ela acenou com a cabea. - Casaste? - Nick parecia ter levado um soco.
       - Casei - disse tristemente, sentindo que o tinha trado, apesar de todas as explicaes que tentava dar a si prpria e do fato de ele lhe ter dito para continuar 
a sua vida. Ela podia ter esperado e no esperara. - Casei-me h trs meses. Ter-te-ia dito, mas tu no escreves e eu no sabia o que dizer. - As lgrimas rolaram-lhe 
pelo rosto e ficou sem voz.
       - Com quem? - Billy tinha parecido pouco  vontade com ela e tinham vindo para casa juntos. Nick sempre sentira que estavam muito bem um para o outro e, alm 
disso, tinham a mesma idade. Era o que quisera para ela, mas doa tanto pensar nisso que ficou com lgrimas nos olhos. - O Billy? - perguntou, com a voz presa na 
garganta, tentando ter um ar nobre, mas daquela vez Cassie riu-se atravs das lgrimas e retirou gentilmente a mo.
       - Claro que no. - Hesitou durante muito tempo, olhando para outro lado e, finalmente, virou-se para ele. Tinha de lhe dizer. - O Desmond.
       Houve um silncio infinito no ar quente da noite e depois um grito de incredulidade, quase de dor, quando ele percebeu.
       - Desmond Williams? - Como se houvesse mais dez com o mesmo nome prprio. Olhou para ela em agonia e viu-a acenar com a cabea. - Por amor de Deus, Cassie. 
Como pudeste ser to louca? Eu disse-te, no disse? Por que raio pensas tu que ele casou contigo?
       - Porque queria, Nick - afirmou num tom aborrecido. - Precisa de mim e,  maneira dele, ama-me. - Se bem que soubesse melhor do que ningum que, a maior parte 
das vezes, s havia lugar na vida de Desmond para avies e papis.
       - Ele no precisa de nada a no ser de um diretor de vo e equipa de filmagens. Durante este ano, no vi um nico documentrio que no tivesse mais de cinco 
meses, mas aposto que aproveitou bem o fato de casar contigo. Deves ter tirado mais fotografias do que a Garbo.
       - Estamos a cinco semanas da volta, Nick. O que esperavas?
       - Esperava que tivesses mais miolos para o veres como ele .  um charlato e disse-o desde o dia em que o conheci. Vai usar-te at secares ou fazer-te voar 
at cares. Ele s se preocupa com uma coisa: publicidade e a maldita companhia. O homem  uma mquina e um gnio da publicidade. No passa disso. Ests a dizer-me 
que o amas? - Nick estava a gritar, e ela vacilou quando aquele se colocou mesmo  sua frente a insultar o marido.
       - Amo, sim. E ele tambm me ama. Pensa em mim constantemente, toma conta de... Claro que d importncia aos avies e  volta, mas est a fazer os impossveis 
para me proteger.
       - Como, por exemplo? Vai mandar contigo mquinas fotogrficas  prova de gua e uma equipa de mergulhadores? Por favor, Cassie. Acorda. Ests a tentar dizer-me 
que ele no fez uma tremenda publicidade ao vosso casamento? Ainda no vi nada, mas aposto que aqui j viram. Deves ter atirado o bouquet direto s cmaras.
       - E depois? - Nick estava mais perto da verdade do que pensava, mas Desmond estava sempre a dizer-lhe para cooperar e ter pacincia e que a imprensa e a volta 
ao Pacfico eram uma parte importante das suas vidas. No entanto, ela tinha a certeza que Desmond no casara consigo por causa disso. Metia-lhe nojo ouvir Nick e 
zangou-se. Que direito tinha ele de criticar? Nem sequer lhe tinha escrito. - O que tens a ver com isso? - gritou ela. - No me quiseste. No quiseste casar comigo 
ou at dar-me qualquer esperana de que o farias se regressasses da guerra. Tudo o que desejas  armar-te em s na guerra dos outros. Ento, vai, aviador. No me 
quiseste e disseste-mo. S querias andar aos beijos enquanto c estavas e depois ias fazer a tua vida. Continua, mas eu tambm tinha o direito de ter uma vida e 
agora tenho-a.
       - No, no tens - disse ele maldosamente. - O que tens ... fruto da tua imaginao. Assim que terminarem a volta e Desmond j no precisar de iluses para 
alimentar a imprensa, deita-te imediatamente fora ou ento mantm-te, mas ignorar-te-.
       Era o que Desmond estava a fazer agora, mas ela sabia que era devido ao trabalho que tinha a organizar a viagem. Cassie queria que Nick estivesse enganado. 
Tudo o que dissera era injusto, porque no sabia perder e estava zangado.
       Depois, Nick deu mais um passo na direo de Cassie para fazer ainda pior. Queria arranc-la do tronco e pux-la para os seus braos, mas no o fez por respeito.
       - Ouvi dizer que ele tem meia dzia de amantes cuidadosamente guardadas, Cass. j algum te disse isso ou j descobriste sozinha? - Disse-o por maldade, mas 
tambm parecia acreditar no que estava a dizer.
       - Isso  ridculo. Como poderias saber?
       - Rumores. No  o santo nem o marido que parece ser disse ele tristemente. Desejava ter casado com ela, mas parecera-lhe muito errado quando partira e ainda 
pensava o mesmo. No entanto, tambm tinha a mesma opinio sobre o seu casamento com Desmond. - O tipo  um filho da me, Cass. Provavelmente, nem sequer te ama. 
Encara isso. Ele  um empresrio de espetculos e um vigarista. Tu no casaste com ele. Tudo o que fizeste foi juntar-te ao circo.
       Mas ouvir Nick dizer aquelas coisas sobre Desmond assustava-a tanto que a nica coisa que tinha vontade de fazer era bater-lhe para o fazer parar. Levantou 
a mo para o esbofetear com toda a fora, mas ele foi mais rpido. Agarrou-lhe o brao, puxou-lho para trs das costas e a no conseguiu controlar-se. Beijou-a 
com fora, com mais fora do que teria ousado em qualquer outro momento, mas ela j no era uma rapariguinha. Era uma mulher. Sem pensar, sentiu-a responder-lhe 
e, durante o que pareceu uma eternidade, estiveram agarrados um ao outro numa paixo desabrida. Finalmente, Cassie afastou-se com as lgrimas a correr pelas faces. 
Detestava o que estava a acontecer-lhes e o que lhe tinha feito, mas casar com Desmond tinha-lhe parecido acertado. Talvez no tivesse sido.
       Porm, agora no era esse o problema. O problema era Nick e aquilo a que eles j no tinham direito.
       - Eu amo-te, Cassie - disse Nick com urgncia enquanto a abraava de novo. Desta vez no a beijou. - Sempre te amei e sempre te amarei. No queria arruinar 
a tua vida, mas nunca pensei que fizesses algo to estpido. Pensei que acabarias com o Billy.
       Ela riu-se da idia e sentou-se novamente no tronco a seu lado, pensando na confuso que criara. Estava apaixonada por dois homens, ou talvez apenas por um, 
mas estava obcecada por um e casara com outro.
       - Casar com Billy seria como casar com o Chris - disse Cassie, rindo tristemente.
       - E casar com ele? - perguntou Nick com a voz estrangulada. Agora queria saber.
       - Ele  muito srio - suspirou ela -, e tudo o que faz neste momento  pela viagem. Acho que est a faz-lo por mim. No sei. Talvez eu tenha cometido um 
erro. No sei.
       - Cancela a viagem - disse ele urgentemente. - Divorcia-te. - Nick estava a entrar em pnico. Naquele momento faria tudo. Casaria com Cassie se ela quisesse, 
mas todas as fibras do seu ser lhe diziam que ela estava em perigo.
       - No posso fazer isso, Nick - disse Cassie. - No seria justo. Ele casou comigo de boa-f. No o posso abandonar agora. Devo-lhe demasiado. Tem tudo a girar 
 volta desta viagem e investiu muito nela. No foi s o avio.
       - No ests preparada para isso.
       Mas ela sabia que estava.
       - Estou, sim.
       - Tu no o amas. - Subitamente pareceu muito jovem e vulnervel. Cassie desejava ter esperado por ele, mas no esperara.
       - No estou apaixonada por ele. Nunca estive. Ele sabia. Falei-lhe de ti e aceitou tudo. Todavia, amo-o. Tem sido demasiado bom para mim para eu no o amar. 
No posso desiludi-lo, Nick.
       - E depois? O que acontece? Ficas agarrada a ele para sempre?
       - No sei, Nick. No h respostas fceis.
       - Sero, se tu quiseres - afirmou Nick teimosamente.
       - Isso foi o que eu te disse h dois anos, antes de partires, Nick. Tu tambm no me deste ouvidos.
       - s vezes, as coisas podem parecer mais complicadas do que so. Somos ns que as complicamos, mas no  foroso que isso acontea - disse ele subitamente.
       - Casei com ele, Nick. Para o mal e para o bem, amando-te ou no. No o posso abandonar s porque tu o desejas.
       - Talvez no - disse Nick rispidamente -, mas abandonar-te- um dia, se no fisicamente, emocionalmente, quando tudo isto acabar.  tudo publicidade. Vers, 
Cass. Eu sei.
       - Talvez, mas at l, devo-lhe alguma coisa e no vou quebrar a minha palavra e tra-lo.  o meu marido e merece mais do que ser trado por ns. No o farei.
       Nick olhou para ela durante muito tempo e pareceu cair em si com a fora das suas palavras.
       - s uma boa rapariga, Cass. Ele  um homem de sorte. Acho que fui um louco. Pensei que era velho e pobre de mais para ti e demasiado idiota. De qualquer 
modo, em parte tinha razo. - Depois no conseguiu resistir a um golpe baixo. - Qual  a sensao de estar casada com um dos homens mais ricos do mundo?
       - Se estivesse casada contigo no seria diferente - devolveu ela rapidamente. - Vocs so ambos meninos mimados que querem que tudo seja feito  vossa maneira. 
Talvez todos os homens sejam assim. Ricos ou pobres - afirmou Cassie, olhando-o nos olhos, e Nick riu-se. No tinha perdido a personalidade.
       - Touch. Gostaria muito de me sentir feliz por ti, mas no estou, Cass.
       - Tenta. No temos outra hiptese. - Ela tinha de assumir a escolha que fizera para bem de todos. Era uma mulher honrada. Nick acenou com a cabea e regressaram 
lentamente de mo dada a conversar sob o cu estrelado. Apercebeu-se mais do que nunca que tinha sido um idiota, mas tomara as suas decises por ela e eis o resultado. 
Pat tivera razo. Ele tinha-a libertado e Cassie casara com outro. Mas Desmond Williams... Nick detestava tudo o que sabia dele e estava completamente convencido 
de que estava a usar Cassie, que era demasiado jovem e inocente para perceber. Nick estava com quarenta anos e conseguia ler Desmond to facilmente como a primeira 
pgina do New York Times. At agora, no gostara do cabealho.
       Cassie despediu-se no alpendre e no voltaram a beijar-se S quando ela entrou  que Nick reparou no seu velho amigo que estava ali sentado a observar.
       - Ests a tomar conta de mim, As? - perguntou Nick com um sorriso cansado, sentando-se na cadeira perto dele.
       - Estou. Disse  Cassie h meses que no permitiria que trasse o seu casamento.
       - Ela no o far.  uma boa rapariga e eu sou um parvo. Tinhas razo, Pat.
       Tinha receio de a ter. - Depois, foi honesto com o seu velho amigo, o rapaz que fora o seu protegido durante a outra guerra, h vinte e cinco anos atrs. 
- O pior  que a Cassie ainda te ama e tu sabes. Ser que  feliz com ele? - perguntou-lhe Pat com um ar de conspirao.
       - No acho, mas pensa que lhe deve tudo.
       - Deve-lhe muito, Nick. Isso no se pode negar.
       - E se lhe acontece alguma coisa? - Nick no quis usar a palavra morrer em frente de Pat, mas poderia acontecer. - O que  que ficamos a dever-lhe?
       - Tu sabes que  um risco que todos corremos, Nick. Ela sabe o que quer e o que faz. A nica coisa de que no tem a certeza  em relao a ti.
       - Eu tambm no. Eu ainda no teria casado com ela, pois no a queria deixar viva. - Riu-se inexpressivamente. - Pensei que era muito velho, mas ele  quase 
to velho como eu.
       - Somos todos loucos. Eu quase no casei com a Oona h trinta e dois anos. Achava que era demasiado boa para mim e a minha me disse-me que era doido. Disse-me 
para casar, mas eu tinha razo: ela  demasiado boa para mim, por isso eu amo-a. At hoje, ainda no me arrependi de um nico dia do nosso casamento. - Pat nunca 
dissera isso a Oona e, por ora, o conselho vinha tarde para Nick. Mas se Nick tivesse razo sobre Desmond Williams, ao dizer que ele ia abandonar Cassie, talvez 
um dia ela voltasse a ser livre. Agora era difcil saber.
       Ficaram sentados no alpendre e conversaram durante muito tempo. Quando se levantaram, Nick reparou que Pat estava com um pouco de falta de ar. Nick no sabia 
o que era, mas no gostou.
       - Tens estado doente, As?
       - Nada de mais. Um pouco de gripe e alguma tosse. Estou a ficar muito gordo com os cozinhados da Oona. s vezes fico sem flego. No  nada.
       - Toma cuidado - recomendou Nick, preocupado.
       - Diz isso a ti prprio, que andas aos tiros aos Alemes todos os dias - disse Pat rindo. - Acho que tens mais com que te preocupar do que eu.
       Nick acenou com a cabea, grato por tudo o que ele lhe tinha dito sobre Cassie.
       - Boa noite, s. At amanh.
       Nick voltou a p para a sua barraca. Tudo nela tinha p. No vinha a casa h um ano, mas sabia bem estar ali. Sentia-se bem com tudo, exceto com o fato de 
Cassie se ter casado. Ainda no conseguia acreditar. Nessa noite, ficou deitado, sofrendo por causa dela e incapaz de acreditar que, agora, ela pertencia a outro. 
Aquele rosto doce, a menina que ele tanto amara j no era sua. Era de Desmond. Adormeceu com as lgrimas a rolarem-lhe pelas faces para a almofada.

CAPTULO 17
       O fim-de-semana em casa acabou por ser muito difcil para ambos. Cassie fez tudo para no estar junto de Nick, mas o seu mundo era muito pequeno, o que os 
fazia encontrarem-se em todo o lado: em casa, no aeroporto e at na mercearia, quando Cassie foi fazer umas compras para a me. Nick tentava ser respeitador por 
ela, no por Desmond, mas era impossvel. Na vspera da sua partida, acabaram novamente nos braos um do outro. Era a noite do seu vigsimo segundo aniversrio. 
Nick jantara com ela e com a famlia. Durante toda a refeio estiveram inexoravelmente impelidos um para o outro como ms. Sabiam que era a ltima noite em que 
estavam juntos e poderia no haver outra oportunidade. S a idia os punha em pnico.
       - No podemos fazer isto, Nick - disse Cassie depois de o beijar prolongadamente. - Prometi ao pai que no o faria e no posso faz-lo a mim ou ao Desmond. 
- Da maneira como a imprensa a seguia, haveria, decerto, um escndalo. Naquele dia, tinham tentado tirar fotografias de todos no aeroporto, mas Nick desapareceu 
discretamente para a sua barraca e, quando os fotgrafos partiram, emergiu novamente. Cassie ficou-lhe grata. Sabia que Desmond ficaria muito perturbado se visse 
Nick nas fotografias, pois no lhe dissera que este estava em casa quando lhe telefonou.
       - Eu sei, Cassie. Eu sei. - Nick no discutiu com ela, porque no queria mago-la e sentaram-se no alpendre a conversar. Os pais tinham ido para a cama h 
uma hora e no fizeram comentrios quando viram que Nick ia ficar a falar com Cassie. Ela partiria no dia seguinte e era a ltima oportunidade de estarem juntos.
       - Tens a certeza de que ests preparada para a volta ao Pacfico? O Billy diz que o teu avio  muito pesado.
       - Sei lidar com ele.
       Desta vez, Nick no discutiu com ela.
       - A tua rota  segura?
       -  melhor que seja. O Desmond trabalha nela todas as noites at  meia-noite.
       - Isso deve ser muito divertido para ti - disse ele vivamente, mas sorrindo com amargura. - Sua idiota! Podias ter ficado com o Bobby Strong a vender cebolas 
e, em vez disso, o que fazes? Casas com o maior milionrio do pas. Ser que no acertas em nada, Cassie? - continuou ele para a arreliar, o que a fez rir-se. O 
assunto nada tinha de divertido, mas, se no se rissem, chorariam. Nos poucos dias em que estiveram na cidade, ficou claro que estavam condenados a amarem-se para 
sempre. Todas as vezes que se encontravam ou se olhavam, o poder dos seus sentimentos ainda os aproximava mais. No havia por onde fugir, e Cassie percebia agora 
que aquilo no era algo que passasse com o tempo. Ela e Nick faziam parte um do outro e sempre fariam. j no era possvel neg-lo. Cada vez o amava mais, mas agora 
teria de viver com a agonia de o amar e de no querer trair Desmond.
       Naquela ltima noite, ambos sabiam que era a sua nica oportunidade de estarem juntos e, quem sabe, a ltima. Nick voltava para arriscar a vida na guerra 
e ela ia correr todos os riscos possveis voando sobre o Pacfico. Era demasiado tarde para jogos ou zangas. Tinham de viver com o que tinham feito, sabendo que 
haviam sido loucos.
       - O que vamos fazer, Cass? - perguntou ele com uma expresso de infelicidade, enquanto olhavam para a lua cheia no cu estrelado. Estava uma noite perfeita 
para amar, mas a sua histria j no era simples. Ambos recordavam com saudade os primeiros tempos em que haviam passado horas juntos na pista deserta. Poderiam 
ter feito tudo nessa altura. Em vez disso, tinham optado estupidamente: Nick quisera ir lutar numa guerra que no era dele e ela casara com um homem de quem gostava, 
mas no amava. Cassie sabia perfeitamente bem que, apesar da sua lealdade a Desmond, Nick era o nico homem que amava e que sempre amaria. Talvez um dia tudo mudasse, 
mas tal ainda no acontecera e provavelmente nunca aconteceria. Iludira-se ao casar com Desmond e agora, que vira Nick de novo, entendera-o.
       - Gostaria de ir para Inglaterra contigo - disse ela tristemente.
       - Eu tambm. L no h mulheres a voar em combate. Pelo menos por enquanto. Os Ingleses tm um esprito muito aberto.
       - Talvez eu devesse fugir e alistar-me na RAF - afirmou ela com alguma seriedade. No sabia como iria viver agora. De certo modo, estava grata por ir fazer 
a volta ao Pacfico. Mant-la-ia ocupada e longe de Desmond.
       - Talvez eu nunca devesse ter ido - disse Nick, surpreendendo-a completamente. Ouvi-lo preocupava-a. Se ele agora perdesse a fora, poderia acontecer alguma 
coisa. j tinha ouvido falar de muitos homens que tinham morrido em combate depois de perderem as namoradas ou mulheres.
       - Agora  tarde de mais para o dizer - ralhou Cassie, -  melhor prestares ateno ao que fazes.
       - Olha quem fala! - riu-se ele, pensando no que ela ia enfrentar dali a um ms. Pensar nisso ainda o preocupava muito e Nick convidou-a a dar um passeio. 
Caminharam lentamente de casa dos pais at ao aeroporto. Era como se fosse um m. Ele contou-lhe o que sentia sobre Inglaterra, e Cassie falou-lhe da volta e da 
rota pelo Pacfico.
       -  uma pena a guerra no te deixar fazer uma verdadeira volta ao mundo. Ficaria menos preocupado do que com esses longos vos sobre o Pacfico. - Mas era 
a que residia a glria e ambos o sabiam.
       Estavam no aeroporto a falar do assunto e quase sem pensar dirigiram-se ao Jenny. Estava uma noite quente e a Lua estava to brilhante que se conseguia ver 
todo o aeroporto.
       - Queres ir dar uma volta? - perguntou, hesitante. Ela tinha o direito de o mandar para o inferno, mas ambos sabiam que no o faria. Queria estar sozinha 
com Nick e esquecer a sua outra vida e o fato de se separarem no dia seguinte, talvez para sempre.
       - Era bom - disse Cassie suavemente. Sem mais palavras, ela ajudou-o a empurrar o avio para fora do hangar e fazer a reviso de terra. Voaram facilmente 
pelo cu da meia-noite com todos os seus sons e sentimentos familiares. Mas era diferente faz-lo  noite. L em cima, estavam no seu mundo prprio, um mundo cheio 
de estrelas e sonhos e onde ningum lhes podia tocar ou magoar.
       Ele hesitou brevemente ao sobrevoar a velha pista onde costumavam encontrar-se e aterrou o pequeno avio  luz do luar. Depois, desligou o motor e ajudou 
Cassie a sair. No faziam idia para onde iam. S sabiam que precisavam de estar juntos no seu mundo e longe de todos. Ali tudo era muito tranqilo. Sem pensar, 
caminharam at ao lugar onde costumavam sentar-se e conversar durante horas. Cassie sentia-se muito mais velha e muito mais triste. O irmo morrera, e ela perdera 
toda a esperana de ficar com Nick. Fora ali que ele a beijara pela primeira vez e lhe dissera que a amava. Fora no dia em que Nick lhe participara que se alistara 
na RAF. A partir da, s tinham tomado decises erradas.
       - s vezes no gostavas de poder andar para trs no tempo? - perguntou, olhando para ele.
       - Farias algumas coisas de diferente, Cass?
       - Ter-te-ia, dito h muito tempo quanto te amava. Nunca pensei que ligasses, porque eu era apenas uma mida. Achei que te ias rir de mim. - Estava linda, 
de p a seu lado.
       - Eu pensei que o teu pai me mandasse prender. - Era estranho perceber agora que se amavam h tanto tempo e que Pat no teria posto obstculos. Cassie estava 
presentemente casada com outro e tudo era uma loucura.
       - Agora  que o meu pai pode mandar prender-te - sorriu -, mas acho que nessa altura no. - Porm, nem tinha a certeza se ele agora objetaria. Sabia como 
eles se amavam, se bem que isso fosse exatamente o que Pat afirmara no querer, mas tinha mudado muito com os anos. Era agora o seu amigo mais ntimo, especialmente 
desde que Nick partira. Pat fora surpreendentemente compreensivo em relao a tudo o que ela fizera. Ainda conseguia surpreend-la.
       Caminharam at ao seu velho tronco; a erva estava mida. Nick despiu o seu casaco de aviador para ela se sentar. Depois, sentou-se a seu lado, abraou-a e 
beijou-a. Ambos sabiam porque tinham ido ali. Eram adultos e no precisavam de autorizao ou de mentir, pelo menos naquela noite. Estavam ali porque se amavam e 
precisavam de levar algo consigo.
       - No quero fazer nenhum disparate - disse Nick enquanto ela se aconchegava, e ficou preocupado. Era a mesma preocupao que sentira quando partira para Inglaterra. 
No entanto, as coisas eram agora suficientemente diferentes para justificar o risco e, de certo modo, quase desejava deix-la grvida. Talvez assim ela fosse obrigada 
a deixar Desmond
       Enquanto Cassie estava deitada a seu lado e sentia os fortes braos de Nick abraarem-na enquanto a beijava, desejou o mesmo. Momentos depois, o seu futuro 
empalideceu em relao ao presente. Ao beijarem-se, ela sentia chamas devoradoras trespassarem-lhe o corpo e, minutos mais tarde, a sua carne prateada brilhava ao 
luar ao lado de Nick. Era uma noite que nunca esqueceriam, e ambos sabiam que essa noite os teria de sustentar durante anos ou talvez para sempre.
       - Cassie! Amo-te tanto - sussurrou ele ternamente, abraando-a e sentindo o seu corpo junto do seu na noite quente. Enquanto estavam deitados com as roupas 
espalhadas pela erva, Nick percebeu que ela era muito mais bonita do que ele sonhara. - Fui um louco. - Estava deitado a seu lado a olh-la e gravando todos os momentos 
na memria.  luz do luar parecia uma deusa.
       - Eu tambm fui louca - sussurrou ela quase a dormir. Mas naquele momento no se importava, desde que estivesse nos seus braos e perto dele. Era tudo o que 
ela queria. Naquele momento, era tudo o que importava.
       - Um destes dias talvez sejamos espertos... ou tenhamos sorte - afirmou Nick, duvidando, no entanto, do que dissera. Tudo era agora demasiado complicado. 
Tudo o que possuam era aquela noite de luar.
       Ficaram deitados durante muito tempo ao lado um do outro e, antes do nascer do Sol, fizeram amor novamente. Tinham adormecido e acordado nos braos um do 
outro, desejando-se. O Sol nasceu, sorrindo-lhes, e desta vez ele viu os seus membros graciosos serem beijados pela luz dourada da aurora. Depois ficaram abraados 
durante muito tempo, desejando permanecer assim para sempre.
       Quando regressaram ao aeroporto do pai, o cu estava listado de rosa, ouro e malva; quanto a eles apresentavam um ar muito calmo enquanto amarravam o Jenny. 
Cassie virou-se para ele com um longo e lento sorriso. No estava arrependida do que tinham feito. Era o seu destino.
       - Amo-te, Nick - disse Cassie com a felicidade estampada no rosto.
       - Sempre te amarei - respondeu ele, e regressaram a casa dos pais. Agora pertenciam um ao outro e o lao entre ambos era inquebrvel.
       A casa estava silenciosa quando chegaram. Ainda era cedo e ningum estava acordado, ento Nick abraou-a, fez-lhe festas no cabelo, tentando no pensar no 
futuro ou em Desmond Williams. Ficaram ali muito tempo, no querendo afastar-se; ele beijou-a novamente e Cassie continuou a dizer-lhe quanto o amava.
       Finalmente, Nick foi-se embora quando ouviram os pais levantar-se. No estavam arrependidos. Precisavam da fora um do outro para olhar novamente para as 
suas vidas com todos os horrores e desafios que iam enfrentar.
       - Irei ver-te antes de partir - prometeu ela num sussurro. Abraou-o e beijou-o nos lbios com uma suavidade agonizante. Nick perguntou a si prprio como 
era possvel deix-la novamente ou permitir que partisse, sabendo que ela ia voltar para o marido.
       - No posso deixar que partas, Cass.
       - Eu sei - disse ela, infeliz -, mas tenho de ir. - Ambos sabiam que no havia nada a fazer.
       Nick foi-se embora e Cassie caminhou lentamente para o quarto que fora dela enquanto criana, pensando nele e desejando que tudo fosse diferente.
       Tomou uma ducha e vestiu-se, pensando em Nick, e depois acompanhou os pais ao pequeno-almoo. Tal como Nick j notara, reparou que o pai respirava com dificuldade, 
mas insistia em dizer que no era nada. Assim que acabaram de comer, o pai levou Cassie e Billy ao aeroporto. Prometeu telefonar  me com freqncia antes da viagem 
e at regressar, se pudesse. Contudo, perguntou a si prpria se Desmond o permitiria. Ver o pai to plido f-la pensar que devia regressar.
       Nick estava no escritrio quando chegaram e olhou-a longamente quando se despediram. Caminhou com eles at ao avio, conversando casualmente com Billy. Contudo, 
em todos os momentos, Cassie sentia-o perto de si, sentia o acetinado do corpo dele no seu e o intenso prazer. O verdadeiro lao que partilhavam era o tempo, o amor 
e a paixo, e Cassie sabia agora que a chama do seu amor jamais se apagaria.
       - Tenham cuidado - admoestou Nick. - V l se ela no se mete entre duas rvores - disse a Billy  laia de aviso.
       Depois, enquanto observava Cassie fazer as verificaes de solo, apertou-lhe a mo. Nick no conseguia tirar os olhos de Cassie e ela adorava senti-lo perto 
de si.
       Cassie beijou o pai enquanto Billy se instalava; no havia maneira de fugir: chegara a altura de se despedir de Nick. Os seus olhos encontraram-se, as suas 
mos tocaram-se e ele puxou-a para os seus braos e beijou-a gentilmente em frente de todos. j no se importava. S queria ter a certeza de que Cassie sabia que 
a amava.
       - Toma conta de ti, Cass - sussurrou ele por entre os seus cabelos depois de a beijar. - No faas loucuras durante a viagem. - Ainda desejava que ela no 
fosse, mas sabia que no conseguiria impedir.
       - Amo-te - disse ela suavemente com os olhos cheios de lgrimas, que eram o espelho do que Cassie estava a sentir. - Manda notcias quando puderes. - Nick 
acenou com a cabea e ela subiu para a carlinga enquanto apertavam as mos pela ltima vez. Agora, era quase impossvel separarem-se. Pat observou-os com pena, mas 
no fez qualquer crtica.
       Pat e Nick ainda estavam na pista enquanto ela deslizava no enorme avio da Williams Aircraft: que pedira emprestado a Desmond. Quando levantou vo, balanou 
as asas em sinal de despedida e seguiu. Nick ficou a olhar para o cu durante muito tempo. J Pat voltara para o aeroporto e h muito que o avio desaparecera no 
horizonte. A nica coisa em que conseguia pensar era em estar deitado a seu lado ao luar. De certa maneira, estava aliviado por voltar na manh seguinte para Inglaterra. 
No conseguia suportar estar ali sem ela.
       Cassie e Billy no falaram muito durante a viagem de regresso a Los Angeles. Oona dera-lhe um termo com caf e frango frito, mas nenhum deles tinha fome. 
Os olhos de Cassie contavam milhares de histrias, mas o rapaz no lhe perguntou nada nas primeiras duas horas. Finalmente, no suportou mais o silncio.
       - Como te sentes? - Ela percebeu o que Billy estava a perguntar e suspirou antes de responder.
       - No sei. Estou feliz por o ter visto. Pelo menos agora j sabe. - Estava simultaneamente cheia de esperana e de desespero, sendo difcil explic-lo a Billy. 
Nick j sabia o que acontecera com Desmond, mas, conseqentemente, o tempo que haviam passado juntos tornava mais difcil o seu regresso  Califrnia.
       - Como  que reagiu?
       - To bem como pde. Primeiro, ficou furioso e disse muitas coisas. - Cassie hesitou e olhou tristemente para o amigo. - Pensa que o Desmond casou comigo 
como golpe publicitrio e para tornar a nossa viagem mais apelativa para o pblico.
       -  isso que tu pensas? - inquiriu ele imediatamente Ela pensou e hesitou. No queria ter essa opinio. - A mim soa-me a azedume. Talvez o Nick tenha dificuldade 
em acreditar que o fulano realmente te ama.
       Mas ser que ama? Este pensamento atormentou-a. Desmond andava muito frio com ela agora e muito preocupado com a viagem. E se o Nick tem razo?, perguntou 
Cassie a si prpria. Era difcil saber e de ver com clareza, especialmente depois da noite que passara com Nick na velha pista. No entanto, tinha a certeza que no 
podia pensar mais nisso. Queria ser justa com Desmond e devia pensar na viagem. O resto resolveria depois.
       Ao pensar na viagem, recordou-se imediatamente de tudo o que devia a Desmond. Nick no estava a ser justo; no acreditava que o marido tivesse outras mulheres. 
Estava completamente absorvido e obcecado pelo trabalho, o que constitua o maior problema dela, para alm de Nick Galvin. Contudo, Cassie estava a regressar a Los 
Angeles determinada a jogar limpo. No permitiria que Nick ensombrasse o seu casamento.
       Porm, desde o momento em que chegou, Desmond fez tudo o que Nick previra: s falava na imprensa e na volta ao Pacfico. Nem lhe perguntou como fora o seu 
fim-de-semana com os pais. Assim, e mesmo sem querer, deu consigo a suspeitar da frieza de Desmond e do seu constante romance com os fotgrafos e equipas de cinema. 
Interrogou-o sobre umas entrevistas que ele marcara, reclamando sobre a sua necessidade, e as tenses entre eles tornaram-se imediatamente aparentes. 
       - De que ests a queixar-te? - perguntou Desmond com maus modos,  meia-noite do dia seguinte ao seu regresso. Cassie estava exausta de um vo de doze horas, 
seguido de cinco horas de reunies, tendo acabado o dia rodeada de um enxame de fotgrafos e reprteres.
       - Estou farta de tropear em fotgrafos cada vez que saio da cama ou entro para a banheira. Esto por todo o lado e estou farta. Livra-me deles - terminou 
ela rapidamente com um ar irritado.
       - Quais so as tuas objees? - disse ele, zangado. - O fato de seres o nome que mais aparece nos jornais ou estares na capa da Lyte duas vezes por ano? Qual 
 exatamente o problema?
       - O meu problema  estar exausta e farta de ser tratada como um co amestrado. - Os avisos de Nick estavam a afet-la e percebeu que estava a suspeitar de 
Desmond. Mas, na realidade, estava farta de reprteres.
       Era claro que Desmond no gostava de ser desafiado. Ficou furioso com ela. Depois de mais uma hora de discusso, ele mudou-se para o pequeno quarto de hspedes 
ao lado do escritrio. Passou o resto da semana a dormir e a trabalhar ali, afirmando que tinha demasiado trabalho para voltar para o quarto do casal. Cassie sabia, 
contudo, que ele estava a castig-la pelas suas queixas, o que no deixava de ser um alvio, dando-lhe tempo para resolver as suas prprias confuses. Estar com 
Nick tinha tornado as coisas ainda mais difceis, mas Cassie sabia que parte era da sua responsabilidade.
       Ao fim de algum tempo, a situao com Desmond acabou por acalmar. As tenses eram muitas e os nervos estavam  flor da pele por causa da viagem, mas ele pediu-lhe 
desculpa por ser to irascvel. Tentou explicar-lhe novamente o valor da imprensa e Cassie decidiu que Nick no tinha razo a respeito de Desmond. Havia uma certa 
verdade naquilo que o marido dizia: a publicidade era uma parte importante da volta ao Pacfico e no havia necessidade de se queixar em silncio.
       Cassie sabia que Desmond era um homem decente. Apenas tinha opinies irreversveis, sabendo obviamente o que fazia.
       No entanto, apesar do seu tratado de paz em relao  imprensa, outras coisas no melhoraram. H meses que no tinham qualquer tipo de vida amorosa. Mais 
do que uma vez, Cassie perguntou a si prpria se algo no estava bem com ele ou consigo, mas nunca se atrevera a perguntar. A imensa paixo da sua lua-de-mel estava 
h muito esquecida e ela sabia que, em parte, a situao a tornara mais vulnervel a Nick No entanto, Cassie estava consciente que Desmond nada tinha a ver com o 
amor que sentia por Nick. Mas a falta de relaes fsicas com Desmond tornava quase impossvel uma maior proximidade e, por vezes, desejava ter algum com quem falar. 
Pensou em dizer algo a Nancy Firestone, mas desde que se casara com Desmond, Nancy colocara uma barreira definitiva entre ambas. Era como se fosse desconfortvel 
ser amiga da mulher do patro. Ter apenas Billy como amigo e Desmond assim to frio faziam com que se sentisse mais s do que nunca.
       Apesar das tenses existentes, tudo estava a andar conforme previsto. Faltava uma semana para a viagem e estavam prontos.
       Os fotgrafos seguiam-na para todo o lado, fazendo a crnica da sua semana antes da viagem: todas as aes, movimentos e reunies. Sentia como se passasse 
toda a vida a sorrir e a acenar. No havia privacidade nem momentos tranqilos com Desmond. S se falava da volta ao Pacfico e dos seus infindos preparativos. Esta 
era a sua vida.
       Tudo estava a ficar muito emocionante. Cassie mal conseguia dormir e faltavam cinco dias quando Glynnis lhe telefonou, ao fim da tarde, e a apanhou no aerdromo. 
Cassie ficou surpreendida e a pensar se acontecera alguma coisa
       - Ol, Glynn. Passa-se alguma coisa?
       -  o pai - respondeu aquela rapidamente. Comeou a chorar antes de conseguir proferir outra palavra e foi como se uma seta de ao tivesse penetrado o corao 
de Cassie quando ouviu o resto. - Teve um ataque esta manh. Est no Hospital Mercy e a me est com ele. - Oh, Deus! No O pai no.
       - Vai ficar bom? - perguntou Cassie rapidamente  irm mais velha.
       - Ainda no sabem - disse Glynnis novamente por entre lgrimas.
       - Irei a casa assim que puder. Esta noite. Direi ao Desmond e partirei daqui a pouco. - Sem um momento de hesitao, Cassie sabia que devia estar presente.
       - Podes fazer isso? - Glynnis parecia preocupada, fora obrigada a telefonar-lhe. Inicialmente, tinham-lhe dito que o pai no sobreviveria, mas o seu estado 
estabilizara na ltima hora, o que os deixava mais esperanados. - Quando partes para a volta?
       - Daqui a cinco dias. Tenho tempo, Glynn. Vou para a. Amo-te. Diz ao pai que o amo. Diz-lhe que espere, que por favor no morra. - Cassie soluava.
       - Eu tambm te amo, querida - disse Glynnis com a sua voz forte. - Vejo-te mais tarde. Tem cuidado.
       - Diz  me que tambm a amo. - Ambas choravam quando desligaram. Cassie foi dizer a Billy o que estava a passar-se e que ia a casa ver o pai. Sem hesitar 
por um instante, Billy disse que a acompanhava. Tinham-se tornado inseparveis, qual gmeos siameses. Nos ltimos seis meses de treino, pareciam a sombra um do outro. 
s vezes, era como se lessem o pensamento um do outro.
       - Encontramo-nos aqui dentro de meia hora. Faz-me um favor. Abastece o Phaeton. Vou dizer ao Desmond. - Cassie pensou que ele entenderia, pois sabia o que 
o pai significava para ela.
       Porm, quando chegou ao escritrio, teve uma surpresa.
       - Claro que no vais - disse ele friamente. - Ainda tens cinco dias de treino e de reunies, duas conferncias de imprensa e temos de delinear a rota final 
de acordo com o tempo.
       - Volto dentro de dois dias - retorquiu Cassie calmamente. No conseguia acreditar que estivesse a discutir com ela sobre algo to importante.
       - No vais - replicou ele firmemente enquanto Miss Fitzpatrick se esgueirava discretamente da sala.
       - O meu pai teve um ataque de corao, Desmond. Pode no sobreviver. - Cassie achou que a sua incompreenso era bvia, mas ele entendia perfeitamente.
       - Vou ser o mais claro possvel, Cass. Tu no vais. Estou a ordenar-te que fiques aqui. - Parecia um marechal da aviao durante uma guerra. Era ridculo. 
Era seu marido. Que estava ele a dizer? Olhou para Desmond, confusa.
       - Ests o qu? - Ele repetiu o que dissera, e Cassie olhou-o fixamente. - O meu pai pode morrer, Desmond. Vou ter com ele, quer queiras quer no. - Algo lhe 
endureceu o olhar ao diz-lo.
       - Contra a minha vontade e nunca num dos meus avies - afirmou ele friamente.
       - Se for preciso, roubo um - disse ela furiosamente. - No sei como podes dizer tudo isto. Deves estar cansado ou doente. O que se passa contigo? - Tinha 
lgrimas nos olhos, mas Desmond no se demoveu. A volta significava tudo para ele. Mais do que o pai. Quem era aquele homem com quem casara?
       - Fazes idia da quantidade de dinheiro que est envolvida nesta viagem? Importas-te? - disse ele como se cuspisse.
       - Claro que me importo e nunca faria nada para o por em perigo. Mas estamos a falar do meu pai. Eu volto daqui a dois dias. Prometo. - Tentou acalmar-se e 
lembrar-se que estavam ambos sob uma grande tenso.
       - No vais - repetiu ele friamente.
       Era ridculo. O que  que ele estava a tentar fazer? Ao olh-lo, comeou a tremer.
       - No tens alternativa! - gritou-lhe ela, perdendo finalmente o controlo. - Vou, e o Billy vem comigo.
       - No o permitirei.
       - O que pensas fazer? - Subitamente, ela viu-o com outros olhos. Nunca o vira to cruel. Era uma nova caracterstica de Desmond. - Despedes-nos? No estamos 
um pouco perto de mais da viagem ou achas que consegues substituir-nos? - No estava contente com o comportamento dele.
       - Toda a gente pode ser substituda. E, j que estamos a falar do assunto, deixa-me explicar-te uma coisa, Cass. Se no voltares, peo o divrcio e processo-te 
por quebra de contrato. Fiz-me entender? Tens um contrato comigo para a realizao desta volta e tenciono prender-te a ele.
       Cassie no acreditava no que estava a ouvir. Quem era ele? Se estava a falar a srio, o homem era um monstro.
       A viagem. No se importava com ela, com os seus sentimentos nem com o fato de o pai estar a morrer. Divorciar-se-ia se ela cancelasse a viagem. Era incrvel, 
tal como tudo o que dissera at agora.
       Caminhou lentamente at  sua secretria e olhou para ele, perguntando a si prpria se o conhecia.
       - Farei a volta para ti, porque quero. Depois, tu e eu teremos uma longa conversa. - Ele no lhe respondeu e Cassie voltou-se e saiu do escritrio. Estava 
a ameaar a nica coisa com que Desmond se importava: a sua preciosa volta ao Pacfico. Mas o maior choque consistia no fato de ser mais importante do que o casamento.
       No disse uma palavra a Billy enquanto subiam para o avio e assinou, como necessrio, a sada do avio. De repente, sentiu-se apenas uma empregada. O seu 
rosto estava tenso e zangado quando descolaram; Billy observava-a. Ela queria pilotar e, como tal, no se ofereceu para assumir os comandos. Isso mantinha-a ocupada, 
tentando no se preocupar com o pai, o que era impossvel. No entanto, estava com uma expresso mais zangada do que preocupada, e o rapaz perguntou a si prprio 
o que teria acontecido.
       - O que  que ele disse?
       - Ests a referir-te ao Desmond? - replicou ela friamente; ele acenou com a cabea. - Disse que pediria o divrcio se eu no fizesse a volta e que me processaria 
por quebra de contrato. - Foram precisos alguns instantes at Billy reagir.
       - Disse o qu? Devia estar a brincar.
       - No estava a brincar. Estava a falar muito a srio. Se a cancelarmos, ele processa-nos. Pelo menos, a mim. Pelos vistos, a volta significa mais para ele 
do que eu pensei. So grandes vos, Billy. Grandes investimentos, muito dinheiro, muitas apostas e grandes castigos se no a conseguirmos. Talvez processe as nossas 
famlias se lhe partirmos o avio - disse ela sarcasticamente; Billy ouvia, estupefato. Cassie estava zangada e amargamente desiludida.
       - Mas tu s mulher dele, Cass. - Estava confuso com o que ouvira.
       - Aparentemente no sou - afirmou em tom lastimoso. Sou apenas uma empregada. - Desmond tinha-a desiludido terrivelmente, mas, por outro lado, a famlia no 
era o seu forte. - Disse-lhe que voltaramos dentro de dois dias. Estamos metidos em sarilhos se no o fizermos. - Cassie sorriu-lhe. Estavam metidos em sarilhos 
at s orelhas, mas pelo menos estavam juntos, e sentia-se muito grata por ele a ter acompanhado. Billy era realmente o nico amigo que tinha.
       - Voltaremos a tempo. O teu pai vai ficar bom. - Tentou dar-lhe coragem.
       Porm, quando chegaram ao Hospital Mercy, Pat estava tudo menos bom. Tinha trs freiras  cabeceira e um padre j lhe dera a extrema-uno. Todas as filhas 
e netos estavam l, e Oona chorava.
       Cassie afastou primeiro as crianas e mandou-as sair com Billy. Sabia que ele conseguia tomar conta delas, pois lidava muito bem com crianas e um dos cunhados 
props-se acompanh-lo. Depois pediu  me para sair e conversou em voz baixa com as irms. Pat no estava a restabelecer-se e tambm no recuperara a conscincia 
desde o telefonema de Glynnis. Alguns minutos depois, o mdico veio falar com ela e disse estar com reservas sobre a sobrevivncia de Pat.
       Cassie no conseguia acreditar no que estava a ouvir nem no que acontecera ao pai. Tinha estado com ele h quatro semanas e no estava com muito bom aspecto, 
mas no fazia idia de que estivesse doente. Aparentemente, o corao j estava a causar-lhe problemas h algum tempo, mas Pat ignorava-o, apesar das splicas de 
Oona.
       Cassie, a me e trs das irms estiveram com ele toda a noite, e de manh ainda no havia melhoras. No final do dia seguinte, Pat recuperou os sentidos e 
sorriu brevemente para Oona. Era o primeiro sinal de esperana, duas horas mais tarde, abriu os olhos, apertou a mo de Cassie e disse-lhe que a amava. Ela s conseguia 
pensar em como o amara durante a infncia, como tinha sido bom para ela e como adorara voar com ele. Pensava em milhares de coisas e em centenas de momentos especiais.
       - Vai ficar bom? - perguntou ao mdico quando l foi nessa tarde, e este respondeu que ainda era muito cedo para saber. Mas, depois de mais uma noite em branco 
para todas, milagrosamente, na manh seguinte, enquanto as freiras continuavam a rezar o tero a seu lado, Pat estabilizou e o mdico disse que se salvaria. Iria 
ser uma longa luta, mas previa, pelo menos, dois meses de repouso absoluto, a maior parte do qual em casa, na cama. Depois, e com alguma sorte, ficaria como novo. 
Porm, deveria tomar conta de si: no fumar muito, reduzir o lcool e o gelado caseiro de Oona. Foi a maior sensao de alvio que Cassie sentiu na vida, enquanto 
chorava no corredor com as irms. A me ainda estava no quarto a dar-lhe a notcia sobre o gelado.
       - Quem ir dirigir o aeroporto? - perguntou Megan enquanto estavam no corredor. Pat no tinha ningum que o assistisse e desde que Nick, Cass e Billy tinham 
partido, toda a responsabilidade cara sobre os seus ombros. O mdico pensava que talvez tivesse contribudo para o problema. No havia mais ningum para o ajudar 
a gerir o aeroporto.
       - Conheces algum? - perguntou ela a Billy em voz baixa. Este tinha ficado estoicamente junto deles durante dois dias, tal como Chris teria feito. Todavia, 
tambm no conhecia ningum. Muitos dos jovens pilotos que costumavam andar por a tambm se tinham alistado na RAF.
       - Estou perplexo - disse ele sob o olhar de Cassie. Tinham de estar em Los Angeles naquela noite e comeariam a volta ao Pacfico dentro de trs dias. Enquanto 
Billy olhava para ela, leu-lhe o pensamento, ou pensou que o fizera, mas no conseguiu acreditar que Cassie fosse capaz de o fazer. - Ests a pensar no que eu estou 
a pensar que ests a pensar?
       - Talvez. - Estava com um ar muito srio. Era um grande passo, especialmente depois do que Desmond lhe dissera antes de partir. Era realmente um grande passo. 
Se ele quisesse o divrcio, pior para ele. Era do pai que se tratava. - No precisas de ficar comigo. Podes voltar para que ele no se zangue contigo. - As coisas 
iam ficar muito feias quando lhe desse a notcia.
       - No posso ir sem ti - disse Billy calmamente.
       - Talvez ele consiga outro piloto. - Estava a ser ingnua, e Billy percebeu-o. Depois de toda a publicidade feita no ltimo ano e de toda a cuidadosa orquestrao, 
nunca teria o mesmo impacto sem ela, e Desmond sabia-o.
       - O que tencionas fazer? - perguntou Billy, preocupado. No queria que ela sofresse por causa da deciso que tomara, mas tambm sabia o que o pai significava 
para Cassie e quais as suas prioridades. No havia dvida sobre o que tencionava fazer. Apenas sobre a maneira como o faria.
       - Vou telefonar e dizer-lhe que adie a viagem. S sero precisos dois meses, no mximo trs, para que o pai fique bom, e ficarei aqui a dirigir o aeroporto.
       - Fico contigo. Se calhar permanentemente - sorriu ele. - Daqui a dez minutos, poderemos estar sem emprego. - Mas para Cassie significava mais do que um emprego. 
O seu casamento tambm acabaria. No entanto, depois das ameaas de Desmond, j no sabia se teria um casamento ou se alguma vez ele existira. Talvez Nick sempre 
tivesse tido razo no que dizia respeito a Desmond ou talvez este houvesse deixado que as suas emoes o dominassem e j estivesse arrependido. O certo  que nem 
sequer tinha telefonado a Cassie desde que esta partira. No sabia dele h dois dias e quando lhe telefonou do hospital, cinco minutos depois, Miss Fitzpatrick respondeu-lhe 
num tom gelado e foi cham-lo.
       Atendeu quase imediatamente, e Cassie teve pena da falta de privacidade da recepo do hospital, mas no havia soluo. Tinha de lho dizer o mais depressa 
possvel e no queria fazer todo aquele caminho at ao aeroporto para telefonar do escritrio do pai.
       - Onde ests? - foram as suas primeiras palavras.
       - No hospital em Good Hope com o meu pai. - Como se ele no se lembrasse. No lhe perguntou pelo sogro ou por ela. No que lhe dizia respeito, o pai j estaria 
morto, mas continuou sem nada perguntar. - Lamento ter de fazer isto, Desmond.
       - No vou ouvir o que ests a dizer-me, Cassie - respondeu ele num tom gelado. - Lembra-te do que te disse quando partiste e lembra-te que eu no estava a 
brincar.
       Cassie fez uma pausa apenas para respirar e para se lembrar que aquele era o homem com quem casara h quatro meses e meio. Subitamente, era difcil de acreditar. 
Ele era tudo o que Nick dissera.
       - Lembro-me perfeitamente de tudo o que disseste. - gritou ela devido  m ligao. - Parece que ainda me lembro de ter casado contigo. Aparentemente, esqueceste-te. 
A vida  apenas feita de voltas ao mundo. Eu no sou uma mquina, um aviadorzeco de saias, nem apenas um empregado. Sou um ser humano com famlia, e o meu pai quase 
morreu h dois dias. No vou deix-lo. Quero que adies a viagem para daqui a dois ou trs meses. Irei em Setembro ou Outubro. Depois decidirei qual a melhor altura. 
Faz as alteraes necessrias s condies climatricas e  rota. Faz o que quiseres, mas no partirei daqui a trs dias. Precisam de mim aqui e no os abandonarei.
       - Sua filha da me! - gritou ele. - Grande cadela egosta! Fazes idia do que investi em tudo isto no s em dinheiro, mas em tempo, amor e esforo? No fazes 
idia do que significa para mim e para o pas. Tudo o que te interessa  a tua vidinha pattica com a idiota da tua famlia e o vergonhoso aeroporto do teu pai. 
- Desmond falou com um extremo desprezo sobre ela e a famlia, enquanto Cassie no conseguia acreditar no que estava a ouvir. Para lhe dizer tudo aquilo, s podia 
ser um filho da me cruel e impiedoso. Era quase impossvel acreditar nas suas palavras. Ao ouvi-lo, Cassie sentiu uma dor fsica quando entendeu que ela e Desmond 
Williams nunca tinham tido um casamento. Ela servira apenas de instrumento para ele conseguir o que queria.
       - No me interessam os nomes que me chamas, Desmond - gritou ela, ouvindo-se em todo o vestbulo, j estando completamente indiferente para quem a ouvia. 
- Adia a viagem ou cancela-a.  contigo. Neste momento no vou. Pilotarei o que quiseres no Outono, mas daqui a trs dias no vou. Ficarei com o meu pai.
       - E o Billy? - perguntou ele, furioso. Queria despedir ambos, mas sabia que no podia.
       - Vai ficar comigo e com a minha famlia vergonhosa no nosso vergonhoso aeroporto. Aviso-te j que no farei a volta sem ele, Desmond. Tens-nos se nos quiseres, 
mas mais tarde. Comunica-me a tua deciso. Sabes onde estarei.
       - Nunca te perdoarei, Cassie.
       - J percebi. - E no conseguiu deixar de fazer a pergunta. - Porque  que ests to zangado, se j concordei em fazer a viagem mais tarde, Desmond?
       - O embarao, o adiamento. Por que motivo temos de aturar a tua estupidez infantil?
       - Porque posso ter adoecido. Sou humana.  isso mesmo. Porque no dizes  imprensa que eu estou doente? - Riu-se sem expresso, sabendo que, de momento, estava 
para alm do impossvel. - Diz-lhes que estou grvida.
       - No tem graa nenhuma.
       - Lamento sab-lo. Tambm no te acho muita graa. De fato, s uma verdadeira desiluso. Telefona-me quando decidires o que vais fazer. Estarei no aeroporto 
durante os prximos dois meses. Telefona-me quando quiseres - disse Cassie com lgrimas nos olhos, desligando o telefone com fora. Queria dizer-lhe que lamentava 
ter de adiar a viagem, mas Desmond tratara-a to abominavelmente que Cassie acabara por no o fazer. Realmente lamentava ter de a adiar, pois sabia que seria uma 
desiluso para todas as pessoas envolvidas, mas no podia abandonar o pai. Ele sempre estivera a seu lado, e Cassie queria agora retribuir. Porm, os seus olhos 
estavam cheios de lgrimas de raiva e derrota quando desligou o telefone, e tinha as mos a tremer. Quando pousou o auscultador, olhou para a velha freira que operava 
o P13X. Ela fez-lhe um sinal de vitria.
       - Diga-lhes - rosnou ela. - A Amrica ama-a, Cass. Podem esperar mais dois ou trs meses. Faz muito bem em ficar com o seu pai. Deus a abenoe!
       Cassie sorriu-lhe com gratido e voltou para dar as notcias a Billy.
       - O que  que ele respondeu? - perguntou, ansioso.
       - Ainda no tenho a certeza. Disse-lhe para adiar a viagem e que a faramos em Setembro ou Outubro. Insultou-me de tudo. No posso dizer que ele tenha ficado 
muito contente. Disse-lhe ainda que tu ficarias aqui comigo e que no faria a prxima viagem sem ti.  um negcio por atacado. - Billy assobiou perante a sua coragem 
e deu-lhe uma palmada no ombro. - Mas se quiseres regressar, eu compreendo. At podes fazer a viagem sozinho, se quiseres. - Cassie tinha agora muito em que pensar: 
sobre a viagem, o seu casamento, sobre tudo o que Desmond lhe dissera e no dissera. Tinha-se exposto completamente, o que no lhe deixava muitas iluses.
       Depois de quatro meses e meio, o casamento acabara na realidade, mas no legalmente.
       O que Cassie no previra fora a chegada de Desmond a Good Hope no dia seguinte, trazendo consigo mais de cem reprteres e duas equipas de filmagem. Anunciou 
a partir dos degraus do Hospital Mercy, que, devido a circunstncias que o ultrapassavam, a volta ao Pacfico seria adiada at Outubro. Explicou que o sogro estava 
em estado crtico e que Cassie no podia abandon-lo. Iria gerir o aeroporto do pai durante os prximos dois meses, voltando em Setembro aos treinos para a viagem. 
Apanhou-a completamente de surpresa e provou mais uma vez que era tudo aquilo que Nick dissera dele. Era um grande filho da me e uma fraude e, no meio de tudo, 
ainda fingia estar preocupado com o sogro.
       Nem sequer a avisara de que iria. Apenas aparecera no hospital, perguntara por ela e, quando ela saiu para o ver com um ar surpreendido, encontrou-o  espera 
no vestbulo juntamente com os reprteres. Preparara uma conferncia de imprensa na escadaria do hospital sem a avisar. Cassie estava exausta e com mau aspecto, 
que era exatamente o que ele queria. Queria que toda a Amrica sentisse pena dela, para que perdoassem o cancelamento da viagem. Mas no havia qualquer problema. 
Eles teriam perdoado fosse o que fosse. S Desmond no perdoava. Cassie estava to subjugada, cansada, emotiva e to zangada com ele que acabou por chorar quando 
os reprteres lhe perguntaram como estava o pai. Era exatamente o que Desmond queria.
       Quando a imprensa saiu, ele levou-a at  rua e explicou-lhe muito concretamente o que esperava dela. Tinha exatamente dois meses de dispensa. No dia 1 
de Setembro, voltaria para Los Angeles para recomear os treinos e participar em reunies, e no dia 4 de Outubro partiriam com a mesma rota e apenas alguns ajustes 
devido s condies climatrias. Qualquer alterao a estes planos ou a no comparncia dela em Los Angeles na data marcada teria como conseqncia um processo em 
tribunal. Para ter a certeza de que Cassie entendera perfeitamente, trouxera contratos para que ela e Billy assinassem e disse-lhe que iria levar o avio que Cassie 
trouxera.
       - Mais alguma coisa? Queres a minha roupa interior e os meus sapatos? Acho que tambm os pagaste. Deixei o meu anel de noivado em Los Angeles, mas podes ficar 
com ele.  teu. Tambm podes ficar com a minha aliana. - Retirou a aliana da mo a tremer e estendeu-lha. Tudo o que acontecera nos ltimos dias fora um pesadelo, 
e agora ele olhava-a com uma expresso totalmente vazia de emoo. Era um homem que no sentia nada por ningum, nem mesmo pela rapariga com quem casara.
       - Sugiro que a mantenhas no dedo at ao regresso da volta para que no haja falatrio. Depois disso, se quiseres, podes deit-la fora.  contigo - disse ele 
friamente.
       - Era esse o teu objetivo, no era? Era tudo um truque publicitrio para a volta. A namorada da Amrica e o grande milionrio. Porque te deste a tanto trabalho 
e o que te aconteceu? Por que motivo ests agora to disposto a expor-te? S porque a adiei? Ser isso um pecado to mortal? Sei que no  conveniente e que  dispendioso 
alterar os planos. E se houvesse um problema com o avio, se eu adoecesse ou se ficasse grvida?
       - Nunca houve esse perigo. Eu no posso ter filhos. - Tambm no lhe dissera isso. Deixara-a pensar que era uma opo e que, um dia, quando ela estivesse 
preparada, pensariam no assunto. No conseguia acreditar no modo como ele lhe mentira e como o admitia agora com tanta facilidade. Mostrara-lhe completamente os 
seus intentos e no se importava. Tudo o que queria dela era a viagem e sabia que podia process-la e destru-la publicamente se Cassie no a realizasse. No entanto, 
a coisa mais estpida  que ela no se importava com o que Desmond podia fazer-lhe. Estava apenas preocupada com as suas mentiras. Pedira-lhe que casasse com ele, 
dissera-lhe que a amava e fingira gostar dela. No se importava com mais nada a no ser com a sua volta ao mundo, COM os avies que conseqentemente venderia e com 
a publicidade que obteria ao organiz-la do princpio ao fim.
       - O que queres de mim? - Cassie olhou para ele tristemente.
       - Quero que voes.  tudo o que sempre quis de ti. Quero que voes e que todos se apaixonem por ti. Se eu me apaixonei ou no, nunca foi muito importante.
       - Era importante para mim - disse de lgrimas nos olhos, pois acreditara nele.
       - s muito jovem, Cassie - respondeu Desmond calmamente. - Um dia sentir-te-s feliz por ter feito isto.
       - No precisavas de casar comigo para que eu pilotasse a viagem. T-lo-ia feito de qualquer modo.
       - No teria o mesmo impacto sobre o pblico - disse ele com um tom descontrado. O seu casamento tinha sido totalmente calculado. Cassie perguntou a si prpria 
se, em algum momento, ele gostara dela. Agora sentia-se estpida, crdula e usada. Era vergonhoso pensar nas suas relaes fsicas. At a lua-de-mel fora calculada 
e, depois disso, apenas negcio. No perdera muito tempo com o romance.
       - Nunca levaste a viagem a srio e o adiamento prova-o. Devia ter escolhido outra pessoa, mas tu parecias perfeita. - Olhava como se ela o tivesse enganado 
e Cassie contemplou-o, espantada.
       - Gostava que tivesses escolhido outra pessoa - acabou ela por dizer.
       - Agora  demasiado tarde para ambos. Temos de a levar a cabo. j fomos demasiado longe.
       _ Disso no h dvidas. - Admirou-o com um ar grave. Pelo menos, ele havia ido longe de mais.
       Desmond nada mais tinha para lhe dizer: um pedido de desculpas, uma palavra de arrependimento ou de conforto. Apenas lhe disse para estar em Los Angeles no 
dia 1 de Setembro, como previsto, e Cassie e Billy assinaram os contratos. Desmond voltou para o aeroporto e uma hora depois tinha partido. Conseguira o que queria: 
um juramento e mais uma rodada de publicidade  custa de Cassie. Na semana seguinte, todo o pas sabia do ataque de corao de Pat, j a vira chorar e todos estavam 
com ela. Apenas tornava a viagem mais excitante.
       No Hospital Mercy, Pat era bombardeado com flores, presentes e cartes desejando-lhe as melhoras. Foram obrigados a oferec-los a outros doentes e comear 
a mandar os arranjos de flores em caminhes para outros hospitais e igrejas. Cassie nunca esperara uma reao daquelas, mas Desmond sim. Como sempre, sabia exatamente 
o que estava a fazer.
       Continuava a contar histrias  imprensa e a dar entrevistas em Los Angeles sobre o duro trabalho de Cassie e sobre os desenvolvimentos que tinham feito no 
seu avio. Mas interessantemente, em finais de Agosto, um dos mecnicos detectou uma falha num dos motores. Estavam a fazer ensaios num tnel de vento, no Instituto 
de Tecnologia da Califrnia, quando o motor se incendiou, causando imensos danos ao avio. Foi dito  imprensa que havia reparao, mas o adiamento da volta tinha 
sido providencial. Cassie s soube do acidente quando o leu no jornal; contou a Billy, que assobiou.
       - Que bonito, hem? Gostarias de ter urinado sobre o motor nmero um a sobrevoar o Pacfico? - perguntou ela de sobrolho levantado.
       - Dem-me cerveja suficiente que eu consigo fazer muitas coisas, comandante. - Sorriu e ela riu-se. Ambos estavam preocupados e falaram vrias vezes com os 
mecnicos sobre o assunto. Todos lhe asseguraram que o problema fora resolvido.
       Foi um Vero difcil para Cassie. Ainda estava em choque com o que acontecera com Desmond. Pensava muito em Nick e queria escrever-lhe, no sabendo, contudo, 
o que dizer. Era estranho ter de admitir que Desmond era to mau como Nick afirmara. Fazia com que ela parecesse pattica. Finalmente, acabou por escrever sobre 
o pai e disse que a viagem fora adiada e que sempre o amaria. Decidiu desvendar-lhe o resto quando o visse novamente. Pensou em oferecer-se como voluntria para 
a RAF, mas s queria pensar nisso depois da volta ao Pacfico. Talvez em Novembro conseguisse ir at Inglaterra para o ver. J no tinham notcias de Nick h dois 
meses, se bem que fosse habitual. A guerra na Europa continuava devastadora e s podiam partir do pressuposto de que ele estava bem, pois, de contrrio, j teriam 
sido notificados. Cassie tinha muitas saudades dele e fia tudo o que podia sobre a guerra area em Inglaterra.
       A volta ao Pacfico j deixara de ser excitante. Faz-la sob ameaas era muito diferente do que faz-la por amor ou como um projeto partilhado. No entanto, 
sabia que seria interessante e tudo o que desejava era acabar com aquilo. Nessa altura, poderia continuar a sua vida.
       O pai melhorara bastante depois de voltar para casa. Perdera algum peso, deixara de fumar e raramente bebia. Parecia mais saudvel e forte de dia para dia. 
Em finais de Agosto, voltou para o aeroporto e parecia melhor do que nunca. Ficou espantado com tudo o que Cassie e Billy tinham feito e muito grato a Billy por 
ter ficado com ela. Mas fora Cassie que lhe conquistara ainda mais o corao. Dizia a todos que era uma rapariga rara e maravilhosa e que tinha adiado a volta ao 
Pacfico por sua causa, como se todos no soubessem. Cassie nada lhe dissera sobre os problemas com Desmond, mas h muito que Pat pressentia que algo a incomodava 
e pensou se seria Nick ou outro qualquer. Cassie s lhe revelou o acontecido na vspera da sua partida.
       -  o Nick que est a incomodar-te, Cass? - Sabia que ela vivia a pensar em Nick e estava preocupado com o que obviamente tinha acontecido da ltima vez que 
tinham estado juntos. Era uma pena as coisas no terem resultado entre eles, mas Cassie no podia esperar indefinidamente, quando Nick lhe dissera para no o fazer. 
Pat tentara dizer-lhe que era um erro libert-la daquela maneira, mas os jovens nunca ouvem. Nick j tinha idade suficiente para saber algumas coisas, contudo, tal 
como a maioria dos homens, no sabia lidar com mulheres. - No podes consumir-te por ele, Cassie, Especialmente casada com outro homem.
       Ela acenou com a cabea, ansiosa por lhe contar a verdade. Estava muito envergonhada, pois Desmond tinha-a enganado completamente.
       - H algo que no ests a dizer-me, Cassandra Maureen - espicaou Pat. Finalmente, Cassie acabou por contar, e Pat ficou atordoado com as suas revelaes. 
As previses e avisos de Nick estavam corretos.
       - Ele tinha razo, pai. Toda a razo.
       - O que vais fazer agora? - Pat s tinha vontade de o matar. Que partida to aviltante! Explor-la at  medula para seu proveito e glria.
       - No sei. Fazer a volta, obviamente. Devo-lhe isso. Se bem que ele no saiba, eu nunca o deixaria ficar mal. F-la-ei. Depois - respirou fundo, pois no 
havia muito por onde escolher -, pediremos o divrcio. Tenho a certeza de que ele ir fazer tudo para me responsabilizar de algo terrvel.
       - Manipular a imprensa em seu proveito.  muito mais complicado e mau do que eu pensei.
       - Achas que te dar alguma coisa? - perguntou Pat. Era um homem muito rico e poderia pagar bem a desiluso de Cassie.
       - Duvido. Ganharei o prmio da volta que ele ia reduzir devido ao adiamento, mas no o fez. Considera-o uma grande ddiva. No preciso de mais e no quero 
nada dele. J foi suficientemente generoso. - Poderia viver durante anos com a carreira que ele lhe possibilitara, o que j era um bom pagamento. No queria mais 
nada de Desmond.
       - Lamento, Cassie. Lamento muito. - Estava profundamente consternado com o que ouvira e ambos concordaram em no perturbar a me.
       - Tem cuidado contigo durante a viagem.  a nica coisa que importa. Poders resolver o resto mais tarde.
       - Quando voltar talvez v pilotar bombardeiros em Inglaterra como Jackie Cocliran. - No ms de junho, ela tinha sido o co-piloto de um bombardeiro Lockheed 
Hudson, provando, de uma vez por todas, que as mulheres conseguiam pilotar avies pesados.
       - No digas disparates - resmungou o pai, rolando os olhos. - Pilotar bombardeiros em Inglaterra! Vais provocar-me outro ataque de corao. juro que me fazes 
arrepender do dia em que te levei comigo num avio. Ser que no consegues fazer nada de vulgar por uns tempos? Atender telefones, cozinhar ou ajudar a tua me a 
limpar a casa? - Mas ela sabia que o pai a estava a arreliar. Pat sabia que no havia esperana de ela deixar os cus. - Vai com cuidado, Cass - avisou ele antes 
de ela partir. - Tem cuidado. Mantm os teus sentidos aguados. - Pat sabia que ela era muito boa e nunca vira um piloto to bom.
       Na manh seguinte,  partida, todos choraram, sabendo o perigo que ela corria durante a volta ao Pacfico, e Cassie e Billy choraram com eles. Pat e outro 
piloto levaram-nos a Chicago, onde apanharam o vo comercial para Los Angeles. Era agradvel para variar. As Skygirls fizeram-lhe uma grande festa, e depois Cassie 
e Billy sentaram-se a conversar sobre o ms de treino que tinham  sua frente. Havia sido muito agradvel passar o Vero no aeroporto, como nos velhos tempos. Agora 
estavam mais maduros. Tinham dias muito excitantes  sua frente e, apesar de Desmond, Cassie estava a ficar muito entusiasmada com a viagem.
       - Onde tencionas ficar quando voltares a Newport Beach? - inquiriu Billy calmamente durante o vo.
       - Ainda no pensei nisso. No sei. Acho que posso ficar num hotel. - Cassie suspeitava que Desmond no iria gostar disso por causa do escndalo. Mas no conseguia 
imaginar-se em casa dele, depois de tudo o que acontecera. Desmond no telefonara uma nica vez em dois meses, e as nicas cartas que recebera eram dos advogados 
ou do escritrio.
       - Se quiseres podes ficar comigo. Se algum descobrir podes dizer que faz parte do treino. O que achas?
       - Penso que gostaria - disse ela honestamente. No tinha lugar onde ficar.
       Nessa noite, foi para casa com Billy, levando alguma roupa que trouxera de Illinois e alguns uniformes de vo. No dia seguinte, foi com Billy para o emprego 
no seu velho carro. Apesar de todo o dinheiro que ganhara, Billy ainda no tinha comprado um carro decente nem planejava faz-lo. Adorava o seu velho Modelo A, se 
bem que metade das vezes ele no pegasse.
       - Para um tipo que pilota os melhores avies, como podes conduzir este carro? - perguntou ela s trs e meia da manh.
       -  fcil - sorriu ele. - Adoro-o.
       J haviam trabalhado bastante quando o Sol nasceu e s terminaram ao fim da noite. Tambm tinham um vo noturno de treino. Cassie s viu Desmond no segundo 
dia e pelo nico motivo de ter chocado com ele  sada de um hangar, perto do seu escritrio. Ficou surpreendida por v-lo ali, mas ele estava a mostrar as instalaes 
a algum. Foi v-la mais tarde. Queria ter a certeza de que Cassie no diria nada de pouco apropriado  imprensa, no sendo mais simptico do que fora da ltima 
vez.
       - Onde ests a morar? - Desmond suspeitara que Cassie no voltaria para ele e tambm no se importava, desde que a rapariga nada dissesse. Tinha embalado 
e armazenado num dos hangares os haveres de Cassie em caixas codificadas. A nica coisa que no queria era um escndalo. Porm, conhecia-a suficientemente bem para 
saber que ela nunca o provocaria. Era demasiado ntegra e orgulhosa. Queria fazer a volta ao Pacfico para ele e faz-la como devia ser. No desejava causar nada 
que o magoasse.
       Estou em casa do Billy - disse Cassie com um ar digno, usando um dos seus velhos fatos de vo.
       Tenta ser discreta - afirmou ele firmemente, sabendo, contudo, que at um pequeno arrufo de namorados relatado na imprensa no os atingiria.
       -  bvio. Acho que ningum suspeita que estou em casa do Billy. - Cassie pensara em falar com Nancy Firestone antes de tomar a deciso, mas sentira vergonha 
de pedir para ficar com ela e Jane. j no eram muito chegadas, e Billy convidara-a a ficar em sua casa. A nica coisa que ela no poderia fazer era ficar num hotel, 
pois teria aparecido imediatamente nos jornais, a no ser que Desmond estivesse com ela, o que no estava de todo a acontecer.
       Por estranho que parea, Cassie encontrou Nancy Firestone ao fim do dia, depois de ter chocado com Desmond. Nancy estava a deixar a empresa e Cassie tinha 
ido comprar algo para ela e Billy comerem, antes das reunies da noite.
       - Est a aproximar-se, no est? - perguntou Nancy com um sorriso. Todos na Williams Aircraft estavam a contar os dias e os minutos, e Cassie tinha um ar 
cansado e contrado quando sorriu e acenou com a cabea. Ver Desmond ao fim de um dia longo no fizera nada para lhe levantar o moral. Tinha sido pouco amvel e 
frio com ela, sendo impossvel imaginar que alguma vez houvera qualquer coisa mais ntima entre eles. Pelo menos, Nancy Firestone fora mais calorosa com Cassie e 
tinha sido bom encontr-la.
       - Est cada vez mais perto - sorriu Cassie. - Como est a Jane? Tenho saudades dela. J no a vejo h imenso tempo.
       - Est tima. - As duas mulheres ficaram de p a olhar uma para a outra durante muito tempo, e Cassie percebeu que Nancy a olhava com um ar estranho. Parecia 
que queria dizer-lhe alguma coisa, mas no tinha a certeza. Por um instante, Cassie perguntou a si prpria se teria feito algo que a ofendesse. Desde o seu casamento 
com Desmond que, Nancy se comportava de uma maneira muito fria. Talvez fosse devido  nova posio de Cassie. Esta sorriu s de pensar nisso. Se era isso que a afligia, 
bem podia estar descansada.
       - Podamos estar juntas um dia destes - disse Cassie calorosamente, tentando ser amistosa em memria dos velhos tempos. Fora Nancy que a fizera sentir-se 
em casa quando chegara a Los Angeles e se sentira to sozinha.
       Nancy, porm, olhava para ela como se no conseguisse acreditar no que Cassie estava a dizer.
       - Ainda no percebeste. Pois no, Cass?
       - Perceber o qu? - Cassie estava com ar de parva, mas tinha muitas outras coisas em mente para brincar s adivinhas com Nancy.
       - Ele no  o que sempre pensaste dele. Muito poucos conhecem o verdadeiro Desmond. - Cassie endireitou-se perante aquela oblqua referncia a Desmond. No 
iria ser levada a discutir o assunto com Nancy. Perante todos, ele ainda era seu marido.
       - No sei a que te referes - disse Cassie friamente, olhando de alto a baixo para a outra mulher. De sbito, percebeu que havia muito mais do que imaginara. 
Havia raiva, cimes e inveja. Estaria Nancy apaixonada por ele? Teria tido cimes de Cassie? Cassie entendeu de repente como tinha sido ingnua em relao a todos 
eles. Parecia que nenhum fora o que parecera.
       - Acho que no devamos falar do Desmond - disse Cassie em voz baixa. - A no ser que queiras discutir o assunto diretamente com ele.
       -  uma possibilidade - afirmou Nancy com um sorriso desdenhoso. - Eu sabia que ele no iria ficar muito tempo contigo. Tudo era um circo.  pena que nunca 
o tenhas percebido, Cass.
       Mas o que saberia ela sobre o assunto? O que  que Desmond lhe teria dito?
       Cassie corou e encolheu os ombros.
       - Acho que  um pouco complicado para mim. Na minha terra as pessoas casam-se por outras razes.
       - Tenho a certeza de que ele se sentiu atrado por ti e talvez tivesses conseguido agarr-lo se tivesses jogado bem o jogo. Mas ele no gosta de jogar com 
crianas. Penso que, acima de tudo, tu o aborrecias, Cass.
       Ento, enquanto Cassie olhava para Nancy, percebeu o que esta estava a dizer. Entendeu tudo: como tinham sido maus e corruptos.
       - E tu no o aborreces, Nancy?  isso?
       - Parece que no. Mas eu sou um pouco mais madura. Sei jogar melhor do que tu.
       - qual  o jogo? - quis Cassie saber.
       -  o jogo de fazer exatamente o que ele quer, quando quer e exatamente do modo que ele quer. - Tudo aquilo soou a Cassie como um servio e no como um casamento.
       -  esse o teu contrato com ele? Foi assim que conseguiste a tua casa e a faculdade para a Janie? Sempre pensei que ele era muito generoso, mas agora acho 
que h muita coisa que no encaixa. - Era exatamente o que Nick lhe dissera. Desmond Williams tinha amantes, a quem pagava muito generosamente para estarem prontas 
para o receber e fazer o que ele queria. Para Nancy significara fazer de dama de companhia a Cassie, e esta percebeu como aquilo a devia ter irritado. De certo modo, 
se no fosse to nojento, quase seria divertido.
       - O Desmond  muito generoso comigo, mas no tenho iluses a respeito dele - disse Nancy friamente, olhando de frente para Cassie. - Nunca casar comigo e 
nunca se envolver comigo em pblico, mas sabe que estou ali para ele e  bom para mim. Tem resultado muito bem para ambos. - Ao ouvir a fria simplicidade das coisas, 
o vazio calculado que alegadamente satisfazia as suas necessidades, Cassie s teve vontade de a esbofetear.
       - Ele ia ter contigo enquanto estava casado comigo? - perguntou Cassie com a voz estrangulada, aterrorizada com a conversa.
       - Obviamente. Onde achas que ia  noite quando no estava a trabalhar? E porque pensas que ele no dormia contigo? Eu avisei-te, Cassie. Desmond gosta de 
brincar com as crianas e no  to mau como parece. Achava que no havia razo para dormir contigo ou enganar-te mais. Foi tudo por causa da viagem. De certa maneira, 
Desmond  um purista.
       - Filho da me. - As palavras saram da boca de Cassie sem pensar e, quando olhou para Nancy, odiou-os a ambos. Ela tinha sido uma brincadeira para os dois. 
Tudo fazia parte da volta ao Pacfico e o esquema principal era vender avies.
       O seu casamento tinha sido apenas uma pequena parte do plano, um golpe publicitrio, e durante todo aquele tempo Desmond dormira com Nancy. J no a admirava 
o fato de Nancy ter ficado to fria com ela desde que se casara. Talvez, por alguns instantes, Nancy tivesse ficado preocupada. Era dez anos mais velha do que Cassie, 
mas no era to excitante ou bonita.
       - No tiveste medo que ele se apaixonasse por mim?
       Cassie observou-a atentamente e ficou contente por ver a mulher mais velha contorcer-se com a pergunta.
       - No. Ns falvamos de ti e tu no s o tipo dele, Cass.
       - De fato, e dadas todas as informaes que possuo, considero isso um cumprimento. - Cassie olhou-a friamente e decidiu agredir ligeiramente a sua adversria. 
- No ests sozinha. No s a nica que tem esse tipo de compromisso com Desmond.
       - O que  que isso quer dizer?
       - H outras como tu, com casas, contratos e compromissos. O Desmond no  homem para se satisfazer s com uma mulher. - Cassie sentiu-se recompensada com 
a expresso de terror que viu.
       - Isso  ridculo. Quem te disse isso?
       - Algum que sabe. Disse-me que as outras so bastante numerosas.  como uma pequena competio.
       - No acredito. - Mas as suas palavras soavam a bravata.
       - Eu tambm no acreditei em nada, Nancy. No entanto, sei. Foi bom ver-te - sorriu ela. - Diz ol ao Desmond por mim. - Com isto, entrou apressadamente no 
edifcio.
       J no queria nada para comer. Nancy Firestone tinha-lhe tirado o apetite. Sentia-se doente quando foi ter com Billy ao hangar.
       - Onde est o meu jantar? - Ambos tinham de estar presentes numa reunio da a meia hora e ele estava morto de fome.
       - Comi-o no regresso - mentiu, mas estava mortalmente plida. Billy notou-o de imediato e ficou preocupado.
       - Ests bem, Cass? Parece que viste um fantasma. Houve algum telefonema sobre o teu pai?
       - No. Ele est bem. Falei com a minha me esta manh.
       - Ento o que aconteceu? - Ela hesitou durante muito tempo, sentou-se numa cadeira e contou-lhe tudo o que Nancy Firestone lhe dissera.
       - Que filho da me! - comentou Billy de lbios cerrados. - Tem a jogada muito bem montada, no tem?  pena que para isso tenha de arruinar a vida de outras 
pessoas. Era bom que ele ficasse com pessoas da mesma laia.
       - Acho que fica. Pelo menos, parte do tempo. - Nancy Firestone no tinha sido a amiga que parecera. - Depois da viagem, quero sair de Los Angeles e ir para 
casa. Acho que no tenho mais nada a fazer aqui. - Parecia esgotada quando olhou para ele e o viu acenar com a cabea. Billy estava com pena dela, pois Cassie no 
merecia o que lhe acontecera.
       Para Cassie, tudo aquilo explicava porque j nunca mais tinham feito amor e por que razo ele no mostrara um verdadeiro interesse nela depois da lua-de-mel. 
Desmond continuara a estar com Nancy e Deus sabe quem mais. Talvez Cassie tivesse tido sorte por ele no se ter dado ao trabalho de passar tempo na cama com ela. 
Se o tivesse feito, ela sentir-se-ia pior. Pelo menos, suspeitava que sim. Cassie sentia-se agora atraioada e um pouco mais do que idiota. O pior  que Cassie acreditara 
naquele filho da me.
       - O que fazemos agora? - perguntou Billy, preocupado com ela. Billy continuava a perguntar a si prprio se, devido  traio de Desmond, ela desistiria da 
viagem com ou sem contrato. Mas Cassie no fazia as coisas dessa maneira. Fazia teno de terminar o que comeara, e Billy admirava-a por isso.
       - Acabaremos a corrida, mido. Foi para isso que voltamos. O resto era a cobertura do bolo. - E para Cassie o bolo estava envenenado, mas nunca ningum chamaria 
covarde a Cassie O'Malley.
       - Linda menina! - Billy deu-lhe um abrao e levou-a a jantar, mas ela mal lhe tocou.
       Depois do ocorrido, houve uma conferncia de imprensa todas as semanas, e Desmond fazia questo em ser amigvel com ela em pblico. Havia muitos gracejos, 
algumas histrias divertidas sobre ela e pouca amostra de afeto. Era tudo muito comovente, se no se soubesse o que realmente estava a acontecer, e era bastante 
credvel para algum que no os conhecesse.
       Cassie parecia mais sria do que anteriormente, o que era facilmente explicvel devido s tenses resultantes da viagem. Tinha uma tarefa muito importante 
 sua frente. Treinava muito e Desmond lembrava freqentemente  imprensa que Cassie passara todo o Vero a tomar conta do pai.
       - Como est o seu pai, Cass? - inquiriu um dos reprteres.
       - Est muito bem. - Depois agradeceu a todo o pas os presentes, postais e cartas. - Ajudaram-no muito. j recomeou a voar com um co-piloto - disse orgulhosa. 
Eles acreditaram, tal como acreditavam em tudo o que Desmond lhes dizia. Cassie agora conhecia o jogo, e Billy ficava maravilhado com a sua destreza quando a observava.
       - Ests bem? - perguntou ele em voz baixa depois de uma das conferncias de imprensa. Desmond fora especialmente amvel com ela, e Billy dera-se conta que 
o fato a perturbara bastante.
       - Sim. Estou bem - disse Cassie, mas Billy sabia como estava magoada e como se sentia trada. Odiava toda aquela hipocrisia e vergonha.  noite, tinha pesadelos, 
pois, uma noite, ele ouvira-a gritar no quarto ao lado.
       Nunca mais estivera com Desmond a ss, at  vspera da volta. Tinha havido uma enorme conferncia de imprensa nessa tarde e, depois, ela e Billy saram para 
jantar tranqilamente no seu restaurante mexicano favorito.
       Quando regressaram, Desmond estava  sua espera, sentado no carro. Quando saiu, disse a Billy que queria falar com Cassie.
       - S queria desejar-te sorte para amanh. Estarei no aeroporto antes da descolagem, mas queria que soubesses que tenho pena que as coisas no tenham resultado 
como planejamos. - Estava a tentar ser magnnimo, mas o modo como agiu irritou-a.
       - Quais eram exatamente os teus planos? Eu planejei ter uma vida, marido e filhos. - Ele planejara ter uma volta ao mundo, uma amante e uma esposa de carto 
que arrastava para documentrios.
       - Ento acho que devias ter casado com outro. Eu estava  procura de uma sociedade e no muito mais do que isso. Isto era um negcio. E o casamento no o 
ser, Cassie? - Desmond estava a tentar mostrar que as coisas no tinham resultado e que no mentira sobre tudo, incluindo o fato de ser estril. Cassie teria conseguido 
viver com isso e com muitas outras coisas, se ele tivesse sido honesto. Ambos sabiam que nunca o tinha sido.
       - Acho que no fazes a mnima idia do que  um casamento, Desmond.
       - Talvez no - disse ele sem vergonha. - Para te dizer a verdade,  algo que eu nunca quis.
       - Ento para que te deste ao trabalho? Eu teria feito esta viagem sem serem necessrios os disparates, as mentiras e o casamento. No precisavas de ir to 
longe. Tu usaste-me - disse ela, aliviada por finalmente o poder dizer.
       - Usamo-nos um ao outro. Tu vais ser a maior estrela da aviao daqui a dois meses e fui eu que te pus l, num dos meus avies. Estamos quites. - Parecia 
contente consigo prprio, pois era tudo o que desejava. Cassie nada significava para ele e nunca significara. Era esse o aspecto mais difcil de suportar.
       - Parabns. Espero que possas gozar tanto como esperavas.
       - E gozarei. - Tinha a certeza. - E tu e Billy tambm. Nesta parada, todos seremos vencedores.
       - Se tudo correr bem. Ests a partir de grandes pressupostos - disse ela cautelosamente.
       - Tenho esse direito. Vais pilotar um avio notvel e s um grande piloto. Nada mais  necessrio, a no ser a Senhora da Sorte e bom tempo. - Olhou longa 
e duramente para a jovem, desejando que fizesse tudo bem por ele, mas nada lhe oferecendo em troca a no ser glria e dinheiro. O amor no fazia parte do plano. 
No o tinha dentro de si. - Boa sorte, Cass - disse.
       - Obrigada - respondeu Cassie, subindo para o apartamento de Billy.
       - O que  que ele queria? - perguntou Billy, desconfiado. Estava preocupado com o fato de Desmond poder ter dito a Cassie algo que a perturbasse.
       - Apenas desejar-nos sorte  sua maneira. No existe ningum dentro dele. Finalmente percebi: aquele homem est completamente vazio. - Era uma grande verdade. 
Desmond Williams no tinha alma. Apenas ganncia, calculismo e paixo avassaladora por avies e no por pessoas. Ela fora apenas um instrumento, qual uma chave de 
fendas com que se afina um motor. Era o veculo do seu sucesso. Nada mais. O dente da roda de uma das suas mquinas e, pelos vistos, muito pequeno. Era ele quem 
manobrava os fantoches, o desenhador e o esprito de tudo. Aos seus olhos, Cassie no era nada.
       O North Star descolou na manh de 4 de Outubro, tal como planejado, com centenas de pessoas a observar. O cardeal de Los Angeles abenoou o avio. Houve champanhe 
para todos e Cassie descolou para uma rota de circuito, destinada a quebrar recordes de distncia e acomodar os caprichos da poltica mundial do momento.
       Voaram primeiro em direo ao Sul, para a cidade de Guatemala, cobrindo quatro mil quilmetros de um s golpe e sem reabastecimento. Quando chegaram, consultaram 
os mapas e o tempo, passando algum tempo a investigar a rea e falando com os nativos. As pessoas estavam fascinadas com o avio e chegaram ao aeroporto em bandos 
para o ver. Desmond tinha feito bem o seu trabalho de casa. Todo o mundo sabia da viagem de Cassie.
       A imprensa estava em massa  espera deles no aeroporto da cidade de Guatemala, juntamente com embaixadores, enviados, diplomatas e polticos. Havia uma banda 
de marimbas a tocar e Cassie e Billy posaram para os fotgrafos. Ningum fora tanto o alvo das atenes a no ser Charles Lindbergh.
       - No  uma vida nada m, pois no? - Cassie disse-o para arreliar Billy, enquanto descolavam, no dia seguinte, em direo a San Cristbal, nas ilhas dos 
Galpagos. Eram uns meros mil e setecentos quilmetros, que venceram apenas em trs horas no extraordinrio avio que a Williams Aircraft construra para eles. Desta 
vez, Desmond conseguira o seu primeiro desejo: tinham acabado de estabelecer um recorde de velocidade e distncia.
       - Talvez fosse bom pararmos algures e tirar umas frias - sugeriu Billy. Ela sorriu-lhe enquanto era recebida por personalidades do Equador, pessoal militar 
americano e nativos. Havia mais fotgrafos e o governador das ilhas convidou-os para jantar.
       A viagem estava a decorrer lindamente e passaram l um dia a verificar pormenorizadamente o avio e a consultar os mapas e as condies climatricas. As coisas 
no podiam estar melhores.

CAPTULO 18
       Dos Galpagos, voaram mais trs mil e oitocentos quilmetros at  ilha de Pscoa, em exatamente sete horas, mas, desta vez, depararam com ventos inesperados 
e no conseguiram bater o recorde.
       - Melhor sorte para a prxima - disse Billy, brincando enquanto deslizavam pela pista de aterragem da ilha de Pscoa. - Aquele teu marido  capaz de pegar 
fogo s nossas casas se no conseguirmos bater mais alguns recordes. - Ambos sabiam que Desmond estava atento aos japoneses que tinham estado a trabalhar num avio 
que fazia um vo direto de Tquio a Nova Iorque, numa distncia de onze mil quilmetros, mas at agora s tinham surgido problemas, apenas conseguindo voar at ao 
Alasca. O seu primeiro vo de teste estava marcado para da a um ano, e Desmond estava decidido a super-los. Era esse o motivo daqueles longos vos sobre o Pacfico.
       Enquanto reabasteciam o avio, acharam a ilha de Pscoa um lugar fascinante. Estava cheia de gente inocente e bonita e de intrigantes esttuas. As lendas 
contavam que as esttuas datavam da Pr-Histria e havia mistrios que Cassie teria adorado explorar se tivesse tempo para l ficar.
       Permaneceram apenas uma noite na ilha de Pscoa, a fim de se prepararem para a grande distncia que os separava de Papeete, no Taiti. Desta vez, conseguiram 
quase bater o recorde. Viajaram os quatro mil e trezentos quilmetros em sete horas e catorze minutos sem um nico problema.
       Aterrar no Taiti foi como a chegada ao paraso, e enquanto Billy observava as raparigas alinhadas nas pistas de aterragem, vestidas com sarongues, a acenar-lhes 
e transportando leis, aqueles colares floridos, soltou um grito que fez com que Cassie se risse  gargalhada.
       - Meu Deus! E ainda nos pagam para fazer isto, Cass? Eu no acredito.
       - Porta-te bem ou ainda nos prendem se sares do avio com esse ar. - Billy estava praticamente a babar-se. Era como uma criana grande e Cassie adorava voar 
com ele. Alm disso, era um navegador espantoso e um mecnico brilhante.
       De fato, tinha ouvido um rudo de que no gostou no momento em que descolaram da ilha de Pscoa e, depois de prestar a devida homenagem s raparigas locais, 
quis voltar ao avio e ver o que era. Mencionaram o fato quando telegrafaram para casa nessa noite, mas asseguraram a todos que no era um problema srio. Mandavam 
relatrios dirios dos seus progressos e ficaram aliviados ao anunciar que tinham acabado de bater outro recorde.
       Em Papeete, quase toda a gente falava francs e Billy apenas falava o suficiente para se desembaraar. O embaixador francs ofereceu-lhes um jantar, mas Cassie 
pediu desculpa por no ter nada para vestir a no ser o uniforme de vo. Algum lhe emprestou um lindo sarongue para substituir aquele, e levava uma grande flor 
cor-de-rosa no cabelo quando Billy a acompanhou ao jantar.
       - No te pareces nada com Lindy - disse ele com admirao, colocando o brao  sua volta enquanto caminhavam do hotel at  embaixada. Mas a sua relao era 
estritamente fraternal. Depois do jantar, enquanto caminhavam pela praia e falavam da viagem, Cassie disse com tristeza que desejava que Nick ali estivesse. Papeete 
era um local mgico e as pessoas maravilhosas. Era o lugar mais bonito que ela conhecia e resistiu  comparao com a lua-de-mel no Mxico. Era uma recordao que 
queria esquecer.
       Nessa noite, Cassie e Billy sentaram-se na praia a conversar sobre as pessoas que tinham conhecido e do que tinham visto. O jantar na embaixada fora impressionantemente 
civilizado e, at de sarongue, Cassie se sentiu deslocada, quanto mais em uniforme de vo.
       - Por vezes, as coisas que fazemos ainda me espantam - disse Cassie com um sorriso, apontando para a flor que usara naquela noite. - Como  que tivemos tanta 
sorte? Olha para o avio que estamos a pilotar e os lugares onde vamos.  como se fosse a vida de outra pessoa. Como  que chegamos aqui? j sentiste isto, Billy? 
- Por vezes, sentia-se muito jovem. e, outras, muito velha. Aos vinte e dois anos, e tendo tudo em considerao, sentia que tivera muita sorte e pouco azar, mas 
aquela era a sua maneira de ver as coisas.
       - Eu diria que pagaste muito caro por esta viagem, Cass. Mais caro do que eu - respondeu Billy, muito srio, pensando no casamento dela. - No entanto, acho 
que sinto o mesmo. Estou sempre  espera que algum me agarre e me diga: O que  que o mido est a fazer aqui? No faz parte disto.
       - Tu fazes parte disto - disse Cassie calorosamente. - s do melhor que h. No teria feito a viagem sem ti. - A nica pessoa com quem gostaria de ter voado 
era Nick. Talvez um dia.
       - Em breve estar tudo acabado e tu sabes disso, Cass Pensei nisso quando aterramos aqui. Zip! Acabou. Planeja-se, pratica-se e sua-se durante um ano e depois, 
em dez dias, acabou. - Estavam quase a meio do caminho e Cassie ficou triste ao pensar nisso. No queria que a viagem terminasse to depressa.
       Regressavam lentamente para o hotel quando ela disse algo a Billy que o surpreendeu.
       - Acho que devo estar grata ao Desmond por tudo isto e estou. Contudo, j no parece a viagem dele. Contou-me todas aquelas mentiras, levou avante os seus 
esquemas, mas  a nossa viagem. Ns  que estamos a realiz-la. Ns  que estamos aqui e no ele. Subitamente, Desmond parece muito pouco importante. - Era um alvio 
para ela, e Billy ficou contente por Cassie no se estar a atormentar sobre o terrvel negcio que fizera com o marido.
       - Esquece-o, Cass. Quando voltarmos, tudo isso pertencer ao passado. Tu ters toda a glria.
       - Acho que nunca quis a glria - disse ela honestamente. - S queria a experincia e saber que a conseguia fazer. - Mas no o suficiente para arruinar a vida 
de outra pessoa.
       - Eu tambm - concordou ele, mas tambm era realista sobre a confuso que viria mais tarde. - Mas a glria tambm no  nada m. - Sorriu parecendo um rapazinho. 
Cassie riu-se, olhando depois para ele muito sria.
       - Eu ia iniciar o processo de divrcio antes de partirmos, mas decidi esperar at voltarmos, no caso de algum reprter mais curioso vir a saber de alguma 
coisa. No quis dar cabo das coisas mexendo-me demasiado cedo. Todavia, os papis esto todos prontos e assinados. - Suspirou quando se lembrou da ida ao escritrio 
do advogado. Fora uma experincia muito dolorosa contar a Desmond o que tinha feito.
       - Que motivo vais dar para te divorciares dele? - perguntou Billy com interesse. Conseguia, pelo menos, meia dzia de motivos, nenhum dos quais agradvel, 
comeando com adultrio e terminando com o desgosto que causara a Cassie, se  que isso era agora um motivo legal para o divrcio.
       - Para comear, fraude. Soa horrivelmente, mas o advogado diz que existem possibilidades. - E depois havia Nancy. - Acho que vamos tentar chegar a um acordo. 
Talvez nos divorciemos em Reno, se ele concordar. Pelo menos, seria rpido.
       - Claro que seria - disse Billy sensatamente. Depois, dirigiram-se aos respectivos quartos, encontrando-se novamente na manh seguinte para tomar o pequeno-almoo 
no terrao.
       - E se ns lhes dissermos que podem ficar com o seu precioso avio e ficarmos aqui? - Billy sorriu-lhe, enquanto comia uma omelete, croissants e uma chvena 
de caf forte, servido por uma rapariga de dezesseis anos que tinha um corpo de cortar a respirao.
       - No achas que te fartavas? - Cassie sorriu e sentou-se a seu lado. Tambm gostava de estar ali, mas estava ansiosa por continuar para Pago Pago e depois 
para a ilha Howland.
       - Nunca me fartaria - disse ele, sorrindo para a rapariga e olhando de soslaio para Cassie. - Acho que gostaria de acabar os meus dias nesta ilha. E tu?
       - Talvez. - No parecia muito convencida e sorriu-lhe. - Penso que terminarei os meus dias da mesma maneira que os comecei: sob a barriga de um avio. Talvez 
me construam uma cadeira de rodas especial.
       - Parece timo. Eu construo-te uma.
       - Talvez seja melhor fazeres primeiro as verificaes ao North Star.
       - Ests a dizer que no posso ficar na praia todo o dia? - Fingiu um ar chocado, mas, meia hora mais tarde, estavam a passar o avio a pente fino e com toda 
a seriedade. Tinha acabado a brincadeira e, como seria de prever, os fotgrafos e visitantes vieram observ-los.
       Transportavam muito poucas coisas no North Star, exceto uma grande quantidade de combustvel, mantimentos de emergncia, um rdio, coletes de salvao e uma 
jangada. Tinham tudo o que precisavam, mas cada vez que paravam sentiam a enorme tentao de comprar recordaes de viagem. Porm, no havia espao e no queriam 
carregar o avio com coisas que no fossem absolutamente essenciais.
       Nessa noite, partilharam um jantar sossegado no hotel, enquanto observavam um pr do Sol extravagantemente belo. Depois deram um passeio na praia e deitaram-se 
cedo. Na manh seguinte, descolaram para Pago Pago.
       Fizeram o troo em quatro horas e meia e no bateram qualquer recorde, mas foi um vo simples,  exceo de um pequeno rudo que Billy pensou ouvir num dos 
motores. Era o mesmo rudo que ouvira na vspera e que persistia.
       Pago Pago era um lugar fascinante, apesar de s terem l passado uma noite, a maior parte da qual no aeroporto. Billy queria encontrar o motivo do rudo que 
tinha estado a incomod-los e  meia-noite pensou t-lo localizado. Estava a aborrec-lo, mas continuava convencido de que no era um problema de maior.
       Voltaram a telegrafar para casa, tal como faziam em cada paragem, e de manh partiram para a ilha Howland. j tinham feito mais de catorze mil quilmetros 
e Cassie achara que estavam quase a chegar, se bem que ainda faltassem quase cinco mil quilmetros para chegarem a Honolulu. Como j tinham feito mais de metade 
da viagem e sabiam que estavam a aproximar-se da ilha Howland, onde se acreditava que Earhart se tinha despenhado, ficaram nostlgicos.
       - Que vais fazer depois de tudo isto? - perguntou ela a Billy duas horas depois de terem sado de Pago Pago e enquanto comiam um sanduche. A dona do stio 
onde tinham ficado fora muito gentil e insistira em dar-lhes um cesto de fruta e sanduches deliciosas.
       - Eu? - Billy pensou no assunto. - No sei. Talvez invista o dinheiro como fez o teu pai. Gostaria de ter um servio de charter em qualquer lado. Talvez at 
num lugar como o Taiti. - Gostara realmente de Papeete. - E tu, Cass? - O que mais tinham era tempo para partilhar o cesto de fruta enquanto voavam sobre o brilhante 
Pacfico.
       - No sei. s vezes sinto-me confusa. Por vezes, acho que os avies, os vos de teste e os aeroportos acabaram para mim; outras, pergunto-me se no deverei 
fazer outras coisas, como casar e ter filhos. - Ficou triste por uns momentos, olhando para o horizonte. - Pensei que isso iria acontecer com O Desmond, mas tal 
no sucedeu. No sei - disse ela, encolhendo os ombros. - Terei de pensar nisso quando chegar a casa. Perdi esta parada.
       - Acho que tiveste uma boa idia, mas encontraste o tipo errado. Acontece. E o Nick?
       - O que tem o Nick? - Ela ainda no tinha respostas. Nick no quisera casar com ela, mas agora, depois de Desmond, talvez fosse diferente. Cassie ainda no 
lhe dissera e nem sabia quando o veria novamente. Quem  que sabia alguma coisa, a no ser o que estavam a fazer? De momento, a vida era muito simples.
       A paragem na ilha Howland foi muito emocionante para Cassie por causa de Amelia Earhart. Ela e Billy transportavam uma grinalda de flores para deitar do avio 
antes de chegarem  ilha.
       Billy abriu-lhe a janela mal comearam a sobrevoar terra, e Cassie deixou-a cair, fazendo uma prece silenciosa por uma mulher que nunca conhecera, mas que 
admirara toda a vida. Agradeceu-lhe o fato de ter sido um exemplo para si, esperava que tivesse tido uma morte suave e que a sua vida tivesse valido a pena. Ao olhar 
para vidas como a dela, era difcil saber o que as pessoas sentiam ou quem realmente eram. Agora que Cassie fora devorada pela imprensa, sabia que a maior parte 
das coisas no significava nada. No entanto, Cassie sentiu uma estranha proximidade com o seu dolo, quando com Billy aterraram suavemente depois de um vo de quase 
vinte mil quilmetros. Fora muito simples para eles e correra muito bem. Por que motivo no tinha sido assim para Amelia Earhart?
       Billy deu-lhe uma palmada no joelho quando o avio parou. Era fcil verificar tudo o que Cassie estava a sentir e Billy adorava-a por isso.
       Na ilha Howland estavam fotgrafos  sua espera, por cortesia de Desmond Williams, e foram estabelecidos os esperados paralelos entre Cassie e Amelia Earhart.
       Estavam a planejar ficar s uma noite antes do vo de mais de trs mil quilmetros at Honolulu, sendo l que se realizariam os planos de Desmond: cerimnias 
e acontecimentos sociais, prmios e honras, conferncias de imprensa, filmes e at uma demonstrao do North Star para o exrcito, no campo areo de Hickam. Parecia 
excitante, mas tambm um pouco assustador. Ali, tudo era muito mais simples e, de certo modo, seria a ltima noite de paz que teriam nos tempos mais prximos. Cassie 
detestava a idia de ver Desmond novamente e s de pensar nisso ficava deprimida.
       Cassie esteve calada durante o jantar dessa noite; Billy no estava surpreendido, devido ao que tinham  sua frente e ao fato de ela ainda estar muito emocionada 
com Earhart.
       -  assustador voltar novamente para tudo aquilo, no ? - perguntou depois de jantar, enquanto tomava caf.
       - E, mas tambm  excitante. - Era muito menos complicado para ele, pois no sofria por causa de Desmond. - Tudo terminar em breve como um raio de luz - 
disse o rapaz, radiante -, como o espetculo de fogo-de-artifcio do quatro de julho. Seremos famosos por uns segundos e depois tudo desaparecer - continuou Billy 
profeticamente -, at algum fazer uma viagem mais longa e mais rpida. - Mas eles seriam lembrados durante muito tempo. A sua fama no desapareceria to depressa 
como ele pensava. Desmond tinha razo em algumas coisas e o que estavam a fazer era importante.
       - Amanh  noite, por esta hora, estaremos em Honolulu, Miss O'Malley - disse, fazendo-lhe um brinde com um pequeno copo de vinho. Bebera muito pouco, pois 
sabia que no dia seguinte iria voar. - Pensa na fanfarra e no entusiasmo. - Os olhos de Billy danavam e ela sorriu.
       - Preferia que no acontecesse. Fico plida s de pensar nisso. Talvez fosse melhor voltar para trs e regressar a casa pelo mesmo caminho.  uma idia. - 
Cassie riu-se da idia e ele abanou a cabea, divertido. O tempo que passavam juntos era sempre muito divertido.
       - Lamento, Mister Williams, mas o meu piloto ficou confuso. Sabe como .  apenas uma rapariga e toda a gente sabe que as raparigas no sabem voar. Na realidade, 
ela tinha o mapa s avessas. - Ambos se riram, divertidos com os seus prprios esquemas, mas, no dia seguinte quando descolassem, algumas das coisas que Cassie afirmara 
provaram-se profticas.
       Deram inesperadamente de caras com uma tempestade a pouco mais de trezentos quilmetros da ilha e, depois de avaliarem a situao e os ventos, concordaram 
em regressar  ilha. Quando tentaram aterrar surgiu uma tempestade tropical de dimenses surpreendentes e Cassie no pde deixar de pensar se no teria sido isso 
que acontecera a Noonan e Earhart. Cassie teve muito trabalho a aterrar o avio no meio de ventos ferozes que quase a varreram da ilha. Finalmente, desceram pesada 
e rapidamente com ventos cruzados e quase falharam a pista. Foi preciso tudo o que sabia para aterrar o North Star e, quando pararam, estavam apenas a alguns centmetros 
da gua.
       - Devo lembrar-te - disse Billy casualmente enquanto ela lutava para virar o avio - que, se este avio cair na gua, estaremos em muitos maus lenis com 
Mister Williams.
       Cassie no conseguiu deixar de rir com o aviso e no tinha muita pena de passar outra noite na ilha Howland. Estava longe de ser um local excitante, mas, 
pelo menos, tinha paz, provavelmente pela primeira vez. No imaginava o que seria das suas vidas depois de Honolulu.
       J tarde, nessa noite, a tempestade acalmou, mas na manh seguinte descobriram que ela havia danificado o radiogommetro que no tinha reparao. Ambos acharam 
que seria seguro continuar a viagem, mas enviaram uma mensagem via rdio para Honolulu, dizendo que precisavam de um rdiogommetro novo assim que chegassem. O dia 
estava brilhante e soalheiro quando iniciaram o vo de dois mil e novecentos quilmetros at Honolulu. Mas a quinhentos quilmetros da ilha Howland depararam com 
outro problema. Um dos motores parecia no estar a funcionar bem. Billy verificou se havia alguma fuga de leo e ela observava-o enquanto verificava os manmetros.
       - Queres voltar para trs? - perguntou ela calmamente, mantendo os olhos nos instrumentos.
       - Ainda no tenho a certeza - respondeu Billy, ainda intrigado.
       Continuou a verificar um dos motores, ouvindo, arranjando e ajustando e, cem quilmetros  frente, Billy assegurou-lhe que estava tudo sob controlo. Acenou 
a cabea e manteve-se atenta aos instrumentos de bordo, pois queria ter a certeza de que concordava com ele.
       Cassie no deixava nada ao acaso, sendo essa a razo da sua tremenda capacidade. Billy parecia ser muito mais casual do que ela, mas tambm era extraordinariamente 
cuidadoso, possuindo um apurado sexto sentido, sendo por isso que Cassie adorava voar com ele. Formavam a equipa perfeita.
       Ela alterou ligeiramente a rota para evitar algumas nuvens pesadas  sua frente, que parecia provocarem mau tempo. Ao princpio da tarde, ele olhou para o 
cu de Outono e depois para a bssola.
       - Tens a certeza que ests na rota correta? A mim no me parece.
       - Confia na bssola - respondeu com voz de instrutor, enquanto lhe sorria. Era o nico instrumento em que ela sempre confiava e a nica informao fidedigna 
que tinham, pois tanto o sextante como o radiogommetro se tinham avariado durante a tempestade.
       - Confia nos teus olhos, no teu nariz e no teu instinto e depois na bssola. - Billy tinha razo. Com o vento tinham sado ligeiramente da rota, mas no o 
suficiente para os preocupar. Depois de verificar os instrumentos, olhou para cima e viu fumo no motor nmero dois e pequenos fios de gasolina a escorrer sobre o 
nmero um.
       - Merda - murmurou ela, apontando-o a Billy. Desligou o motor nmero dois, parando a hlice. j estavam muito longe da ilha Howland. -  melhor voltarmos 
para trs. - Estavam no ar h duas horas e j fora do alcance do rdio.
       - No h nada mais perto? - Ele olhou para o mapa e viu uma pequena ilha. - O que  isto?
       - No tenho a certeza. Parece caca de pssaro.
       - Muito divertido. D-me uma leitura. Onde estamos? - Ela leu-lhe a bssola, enquanto Billy olhava para o motor. No estava a gostar do que via e muito menos 
sabendo que transportavam mil e quinhentos litros de combustvel perto do motor.
       Continuaram a voar por mais alguns minutos e decidiram tentar a ilha que viram no mapa, mas Cassie estava preocupada em pousar o North Star naquele stio. 
Se a ilha fosse demasiado pequena, com o avio demasiado grande, no conseguiriam. Concordaram em aterrar na praia se fosse necessrio. Estavam fora do alcance do 
rdio. Billy verificou novamente o motor, mas os resultados no foram os melhores. Colocou depois os auscultadores e tentou enviar pedidos de socorro a navios que 
pudessem estar nas proximidades.
       Quando olharam pela janela, viram que o motor estava a arder.
       - Parabns, Cass. E aquilo no  um bolo.
       - Merda.
       - Precisamente a que distncia estamos da ilha Caca de Pssaro?
       - Mais ou menos oitenta quilmetros.
       - timo. Era s o que precisvamos. Mais quinze minutos com mil e quinhentos litros de combustvel debaixo dos braos. Que bom!
       - Vai fazer qualquer coisa - disse ela calmamente.
       - Tens sempre umas idias horrveis - respondeu, mexendo em algumas alavancas e verificando o outro motor. - No admira que no consigas ter um trabalho decente. 
- Estavam a brincar, mas no estavam divertidos. O North Star estava com problemas.
       Dez minutos mais tarde, a ilha surgiu no horizonte e eles observaram-na. No havia terreno plano. S rvores e o que parecia uma pequena montanha.
       - Sabes nadar bem? - perguntou ele, entregando-lhe um colete de salvao por uma questo de rotina. Sempre soubera que era uma excelente nadadora. - Parece 
que vamos aterrar na praia.
       - Talvez, cowboy. Talvez. - Estava concentrada em manter a estabilidade do avio. Comeara a puxar com fora e O outro motor j se encontrava a fumegar. - 
O que achas que est a acontecer? - No percebiam bem o que estava a suceder, s o saberiam ao certo quando chegassem ao solo, o que j no estava longe. Inicialmente, 
Billy pensara que as condutas de combustvel estivessem entupidas, mas no estavam- Havia um defeito qualquer excesso de gasolina para isqueiro?
       - Ento no acendas nenhum Lucky agora - avisou ela preparada para aterrar. Circulou a ilha duas vezes, tentou a aterragem na praia uma vez e voltou a subir 
com os dois motores a arder. Sabia que era preciso largar combustvel, mas j no havia tempo.
       - Queres tentar chegar a Nova Iorque? - perguntou Billy calmamente, observando-a a manobrar aquele avio to pesado sobre uma ilha minscula.
       - Talvez seja melhor Tquio - respondeu ela, nunca tirando os olhos do que estava a fazer. - Tachikawa vai pagar uma fortuna pelo vo de teste.
       - Boa idia. Tentemos. Quem precisa do Desmond Williams?
       - Bom. Aqui vamos - disse Cassie, concentrando-se em cada pormenor. - Deus! Aquela praia  muito curta. - Os motores estavam quentes e a arder.
       - Detesto ter de dizer isto, minha querida - informou Billy calmamente, vestindo o seu colete de salvao -, mas se no aterras depressa vamos provocar uma 
vergonhosa exploso nesta ilha. Poder causar uma m impresso aos nativos.
       - Estou a tentar - disse ela por entre dentes.
       - Queres ajuda?
       - De um mido como tu? No, obrigada. - Desceu o mais baixo que pde e colocou toda a sua fora na alavanca. Estavam quase no cho e acabavam de ultrapassar 
a praia quando atingiram a gua. O avio parou e mergulhou lentamente num metro e meio de gua, enquanto ela desligava todos os interruptores na esperana que no 
explodisse, mas agora no havia garantias.
       - Bela aterragem. Agora vamos embora, rpido. - Ele agarrou-a e empurrou-a para fora do avio antes que Cassie conseguisse agarrar em fosse o que fosse. Instintivamente, 
agarrou no kit de emergncia enquanto ele lutava para abrir a porta. Ambos os motores estavam a arder e j se conseguia sentir o calor na carlinga. Conseguiu abrir 
a porta e gritou-lhe.
       - Sai!
       Empurrou-a e afastou-a do avio sem que ela tivesse tempo de perceber o que acontecera. Na mo tinha o dirio de bordo e um pequeno saco com o dinheiro que 
possuam. Caminharam pela gua o mais depressa que puderam e dirigiram-se  praia a correr. Correram mais uns metros e, ao chegarem ao fim da praia, ouviu-se uma 
exploso enorme. Viraram-se e viram todo o avio envolto em chamas e alguns pedaos a cair sobre as rvores e na gua. Havia uma enorme coluna de fumo sobre ele 
devido ao combustvel e ardeu durante horas, enquanto eles o observavam em estado de choque.
       - Adeus, North Star - disse Billy enquanto o resto do avio desaparecia na gua. S restava uma sombra daquilo que fora. Tantos homens e tanto trabalho, todos 
aqueles meses e horas e clculos terminaram num momento. Tinham feito dezessete mil e setecentos quilmetros e acabara. Estavam vivos. Tinham sobrevivido e s isso 
interessava.
       - E eis-nos aqui - declarou Billy casualmente enquanto lhe dava um rebuado -, na ilha Caca de Pssaro. Espero que tenhas umas boas frias. - Cassie olhou 
para ele e riu-se. Estava demasiado cansada e perturbada para chorar ou gritar. Tudo o que Cassie esperava era que algum percebesse que tinham desaparecido, quando 
no aterrassem em Honolulu, e mandassem tropas  sua procura. Ela sabia dos esforos que tinham feito para encontrar Earhart h quatro anos atrs, mas tambm sabia 
que se tinha falado sobre a despesa que causara. Nem que fosse apenas pela publicidade que os rodeava e para recuperar o avio, Cassie sabia que Desmond faria tudo 
para os encontrar. Falaria com o prprio Roosevelt: se fosse preciso. Apostaria forte no fato de Cassie ser a namorada da Amrica e de o povo a adorar. Teriam de 
a encontrar.
       - Bem, Miss O'Malley! Que tal telefonarmos para o servio de quartos e pedirmos uma bebida? - J l estavam h quatro horas, vendo o avio desintegrar-se, 
simultaneamente com a sua esperana de sair dali. Agora teriam de ser salvos. - No teria sido uma verdadeira viagem para estabelecer recordes, se isto no tivesse 
acontecido - disse ele. Tinha a certeza que seriam salvos da a um ou dois dias e seria muito excitante contar a histria.
       O Desmond vai pensar que fiz isto por vingana - advertiu Cassie, sorrindo. Tambm havia um certo lado divertido em tudo aquilo. Se no tivessem cuidado, 
poderiam ter ficado seriamente preocupados. Cassie perguntou a si prpria se teria acontecido o mesmo a Noonan e a Earhart, ou se teria sido mais dramtico e rpido. 
Talvez tivessem morrido com o impacto ou talvez ainda estivessem  espera numa ilha como aquela. Era uma idia intrigante, mas pouco provvel.
       - Tambm calculei que fizeste isto por vingana - comentou Billy casualmente. - No posso dizer que no tens razo, mas preferia que o tivesses feito um pouco 
mais perto de Taiti. A criada era uma estampa.
       - Como todas as raparigas desde Los Angeles. - Cassie estava menos alegre do que Billy, mas grata pelo seu sentido de humor.
       - Aqui decerto que no. - A ilha era completamente deserta.
       Fizeram uma misso de reconhecimento e descobriram um pequeno riacho e muitos arbustos com bagas. No que dizia respeito a ilhas desertas, era razoavelmente 
confortvel e tinha tudo o que precisavam. Havia frutos que eles no conheciam, mas quando os provaram, nessa noite, acharam-nos deliciosos. Era estranho estar ali, 
mas no parecia terrvel desde que no ficassem l para sempre. S a idia era um pouco mais do que assustadora, mas Cassie tentava no pensar nisso, enquanto estavam 
deitados ao lado um do outro dentro de uma gruta que tinham encontrado.
       Estiveram acordados durante muito tempo e finalmente ela decidiu fazer a pergunta.
       - Billy?
       - Sim?
       - E se eles no nos encontram?
       - Vo encontrar.
       - E se no encontram?
       - Tm de encontrar.
       - Porqu? - Os seus olhos estavam enormes na escurido e Billy segurou-lhe a mo gentilmente. - Porque  que nos tm de encontrar?
       - Porque o Desmond deve querer processar-te. Ele no vai poupar-te. - Billy sorriu no escuro e ela riu-se.
       - Cala-te!
       - Vs? No te preocupes. - Mas virou-se para o lado e abraou-a, no lhe dizendo que tambm estava com medo. Nunca estivera to assustado em toda a sua vida 
e no podia fazer mais nada por ela seno abra-la.
       

CAPTULO 19
       Desmond foi chamado a meio da noite, exatamente vinte e duas horas depois da partida do avio da ilha Howland. As autoridades locais j tinham a certeza absoluta 
de que o North Star tinha desaparecido ou provavelmente cado no oceano Pacfico, mas no havia quaisquer sinais dele e ningum fazia a mnima idia do que acontecera.
       - Merda. - Ele chamou toda a gente para ajudar. Era preciso implementar um plano de emergncia. Ligaram para a marinha, as autoridades estrangeiras e o Pentgono. 
O vo do North Star fora notcia a nvel mundial e agora todos os que tinham ouvido falar dele, e at alguns que no tinham, desejavam encontr-lo.
       Havia um porta-avies perto do local onde se supunha ter sido a queda; ento, quarenta e um avies e dois contratorpedeiros iniciaram as buscas. No era diferente 
das buscas que tinham sido levadas a cabo h quatro anos, mas agora estavam mais bem treinados e equipados. Fizeram todos os esforos possveis e utilizaram todos 
os homens que tinham. O presidente dos Estados Unidos telefonara a Desmond e aos O'Malley, em Illinois. Estes, quando souberam, ficaram em estado de choque. No 
conseguiam acreditar que poderiam perder Cassie, e Oona ficou especialmente preocupada com o corao de Pat, que, no entanto, parecia estar a agentar com alguma 
calma. Temia desesperadamente pela filha, mas tinha muita confiana nas foras armadas. S desejava que Nick l estivesse para ajudar.
       As buscas continuaram durante dias e cobriram centenas de quilmetros. Durante todo esse tempo, Cassie e Billy estavam a tentar manter-se de bom humor e comiam 
bagas. Cassie ficara com um caso grave de disenteria e, no dia seguinte ao acidente, Billy tinha feito um profundo arranho na perna enquanto nadava por cima de 
corais. Para alm disso, estavam em boa forma. Comiam todos os frutos que encontravam, tinham muita gua, mas no havia sinal das equipas de salvamento. Nem avies, 
nem navios, nem nada que se parecesse.
       Como Cassie alterara ligeiramente a sua rota antes de se despenharem e os ventos os tinham empurrado ainda mais para fora dela, as buscas estavam a ser conduzidas 
a oitocentos quilmetros do local onde tinham cado. O rdio tinha morrido antes de carem e ficara destrudo na exploso, o que os impossibilitava de fornecer a 
sua localizao. Na altura, no estava nenhum navio nas proximidades. Eles prprios no tinham a certeza de onde estavam, mas tambm no tinham maneira de dizer 
a algum, mesmo que soubessem.
       Em Los Angeles, Desmond estava a fazer tudo o que podia para manter as buscas, mas a imprensa j comeara a questionar os seus custos incrveis e virava-se 
para Desmond. Alegavam a futilidade das buscas e a possibilidade de terem morrido no acidente ou j estarem mortos. As buscas continuaram a todo o vapor durante 
catorze dias, tendo sido feitas algumas observaes durante mais uma semana. Dois dias depois, as buscas foram completamente canceladas. Fazia precisamente um ms 
que eles tinham sado de Los Angeles. Terminara.
       - Eu sei que ela est viva - insistia Desmond, mas ningum acreditava. - Est demasiado bem treinada. No acredito. - Mas os peritos partiram do pressuposto 
que haveria algo de errado com o avio. Poderia ter existido um defeito desconhecido e fatal Ningum questionava a percia de Cassie, mas havia sempre o elemento 
destino ou sorte.
       Os pais ficaram inconsolveis quando souberam que as buscas tinham sido canceladas sem terem encontrado Cassie e Billy. Parecia impossvel acreditar que tinham 
perdido outro filho e de uma maneira to cruel. A me passava as noites em branco a pensar se Cassie estaria viva algures e eles no a tinham encontrado. Todavia, 
o pai pensava ser muito pouco provvel.
       No dia de Ao de Graas, Cassie e Billy j estavam desaparecidos h seis semanas e, nesse ano, o feriado foi muito lgubre para todos. Mal o celebraram, 
jantando calmamente na cozinha.
       - No consigo acreditar que ela esteja morta - disse a me, soluando nos braos de Megan. Era uma altura terrvel para eles.
       Para Desmond fora o fim do sonho de uma vida. Estava constantemente a atormentar-se sobre o que poderia ter acontecido. Se soubessem... se encontrassem alguma 
coisa, mas no havia destroos nem provas, nenhum pedao do avio ou das suas roupas. Isso levava-o a pensar que esta riam vivos algures. Como tal, estava constantemente 
a falar para o Pentgono, mas para eles as buscas tinham terminado. Estavam convencidos que o North Star se tinha afundado sem deixar vestgios e tinham a certeza 
de que no havia sobreviventes.
       A fotografia de Cassie surgia em todos os lados: revistas e jornais. Seis semanas depois do seu desaparecimento, a sua identidade parecia to viva como sempre. 
A imprensa fora muito devotada a Cass e, como era apropriado, Desmond retratava-se como o vivo desolado. Naquele ano, Desmond no teve dia de Ao de Graas, o 
mesmo acontecendo com Nick, em Inglaterra. Soubera do desaparecimento de Cassie uma semana depois do acidente, pois era um acontecimento to importante que chegou 
aos cabealhos dos jornais ingleses. No conseguiu acreditar quando ouviu as notcias. Oferecera-se como voluntrio para as misses mais perigosas, at que algum 
explicou a situao ao comandante. Deram-lhe uma licena de trs dias e pediram-lhe que tirasse umas frias. Era bvio para todos que algo estava a perturb-lo, 
correndo demasiados riscos. Nick discutira com eles, mas no o ouviram. Pensou em ir para casa durante alguns dias, mas sabia que ainda no conseguia enfrentar Pat 
depois do que acontecera. Que louco tinha sido! Que covarde! Nunca se perdoaria por no ter casado com Cassie, deixando-a para Desmond Williams. Nunca lhe ocorreu 
que ela no quisesse e que desejasse fazer a volta ao mundo sozinha. Tambm era uma deciso dela e Cassie era demasiado independente.
       Porm, achou que Pat tambm nunca lhe perdoaria. Se tivesse casado com ela, tudo poderia ter sido diferente.
       Tinha visto uma fotografia de Desmond a sair de uma missa por alma de Cassie, com uma expresso de dor, usando um chapu de feltro, e odiou-o por ter dado 
a Cassie o avio e a oportunidade de se matar. Sabia melhor que ningum que provavelmente fora Desmond que a impelira a fazer a viagem para obter todos os louros. 
Cada vez estava mais convencido disso.
       Na ilha sem nome, Cassie servia a Billy o jantar de Ao de Graas, constitudo por bagas, uma banana e gua. H um ms que comiam a mesma coisa e raramente 
chovia, mas iam sobrevivendo. Billy ficara com uma infeco na perna que arranhara no recife de corais e tinha estado a lutar com a febre. Cassie trazia algumas 
aspirinas no kit de emergncia, mas h muito que tinham acabado. Ela teve problemas com uma picada de aranha, mas, para alm de estarem muito queimados do sol, a 
sua forma mantinha-se,  exceo das febres de Billy.
       Haviam conseguido manter-se a par da data desde o dia em que se despenharam e sabiam que era dia de Ao de Graas. Falaram do peru, da torta de abbora e 
da ida  igreja, das famlias e amigos. Billy estava preocupado com o fato de o pai estar completamente s e Cassie pensava constantemente nos pais, irms, cunhados 
e sobrinhos e nas saudades que sentia deles. Falou de Annabelle e de Humprey, as duas crianas que tinham vindo de Inglaterra e que a faziam pensar em Nick. Agora 
estava sempre a pensar nele.
       - O que  que tu achas que eles pensam que nos aconteceu? - perguntou ela enquanto partilhava uma banana com Billy, reparando que estava novamente corado 
e febril.
       - Que estamos mortos - disse ele honestamente. Nos ltimos tempos, j no brincava tanto. Tudo o que podia fazer era ficar  espera, pensar e passar a vida 
a comer o mesmo tipo de bagas. No havia mais nada para comer na ilha e at ento ainda no tinham conseguido pescar nada, mas no passavam fome.
       Dois dias depois, desabou uma tempestade e a temperatura desceu mais do que era habitual. Cassie ainda usava o seu uniforme, mas estava rasgado e pouco limpo. 
Billy tinha apenas os cales e T-shirt. Na manh seguinte  baixa de temperatura, Cassie notou que at ao sol Billy tremia.
       - Ests bem? - perguntou ela, tentando no parecer to preocupada como na realidade estava.
       - Estou timo - respondeu o rapaz a brincar. - Vou buscar bananas. - Tinha de subir a uma rvore para as apanhar, mas desta vez no conseguiu passar do cho. 
A perna estava muito inchada e a deitar pus e, quando voltou com uma banana que cara, coxeava muito.
       Cassie j no sabia o que fazer por ele. A perna estava a piorar e percebia-se que a febre aumentava. Banhou-lhe a perna em gua salgada, mas no resultou. 
No tinha mais nada para lhe dar. Billy dormiu bastante nessa tarde e, quando acordou, os olhos ainda estavam mais vidrados. Cassie colocou-lhe a cabea no colo 
e fez-lhe festas na testa. Quando o Sol comeou a pr-se, Billy comeou novamente a tremer de frio. Ela deitou-se a seu lado e tentou mant-lo quente com o calor 
do seu corpo.
       - Obrigado, Cass - sussurrou na escurido da sua gruta, e ela continuou a abra-lo, rezando para que os encontrassem. No entanto, isso j parecia impossvel. 
Perguntou a si prpria se ficariam ali durante anos, acabando por morrer No parecia provvel sarem daquela ilha. Cassie sabia muito bem que as buscas j teriam 
sido canceladas. Partiam do pressuposto que estavam mortos, como j acontecera a outros. Billy sentia os dentes baterem durante toda a noite e a manh seguinte. 
Delirava enquanto ela lhe colocava compressas frias na testa. Houve uma tempestade naquele dia e Cassie bebeu demasiada gua da chuva, acabando novamente com uma 
violenta disenteria. Com s bagas, a gua e as folhas que comiam, Cassie estava permanentemente doente. Pelo fato que trazia, podia verificar que perdera muito peso 
desde que tinham chegado  ilha.
       ~ Billy manteve-se inconsciente durante todo o dia e noite, e Cassie manteve-se abraada a ele, chorando. Nunca se sentira to sozinha em toda a sua vida 
e, para piorar as coisas, tambm se sentia febril. Pensou se no teria apanhado uma doena tropical. Billy tinha uma infeco, mas ambos estavam doentes.
       De manh, Billy parecia estar melhor e muito mais lcido. Levantou-se, caminhou pela gruta e depois olhou para ela e disse-lhe que ia nadar. Estava frio l 
fora, mas Billy insistiu que sentia calor, tornando-se subitamente muito argumentador e poderoso. Cassie no conseguiu impedi-lo. Entrou para a gua no local onde 
estava o casco queimado do avio. Nem as tempestades ainda o tinham levado e ali ficara, como que a exprimir censura e como recordao de tudo o que tinham tido 
e perdido. Para Cassie, era a ltima recordao de Desmond.
       Viu Billy nadar para alm do avio e voltar. Quando saiu da gua, ela reparou que Billy tinha ferido a outra perna, mas parecia no o sentir. Ele insistiu 
que no era nada, e Cassie viu-o subir a uma rvore e comer uma banana. Parecia estar com uma energia fora do vulgar e uma estranha forma de demncia. Pelo que dizia, 
Cassie conseguia perceber que Billy no estava em si. Estava muito nervoso, com um olhar selvagem e, ao cair da noite, estava deitado na gruta a tremer, a falar 
com algum sobre um carro, uma vela e um rapazinho. Ela no fazia idia de que  que o rapaz estava a falar. Mais tarde, olhou-a com uma expresso muito estranha 
e ela perguntou a si prpria se Billy a estava a reconhecer.
       - Cass?
       - Sim, Billy? - Estava deitada abraada a ele, sentindo todo o seu corpo a tremer.
       - Estou cansado.
       - Est tudo bem. Dorme. - No tinham mais nada para fazer e estava muito escuro.
       - Est mesmo tudo bem? 
       - Sim. 
       - Fecha os olhos.
       - Esto fechados - disse ele, mas Cassie podia ver que estavam abertos.
       - Est muito escuro aqui dentro. Fecha os olhos. Amanh sentir-te-s muito melhor. - Ser que alguma vez iriam sentir-se melhor, pensou ela. Sentia a temperatura 
do seu corpo novamente a subir e tremia quase tanto como ele.
       - Amo-te, Cassie - disse ele suavemente alguns instantes depois. Parecia uma criana, e Cassie deu por si a pensar nos sobrinhos e sobrinhas, como eles eram 
queridos e na sorte que as irms tinham em os ter.
       - Eu tambm te amo, Billy - respondeu gentilmente.
       Billy ainda estava enrolado nos seus braos quando Cassie acordou na manh seguinte. Doa-lhe a cabea, o pescoo estava muito tenso e sabia que estava lentamente 
a ficar to doente como ele. Pensou que Billy j estava acordado, pois estava muito quieto e a olhar para ela. Subitamente, Cassie deu um grito quando percebeu que, 
apesar dos olhos abertos, no estava a respirar. Tinha morrido nos seus braos durante a noite. Agora Cassie estava sozinha.
       Ficou ali sentada durante muito tempo a olhar para ele, sem saber o que fazer e no querendo que Billy a deixasse. Ficou a chorar, agarrada aos joelhos e 
a balanar-se para trs e para a frente. Sabia que tinha de fazer algo, tir-lo dali ou enterr-lo, mas no conseguia suportar a idia de ficar sozinha.
       Nessa tarde, puxou-o lentamente para fora da gruta e fez uma sepultura superficial com as mos na areia mais grossa, perto das rochas, e colocou-o l dentro. 
S conseguia pensar no fato de ele lhe ter dito que queria acabar os seus dias naquela ilha. E acabara. Mas tudo isso parecia ter ocorrido h muito tempo, como se 
fizesse parte de outra vida, num lugar que ela nunca mais veria. Sabia que tambm iria morrer.
       Ajoelhou-se junto ao corpo e olhou para ele: tinha os olhos fechados e as sardas pareciam maiores no rosto magro. Depois tocou-lhe a face pela ltima vez 
e passou-lhe a mo pelo cabelo.
       - Amo-te, Billy - disse Cassie tal como o dissera na noite anterior, mas desta vez ele no respondeu. Cobriu-o gentilmente com areia e deixou-o.
       Nessa noite, sentou-se sozinha na gruta, com fome, frio e a tremer. No comera durante todo o dia. Estava demasiado doente para comer e profundamente triste 
por causa de Billy. Tambm no bebera gua. Na manh seguinte, sentia-se fraca e confusa, pois estava sempre a ouvir a voz da me a chamar por ela. Fosse qual fosse 
a doena que tinha, estava a mat-la. Interrogou-se sobre quanto tempo demoraria e at mesmo se isso era relevante. J no tinha razes para viver: Chris e Billy 
tinham morrido, Nick estava perdido, o seu casamento acabara e despenhara o avio de Desmond. Desiludira todos. Tinha falhado.
       Cambaleou at  praia, caindo vrias vezes, pois estava demasiado fraca para subir s rochas e beber gua, mas j no se importava. Dava muito trabalho manter-se 
viva e j ouvia as vozes de muitas pessoas. Viu o Sol nascer e quando se levantou viu um navio no horizonte. Era um grande navio que se aproximava, mas no importava, 
pois nunca a veriam.
       O Lexington estava em manobras naquela rea. Passava regularmente por aquelas ilhas, mas j no navegava at l h bastante tempo, pois tinha sido destacado 
para outros locais. Cassie no se incomodou. Voltou para a gruta e deitou-se. Estava demasiado frio l fora e j ouvia muitas vozes.
       O Lexington continuou a cruzar aquelas guas e junto dele estavam dois navios mais pequenos. Foi o vigia do mais pequeno que detectou o casco queimado do 
North Star a boiar na gua a quinhentos metros da ilha.
       - O que  aquilo, Sir? - perguntou a um oficial que estava junto dele e que sorriu. - Parece um espantalho. - quela distncia e daquele ngulo at parecia. 
Parte j se tinha afundado, mas sobrara to pouco que o esqueleto conseguira manter-se a flutuar. Depois de olhar novamente, o oficial deu uma srie de ordens rpidas.
       - Poder ser o avio da O'Malley e do Nolan, Sir? - perguntou excitado um jovem oficial.
       - Acho que no. Caram a cerca de oitocentos quilmetros daqui. No sei o que ser, mas  melhor vermos mais de perto.
       Avanaram lentamente na sua direo, e mais alguns membros da tripulao dirigiram os binculos para o objeto, mas quando conseguiram foc-lo, o esqueleto 
fugiu-lhes da vista, entrando e saindo da gua, mas era bvio que fazia parte de um avio. Metade da carlinga ainda existia e uma das asas fora arrancada. A outra 
ardera e derretera-se.
       - O que  aquilo? - gritou um dos homens para outro.
       - Quero alguns homens na gua! - ordenou um oficial. - Quero aquilo a bordo. - Meia hora mais tarde, tinham os restos do avio de Cassie espalhados pelo convs. 
No sobrara muito, mas havia um pedao que dizia tudo e estava ali pintado a verde-claro e amarelo. Eram essas as cores de Cassie e ainda se via a palavra Star. 
Chamaram o comandante para examinar o que tinham encontrado e este no teve dvidas: tinham encontrado os restos do que fora o North Star. Ficara completamente queimado 
e era bvio que sofrera uma terrvel exploso, mas no havia qualquer sinal de vida ou de resduos de seres humanos. Verificaram cuidadosamente e no havia sinais 
de Cassie ou Billy.
       Comunicaram via rdio para os navios que os acompanhavam e para outros que navegavam nas redondezas e,  tarde, estavam todos a explorar as guas em busca 
de corpos ou coletes de salvao. Tambm tinham comunicado para terra e houve um boletim noticioso em Los Angeles que Desmond ouviu antes de lhe telefonarem. Tinham 
sido encontrados bocados do avio, mas no havia sinais de vida. J estavam perdidos h vrias semanas e era pouco provvel que estivessem vivos, mas no era impossvel. 
A busca de O'Malley e Nolan recomeara.
       Foram organizadas equipas de desembarque para examinar todas as ilhas circundantes. Duas eram relativamente grandes, e uma to pequena que no parecia provvel 
estar l algum. Decidiram que no havia vegetao suficiente para alimentar ningum durante uma semana e muito menos um ms, mas o oficial encarregado mandou-os 
procurar, se bem que no houvesse nada: nem sinais de vida, nem roupas nem utenslios.
       Cassie detectou novamente rudos e depois mais vozes. Imaginou se Billy teria ouvido as mesmas coisas antes de morrer, mas esquecera-se de perguntar. Havia 
apitos, sinos e pessoas a chamar e percebeu que estava a morrer quando uma luz muito brilhante lhe iluminou o rosto. Havia novamente vozes e pessoas a chamar e aquela 
luz no seu rosto. Voltou a adormecer enquanto olhava para ela. Dava demasiado trabalho continuar a ouvi-las. Ento, sentiu que estavam a mexer nela. Estava a ser 
transportada, tal como transportara Billy.
       - Sir! Sir! - O apito soou trs vezes pedindo ajuda, e mais quatro homens vieram a correr na direo do apito. Havia uma pequena gruta e um dos homens estava 
de lgrimas a correr pelas faces.
       - Encontrei-a, Sir! Encontrei-a! - Estava quase inconsciente, falando sem coerncia, repetindo vezes sem conta o nome de Billy. Estava magrssima e desesperadamente 
plida, mas todos reconheceram o cabelo ruivo e o uniforme de vo.
       - Oh, meu Deus! - disse um dos oficiais. Cassie estava muito suja, cheirava muito mal e estava mortalmente doente, mas ainda respirava O pulso mal se sentia, 
a respirao era difcil e no havia a certeza de que fosse resistir. O oficial ordenou ao jovem alferes que sinalizasse um pedido de socorro. Colocaram-na rapidamente 
dentro de um barco e deixaram trs homens na ilha a continuar as buscas., Queriam-na no navio o mais depressa possvel.
       Davam e gritavam ordens; Cassie foi iada para o navio numa maca e chamaram o pessoal mdico do Lexington para os ajudar. Cassie tinha uma placa de identificao 
 volta do pescoo, que a identificou como Cassie O'Malley Williams. Minutos depois, o Pentgono j sabia que ela tinha sido encontrada quase morta, mas que no 
havia sinais de Billy Nolan.
       No entanto, a equipe que ficou na ilha levou menos de meia hora a encontr-lo. Trouxeram-no para o navio. Nessa altura, Cassie j estava no Lexington, se 
bem que no tivesse conscincia disso. Uma equipa de dois mdicos e trs para-mdicos estavam a fazer tudo o que podiam para a reanimar. Estava desidratada, a delirar 
e tinha uma febre incontrolvel.
       - Como  que ela est? - perguntou o comandante nessa noite ao pessoal mdico.
       - No h nada de certo - respondeu o mdico calmamente -, mas tambm ainda nada est perdido.
       O Ministrio da Marinha acabara de avisar os pais e depois veio a vez de Desmond. Nessa noite, a notcia espalhou-se por todos os servios noticiosos. Era 
um milagre. As preces da nao tinham sido ouvidas: Cassie O'Malley fora encontrada numa gruta, numa ilha do Pacfico, em estado de sade crtico. Ainda no se sabia 
se sobreviveria, mas era sabido que Billy Nolan morrera. J tinham telefonado ao pai em So Francisco, que ficara desolado ao ouvir as notcias. Aos vinte e seis 
anos, Billy era um heri, mas morrera, apenas um ou dois dias antes de os encontrarem. Fora a concluso a que tinham chegado, pois Miss O'Malley no lhes dissera 
nada. Estava inconsciente.
       Na residncia dos O'Malley tudo estava sossegado. Oona e Pat estavam sentados a olhar fixamente um para o outro, incapazes de acreditar no que lhes fora transmitido. 
Cassie estava viva e o Lexington navegava a todo o vapor para o Hava com ela.
       - Oh, Pat!  como se fosse uma segunda oportunidade disse Oona quase sem respirao -  um milagre. - Sorriu atravs das lgrimas, rezando em silncio pela 
vida de Cassie, com as contas do tero nos dedos, e Pat deu-lhe gentilmente uma palmadinha na mo.
       - No fiques muita esperanada. J a perdemos uma vez. Ela pode no resistir, Oona. Est naquela ilha h muito tempo e no sabes em que estado ficou quando 
se despenhou. Pode ter ficado muito ferida nessa altura e isso j foi h um ms. - O desastre fora h sete semanas, o que era muito tempo para viver de gua da chuva 
e bagas.
       Ainda no tinham pormenores e at Desmond tivera muito trabalho em extorquir informaes ao Pentgono. Ainda no sabiam o suficiente para o tranqilizar.
       Na manh seguinte, as notcias que vieram do Lexington no eram muito boas. Cassie ainda estava inconsciente, a febre no baixara e havia outras complicaes.
       - Que raio significa isso? - gritou Desmond. - Que tipo de complicaes?
       - No me informaram, Sir - respondeu-lhe educadamente a mulher que estava ao telefone.
       A febre de Cassie no reagira a nenhum dos remdios e a sua desidratao era quase fatal. Ainda estava a delirar e tinha uma disenteria violenta que j comeara 
a ser de sangue. Um dos mdicos disse que era o sinal do fim.
       - Pobre mida - disse um dos marinheiros. - Tem a idade da minha irm, que nem sequer sabe conduzir um carro
       - Parece que Cassie tambm no conduzia l muito bem brincou outro, mas tinha lgrimas nos olhos quando o disse Todo o navio, o pas e o mundo falava dela 
e rezava por ela.
       Em Inglaterra, Nick fora chamado ao seu comandante em Hornchurch. Tinha-se sabido que ele era muito amigo de Cassie O'Malley, se bem que ningum soubesse 
pormenores e ele estivesse em pssimas condies desde o seu desaparecimento em Outubro. Acabaram por deix-lo voar novamente, mas Nick fora bastante duro com os 
seus homens e h muito tempo que estava perigosamente disposto a correr riscos pouco naturais.
       - Eu no ficaria muito esperanado, major Galvin, mas achei que devia saber. Acabamos de saber que a encontraram.
       - Encontraram quem? - Nick parecia confuso. Tinha estado a dormir depois de fazer duas misses noturnas sobre a Alemanha, quando o mandaram ir falar com o 
comandante.
       - Penso que a O'Malley  uma grande amiga sua, no ? - Os rumores j se tinham espalhado por todo o exrcito at ao escritrio do comandante.
       - A Cassie? - Nick ficou com o ar de quem levara um choque eltrico, quando percebeu o que- o comandante lhe estava a comunicar. - A Cassie est viva? Encontraram-na?
       - Sim. Est em estado crtico num dos vossos navios de guerra no Pacfico. Pelo que ouvi, parece que no vai resistir. Se quiser, mant-lo-emos informado 
da evoluo.
       - Ficaria muito grato, Sir - disse Nick, empalidecendo, enquanto o comandante o observava.
       - Parece que precisa de descansar, major. Talvez seja a altura certa, dependendo dos resultados.
       - No saberia que fazer com o tempo livre, Sir - respondeu Nick honestamente. Agora tinha medo de ir para casa. Para ele, no havia nada em casa. Se sobrevivesse, 
Cassie ficaria com Desmond e esperava... sacrificaria a sua prpria vida para que ela vivesse. Estava disposto a fazer qualquer coisa para que ela sobrevivesse, 
at v-la com Desmond Williams para o resto da vida. Qualquer coisa era melhor do que saber da sua morte ou tem-la, como acontecera nas ltimas sete semanas. No 
ltimo ms, tinha perdido a esperana. Era impossvel ainda estarem vivos algures no Pacfico. - H notcias do navegador?
       O comandante acenou com a cabea. Todos j estavam habituados a perder amigos, mas esta era uma maneira muito dura.
       - No sobreviveu. Encontraram-no na ilha com ela. Receio no saber os pormenores.
       - Obrigado, Sir. - Nick levantou-se para se ir embora, exausto mas com esperana. - Informa-me assim que se souber mais alguma coisa?
       - Assim que soubermos, major. Cham-lo-emos imediatamente.
       - Obrigado, Sir. - Bateram pala um ao outro, e Nick caminhou lentamente para a caserna, pensando em Cassie. S conseguia pensar naquela noite em Maio que 
tinham passado na pista, ao luar. Se ele tivesse conseguido convenc-la... se a tivesse impedido de ir... se ela vivesse. Pela primeira vez em vinte anos, deu por 
si a rezar; as lgrimas corriam-lhe pelo rosto quando voltou para a caserna.

CAPTULO 20
       Trs dias depois de terem descoberto Cassie na gruta, o Lexington entrou em Pearl Harbor. Ela acordara uma vez, mas perdera novamente os sentidos. Foi transferida 
para o hospital naval numa ambulncia. Quando l chegou, Desmond estava  sua espera. Voara de Los Angeles, deixando Nancy Firestone a controlar os membros da imprensa 
que estavam  espera da chegada de Cassie a Los Angeles.
       Os mdicos forneceram a Desmond o relatrio mdico inicial, e ele explicou aos reprteres o que acontecera, mas ainda no tinham ouvido nada da boca de Cassie.
       - Ela vai ficar boa? - perguntaram com lgrimas nos olhos. Desmond tambm as tinha. Estava muito comovido com o estado da mulher.
       - Ainda no sabemos.
       Um pouco depois, saiu para ver o que sobrara do avio, cujos destroos tambm tinham sido transportados no Lexington e agradeceu ao comandante o fato de ter 
trazido Cassie para casa.
       - S tenho pena de no a ter encontrado mais cedo.  uma grande rapariga. Estamos todos a torcer por ela. Diga-lhe isso, assim que estiver em condies de 
ouvir.
       - Dir-lhe-ei, Sir - disse Desmond, enquanto tiravam mais uma fotografia dele e do comandante. Depois, Desmond voltou para o hospital para aguardar mais notcias 
e, uma ou duas horas depois, permitiram que ele a visse.
       Cassie parecia devastada por tudo o que lhe acontecera e tinha cateteres intravenosos em ambos os braos: um com medicao e outro com soro. Mas no se mexeu 
e ele no lhe tocou. Ficou ali simplesmente a olh-la, e as enfermeiras no conseguiam adivinhar quais seriam os seus pensamentos.
       Nesse dia, o corpo de Billy Nolan foi enviado para So Francisco num vo que Desmond preparara, e o funeral estava marcado para da a dois dias. Em todas 
as igrejas, as pessoas rezavam por Cassie.
       Tudo isto aconteceu debaixo dos flashes dos fotgrafos.
       Estava-se a quatro de Dezembro e falava-se do Natal por todo o pas, mas os O'Malley s conseguiam pensar em Cassie, que estava em coma no Hava. Todos os 
dias de manh e  noite telefonavam para Honolulu para saber dela. Pat queria levar toda a famlia para l, mas o mdico afirmou no ser aconselhvel. Pat j pensara 
at em telefonar ao miservel do genro para que lhe emprestasse um avio, mas soubera que Desmond j se encontrava em Honolulu. Estava a conseguir toda a publicidade 
que podia e, no dia cinco de Dezembro, o mdico do hospital naval telefonou-lhes novamente. Sempre que o telefone tocava, Oona tremia e simultaneamente desejava-o. 
Estava desesperada por no ter notcias de Cassie.
       - Mistress O'Malley?
       - Sim. - Reconheceu instantaneamente a m ligao de longa distncia. - Est aqui algum que gostaria de falar consigo. - Oona pensou ser Desmond e no queria 
falar com ele, mas talvez tivesse notcias da filha. Foi ento que ouviu a voz de Cassie. Estava to fraca que mal se ouvia, mas era ela. Oona chorava tanto que 
no conseguia dizer a Pat o que estava a acontecer.
       - Mam? - disse Cassie em voz muito baixa, e a me acenou com a cabea, forando-se depois a falar atravs das lgrimas. Pat percebeu e comeou a chorar.
       - Cassie? Oh, minha filha! Minha querida! Amamos-te muito! Estvamos to preocupados!
       - Estou bem - disse ela, perdendo as foras quase imediatamente. O mdico tirou-lhe o telefone da mo e a enfermeira explicou que Miss O'Malley estava demasiado 
fraca, mas que estava a progredir muito bem. Depois Cassie insistiu em pegar de novo no telefone para dizer  me que a amava.
       - ...e diz ao pai... - Sussurrava, mas ele conseguia ouvi-la, enquanto Oona e Pat partilhavam o auscultador e ele chorava abertamente a ouvi-la. - Diz... 
que tambm o amo. - Quis falar-lhes de Billy, mas no teve foras, e a enfermeira tirou-lhe novamente o telefone. Pouco depois, deixaram-na ver Desmond. A enfermeira 
ficou no quarto com eles, pois Cassie necessitava de estar sob constante observao. Estava to fraca que, por vezes, tinha dificuldade em respirar.
       Desmond ficou a seu lado, olhando-a com uma expresso de infelicidade. No sabia que dizer-lhe, a no ser que estava contente por ela ter sobrevivido. Era 
um momento embaraoso para ambos. Tudo o que ele deveria ter sentido ou dito estava errado devido s circunstncias, mas parecia aliviado por Cassie estar viva. 
No conseguia deixar de pensar se ela teria sido descuidada com o avio ou teria havido uma falha fatal de que no se tivesse apercebido antes da partida... Mais 
cedo ou mais tarde, teria de lhe perguntar, mas no era o momento.
       - Lamento... pelo avio - disse ela com esforo, e Desmond acenou com a cabea.
       - Repetirs a viagem noutra altura - disse ele, confiante, mas ela abanou a cabea. No final, Cassie j nem tinha querido fazer esta. Tinha-a feito por ele 
e porque sentia que devia. Tinha sempre sido a idia, o sonho, o projeto de Desmond, mas no final ela sentira que lha devia. Nunca mais a repetiria: nem por ele, 
por ningum e muito menos sem Billy. - O que aconteceu? - perguntou Desmond sob o olhar de reprovao da enfermeira. Cassie precisava desesperadamente de descansar 
e ningum a poderia perturbar. Muito menos o marido. A enfermeira notara que ele nem sequer a beijara e enquanto esteve a seu lado nunca lhe tocara ou se aproximara.
       Porm, Cassie estava a tentar desesperadamente responder  pergunta.
       - ...primeiro fumo, depois fogo no motor nmero dois - explicou ela dolorosamente. - Depois, fogo no nmero um... demasiado longe de terra... demasiada gasolina... 
aterrei onde pude... ilha muito pequena... atingi a praia... depois de sairmos... uma tremenda exploso.
       Ele acenou com a cabea, desejando saber o que causara o incndio no motor dois, mas Cassie no sabia. A enfermeira disse-lhe ento que ela j estava demasiado 
cansada e devia descansar. Poderia voltar mais tarde. Desmond era muito correto, bem-educado e polido com todos, mas era frio como o gelo e no dissera uma nica 
palavra amvel a Cassie. Era difcil acreditar que fosse seu marido. Quando o viu afastar-se, Cassie perguntou a si prpria se a sua morte no teria sido mais fcil 
para Desmond. Agora ele teria de enfrentar o mundo quando ela pedisse o divrcio.
       No dia seguinte, Cassie sentou-se na cama e telefonou novamente aos pais. Ainda estava muito fraca, mas sentia-se muito melhor. Contrara uma doena tropical, 
mas o mais grave tinha sido a desidratao, a falta de nutrio e a prolongada exposio ao sol. Ainda levaria algum tempo a voltar ao normal. Estava to fraca que 
no se conseguia sentar na cama sem ajuda. Nessa tarde, Desmond apareceu com alguns fotgrafos, mas a enfermeira recusou-se a deix-los ver Cassie. Ele ameaou fazer 
queixa aos seus superiores, mas aquela respondeu-lhe que lhe era completamente indiferente. O mdico dera ordens para que apenas a famlia mais chegada a pudesse 
visitar e era isso que tencionava fazer.
       Desmond ficou furioso e foi-se embora. Cassie desatou a rir.
       - Obrigada, tenente Clarke. Continue a cumprir as suas ordens.
       - Acho que no deve estar com membros da imprensa. - Cassie ainda estava muito magra, plida e com os cabelos em desalinho. Nessa tarde, deram-lhe um banho 
e lavaram-lhe o cabelo e,  noite, quase se sentia novamente humana. Felizmente, Desmond no voltou para a ver. Fora muito decente com ela, mas era bvio que o nico 
interesse que tinha na recuperao de Cassie residia naquilo que esta poderia dizer aos jornais. Ele at lhes falara na coroa de flores que a tripulao do Lexington 
lhe deixara antes de se fazer ao mar. A sua sobrevivncia era assunto de todos os jornais do mundo e, em Hornchurch, Nick chorara ao saber a notcia.
       No sbado, Desmond tentou novamente introduzir os membros da imprensa no quarto de Cassie e mais uma vez a indmita tenente Clarke o tinha impedido. Estava 
a tornar-se um jogo, e Cassie adorava-o.
       - Ele parece muito determinado em deixar a imprensa v-la - disse a tenente Clarke cuidadosamente, perguntando a si prpria o que  que Cassie vira nele, 
mas no formulou a pergunta. Para alm das roupas caras e da boa aparncia, parecia ter um corao de pedra. S se mostrava caloroso com a imprensa e nunca com Cassie. 
Esta estava muito divertida, pois a sua enfermeira era perita em aborrec-lo. Cassie ainda no queria ver ningum, a no ser os pais, mas estes tinham decidido esperar 
que ela fosse para casa.
       Nessa tarde, e pela primeira vez, a tenente Clarke ajudou-a a caminhar pelo corredor e o mdico disse que Desmond a poderia levar para casa no final da semana. 
Precisava de ganhar foras e queriam ter a certeza de que a febre no voltava. Durante todo esse dia no teve febre, sentindo-se muito melhor.
       No hospital, alguns homens reconheceram-na, enquanto caminhava desajeitadamente pelo corredor, pois estava ainda muito fraca, apertaram-lhe a mo e mostraram-se 
felizes por ela ter sobrevivido. Era uma herona s pelo fato de estar viva e, mais do que nunca, desejou que Billy tambm estivesse. Mandara um telegrama ao pai 
de Billy, exprimindo a sua dor.
       - Estvamos todos a rezar por si, Cassie - diziam-lhe as pessoas nos corredores, e Cassie agradecia calorosamente. Choviam cartas e telegramas, e at o Presidente 
e a senhora Roosevelt lhe tinham telefonado. No entanto, Cassie no achava justo ter sobrevivido e Billy no. Sentia-se muito culpada e infeliz e chorava sempre 
que algum falava no assunto. Ainda estava emocionalmente desfeita com tudo o que acontecera.
       A maior parte das vezes ficava sentada no quarto muito pensativa, e as enfermeiras no a queriam perturbar. Viam que ela ainda estava muito perturbada e exausta. 
S sabiam que o co-piloto morrera, desconhecendo outros pormenores, e Cassie no mencionava nada a ningum. Pensava muito e dormia, ou dava por si a pensar em Nick 
e a perguntar-se onde ele estaria. Nunca tivera a oportunidade de lhe dizer como tivera razo sobre Desmond, mas talvez j no tivesse importncia. Tinham as suas 
vidas para viver. Nick queria a sua vida e ela precisava de tempo para recuperar de tudo o que acontecera. Quando se sentisse melhor, desejava visitar Jackie Cocliran 
e saber tudo sobre os avies que ela pilotara em Inglaterra.
       Nessa noite, Cassie voltou a telefonar aos pais e disse-lhes que provavelmente estaria em casa da a uma semana, passando o Natal com eles. J no havia motivo 
para ficar em Los Angeles, no queria voar para Desmond e tinha a certeza que ele concordaria que o contrato tinha sido cumprido  risca. Estava tudo acabado.
       Os pais disseram-lhe ao telefone que tinham recebido um telegrama de Nick, manifestando a sua felicidade, mas a Cassie no mandara nada. Provavelmente por 
causa de Desmond.
       - Ele diz quando regressa? - perguntou Cassie casualmente, e o pai riu-se.
       - Es muito manhosa, Cassie O'Malley.
       - De qualquer modo j deve estar casado - disse ela com ligeireza, esperando que isso no tivesse sucedido.
       - Nenhuma mulher no seu juzo perfeito o querer.
       - Espero que no. - Pat riu-se. Ela estava muito mais bem-disposta e, depois de uma breve conversa, deitou-se cedo. No fazia idia do que Desmond estava 
a fazer em Honolulu, pois nem sequer a vinha ver. Supunha que estava a dar a corda  imprensa e a planejar entrevistas para quando ela melhorasse, mas ia ter uma 
surpresa. Cassie daria uma ltima conferncia de imprensa para lhes contar tudo o que queriam saber. Depois iria para casa, terminando o espetculo. Fora muito caro: 
a vida de Billy e quase a sua. Cassie no sabia o que queria fazer, mas, fosse o que fosse, seria a uma escala bem mais humana. Ganhara muito dinheiro, mas perdera 
um amigo muito querido e quase a prpria vida. Desta vez, os riscos tinham tido um preo muito elevado e ela precisava de tempo para recuperar.
       A tenente Clarke apareceu s sete horas da manh seguinte e acordou-a ao afastar as cortinas e levantar os estores. Estava um dia lindo, e Cassie sentia-se 
desejosa de se levantar e andar por ali. At queria tomar uma ducha e vestir-se, mas a tenente Clarke no quis que ela abusasse.
       Comeu o pequeno-almoo s sete e um quarto, que consistia de ovos escalfados e trs fatias de bacon. Era bem diferente da dieta de bananas e bagas. Nunca 
mais queria v-las. Quando terminou o pequeno-almoo deu uma vista de olhos no jornal.
       Percebeu imediatamente que Desmond voltara a fazer das suas. Dera uma entrevista ao Honolulu Star Bulletin, falando-lhes do seu estado, mas no dizia muito 
do que acontecera na ilha. Cassie suspeitou que ele quisesse largar qualquer tipo de bomba numa grande conferncia de imprensa. Desmond pensava em tudo, exceto no 
bem-estar dela. Era tudo negcio e publicidade, avies e lucro. Nick nunca tivera tanta razo nas suas percepes e previses.
       Ainda estava a ler o jornal quando ouviu passar o primeiro avio. Pensou ser um exerccio dos pilotos da marinha. o hospital era relativamente perto do aerdromo. 
Todavia, enquanto os escutava, ouviu uma exploso  distncia e depois outras. Era estranho; ento levantou-se, foi at  janela e viu-os: ondas e ondas de bombardeiros. 
Percebeu imediatamente e com espanto que estavam a ser atacados. Eram sete horas e cinqenta e cinco minutos do dia 7 de Dezembro.
       O cu estava negro de tantos avies que parecia zumbirem continuamente, enquanto voavam por cima do porto, bombardeando sistematicamente todos os navios que 
viam. Tambm atacaram o aeroporto e destruram tudo o que ali viram.
       A tenente Clarke entrou a correr, e Cassie explicou rapidamente o que estava a ver. Sem pensar, correu para o armrio e encontrou as roupas que Desmond lhe 
trouxera. No havia muita coisa. Apenas uma saia, uma blusa e um par de sapatos. Tirou apressadamente o roupo e a camisa de dormir e vestiu-se.
       No hospital, as pessoas apinhavam-se nos corredores e corriam sem saber para onde. As enfermeiras e ordenanas tentavam manter a calma entre os doentes, e 
Cassie juntou-se a eles quase que instintivamente. Estavam a ser atacados h uma hora e o Arizona j estava a arder juntamente com outros navios mais pequenos e 
grandes reas do porto. As notcias entravam rapidamente e muitas incorretas. A rdio explicava que tinham sido atacados pelos japoneses e s alguns momentos mais 
tarde  que as ambulncias comearam a chegar com os feridos. Havia queimaduras terrveis, homens cobertos de leo, com feridas na cabea, com feridas de balas e 
muitos em choque traumtico. As enfermeiras comam por todo o lado, e os doentes como Cassie estavam a dar as suas camas aos homens que estavam a ser trazidos do 
porto.
       Cassie trabalhou ao lado da tenente Clarke, cortando ligaduras e pedaos de pano limpos. Ajudou a colocar os homens feridos nas camas e fez tudo o que pde 
para ajudar. Mal tinham tratado de metade dos homens quando os japoneses atacaram novamente. Daquela vez atingiram o Nevada.
       Subitamente, j havia trs mil homens feridos ou semimortos, sangrando por todos os lados, a entrar no hospital ou a ser levados para o navio-hospital, Solace.
       Rebecca Clarke s olhou para Cassie uma vez com uma expresso de preocupao e admirao, pois ela trabalhava incansavelmente ajudando os feridos. Era uma 
grande mulher. No era para admirar que o pas gostasse tanto dela.
       - Voc est bem? - perguntou a enfermeira depois de Cassie ter trazido para a sala de tratamentos um caso especialmente grave de queimadura. O homem estava 
a gritar, e havia carne pendurada por todo o lado e at em cima de Cassie.
       - Estou tima - disse esta calmamente. Lembrava-se do irmo e de o ter retirado do avio em chamas. Ainda tinha a cicatriz da queimadura no brao. - Diga-me 
apenas o que fazer.
       - Est a fazer exatamente o que  preciso - afirmou a tenente Clarke firmemente. - No pare a no ser que se sinta mal e, se isso acontecer, diga-me.
       - No haver problema - respondeu Cassie, esforando-se por no se sentir mal enquanto ajudava os feridos, entre os quais algumas mulheres. Comearam tambm 
a entrar civis. Havia feridos por todo o lado e algum tempo depois j no tinham espao para os colocar. O segundo bombardeamento durou at pouco depois das dez 
horas; em seguida, foram-se embora, deixando a ilha e toda a nao em estado de choque.
       Cassie trabalhou fervorosamente durante toda a tarde, fazendo o que podia. Quando finalmente se sentou s quatro horas, mal se podia ter em p. No parara 
e no comera nada desde o pequeno-almoo. A tenente Clarke trouxe-lhe uma chvena de ch e foram juntas verificar se havia mais feridos. Os ltimos tinham sido transferidos 
para o Solace h uma hora. O hospital estava simplesmente a abarrotar.
       De momento no havia nada para ela fazer, exceto oferecer conforto a quem podia e, enquanto o fazia, Desmond chegou com um nico fotgrafo a seu lado. Todos 
os outros tinham ido para o porto ver os estragos, mas ele prometera ao jovem uma fotografia de Cassie O'Malley se viesse com ele. Atravessou o vestbulo at chegar 
a Cassie, enquanto a tenente Clarke sentava uma grvida. Tinha vindo saber do marido a tenente Clarke prometera encontr-lo.
       Est ali - Desmond apontou dramaticamente para ela. Querida, ests bem? - perguntou ele, olhando para Cass com um ar terno enquanto o reprter a fotografava 
de saia e blusa j cobertos com o sangue de outros. Tudo o que conseguiu fazer foi olhar para Desmond e para o fotgrafo com nojo.
       - Por amor de Deus, Desmond - disse com desdm, no me chateies. Porque no vais fazer algo de til em vez de te exibires para a imprensa? E voc? - Apontou 
um dedo para a mquina fotogrfica; e o rapaz estava demasiado espantado para fazer fosse o que fosse. - Porqu que no ajuda algum em vez de estar para a a tirar-me 
fotografias? Fomos bombardeados, seu idiota! Largue a mquina e mexa-se! - E com isso saiu do vestbulo com a tenente Clarke, deixando os dois homens de boca aberta. 
Nesse dia, ganhara o corao de Rebecca Clarke para sempre. Sabia que, por muito que vivesse, nunca esqueceria aquela incansvel ruiva a ajudar feridos e a tratar 
queimaduras. Oferecera o seu quarto a quatro feridos, tendo ela prpria transportado as macas que fizera com os lenis que encontrara ou roubara de outras camas.
       O diretor do hospital agradeceu-lhe pessoalmente nessa tarde. Descobriram uma cama desdobrvel, que ela colocou numa arrecadao para dormir um pouco. Precisavam 
de dar ateno a pessoas mais doentes e ela sentir-se-ia culpada se lhes roubasse a ateno. No dia seguinte, ficou para ajudar e ouviram dizer, sem que isso os 
surpreendesse, que o Presidente tinha declarado guerra ao Japo na segunda-feira. Ouviu-se um grito de alegria no hospital quando foi anunciada. Na tera-feira, 
registrou-se no Hotel Royal Hawaiian e telefonou aos pais. j lhes telefonara para dizer que estava bem, mas agora queria comunicar-lhes que ia tentar ir para casa 
o mais depressa possvel.
       O hotel prometeu arranjar-lhe uma cabina no Mariposa, que partia na vspera de Natal. Era o primeiro navio a sair e a nica coisa de que queria ter a certeza 
era que Desmond no ia nele.
       No tinha qualquer simpatia por ele, pois achava que se tinha comportado de maneira abominvel. Apenas estava interessado em tirar tudo o que pudesse da histria 
de Cassie, o que era repugnante.
       Desmond foi v-la nessa tarde e disse-lhe que o Pentgono lhe tinha prometido um lugar num vo militar para So Francisco dentro de alguns dias, e que poderia 
conseguir outro para ela, visto Cassie ser praticamente uma herona nacional. Porm, ela foi incisiva ao dizer-lhe que no desejava ir a lado nenhum com ele.
       - Qual  a diferena? - Desmond estava zangado com a sua deciso. A imprensa ficaria muito mais impressionada se eles fossem juntos para casa, se bem que 
ele j tivesse uma explicao no caso de Cassie no ir. Poderia at afirmar que ela no se sentia bem no ar ou colocar as culpas no seu estado de sade. Mas ela 
no ficou muito satisfeita com qualquer das suas desculpas.
       - Tenho ms notcias para ti, Desmond. O mundo no est a observar-te a ti nem a mim. Esto a pensar na guerra em que acabamos de entrar, se bem que no pareas 
ter notado.
       - Pensa no que poderias fazer agora para os esforos de guerra - disse ele na esperana de conseguir ainda mais publicidade para si e para os avies. No entanto, 
no que dizia respeito a Cassie, acabara de dar a sua contribuio nos ltimos trs dias no hospital naval. No que entendesse a sua ajuda como tal, mas o almirante 
Kimmel agradecera-lhe pessoalmente.
       - Farei exatamente o que quero fazer - respondeu num tom desagradvel -, e no irs pr anncios, vender, comunicar, usar ou explorar. Percebeste? Acabou-se. 
Terminei o meu contrato.
       - No o completaste - disse ele suavemente enquanto Cassie o olhava, incrdula.
       - Ests a brincar? Quase me matei por tua causa.
       - Fizeste-o por ti e pela tua prpria glria - corrigiu Desmond.
       - Fi-lo porque adoro voar e achei que te devia isso. Achei que realizar a viagem por ti seria a coisa mais honrada que poderia fazer, para no mencionar o 
fato de teres afirma        do que me processarias se no a fizesse. Achei que os meus pais no precisavam de mais uma dor de cabea.
       - E agora precisam? O que mudou? - Nick tinha razo. Desmond era mau.
       - Voei quase dezoito mil quilmetros, fiz o melhor que pude, despenhei-me no teu precioso avio e consegui sobreviver durante quarenta e cinco dias numa ilha 
do tamanho de um prato e a morrer  fome. Alm disso,- vi o meu melhor amigo morrer-me nos braos. No chega? Eu diria que sim e penso que sou quem melhor pode avaliar 
a situao.
       - Um contrato  um contrato - disse ele friamente. - O teu diz que voarias vinte e quatro mil quilmetros sobre o Pacfico no meu avio.
       - O teu avio incendiou-se como uma caixa de fsforos.
       - Tenho outros, e o teu contrato diz ainda que farias publicidade ilimitada e patrocnios.
       - Estamos em guerra, Desmond. Ningum est interessado e, mesmo que estejam, no o farei. Processa-me!
       - Talvez o faa. Vou pensar no assunto durante o caminho de volta.
       - Eu no perderia o meu tempo a pensar nisso. Quando chegar, falarei com o meu advogado por vrios motivos - disse ela incisivamente.
       - Teremos de discutir isso. A propsito: h pouco falaste no Billy em termos muito comoventes. Era o teu melhor amigo ou teu namorado? Acho que no te compreendi 
bem.
       - Percebeste-me perfeitamente, seu filho da me, e se ests a falar de adultrio porque  que no o discutes com a Nancy Firestone? Foi muito clara quando 
se intitulou tua amante. J falei nisso ao meu advogado.
       Pela primeira vez Desmond ficou plido, e Cassie sentiu-se muito contente por o ter perturbado.
       - No sei de que ests a falar. - Estava furioso com Nancy por ter falado com Cassie.
       - Pergunta  Nancy. Tenho a certeza de que ela te explicar. Foi muito direta comigo.
       Os olhos de Desmond mostraram-lhe que a odiavam, mas Cassie no se importou. No queria v-lo mais depois de Honolulu.
       Passou as duas semanas e meia seguintes a oferecer-se para ajudar no hospital naval e no navio-hospital Solace. Era devastador ver o que acontecera no porto. 
O Arizona, o Curtiss, o West Virgnia, o Oklahoma, o Chetv, o Oglada tinham sido todos destrudos pelos japoneses. Havia 2898 mortos e 1178 feridos. Fora devastador 
e agora o pas estava em guerra. Perguntou a si prpria o que aquilo significaria para Nick, se se manteria na RAF ou se se juntaria s Foras Armadas Americanas. 
Tudo estava ainda muito confuso.
       Na vspera de Natal, quando o Mariposa, o Monterey e o Lurline finalmente largaram, ficou comovida ao ver Rebecca Clarke que viera despedir-se dela e agradecer-lhe 
tudo o que fizera desde o bombardeamento. Cassie no fizera mais nada seno tratar dos feridos desde que os japoneses tinham bombardeado Pearl Harbor.
       - Foi uma honra conhec-la - disse Rebecca Clarke sinceramente. - Espero que chegue bem a casa.
       - Eu tambm - afirmou Cassie honestamente. Estava ansiosa por regressar a Illinois para ver os pais e conversar com o advogado para saber qual a melhor maneira 
de fugir s obrigaes que tinha para com Desmond.
       Ficou muito aliviada quando notou que os membros da imprensa no tinham ido ao cais, mas, como Desmond partira na semana anterior para So Francisco no avio 
militar, no se tinham dado ao trabalho. Estava feliz por no ter ido com ele, mesmo que de navio a viagem fosse mais longa e potencialmente mais arriscada. Viajavam 
em grupo para assegurar uma maior segurana.
       A tenente Clarke deixou-a no navio e largaram uma hora depois. Todos estavam ansiosos com a viagem e com receio que os Japoneses voltassem e os afundassem. 
Os blackouts eram totais  noite e todos usavam, dia e noite, os coletes de salvao, o que era muito enervante. Havia muitas crianas no navio, o que causava muito 
barulho e stress aos outros passageiros, mas as famlias que tinham parentes no continente estavam ansiosas por sair do Hava. Agora era muito perigoso. Todos sentiam 
que seriam atacados a qualquer momento. O Lurline, o Mariposa e o Monterey fizeram-se rapidamente ao mar com uma escolta de contratorpedeiros, que os acompanhou 
at meio do caminho para a Califrnia, deixando-os depois para terminarem a viagem sozinhos.
       Os navios ziguezagueavam suavemente pelo Pacfico para evitar os submarinos. No havia festas s noite, pois ningum estava com estado de esprito para isso. 
Queriam apenas chegar a So Francisco em segurana, e Cassie estava espantada com o tempo da viagem. Depois de uma vida a voar para todo o lado, uma viagem de navio 
parecia interminvel e perfeitamente fastidiosa. Esperava no ter de a repetir. Cinco dias mais tarde, todos os passageiros deram um grito de alegria quando passaram 
pela Golden Gate e se dirigiram ao porto de So Francisco.
       Ficou ainda mais surpreendida quando comeou a descer a escada de portal, transportando uma pequena mala, e viu o pai. Viajara sob o nome de Cassandra Williams 
e s meia dzia de pessoas tinham percebido quem ela era e conversado com ela. De resto, tinha estado bastante reservada. Havia muito em que pensar e ainda sofria 
bastante. Quando viu o pai, e a me atrs deste, o alvio transformou-se em excitao.
       - O que esto a fazer aqui? - perguntou ela de olhos muito abertos, os quais se encheram rapidamente de lgrimas. Todos choravam enquanto se abraavam e falavam. 
Era a reunio que ela desejara milhes de vezes enquanto estivera na ilha. Depois, enquanto se abraavam e falavam, Cassie viu Desmond. Tinha estabelecido uma enorme 
conferncia de imprensa para lhe dar as boas-vindas. Havia, pelo menos, oitenta membros da imprensa para a cumprimentar e fazer-lhe perguntas. Quando Cassie reparou 
neles, viu a boca do pai cerrada de raiva. No iria permitir que aquilo acontecesse. Desmond Williams tinha ido longe de mais e no passaria dali.
       - Bem-vinda, Cassie! - gritou-lhe uma manada de reprteres, enquanto o pai a agarrava firmemente pelo brao e a levava atravs da multido, parecendo um arado 
de neve. Oona seguia-os de perto, e Pat dirigia-se ao carro com condutor que alugara para a vir buscar. Antes de os reprteres poderem dizer fosse o que fosse, Cassie 
estava a ser empurrada para dentro do carro e Desmond dirigia-se a eles.
       - So muito simpticos - dizia Pat calorosamente aos membros da imprensa -, mas a minha filha no est bem. Continua doente e teve uma experincia muito traumatizante 
no hospital durante o bombardeamento de Pearl Harbor. Obrigado. Muito obrigado. - Acenou-lhes, empurrou a mulher para o carro atrs da filha e entrou, dizendo ao 
condutor que sasse dali o mais depressa possvel. Cassie ria-se da expresso de Desmond quando partiram. Tinham conseguido engan-lo.
       - Ser que aquele homem no pra? - gritou o pai, irritado. - Ser que no tem corao?
       - Nem uma ponta - assegurou Cassie.
       - No entendo porque casaste com ele.
       - Eu tambm no - suspirou ela -, mas nessa altura foi muito convincente. Depois achou que j no era preciso esconder as mentiras. - Cassie contou ao pai 
as ameaas de a perseguir com advogados.
       - No lhe deves nada! - disse Pat enraivecido depois de ouvir o que Cassie dissera.
       - Cuidado com o teu corao, querido - avisou Oona, mas ele estava bem desde o Vero. At durante o problema com Cassie se agentara surpreendentemente bem 
e agora s estava zangado.
       -  melhor que ele tenha cuidado com o meu punho e no com o meu corao - disse Pat enquanto se dirigiam ao Fairmont. Os pais tinham alugado uma sute para 
os trs e passaram dois dias a celebrar o regresso de Cassie. Antes de voltarem para casa, foram visitar o pai de Billy Nolan. Foi uma visita difcil e triste, e 
Cassie disse ao pai de Billy que ele tinha morrido tranqilamente nos seus braos sem sofrer. Mesmo assim, era difcil consol-lo.
       Mais tarde, Cassie recordou-se que muitos jovens como Billy morreriam agora durante a guerra. Era um pensamento horrvel, por isso nunca se sentira to feliz 
em ir para casa como no presente.
       O pai trouxera um co-piloto e pilotara o Vega. A meio do caminho para Illinois, Pat passou-lhe os comandos e perguntou-lhe se gostaria de pilotar. Para grande 
surpresa dos dois, Cassie hesitou, mas ele fingiu ignorar.
       - No  to requintado como os outros, Cass, mas voltar a voar far-te- bem ao corao. - Era um avio agradvel de pilotar, e o pai tinha razo: ela adorou 
a sensao de voar. H dois meses e meio, desde que se despenhara no North Star, que no entrava num avio e era estranho estar a pilotar, mas ainda adorava faz-lo. 
Estava-lhe no sangue tal como no do pai.
       No caminho contou-lhe ento tudo sobre o acidente, discutindo sobre o que poderia ter causado o incndio nos motores, mas no passavam de suposies. Desmond 
trouxera os destroos do avio e esperava vir a saber o que acontecera, mas no era provvel que encontrassem grande coisa, pois a exploso fora tremenda.
       - Vocs tiveram muita sorte - disse o pai, abanando a cabea, enquanto ela pilotava o avio. - Poderiam ter morrido antes de chegar a terra ou no encontrar 
uma ilha para aterrar.
       - Eu sei - disse ela tristemente, pois nada disso ajudara Billy. No conseguia superar a sua morte. Sabia que nunca o esqueceria e, nessa noite, enquanto 
ajudava o pai a arrumar o avio no hangar, ele ofereceu-lhe um emprego no aeroporto. Disse que precisava de ajuda com as viagens para entrega de carga e de correio, 
especialmente agora que todos os jovens capazes estavam a alistar-se. A maioria dos seus pilotos era mais velha, mas ainda havia lugar para ela, e Pat gostaria imenso 
de a ter consigo.
       - A no ser que vs fazer muitos anncios de pasta de dentes e carros. - Ambos se riram.
       - Acho que no, pai. Acho que j tive o suficiente para durar uma vida. - Nem tinha a certeza se queria entrar em festivais areos devido  morte de Chris. 
Apenas queria voar.
       - Gostaria muito de te ter comigo. Pensa nisso, Cass.
       - Pensarei, pai. Sinto-me muito honrada.
       Foram para casa no caminho, e as irms e respectivas famlias estavam  espera deles em casa. Era vspera de Ano Novo e eles nunca lhe pareceram to bem 
como naquele momento. Todos choraram, se abraaram, gritaram, e os midos corriam por todo o lado, parecendo loucos. Pareciam mais crescidos, e Annabelle e Humphrey 
estavam muito bem. Era uma cena que Cassie nunca pensara ver de novo. Caiu ento a soluar enquanto as irms a seguravam. Desejava que Chris, Billy e Nick pudessem 
estar presentes. J faltavam muitas pessoas, mas ela estava l e todos agradeceram a Deus as Suas bnos.

CAPTULO 21
       Uma semana depois do Ano Novo, Cassie comeou a ajudar o pai no aeroporto, mas antes disso, Pat levou-a a um advogado em Chicago. Era caro, mas possua uma 
boa reputao, e o pai dissera-lhe que no poderia ter um advogado inferior se queria defender-se de Desmond Williams.
       Cassie explicou-lhe a situao e o advogado aconselhou-a a nada temer. No haveria um juiz ou jri no pas que sentisse que ela no cumprira o seu contrato 
de boa-f e com grande risco pessoal.
       - Ningum vai tirar-lhe dinheiro, p-la na cadeia ou for-la a voar novamente para ele. Esse homem parece ser um monstro.
       - Isso leva-nos a outro assunto - disse Pat incisivamente. O divrcio. Seria mais complicado, mas no era de todo impossvel. Levaria tempo, mas seria fcil 
afirmar que o casamento no tinha sobrevivido ao trauma do acidente de Cassie e, decerto, ningum o contestaria. At seria mais simples acus-lo de adultrio e fraude, 
e o advogado tencionava coloc-lo perante esses fatos, pensando poder obter toda a cooperao possvel por parte de Desmond.
       Disse a Cassie que fosse para casa e que no se preocupasse. Trs semanas mais tarde, chegaram alguns papis para ela assinar, que dariam andamento ao processo. 
Algum tempo depois, Desmond telefonou-lhe.
       - Como ests, Cass?
       - Porqu?
       -  uma pergunta perfeitamente razovel. - Parecia muito alegre, mas ela conhecia-o. Queria alguma coisa. Pensou que ele tivesse telefonado para discutir 
o divrcio, mas no conseguia imaginar porqu. No queria continuar casada com ele e vice-versa e nem estava a pedir-lhe dinheiro. Para sua surpresa, mandara-lhe 
a quantia devida pela volta ao Pacfico, apesar de no a ter completado, depois de ter sido contatado pelo advogado de Cassie, que lhe afirmara que tentar ludibri-la 
ficaria muito mal aos olhos do pblico americano, depois de tudo o que ela passara. Desmond ficara furioso, mas o cheque de cento e cinqenta mil dlares foi depositado 
na sua conta bancria e Pat ficou muito contente. Cassie merecia-o.
       - Apenas pensei que gostasses de dar uma pequena conferncia de imprensa para dizer ao mundo o que aconteceu. - Inicialmente ela planejara faz-lo, mas entretanto 
decidira-se pelo contrrio. A sua carreira de estrela de cinema acabara.
       - Souberam de tudo atravs do Ministrio da Marinha depois de me terem salvo. No h mais nada a dizer. Achas que querem saber como o Billy morreu nos meus 
braos ou como foi a minha disenteria? Eu penso que no.
       - No precisas de mencionar esses aspectos.
       - No, no posso e no tenho nada a dizer. Fiz a viagem. Despenhamo-nos e tive a sorte de voltar, ao contrrio do Billy, Noonan, da Earhart: e de todos os 
loucos como ns, e no quero falar mais sobre o assunto. Acabou, Desmond. Passou  histria. Tenta encontrar outra pessoa que consigas transformar em estrela de 
cinema. Talvez a Nancy.
       - Tu eras boa - disse ele nostalgicamente. - A melhor.
       - E eu gostava de ti - afirmou tristemente. - Amei-te - disse Cassie em voz muito baixa, mas no havia ali ningum para amar.
       - Lamento que tenhas ficado desiludida - protestou ele. Eram novamente estranhos. Tinham dado a volta completa e Desmond percebera que era intil pression-la. 
- Se mudares de idias, avisa-me. Poders ter uma grande carreira se a levares a srio - disse ele, e Cassie sorriu. Tinha sido o mais srio possvel e salvara-se 
por milagre.
       - No contes com isso. - Sabia que ele detestava pessoas como ela. Para Desmond, era uma covarde, mas no estava muito interessada no que ele pensava.
       - Adeus, Cassie. - Fim de carreira, fim de casamento e fim de pesadelo.
       Desligaram, e Desmond nunca mais lhe telefonou. O advogado comunicou-lhe que Mr. Williams concordara com o divrcio, oferecendo at uma pequena doao se 
ela fosse a Reno. Cassie no aceitou o dinheiro, pois ganhara o suficiente a voar para ele, mas, em Maro, foi a Reno passar seis semanas e quando voltou estava 
livre. Tal como era de prever, Desmond fez um anncio  imprensa, dizendo que
       Cassie ficara to traumatizada com a experincia no Pacfico que lhe era impossvel continuar com o casamento e estava a viver em retiro com os pais.
       - Quase d a entender que estou louca - queixou-se Cassie.
       - E depois? - perguntou o pai. - Ests livre dele para sempre.
       Aps a declarao de Desmond, a imprensa telefonara algumas vezes, mas ela recusou-se sempre a falar com eles ou a v-los. Tinham escrito sobre ela com simpatia, 
mas no a perseguiram durante muito tempo. Por muito que a tivessem amado antes da viagem, agora tinham outros peixes para fritar.
       Cassie no tinha saudades deles nem de Desmond, mas tinha-as dos amigos. Sem Billy, o aeroporto estava demasiado calmo. Estava to acostumada a voar com ele 
todos os dias que agora era estranho estar ali sem ele. Em Abril, quando regressara de Reno, todos os rapazes que conhecia tinham sido recrutados ou se tinham alistado. 
At dois dos seus cunhados tinham partido, se bem que o marido de Colleen tivesse ficado devido ao p chato, problemas de viso e outros. No entanto, as duas irms 
mais velhas e os filhos passavam a maior parte do tempo l por casa. Na Primavera, os pais de Annabelle e de Humplirey foram mortos num bombardeamento a Londres. 
Colleen e o marido decidiram adot-los e, ao pensar no assunto, Cassie desejou poder ficar com eles.
       De vez em quando, e no com muita freqncia, j tinham notcias de Nick. Ainda estava em Inglaterra, a fazer raids e a abater todos os alemes que podia, 
tal como nos velhos tempos. Aos quarenta e um anos, j estava velho para esse tipo de jogos, mas, com a Amrica na guerra, tinha um estatuto militar total no Exrcito 
americano. Tambm j no conseguia obter licenas. No em tempo de guerra. Cassie sabia que ainda estava em Hornchurch. Nunca lhe escrevia. S a Pat. Cassie tambm 
nunca lhe escrevera, contando-lhe a traio e o divrcio com Desmond, mas ainda no tinha a certeza do que havia de lhe dizer, se  que ele se importava. No sabia 
se o pai lhe contara alguma coisa, mas duvidava. Pat no gostava muito de escrever cartas ou de discutir os assuntos das outras pessoas. Tal como todos os homens, 
discutia os acontecimentos mundiais e poltica, mas Cassie achava que devia dizer a Nick o que acontecera. A questo era quando e como. Ela tinha de partir do pressuposto 
de que Nick j teria escrito se estivesse interessado nela. j no o via h um ano e s Deus sabia o que Nick estaria a pensar.
       Cassie no saa com namorados. Apenas com amigos ou com as irms e trabalhava muito para o pai no aeroporto. Era quase uma vida para ela, mas era preciso 
admitir que tinha saudades de pilotar os exticos avies de Desmond. Porm, no era possvel ter tudo, e, alm disso, gostava da sua vida tal como estava. A imprensa 
comeara a esquec-la, deixaram de telefonar e, ocasionalmente, pediam-lhe para avalizar alguma coisa, o que Cassie declinava. Levava uma vida tranqila, mas o pai 
preocupava-se com ela e dizia-o a Oona.
       - Ela passou por muito - confessou um dia. Todos tinham passado.
       - A Cassie  uma rapariga forte - afirmou a me, ternamente. - Vai ficar bem. - Estava sempre bem. Apenas se sentia sozinha sem as pessoas com quem crescera: 
o irmo, Nick, Bobby e at Billy, que chegara depois. Todavia, Cassie tinha saudades deles e da camaradagem que partilhavam de maneiras diferentes. Ela era agora 
mais um piloto que voava para Chicago e Cleveland, mas era bom estar de novo com a famlia. Era muito reconfortante.
       Em Agosto, recebeu um telefonema que a deixou espantada. O pai atendeu o telefone e entregou-lho com um ar descontrado. Ele nem reconheceu o nome, o que 
fez com que Cassie desse um pequeno grito. Algumas coisas nunca mudavam. Era Jackie Cocliran.
       - Est a falar a srio? - Inicialmente, Cassie pensara que o pai estava a brincar. Acabara de chegar de uma viagem a Las Vegas e estava muito calor. Quando 
atendeu o telefone, Jackie Cocliran, disse-lhe que queria encontrar-se com ela o mais depressa possvel. Disse-lhe que sempre a admirara e pediu-lhe que fosse a 
Nova Iorque ter com ela, se pudesse. - Claro - concordou Cassie, no ligando a pormenores importantes. Concordara em ir para Nova Iorque da a dois dias, pois era 
o seu dia de folga e no tinha nada para fazer. Talvez pudesse fazer algumas compras; tinha o dinheiro da volta no banco e nunca gastara um centavo. H sculos que 
Cassie queria conhecer Jackie Cocliran, mas era engraado, quando voltara para casa, instalara-se e nunca mais fizera nada.
       Pensou em convidar a me a ir a Nova Iorque com ela; depois decidiu ir sozinha. No fazia idia do que Jackie Cocliran queria, mas achava que poderia ser 
algo com que a me no concordasse.
       Quando se despediu, Cassie ficou fascinada. Admitira imediatamente que se sentia aborrecida em casa e estava ansiosa por fazer outro tipo de vos. Oito meses 
depois de ter sido salva no Pacfico, j estava pronta para alargar as asas e fazer algo de mais excitante. O que Jackie Cocliran tinha em mente era exatamente isso.
       Jackie queria que Cassie se encarregasse de formar um pequeno grupo de mulheres-pilotos experientes sob o nome de Army Air Force Flying Training Command, 
para mandar avies para onde fossem mais necessrios. As mulheres envolvidas voariam como civis, mas teriam uniformes e um posto honorfico. Cassie seria o comandante. 
Havia outro corpo aerotransportado feminino, o WAFS, Women's Auxiliary Flying Squadron, se ela o preferisse, a ser organizado por Nancy Harkness Love, para pilotar 
avies da fabrica at ao campo operacional a nvel domstico. Era outra extraordinria mulher-piloto. Mas Cassie gostou da idia de transportar avies para Inglaterra, 
passando pelos Alemes. Sabia que os pais iriam ficar preocupados se ela sasse de casa, mas era algo em que Cassie acreditava. Tinha um objetivo, no sendo frvolo 
ou para crdito prprio, tal como fora a volta ao Pacfico, que apenas dera muito dinheiro a ganhar a pessoas gananciosas. Aquilo era uma coisa que poderia fazer 
pelo pas e, se morresse, estava preparada para aceitar o fato. Chris tambm o fizera, tristemente Billy tambm e agora at Bobby Strong. Fora morto seis semanas 
depois de se ter alistado. Peggy estava novamente viva, mas agora com quatro filhos. A vida nunca era simples.
       O WAFS comearia os treinos em New Jersey durante oito semanas, em Setembro, mas ela mal conseguia esperar. J era altura de Cassie responder novamente a 
desafios e, pela primeira vez, estaria a voar com outras mulheres. Nunca tivera a oportunidade de o fazer.
       Jackie Cocliran levou-a a jantar no 21 e conversaram sobre os avies. Cassie no se recordava de ter desejado tanto alguma coisa, nem a volta ao mundo. Isto 
era diferente.
       Era exatamente o que ela desejara e esperara. Era altura de Cassie continuar. No dia seguinte, quando regressou a casa, ainda estava a sorrir ao pensar no 
assunto.
       O pai encontrava-se no aeroporto quando ela chegou. Cantarolava para si prprio enquanto preenchia alguns papis. Cassie no queria tirar-lhe o bom humor 
e, como tal, decidiu esperar e dizer-lhe depois de jantar.
       - Como estava Nova Iorque?
       - tima - disse ela, radiante.
       - V l! j me cheira a romance. - Cheirava-lhe a felicidade, mas no a romance. Avies, mas no a rapazes. Cassie estava exatamente no mesmo lugar onde estivera 
inicialmente. Apaixonada por voar.
       - No. No  romance - sorriu ela misteriosamente. Tinha vinte e trs anos, estava divorciada, e sentia-se livre, independente e prestes a fazer o que queria.
       Mal conseguiu conter-se depois de jantar e, quando contou tudo aos pais, eles ficaram a olhar para ela, incrdulos.
       - Vai comear tudo de novo. - Pat estava com um ar zangado mesmo antes de Cassie explicar. - O que queres fazer agora? - Ela tinha nadado toda a vida contra 
a corrente, o que no era novidade para eles ou para Cassie.
       - Quero juntar-me, ou melhor, juntei-me ao Army's Flying Training Command - disse muito contente e explicou-lhes o que era.
       - Espera l! Vais pilotar bombardeiros para Inglaterra? Fazes idia como so pesados e difceis de pilotar?
       - Eu sei, pai. - Sorriu. J pilotara quase todos os avies existentes no cu quando trabalhara para a Williams Aircraft.
       - Terei uma co-piloto. - Sabia que o pai ficaria mais descansado.
       - Provavelmente outra mulher.
       - s vezes.
       - s louca - disse ele firmemente. - Patriota, mas louca.
       Nessa altura, Cassie olhou para ele com dureza. Era preciso que o pai compreendesse. Ela era adulta e tinha o direito de fazer aquilo, mas tambm os tinha 
feito passar por muito e no queria mago-los. Preferia ter o seu consentimento, mas a me j estava a chorar.
       - Tu e a tua mania dos avies - disse Oona tristemente ao marido, e Pat fez-lhe uma festa na mo.
       - Ento, Oona. Sempre nos proporcionou uma boa vida. - E proporcionara a Cassie uma pequena fortuna, mas a que preo.
       Cassie explicou-lhes novamente o que era o Flying Command, eles disseram-lhe que iam pensar no assunto, mas Cassie lembrou-lhes que j assinara os papis. 
Pat e Oona olharam um para o outro. No restava mais nada seno apoiar Cassie. Ela estava-lhes sempre a fazer a mesma coisa. Sempre a arriscar a vida, levando-a 
at ao limite.
       - Quando precisam de ti? - perguntou o pai, com um ar deprimido. Tambm detestava perder a sua ajuda no aeroporto.
       - Comeo daqui a duas semanas: no dia um de Setembro, em New Jersey. - E depois acrescentou: - Se fosse homem tambm seria recrutada.
       - Mas, graas a Deus, no s e no sers. J  uma desgraa ter l os teus cunhados e o Nick. - Nick era como um filho para ele.
       - Se pudesses tambm l estarias - salientou ela ao pai, e este olhou-a com uma expresso muito estranha. Ela tinha razo. Estaria. Nick oferecera-se como 
voluntrio h muito tempo e nem sequer precisava de ir.
       - Porque  que no posso ir? Por que razo no posso fazer algo pelo meu pas? Voar  a nica coisa que sei fazer e fao-o bem. Porque no posso oferecer 
isso ao meu pas? Tu f-lo-ias. Devo ser impedida disso s porque sou uma mulher?
       - Oh, Deus - disse o pai. - Voltamos s sufragistas. Onde foste buscar isso? A tua me e as tuas irms nunca falaram desse disparate. Ficam em casa, que  
onde devem estar.
       - Eu no perteno  casa. Sou piloto como tu.  essa a diferena. - Era difcil discutir com ela. Era esperta, tinha razo e muita coragem. Ela ensinara-lhe 
muito ao longo dos anos e Pat ainda a amava mais por isso.
       -  perigoso, Cass, porque irs pilotar bombardeiros Lockeed Hudson. So avies muito pesados. E se te despenhas novamente?
       - E se tu te despenhares amanh sobre Cleveland? Qual  a diferena?
       - Talvez nenhuma. Vou pensar nisso. - Pat sabia que a filha estava aborrecida por fazer vos para entregar correio depois dos avies que pilotara, mas pelo 
menos ali estava segura.
       Pensou no assunto durante alguns dias, mas finalmente sentiu mais uma vez que no tinha o direito de a impedir. Em Setembro, Cassie foi para New Jersey. Oona 
tambm estava orgulhosa dela e os pais acompanharam-na at l.
       - Toma cuidado contigo, pai - disse Cassie antes de os deixar. Deu-lhes um beijo de despedida e o pai ficou a sorrir para a filha.
       - Tenta no seres uma vergonha para a aviao - disse-lhe a brincar e ela riu-se.
       - V se te portas bem!
       - E tu tambm! - Saudou-a e partiu. Quando a viu novamente, estava a rebentar de orgulho. Cassie usava um uniforme com um brilhante par de asas prateadas, 
parecendo mais velha e madura que nunca. Ficava com uma figura sensacional de uniforme.
       Os pais tinham ido a Nova Iorque porque ela ia para Inglaterra no fim-de-semana seguinte, se bem que a visita fosse breve. Ela andaria a levar e trazer avies 
para os locais onde seriam necessrios, mas a sua primeira misso seria apresentar-se em Hornchurch com um bombardeiro.
       Jantou com os pais na noite anterior  partida e levou-os a um pequeno restaurante italiano que freqentava sempre que estava em Nova Iorque com os outros 
pilotos. Apresentou alguns deles aos pais, e estes conseguiam ver que ela nunca fora to feliz. Apesar da dificuldade dos treinos, Cassie sentia quase sempre que 
estava num campo de frias para mulheres-pilotos. Gostava das mulheres com que voava, e o desafio de transportar os bombardeiros atravs de perigosos espaos areos 
convinha-lhe perfeitamente. Estava habituada a vos difceis e gostava do fato de ser obrigada a estar com todos os seus sentidos bem aguados. Para esta primeira 
viagem, durante a qual passariam pela Groelndia, fora-lhe atribudo um co-piloto masculino.
       - V se consegues encontrar o Nick - disse o pai quando a deixou na caserna, e ela prometeu escrever de Inglaterra. No pensava l ficar muito tempo, mas 
ainda no tinha a certeza. Iria voar em misso e teria de esperar um destacamento para regressar aos Estados Unidos. Poderia l ficar apenas uma ou duas semanas 
ou trs ou quatro meses. No havia maneira de saber. De uma coisa Cassie tinha a certeza: durante todo o treino, no pensara em mais nada seno em Nick Galvin.
       Pensara muito e tomara algumas decises.
       Durante toda a vida fora obrigada a esperar que os outros tomassem decises sobre a sua vida, agora no estava disposta a deixar que isso voltasse a acontecer. 
Tivera de pagar ao prprio irmo para mentir e lev-la no Jenny para que ela aprendesse a voar. Tivera de esperar que Nick notasse o desespero com que ela desejava 
aprender para concordar em dar-lhe lies s escondidas do pai. Fora obrigada a esperar que o pai reconsiderasse e a deixasse voar para ele.
       Tivera de esperar que Nick dissesse que a amava e depois partisse como membro da Royal Air Force, e fora obrigada a esperar que Desmond a deixasse pilotar 
os seus avies, mentir-lhe e us-la, dizendo-lhe finalmente que ela representava muito pouco para ele. Toda a vida esperara pelas decises e manipulaes dos outros. 
At agora, que Nick sabia onde ela estava e o que sentia por ele, continuava a no lhe escrever. A nica coisa que Nick provavelmente no sabia, graas s boas relaes 
de Desmond com a imprensa, era que se tinha divorciado.
       No entanto, Cassie no estava disposta a esperar mais tempo. Desta vez, no esperaria a deciso de ningum. Era a sua vez e, desde que soubera que Desmond 
fora um filho da me, s desejava ir para Inglaterra. No fazia idia do que aconteceria quando chegasse ou qual seria a reao de Nick. No se importava se era 
velho ou novo ou com o dinheiro que tinha ou no tinha. Apenas sabia que tinha de l estar. Tinha o direito de saber o que ele sentia por ela. Decidira que tinha 
direito a muitas coisas e chegara a altura de as conseguir. Aquela viagem era uma delas. Era exatamente o que queria fazer naquele momento.
       Partiram s cinco horas da manh seguinte. Achou a pilotagem desafiadora, mas, por vezes, aborrecida. Ela e o co-piloto conversaram durante algum tempo e 
este ficou impressionado quando percebeu quem ela era.
       - Uma vez vi-a num festival areo. Limpou os prmios todos. Acho que foram trs primeiros e um segundo. - Fora a sua ltima participao, mas ele recordava-se 
com exatido.
       - J no participo h muito tempo.
       - Tornaram-se desinteressantes.
       - Perdi o meu irmo no do ano seguinte. A partir da, deixou de ser divertido.
       - Acredito. - Depois, lembrou-se com admirao da partida que ela tinha pregado a todos. - Dessa vez, voc quase mordeu o p.
       - No. Foi apenas um truque - disse Cassie modestamente. Ele riu-se.
       - Raparigas com coragem. Vocs so todas iguais: muita coragem e pouco crebro. - Riu-se e ela sorriu. Para Cassie aquilo era quase um cumprimento. Gostou 
da referncia  coragem.
       - Muito obrigada. - Cassie sorriu-lhe e, por um instante, fez-lhe lembrar Billy.
       - No h problema.
       Na altura em que chegaram a Inglaterra j eram amigos e Cassie esperava voar com ele novamente. Era do Texas e, como qualquer texano, voava desde o momento 
em que tivera idade para subir para a carlinga. Prometeu procur-la quando voltasse a New Jersey.
       Tinham tido sorte nessa noite, pois no havia pilotos alemes a fazer vos de reconhecimento. J estivera envolvido em combates e ficou feliz por isso no 
acontecer a Cassie no seu primeiro vo.
       - No foi nada de especial - assegurou. Para a delcia de Cassie, deixou-a aterrar o avio, o que no constituiu qualquer problema, apesar dos avisos do pai. 
Era timo ser tratada como um par.
       Levou os papis ao escritrio onde a mandaram apresentar-se.
       Agradeceram-lhe educadamente a entrega dos documentos e entregaram-lhe um pedao de papel referente ao aquartelamento. Cassie saiu, e o piloto com quem voara 
convidou-a a tomar o pequeno-almoo, mas ela disse-lhe que tinha outros planos. Tinha-os, mas no tinha a certeza onde deveria comear a procurar. Possua a morada 
de Nick, mas isso nada significava para ela. Pelo menos, por agora. Puxou do pedao de papel onde a tinha escrito e estava a olhar para ele, lutando contra a exausto 
do vo, quando algum lhe deu um encontro. Ela olhou a pessoa com irritao e depois com estupefao.
       Era ridculo. As coisas no aconteciam assim. Era demasiado fcil. Ele estava ali de p, olhando para Cassie como se estivesse a ver um fantasma. Ningum 
o avisara que ela viria e ali estava Cassie, de uniforme, olhando para os olhos espantados do major Nick Galvin.
       - O que ests aqui a fazer? - Disse-o como se fosse o proprietrio daquele local, e ela riu-se dele com o cabelo ruivo destacando-lhe o rosto.
       - O mesmo que tu. - Mais ou menos. A tarefa dele era bem mais perigosa do que a dela, mas ambos tinham as suas tarefas e misses. Vrios pilotos de transporte 
j tinham sido mortos pelos Alemes.- Deixa-me agradecer-te as cartas que me enviaste. Gostei muito de as receber. - Tentou aliviar a dor causada pelo seu silncio.
       Nick sorriu infantilmente ao ouvir o comentrio. Estava to esmagado por v-la novamente que mal conseguiu ouvi-la. A ltima vez que a vira... fora na manh 
seguinte  noite que haviam passado na velha pista.
       - Agradou-me imenso escrev-las. - Recuou, mas a nica coisa que desejava fazer era tocar-lhe. No conseguia afastar dela os olhos, os braos, o corao e 
os dedos. Instintivamente, esticou o brao e tocou-lhe o cabelo. Ainda parecia seda e fogo.
       - Como ests, Cass? - disse Nick suavemente, enquanto muitas pessoas em uniforme passavam por eles. Hornchurch era muito agitado, mas nenhum deles parecia 
notar. No conseguiam tirar os olhos um do outro. Apesar das dificuldades que ambos tinham passado, nada parecia ter mudado entre eles.
       - Estou bem - respondeu, enquanto ele a conduzia para um stio mais sossegado e se sentavam num muro a conversar. Havia muito a dizer e, subitamente, Nick 
sentiu-se culpado pelo seu silncio.
       - Fiquei morto de preocupao quando caste - disse. Ela afastou o olhar, lembrando-se de Billy.
       - No foi muito divertido - respondeu ela honestamente. - Foi muito duro e... - Tinha dificuldade em falar e, sem pensar, Nick agarrou-lhe a mo e apertou-a 
na sua. -... Foi terrvel quando o Billy...
       - Eu sei. - No era preciso diz-lo por palavras. Ele percebia perfeitamente. - No te podes culpar, Cass. Avisei-te h muito tempo. Todos fazemos o que  
preciso. Corremos os nossos riscos. O Billy sabia o que estava a fazer. Decidiu, por ele e no por ti, fazer a viagem contigo. - Ela acenou com a cabea, reconhecendo 
a sabedoria daquelas palavras, mas no a confortavam muito.
       - Nunca achei justo que ele morresse e eu voltasse. - Era a primeira vez que dizia aquilo a algum e nunca o teria dito seno a Nick. Sempre lhe contara tudo 
o que estava a sentir.
       -  a vida. No  uma deciso nossa.  Dele. - Nick apontou para os cus e ela acenou com a cabea.
       - Porque no telefonaste quando regressei? - perguntou Cassie tristemente. Tinham ido direitos s coisas importantes e sempre o tinham feito. Ele era assim.
       - Pensei muito nisso e algumas vezes estive quase a telefonar - confessou ele, sorrindo -, quando j estava meio bbado, mas achei que o teu marido no ficaria 
muito contente. Onde  que ele est? - A sua pergunta confirmou as suspeitas de Cassie, que lhe sorriu. Era divertido estar ali sentada a conversar com Nick, como 
se ele estivesse estado  espera da sua chegada. De repente, tudo pareceu muito simples. Estavam ali, a mais de seis mil quilmetros de casa, a conversar num muro 
de pedra sob o sol de Outono.
       - Est em Los Angeles. - Com a Nancy Firestone ou algum como ela...
       - Estou surpreendido que te tenha.. deixado fazer isto, mas, por outro lado, no estou - disse Nick com uma expresso azeda. O pensamento de a ter perdido 
tinha-lhe partido o corao, e aquele filho da me tinha-a feito arriscar a vida para vender avies
       Era a Desmond que ele quisera telefonar para lhe dizer que era um grande sacana, mas nunca o fizera. - Deve ter pensado que tudo isto ia ficar muito bem nos 
documentrios. Patritico... Um dos jovens... De quem foi a idia? - Queria que fosse dela, pois desejava respeit-la por isso.
       - Foi minha, Nick. Desde a volta que queria fazer isto, mas quando voltei no achei bem deixar o meu pai. Mesmo assim foi difcil para ele. No tem ningum 
para o ajudar.
        provvel que tenha de empregar algumas mulheres, mas a maioria est a juntar-se ao WAFS,  FTC ou ao Flying Training Command, como eu.
       - O que queres dizer com no achares bem deixar o teu pai? Ficaste com eles quando voltaste? - O crpula do Desmond nem tivera a decncia de tomar conta dela 
e devia ter estado bem doente depois de sete semanas a passar fome num atol.
       - Sim. Voltei para casa - disse ela calmamente, olhando-o e recordando a sua nica noite de felicidade ao luar. - Deixei o Desmond, Nick. Deixei-o quando 
o pai teve o ataque de corao.
       J tudo tinha acabado h um ano, mas Nick ficou pasmado ao perceber que nunca o soubera.
       - Quando voltei para Los Angeles - prosseguiu ela depois da ltima vez que te vi, tudo aconteceu como tu previras. Pressionava-me com conferncias de imprensa, 
vos de teste em pistas e documentrios. Tudo foi como tu disseste que seria, mas s se revelou quando o pai adoeceu. Ordenou-me que fizesse a volta na altura 
prevista e proibiu-me de ir ver o meu pai.
       - Mas tu foste, no foste? - Sabia que a viagem fora adiada, pois vira um documentrio rodado no hospital.
       - Sim. Fui e o Billy foi comigo. O Desmond disse que nos processaria se no fizssemos a volta e obrigou-nos a assinar contratos que a faramos em Outubro, 
acontecesse o que acontecesse.
       - Que tipo porreiro!
       - Eu sei. Nunca mais voltei para ele e nem sequer me telefonou. Tudo o que queria era que a imprensa no soubesse at eu voltar. E tambm tinhas razo sobre 
as mulheres. A Nancy Firestone era sua amante. Aparentemente, a nica razo que o levou a casar-se comigo foi a publicidade  viagem, tal como tu afirmaste. Ele 
disse que no teria o mesmo impacto sobre o pblico. O casamento foi uma aldrabice completa. Depois, quando me salvaram, ele disse-me no Hava que eu ainda trabalhava 
para ele e que ia processar-me por quebra de contrato. Prometera-lhe vinte e quatro mil quilmetros no North Star e s tinha voado dezessete mil antes de me despenhar. 
Nessa altura, achou que conseguiria mais publicidade  minha custa, mas j tudo acabara. O pai levou-me a um advogado em Chicago e divorciei-me.
       Nick estava completamente estupefato com o que Cassie estava a contar-lhe, se bem que no fosse novidade para Nick o fato de Williams ser um filho da me, 
mas era muito pior do que at Nick suspeitara.
       - Como conseguiste manter o silncio antes de partires?
       - Ele  muito bom nisso.  a sua profisso. Quando voltei para Los Angeles antes da viagem, fiquei em casa do Billy. Ningum sabia de nada. De qualquer modo, 
partimos algumas semanas depois de ter voltado de Good Hope, e Desmond vestiu tudo de lavado.  um rptil, Nick. Tinhas razo e sempre te quis dizer isso, mas no 
sabia exatamente o que dizer ou como diz-lo. Inicialmente, o meu orgulho estava ferido e tive vergonha de admitir que tudo no passara de uma farsa. Depois, pensei 
que tu no estivesses interessado em saber. Foste muito definitivo em relao a mim. No sei. Achei que era melhor estar calada. Fiquei  espera que viesses a casa 
para podermos falar, mas depois de Pearl Harbor no deves ter podido.
       - J no temos licenas, Cass. E o que queres dizer com fui to definitivo em relao a ti? Lembras-te daquela noite?
       Parecia magoado com as palavras de Cassie.
       - Lembro-me de cada minuto dela. Por vezes, era a nica coisa que me mantinha viva na ilha. Pensar em ti... recordar. Foi o que me deu foras para muitas 
coisas, incluindo deixar o Desmond. Ele  um nojo.
       - Ento porque no me escreveste?
       Ela suspirou, pensando nisso, e depois olhou-o honestamente.
       - Achei que irias dizer-me de novo que eras demasiado velho e pobre e que eu devia estar com um mido como o Billy.
       Ele sorriu perante a veracidade das suas palavras. Talvez tivesse sido suficientemente estpido para o fazer, antes de Cassie quase ter morrido e de ele ter 
percebido a sua asneira. Estar ali sentado a olhar para ela f-lo perceber como tinha sido louco em deix-la.
       - E encontraste? Um mido como o Billy? - Estava com uma expresso to preocupada que, durante alguns instantes, Cassie desejou ter coragem para lhe causar 
cimes.
       - Devia dizer-te que tenho sado com todos os homens de sete estados.
       - Acho que no acreditaria. - Nick sorriu e acendeu um cigarro, enquanto se encostava ao muro e a mirava com prazer. Era to bom voltar a v-la! Aquela era 
a menina que ele sempre amara.
       - Porque no? Achas que sou demasiado feia para que os homens no queiram sair comigo? - disse ela para o arreliar.
       - No s feia. Apenas difcil.  preciso um homem de uma certa idade e sofisticao para lidar com uma rapariga como tu, Cass. No h muitos homens no condado 
de McDonough que o conseguissem fazer.
       - s to vaidoso! isso significa que agora j tens a idade correta ou ainda s demasiado velho para mim? - perguntou ela incisivamente, querendo saber em 
que p estavam.
       - Costumava ser. Sobretudo, costumava ser demasiado estpido - disse Nick com honestidade. - Quase foram obrigados a reformar-me quando tu caste, Cass. Pensei 
que ia enlouquecer. Devia ter ido a casa assim que soube, pois teria estado em Honolulu, quando chegaste.
       - Teria sido maravilhoso - sorriu ela gentilmente, sem o acusar de nada. Apenas queria saber o que aconteceria entre eles.
       - Presumo que o Desmond estava l com os reprteres afirmou ele com um ar aborrecido.
       - Claro. Mas eu tinha uma grande enfermeira que os mantinha afastados do meu quarto assim que tentavam dar um passo. Detestava o Desmond. Foi nessa altura 
que ele ameaou processar-me por quebra de contrato. Acho que est convencido que fiz explodir o avio de propsito. Foi terrvel, Nick - disse Cassie solenemente 
-, com ambos os motores a arder. Penso que ainda no perceberam o que aconteceu e acho que nunca chegaro a qualquer concluso. - O seu olhar ficou longnquo por 
uns instantes e Nick puxou-a para si.
       - No penses mais nisso, Cass. Acabou. - E tambm muitas outras coisas. Para ela terminara toda uma vida e era altura de comear de novo. Olhou para ela com 
um sorriso, sentindo o calor do seu corpo junto do dele, e lembrou-se daquela noite de Vero h quase dois anos, que o sustentara desde ento. - Quanto tempo vais 
ficar?
       - Recebo as minhas ordens na quinta-feira - disse ela, perguntando a si prpria o que lhes estaria reservado, se seria novamente o mesmo jogo ou se ele finalmente 
crescera. - Poderei c estar uma ou duas semanas ou trs meses, mas voltarei com bastante assiduidade. Estou no esquadro de transporte para o ultramar e  isso 
que fazemos: servio de transporte de New Jersey para Hornchurch.
       - A maioria das vezes, isso vai ser muito maador para ti, Cass. - Estava aliviado por ela no ter encontrado algo de mais perigoso para fazer. Era a pessoa 
indicada. Para Desmond testara avies de combate a serem adaptados para o exrcito, mas isso acabara.
       - Por agora, chega. E tu? Onde ests agora? - perguntou Cassie com um olhar que lhe perscrutava a alma. No havia maneira de fugir  pergunta.
       Ao princpio, Nick no percebeu o que ela estava a perguntar-lhe, mas depois riu-se e olhou para ela. Percebera perfeitamente. O fato de ela estar ali no 
era acidental. A nica coincidncia fora o fato de Nick a encontrar to depressa.
       - O que  que ests a perguntar-me, Cassie?
       - s corajoso? No ficaste mais esperto aqui, a arriscar a vida contra os Alemes?
       - Estou mais esperto do que era, se  essa a pergunta. Estou um pouco mais velho, igualmente pobre... - Lembrou-se facilmente das suas prprias palavras e 
de como fora idiota ao proferi-las. - E tu? s corajosa, pequena Cassie?  idiota?  isso que queres? Depois de tudo o que fizeste, tiveste e foste nos ltimos dois 
anos,  ainda isso que queres? A mim e ao velho Jenny?  tudo o que tenho. Isso e o Bellanca. Nunca ir ser luxuoso. - Mas ambos sabiam que Cassie tivera o luxo 
e no era isso que desejava. Queria Nick e tudo o que ele significava para ela. Nada mais.
       - Se quisesse o luxo, estaria em Los Angeles.
       - No, no estarias - disse Nick, calmo e com aquele olhar teimoso que ela to bem conhecia.
       - Porque no?
       - Porque eu no te deixaria. Nunca te deixarei voltar para aquilo e,  partida, nunca devia ter-te deixado ir. - Ambos tinham aprendido lies muito caras, 
mas agora estavam mais sbios. Tinham ido muito longe e pago caro por tudo o que tinham aprendido e querido. - Amo-te, Cass. Sempre amei - disse ele em voz baixa 
enquanto a puxava para junto de si. Ela olhou-o e sorriu. Era o rosto que conhecia muito bem e que amava desde criana. As mesmas rugas ao redor dos olhos, o mesmo 
rosto com que ela crescera. Era um rosto bonito, com carter, bondade e objetivo. Era o nico para o qual queria olhar durante toda a sua vida. Tinha ido ali para 
o encontrar e encontrara. Com Nick tinha o que queria.
       - Tambm te amo, Nick - afirmou ela pacificamente, enquanto ele a puxava para mais perto de si, sentindo o seu calor e a intimidade que tantas vezes desejara. 
Tinha sido um inferno estar longe dela, um inferno que ele prprio provocara, do qual estava amargamente arrependido, mas no sabia como sair dele. Fora preciso 
Cassie ir ao seu encontro.
       - E se algum de ns no sobrevive a isto? - perguntou ele honestamente. - E ento? - Ainda no queria arruinar a vida de Cassie, ligando-se a ela para morrer 
depois. Esse era freqentemente o preo que as mulheres pagavam por casar com um aviador.
       -  um risco que ambos corremos todos os dias. Sempre o corremos e foste tu que mo ensinaste. Se  isso que queremos, temos de ter a coragem de viver com 
tal e permitirmos que cada um faa o que deve. - Era um preo muito alto a pagar pelo amor de algum, mas eles sempre tinham estado dispostos a pag-lo.
       - E depois? - Nick ainda estava preocupado, mas h muito que ela atravessara aquelas pontes e era completamente irrelevante que ele no tivesse nada.
       - Depois, voltamos para casa, o meu pai reforma-se e d-nos o aeroporto. Se tudo o que tens  uma barraca, assim seja. No me importo. Se tivermos de o fazer, 
mudamo-la. - Desta vez Nick no discutiu com ela. Desta vez, sabia que era suficiente para os dois. J tinham tido mais e menos nas suas vidas e no se tinham importado. 
Tudo o que precisavam era o que tinham: um ao outro e um cu para voar.
       Nick beijou-a gentilmente e depois olhou para o cu de Outono e sorriu, lembrando-se das horas que tinham passado no velho Jenny. Cassie recordou os seus 
primeiros loopings e parafusos, e ele riu-se.
       - Costumavas assustar-me imenso.
       - Uma ova. Disseste-me que eu era um piloto nato. - Fingiu-se insultada quando se levantaram e Nick a conduziu lentamente para a caserna. Tinham resolvido 
muitas coisas naquela manh.
       - S o disse porque estava apaixonado por ti. - Riu-se de felicidade, sentindo-se muito jovem. Cassie sempre lhe provocara aquela sensao.
       - No, no disseste. No estavas apaixonado por mim nessa altura - argumentou ela com um largo sorriso, perguntando a si prpria se estaria ou no.
       - Estava, sim. - Nick estava feliz, tranqilo e sentia-se jovem e incomensuravelmente orgulhoso por caminhar a seu lado.
       - Verdade?
       Riram-se, caminharam e brincaram como crianas. Subitamente, a vida tornara-se muito fcil. Cassie fizera o que tinha vindo fazer. Encontrara Nick e tudo 
o que ele sempre fora para ela. Finalmente estava em casa. Ambos estavam.
       
       
       
       Carla Maria Ferreira dos Mrtires
       
       2001-03-16
       


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